Algumas comentários e considerações sobre o filme Kardec

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Nos últimos anos a temática espírita vem fazendo sucesso nos cinemas nacionais, desde que Nosso Lar chegou aos cinemas e arrebatou uma grande quantidade de pessoas, outras obras foram levadas aos cinemas como As mães de Chico Xavier, A vida continua e Chico Xavier. Recentemente estreou nos cinemas brasileiros o filme “Kardec”, que mostra a trajetória do codificador da Doutrina Espírita, responsável pela decodificação de uma doutrina que se atribui uma visão religiosa, filosófica e científica sobre questões fundamentais para a humanidade, um filme bem feito e marcado por muita sensibilidade.

O filme Kardec estreou nos cinemas brasileiro no mês de maio de 2019, foi produzido pelo cineasta Wagner Assis, baseado no livro de Marcel Souto Maior, destacando a importância do biografado para a Doutrina Espírita, mostrando ainda a perseverança como instrumento de compreensão das dificuldades e a confiança nesta mensagem como um novo momento que se abria para toda a humanidade, um momento de reflexão, estudo e busca pelo conhecimento, onde se descortina a existência de um novo mundo, o mundo dos espíritos.

Para aqueles que não conhecem a trajetória deste grande homem, Hipollyte Leon Denizard Rivail, posteriormente chamado de Allan Kardec, descrito como um sujeito respeitado na sociedade francesa da época, pedagogo influente e bastante conceituado na área da educação, discípulo de Pestalozzi, responsável pela publicação de várias obras de referência sobre educação, pedagogia e a reforma do ensino na sua terra natal, a França.

No início dos anos 1850, as elites econômicas e políticas da capital francesa estavam em polvorosa, as revelações trazidas pelas chamadas mesas girantes eram motivo de encontros, festas e convescotes reunindo a nobreza, a intelectualidade, os empresários e os inúmeros céticos, todos querendo entender um fenômeno novo e revolucionário que reunia inúmeras pessoas ao redor de uma mesa para ouvir as revelações e as previsões dos “espíritos”.

Como destaca o filme, inicialmente o pedagogo não acreditava nos fenômenos espirituais que se difundiam entre as classes mais abastadas da Europa, zombava de todos aqueles que ousassem comentar e defender tais novidades, destacando a ausência de comprovações científicas, vistas por ele como as limitações deste pensamento. Mesmo cético com o movimento e as reuniões, foi convencido a assistir uma sessão, o que o levou a alterar suas convicções, tornando-se o grande divulgador do pensamento espírita, responsável por trazer ao mundo a chamada Terceira Revelação, segundo a qual, a morte não existe e estamos sempre em companhia de espíritos, que mesmo não possuindo corpos materiais, podem influenciar na nossa vida muito mais do que imaginamos, muitas vezes até mesmo nos controlando.

Allan Kardec foi o nome utilizado por Hipollyte Leon Denizard Rivail, este pseudônimo foi usado para diferenciar toda a obra anterior do pedagogo francês, dos novos escritos relacionados a doutrina espírita. Este nome lhe foi revelado em uma reunião espírita, segundo as entidades que assessoravam os trabalhos, este era seu nome em uma de suas encarnações anteriores, quando estava encarnado como um druída, na região conhecida como as Gálias.

O filme mostra a importância de sua esposa Amélie Gabrielle Boudet na divulgação de todo o pensamento espírita, uma mulher a frente de seu tempo, bastante inteligente, dedicada e apaixonada, auxiliou Kardec desde o início e contribuiu diretamente para a divulgação de uma nova forma de encarar a realidade social e espiritual, eram realmente um casal de destaque, sem a presença e dedicação da esposa, dificilmente Hipollyte Leon Denizard Rivail, depois Allan Kardec, seria hoje conhecido como o codificador da doutrina Espírita.

O filme Kardec mostra ainda as dificuldades financeiras do casal, os esforços para cumprirem seus compromissos financeiros e garantirem a sobrevivência, mesmo assim ambos eram dedicados trabalhadores, viviam em perfeita harmonia e possuíam um respeito elevado da comunidade da época, como professores ambos engordavam o orçamento com aulas particulares, um movimento natural e bastante conhecido no século XIX.

Nestas comunicações os espíritos informaram que o trabalho seria muito árduo e geraria grandes defecções, críticas e ameaças generalizadas, pessoas que se diziam amigas e confidentes se afastariam e os trairiam, ameaças seriam constantes, críticas e comentários maldosos aconteceriam em todos os espaços e as recompensas demorariam tempos, mas a mensagem teria que ser trazida para a humanidade, os tempos eram chegados para que o mundo conhecesse as realidades do mundo espiritual e, se por um acaso, Allan Kardec recusasse a empreitada, ou falhasse no intento, outros estariam sendo preparados para a missão.

No período retratado pelo filme Kardec nada nos é informado sobre a infância de Hippolyte Léon Denizard Rivail, iniciamos com o personagem em seu ofício mais nobre, professor e pesquisador, inquieto e competente acompanhamos seu comportamento, suas dúvidas e reflexões, passando pelas descobertas referentes a Doutrina, as acusações, as perseguições, até sua prisão, mostrando nos que, todos que se comprometem com o bem e com a verdade, embora recebam sempre o apoio e a proteção dos bons espíritos, são perseguidos e agredidos pelos espíritos ora marcados pelo mal e pelos seus asseclas encarnados, uma leva de indivíduos que se acreditam homens de bem e são, na verdade, grandes detratores da verdade e do conhecimento.

