Ameaças e desafios para a economia brasileira: Inflação, desindustrialização e “doença” holandesa.

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Nos últimos meses a economia brasileira se encontra envolta em duas grandes discussões importantes e estratégicas, o incremento da inflação que suscita lembranças amargas e desagradáveis e a questão cambial, que pode gerar uma desindustrialização do país com graves constrangimentos para os setores produtivos nacionais, para a geração de empregos e para a sociedade de uma forma geral.

Ambas as questões são complexas e exigem uma atenção bastante especial, pois podem geram graves constrangimentos para o país nos próximos anos, retirando do Brasil as expectativas favoráveis para as próximas décadas, os investimentos estrangeiros e as avaliações positivas das agências de classificação de risco internacionais que abrem espaços salutares para o país na economia internacional, num período onde os países emergentes são os grandes responsáveis pelo crescimento e pelo fomento dos setores produtivos.

O combate à inflação impacta sobre o crescimento, a literatura econômica nos mostra de forma clara e incisiva, adotar políticas de controle de preços gera efeitos imediatos sobre o crescimento da economia, a geração de emprego e o incremento da renda agregada, acreditar que se pode conseguir o controle dos preços e o incremento da economia é uma grande e terrível ilusão, gera expectativas falsas e pode postergar ajustes violentos, cujos efeitos sobre a atividade econômica é sempre prejudicial.

A economia brasileira ainda se encontra aquecida, embora percebamos que nestes dois últimos meses o ritmo se desacelerou, este desaquecimento pode ser entendido como uma medida adotada pelo governo como forma de evitar que a inflação estourasse o topo da meta inflacionária (6,5%), juros mais altos e outras medidas conhecidas como macroprudenciais visavam desaquecer a economia e diminuir os desajustes inflacionários, cujos prejuízos à sociedade seriam devastadores, principalmente do ponto de vista político.

O aumento da inflação pode ser creditado a dois fatores interligados, externamente encontramos um aumento bastante substancial no preço dos alimentos e das commodities, em particular, como o Brasil é um grande exportador destes produtos a renda da economia cresceu e, com isso, impactou sobre o setor interno, o poder de compra dos trabalhadores aumentou gerando incremento no consumo, criando um hiato entre oferta e procura, estes fatores associados possibilitaram um pequeno descontrole inflacionário, que obrigou o governo a adotar medidas imediatas de contenção do crédito interno e redução da atividade econômica.

Destacamos ainda, que o país cresceu a uma taxa de 7,5% no ano passado, este crescimento acabou pressionando os preços e deixando claro inúmeros problemas e limitações da infra-estrutura nacional, estes desajustes não são novos, acompanham o país nas últimas décadas, gerando graves preocupações dos produtores e empresários nacionais e estrangeiros, mas ao mesmo tempo abrem espaço para novos investimentos produtivos, obrigando o governo a rever antigos preconceitos ideológicos e passarem a propor medidas como a privatização dos aeroportos e a aumentar a concessão de rodovias federais para a iniciativa privada, levando os governantes de plantão a assumir uma postura pragmática e deixando de lado medidas claramente estatizantes.

Outro indicador que gera graves preocupações para a economia brasileira é o câmbio, que nos últimos anos se valorizou de forma efetiva e assustadora, câmbio valorizado prejudica os setores exportadores, inviabilizando as exportações e estimulando os setores importadores, aumentando, com isso, a oferta interna de produtos importados, incrementando a renda agregada nacional, dinamizando o consumo e criando na população uma sensação de enriquecimento e bem-estar social, uma sensação nem sempre estrutural, na sua grande maioria um fenômeno puramente conjuntural, seus custos no longo prazo podem inviabilizar muitos setores econômicos, gerando desemprego e destruindo setores importantes da indústria nacional.

O câmbio valorizado estimula as viagens internacionais, com este câmbio percebemos que é muito mais fácil viajar para o exterior do que para as praias do Nordeste, a capital Argentina, Buenos Aires, recebe anualmente um contingente bastante grande de turistas brasileiros, contingente este que cresce de forma acelerada, mas ao custo de desajustes em setores importantes da economia nacional. O turismo internacional no Brasil cresce com o dólar barato, a classe média tradicional e a nova classe média enxergam neste momento a grande oportunidade de testar seu domínio sobre a língua inglesa, conhecer novas culturas e trazer para o mercado nacional produtos importados comprados a preços atrativos, ipads e i-phones a custos reduzidos popularizam os produtos da gigante dos eletroeletrônicos norte-americano Apple.

Nos últimos anos o Brasil ganhou espaço no cenário internacional, hoje o país angariou status mundial, nossas reservas em moedas fortes cresceram de forma vigorosa, alcançamos o tão sonhado grau de investimentos e somos destino dos maiores investimentos estrangeiros do mundo, são muitas as empresas, nas mais variadas áreas e setores, que estão se instalando aqui, trazendo novas tecnologias e gerando novas oportunidades de empregos, este novo status do país no mundo não combina mais com moeda desvalorizada, estamos em franco crescimento internacional e temos que adotar políticas variadas para reverter esta política cambial, que pode no médio prazo, gerar graves constrangimentos para a indústria nacional, para muitos economistas importantes, o risco de desindustrialização existe e é assustador.

Estrategicamente é importante para a sociedade brasileira desenvolver um parque industrial moderno e sofisticado, para isso políticas de planejamento são necessárias, todos os países que desenvolveram seu setor industrial contaram com o papel ativo do Estado Nacional, o Brasil não é exceção, apoiar a indústria e atuar no câmbio é uma necessidade do país, postergar esta atuação na política cambial pode aumentar os graves desajustes do setor exportador. A atuação estatal deve ser integrada, controlar os juros altos e equacionar os desajustes fiscais trariam resultados imediatos para o câmbio, desonerar os setores produtivos e investir maciçamente na educação contribuiria de forma imediata para garantir uma maior competitividade para o produto nacional.

Várias medidas foram adotadas pelo governo para reverter o câmbio valorizado, dentre elas podemos citar o aumento da tributação e as intervenções sucessivas no mercado pelo Banco Central, todas estas medidas tiveram um sucesso pouco efetivo, restando atuar na questão fiscal, que no meu ponto de vista é o grande imbróglio do país, mas nesta arena a discussão é mais complexa, os interesses organizados são muitos e a resistência tende a ser grande e organizada, mas é justamente nestes momentos de grandes desafios que diferenciamos os líderes e os rumos escolhidos pela sociedade, não mais se contentando com políticas que geram melhoras imediatas e passageiras.

O Brasil está num momento muito interessante, escolher o melhor caminho a seguir não é suficiente, além de escolher o caminho é importante que definamos o ritmo desta caminhada, chega de vôos curtos, sonhos limitados e sucessos relativos, o país merece mais, e para isso é fundamental acreditar que temos condições de crescer de forma sustentada e efetiva, melhorando os indicadores sociais e criando novos horizontes para todos os setores da sociedade, desta forma se constrói uma verdadeira comunidade.

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