A nova Guerra Fria: Estados Unidos e China em busca da hegemonia internacional  

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A comunidade internacional se encontra em momentos de grande apreensão e instabilidade com os movimentos geopolíticos globais mais recentes, depois de anos de hegemonia norte-americana, percebemos movimentos que despertam interesses e preocupações nos países ocidentais, a ascensão chinesa não deve ser vista mais como uma possibilidade, mas como uma realidade, uma tendência cada vez mais atual e preocupante, levando os Estados Unidos a se preparar para uma nova guerra fria, desta vez o adversário é a China, uma sociedade marcada por uma cultura rica e mais de cinco mil anos de história, estamos nos encaminhando para um conflito entre Ocidente versus Oriente.

Depois de um período de hegemonia no cenário internacional, os Estados Unidos vem perdendo espaço em vários setores, sua indústria não é a mais importante do mundo, seus valores perderam força e não mais inspiram outras civilizações, seu poderia inconteste está apenas no poder bélico, mesmo assim sofre com a ascensão chinesa e o poder militar da Rússia, o dólar, que desde o Acordo de Bretton Woods, se notabilizou como a moeda dominante, na atualidade sofre com a ascensão do Euro e com o crescimento do Yuan, moedas que vem ganhando novos adeptos neste cenário global cada vez mais concorrencial, competitivo e marcado por jogadas estratégicas e planejadas.

Os anos 80 trouxeram grandes novidades nos países asiáticos, de uma economia fortemente centralizada e socialista, a China inicia sua abertura econômica, marcada pelo fortalecimento do poder do Estado, como agente estrategista e planejador, e pela centralização de poder nas mãos do Partido Comunista Chinês, o PCC, cujo poder extrapola todas as regiões e províncias do país, elevando a China ao panteão das maiores economia da mundo, em apenas trinta anos o país sai de uma posição intermediária para o posto de segunda maior economia do mundo, além disso, o país se tornou o maior exportador, ganhando posições de países que sempre se caracterizaram como grandes exportadores, como as economias da Alemanha e do Japão.

O crescimento chinês foi, num primeiro momento, visto como algo bastante positivo para as economias desenvolvidas, a grande quantidade de mão de obra e o baixo custo levaram os países desenvolvidos a buscar, nesta região, novos espaços de produção e organização industrial, com isso, a China recebe uma grande quantidade de investimentos estrangeiros, transformando-a num dos grandes pilares do desenvolvimento econômico mundial, atraindo empresas de inúmeros países e produzindo mercadorias a preços reduzidos, contribuindo para inserir os mercados asiáticos neste novo cenário internacional.

No século XXI, depois de seu espantoso crescimento econômico, os países industrializados passam a perceber que todo aquele crescimento gerou, em muitas regiões do mundo desenvolvido, impactos variados, desde a redução do preços dos produtos até a destruição de muitos setores de sua estrutura produtiva, que para sobreviver acabaram fechando suas fábricas no ocidente e abriram unidades em países asiáticos, principalmente na China, tudo isto levou a uma diminuição dos empregos industriais e a uma queda nos salários dos trabalhadores, transformando a classe média dos países desenvolvidos em uma classe decadente, marcada por empregos degradados e com uma alta carga de rancor e ressentimento.

A ascensão asiática, liderada pela China, não é uma miragem, tudo que estamos vivendo e vivenciando no mundo contemporâneo é uma grande realidade, os chineses traçaram uma estratégia muito clara nos anos 80, desde que Deng Xiaoping assumiu os comando dos país, e destacou que não importa a cor do rato, desde que ele cace o gato,  o país deixou de lado as amarras ideológicas do socialismo, características do período Mao Tsé Tung e passou a se direcionar pelo pragmatismo, mesclando, de um lado uma forte dose de mercado, concorrência e competição e, de outro, centralização, autoritarismo, intervencionismo e planejamento.