Ao analisar a história de Hippolyte Léon Denizard Rivail, percebemos que sua missão como codificador da Doutrina Espírita só teve início quando este completou cinquenta anos, nascido em 1804 e desencarnado em 1869, foi apenas em 1854 que o pedagogo francês começou suas investigações sobre as novas revelações, isto acontece porque foi justamente neste período que a espiritualidade maior percebe que os ventos da inquisição estavam se fragilizando na Europa e abrindo espaço para novas visões religiosas, mesmo assim, o filme destaca os vários problemas que Allan Kardec teve com o catolicismo, cujas ideias do codificador eram vistas como heréticas e desprovidas de significado e coerência, sendo por isso muito perseguido pela Igreja, que o via como uma ameaça e o excomungava como um herege.

A vida do codificador sempre foi pautada pela honra e sensatez, conhecido por todos como um grande intelectual, membro ativo da comunidade científica francesa, suas novas ideias e pensamentos foram muito contestadas por intelectuais da época, mesmo tendo a força para seguir em frente, sentindo o amparo e a proteção dos bons espíritos, todas estas críticas eram por ele muito sentidas. Como membro ativo de intelectuais e pesquisadores, viu seus escritos ignorados e sua presença contestada, sendo convidado a se retirar da Academia de Ciências, onde seus pares nem o deixaram refletir sobre os motivos que o levaram a esta conversão e muito menos analisar seus métodos de pesquisa e investigação, mostrando a intolerância e as dificuldades dos homens da ciência de entabular um debate fiel e respeitoso quando confrontado com novas ideias, novas teses e novos movimentos religiosos e científicos.

Hippolyte Léon Denizard Rivail como um homem da ciência, buscou desde o início de suas pesquisas o desenvolvimento de um método de análise, uma metodologia que pudesse dar as teses nascentes um caráter mais científico e menos religioso, para isso, desenvolveu um método de investigação onde abordava inúmeros médiuns sobre os mesmos temas, estes médiuns eram sensitivos de vários países e regiões diferentes da Europa, depois destas inquirições o codificador analisava as respostas e percebia as semelhanças, com isso redigia suas obras e trazia para a humanidade a Terceira Revelação, com informações relativas ao sentido da vida e a missão de cada um dos indivíduos.

A codificação foi possível graças ao trabalho desinteressado de muitos médiuns, todos dedicados a uma nova forma de encarar as realidades da vida, eram pessoas comuns, crianças, jovens e mulheres de mais idade que se comprometeram a conversar com Allan Kardec sobre os contatos cotidianos com espíritos, vozes e seres invisíveis. Dentre as médiuns destacamos as irmãs Julie Baudin (15 anos) e Caroline Baudin (18 anos), Ruth Japhet e Aline Carlotti (20 anos), todas retratadas no filme foram essenciais para a codificação do pensamento espírita, suas mediunidades eram de grande impacto para a época e, por trazer para a sociedade revelações que contrariavam interesses, foram perseguidas, humilhadas e detratadas.

Uma delas, Ruth Japhet, se rebelou contra Allan Kardec quando não viu seu nome na primeira publicação, O Livros dos Espíritos, mesmo com as explicações dadas pelo professor e as justificativas por ele apresentadas, preferiu se isolar e não mais participar dos trabalhos. Neste caso percebemos a vaidade e o personalismo presente e, com certeza, influências espirituais negativas para que a médium deixasse o trabalho de codificação, limitando os encontros, as pesquisas, as inquirições e os conhecimentos posteriores.

Com a publicação de O livro dos Espíritos, as ideias espíritas passaram a ser conhecidas por várias partes do mundo, as publicações iniciais foram implementadas pelo editor Pierre Paul Didier, muitos livros foram vendidos e muitas conferências foram realizadas com o intuito de difundir e divulgar a nova revelação. Do sucesso inicial, percebemos as reações da Igreja Católica, detentora ainda de um grande poder na região, que manda prender e queimar muitas caixas com livros espíritas, uma verdadeira política de censura ao pensamento livre emanados pela Revolução Francesa, baseadas no Liberdade, Igualdade e Fraternidade e pelo iluminismo, mensagem esquecida pelo clero católico, centradas em interesses autoritários, arrogantes e imediatistas que, embora exitoso num primeiro momento, estimulou uma grande curiosidade da população na leitura daquelas obras, gerando uma imensa publicidade a nascente Doutrina Espírita.

O filme Kardec destaca a perseverança de Allan Kardec que, nos últimos quinze anos de vida, foi um fiel divulgador da Doutrina Espírita, sendo responsável pela publicação de obras imprescindíveis para a consolidação do espiritismo, desde O Livro dos Espíritos. O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, A Gênese, O Céu e o Inferno e O que é o Espiritismo, todas estas obras mais a publicação da Revista Espírita e inúmeros artigos e documentos referentes a doutrina, um trabalho incansável e de grande relevância para a comunidade internacional, um homem a frente de seu tempo, cujos escritos mostraram ao mundo a existência do chamado mundo dos espíritos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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