Diante da ascensão chinesa, os norte-americanos mesclam dois sentimentos com relação a China, são vorazes compradores de mercadorias e dependentes de seus produtos para sua sobrevivência cotidiana e, ao mesmo tempo, ressentem do crescimento do país asiático, que ao crescer atrai para suas fronteiras grandes investimentos e empresas que antes concentravam seus investimentos nos Estados Unidos, com isso, os trabalhadores norte-americanos são obrigados a aumentar sua carga de trabalho para conseguir manter sua renda, buscar novos empregos, reduzindo seu tempo de lazer, sua vivência com seus familiares e seus momentos de ócio, o resultado imediato disto é o aumento do estresse, da ansiedade, da depressão e, em muitos casos, de suicídio.

Depois da ascensão de Donald Trump a presidência dos Estados Unidos, percebemos uma mudança bastante considerável na sua política comercial, as relações com a China estão sendo alteradas e muitos produtos chineses estão sendo sobretaxados, com isso, os dois países estão começando uma grande guerra comercial, os impactos deste movimento para a economia internacional ainda são pouco compreendidos, mas o objetivo maior destas medidas é reverter o alto déficit comercial que os norte-americanos possuem com o país asiático, apenas em 2017 as exportações dos Estados Unidos foram de US$ 140 bilhões enquanto as exportações do dragão chinês foram de mais de US$ 520 bilhões, com isso, o déficit norte-americano foi de quase US$ 400 bilhões.

O que estamos assistindo neste momento é uma grande reconfiguração do poder geopolítico global, um verdadeiro conflito entre as duas maiores economias do mundo, deste conflito teremos o nascimento de uma nova sociedade internacional, com uma nova estrutura de poder e de dominação, o momento atual é tão complexo e assustador que o historiador Nial Ferguson o chamou de uma nova Guerra Fria, um novo momento onde os chineses em ascensão estão sendo chamados para o conflito pelos até então hegemônicos norte-americanos, o resultado deste confronto só o tempo vai poder nos mostrar.

Um dos momentos mais importantes deste conflito foi as medidas adotadas pelo governo dos Estados Unidos para impedir que empresas chinesas comprassem conglomerados norte-americanos, principalmente empresas produtoras de semicondutores e produtos de alta tecnologia, os popularmente conhecidos como chips, esta indústria está no centro do conflito entre chineses e norte-americanos, embora estes últimos sejam os líderes incontestes neste mercado, os chineses estão se movimentando rapidamente neste setor, recentemente o governo do país asiático tornou público um megaprojeto para que até 2025 a China se transformasse no maior produtor mundial de semicondutores, assumindo a liderança que, na atualidade, pertencem aos Estados Unidos.

O que vemos nestas políticas adotadas por ambos os países é que os discursos de liberalismo, de concorrência, competição e de baixa intervenção do Estado na economia são muito mais uma retórica para os outros países do que um ideário seguido por Estados Unidos e China, ambos são intervencionistas, ambos adotam medidas governamentais quando estas se revertem para seus interesses imediatos, o discurso fica mais claro quando identificamos um faça o que digo mas não faça o que faço.

Destacamos ainda, que os impactos desta guerra comercial sobre a economia mundial é algo difícil de mensurar, alguns países acreditam que o conflito lhes trará benefícios futuros, enquanto outros acreditam que terão prejuízos imensos  e imensuráveis mas, na verdade, as consequências desta guerra será prejudicial para toda a economia internacional, afetando países ricos e pobres e trazendo um grande retrocesso para o multilateralismo, dificultando uma maior integração mundial via comércio e produção.

Recentemente, na reunião do G20 realizada na Argentina, os governos envolvidos no imbróglio comercial, assinaram uma pequena trégua nesta disputa por um período de 90 dias, este acordo deve arrefecer os ânimos dos dois países, mas ao mesmo tempo, nos mostra claramente que o conflito já começou a deixar marcas profundas nos contendores, principalmente nos Estados Unidos, cujos impactos econômicos foram bastante sentidos pela população, com incremento na inflação e no aumento nos déficits comerciais.

Com as medidas impostas pelo presidente Donald Trump, que taxou mais de US$ 250 bilhões em importações chinesas, a balança comercial sino-americana ficou ainda mais negativa para os Estados Unidos, os preços dos produtos importaram aumentaram, a renda do trabalhador médio se reduziu e a inflação apresentou sinais de elevação, o que está levando o Banco Central (FED) a elevar as taxas de juros e, com isso, a contrair o crescimento da economia.

Mais do que isso, a guerra comercial está deixando claro as fragilidades da economia norte americana neste momento, seu déficit comercial com a China se elevou, até setembro o déficit acumulado do ano soma US$ 305 bilhões, comparado aos US$ 276,6 bilhões de 2017. Com uma economia com pouca capacidade ocioso, os norte-americanos teriam dificuldades para aumentar os investimentos e fazer novas contratações de trabalhadores para substituir os produtos chineses e se estes investimentos fossem feitos seriam às custas de outras decisões de negócios que são mais lucrativas e cujos retornos são mais seguros e imediatos.

Outro erro central do presidente norte-americano Donald Trump é que sua atenção imediata está nos setores da indústria convencional, desde os tempos de campanha eleitoral, nos estados do Nordeste, do meio-oeste e da Região dos Lagos, em vez de concentrar esforços naquilo que consideramos mais importante, a saber, a competição com a China em setores de alta tecnologia, este sim é o verdadeiro local de embate econômico entre os Estados Unidos e a China.

O novo embate entre estes países não mais será sobre a produção de petróleo, de combustível ou de aço, mas sobre as novas tecnologias do século XXI, principalmente sobre os mercados de inteligência artificial, de computação quântica e de biotecnologia, estes produtos serão as novas armas nucleares e seu domínio prenunciará os ganhadores e os perdedores do mundo contemporâneo, a ciência deve nortear as decisões estratégicas de todos os países, desde os grandes até os menores, sem ela as populações terão grandes dificuldades para assimilar as conquistas do mundo.

O episódio mais recente deste conflito foi a prisão da herdeira e diretora financeira do conglomerado chinês Huawei, ocorrida no Canadá no começo do mês, esta empresa é uma das maiores empresas chinesas, responsáveis pela produção de suprimentos para setores fundamentais do mercado de tecnologia, principalmente para o setor de telecomunicações. O governo norte-americana acusa a Huawei de fornecer informações para o governo chinês, como trabalha com milhares de empresas de tecnologia, os norte-americanos acreditam que esta empresa coleta informações confidenciais e repassa ao governo chinês, cometendo, com isso, inúmeros crimes e estes devem ser punidas.

Ao contrário do que apregoa o liberalismo, vendido pelos países desenvolvidos ao mundo em desenvolvimento, as políticas desenvolvidas na China foram fortemente centradas no planejamento do Estado, nos anos 80 estas empresas eram frágeis e sucateadas, apenas uma política correta de incentivos e posterior concorrência para auxiliar no crescimento destes conglomerados e no fortalecimento do mundo corporativo chinês.

A resolução deste imbróglio pode sinalizar como os dois países estão enxergando este momento de conflito e de incertezas na economia internacional, as discussões iniciais mostraram uma animosidade grande entre as partes, com retóricas exaltadas de ambos os lados, a Huawei não é uma empresa qualquer, trata-se de um dos grandes gigantes da tecnologia chinesa, os próximos capítulos deste confronto podem nos mostrar se os ânimos continuarão exaltados ou se o bom senso deve predominar.

A relação comercial e política entre os dois países piorou sensivelmente depois do episódio acima, o embate descrito como comercial, na verdade é um conflito por hegemonia, os Estados Unidos sentem a ascensão chinesa que, por outro lado, apresenta ambições hegemônicas, com isso, o mundo caminha para um novo conflito econômico, político, cultural e, quem sabe, uma guerra militar, estamos presenciando um momento bastante conturbado e ao mesmo tempo bastante rico e interessante, o início de uma nova guerra, cujos desdobramentos, na atualidade, nos parecem bastante assustadores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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