As vozes roucas das humanidades contemporâneas

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A sociedade contemporânea vem passando por momentos de grandes instabilidades e incertezas, conceitos sólidos e consistentes vistos anteriormente com respeito e admiração, está sendo vista com ceticismo, levando a sociedade rever conceitos e reestruturar bases vistas anteriormente como estabelecidas, vivemos um momento de novos paradigmas, alguns nascendo e outros surgindo, trazendo novas cores, comportamentos e simbolismos crescentes.

Nesta sociedade marcada por tecnologias, máquinas e conhecimentos arraigados em todas as regiões ou coletividades, onde a quarta revolução industrial substitui valores humanos, gerando novos comportamentos humanos, formas de acumulação, trocas virtuais substituem a conversação e as trocas de impressões, levando os indivíduos a perceber novas estruturas sociais, políticas e culturais. Todos os novos paradigmas estão sendo motivados pelos interesses econômicos e financeiros, centrados no imediato e pela superficialidade, neste novo modelo os seres humanos sentem os medos aumentarem, desequilíbrios crescem de forma acelerada, as instabilidades aumentam, os conflitos crescem e as desesperanças se fazem mais permanentes.

Vivemos uma sociedade marcada pelas máquinas, o conhecimento humano e a ciência contemporânea transforma os comportamentos, os trabalhadores rivalizam por tecnologias marcadas pela flexibilidade, levando os indivíduos ao trabalho ininterruptos, somos trabalhadores contumaz, somos todos workaholic, somos viciados em trabalho, buscamos bater as metas impostas pelas organizações, corremos aos ganhos materiais do cotidiano e nos percebemos que as metas degradam aos sentimentos, os ambientes organizacionais são tóxicos e crescentemente superficiais, vestimos inúmeras máscaras e se esquecemos de nossa verdadeira personalidade, nossos desejos, nossos comportamentos e os nossos verdadeiros sentidos.

O homem econômico domina a sociedade contemporânea, pensamos e nos organizamos para adquirir nossos desejos materiais, contamos nossos ganhos monetários, nossas posses materiais, nossas conquistas materiais e quando percebemos somos escravos de uma sociedade, que deturpa nossa personalidade e nos transformamos em indivíduos alienados, sem identidades e sem perspectivas emocionais, vivemos um momento de transformações.

No período da idade média estávamos presos a alienados pelas ideias religiosas, estávamos imersos em teorias conspiratórias, temíamos a força superior que nos punia fortemente e nos maltratássemos quando enveredar nos escaninhos da revolta e aceitassem a dominação, o poder era cruel e temíamos o poder do Deus, com isso, para evitar as dores e as perseguições, deveríamos aceitar sem pestanejar, sem criticar e sem revoltar, este período durou muitos séculos.

Depois de séculos de escuridão e alienação, os ideais iluministas trouxeram novas ideias, novos comportamentos e novas religiões, impulsionando as letras, os discursos e os pensamentos dos seres humanos, contribuindo para a desagregação da sociedade da época e estimulou novos ambientes sociais e a construção de novos contratos sociais. Neste período inúmeros intelectuais estimularam o crescimento das ideias e os pensamentos sociais, teóricos do calibre como Rousseau, Locke, Maquiavel, Lutero, Da Vinci, Pestalozzi, Smith, Darwin, Kardec, dentre outros, contribuíram para o soerguimento e construção da sociedade moderna, estimulando luzes num período marcado por escuridão e ignorância, marcas profundas que ainda persistem na sociedade contemporânea.

No desenvolvimento da sociedade mundial, as ciências sociais ou Humanidades, foram fundamentais para transformar as coletividades, mostrando a importância da vivência em sociedade, a construção dos modelos econômicos, políticos e sociais, estimulando o crescimento das bases que solidificam os períodos históricos e mostram a importância da vivência social, o compartilhamento das experiências, o desabrochar das várias ciências, mostrando que os seres humanos nascem em conjunto para que todas compreendam que sua vivência deve ser feita e consolidada em grupos sociais, todos se auxiliando e prol do desenvolvimento conjunto.

Infelizmente, as ciências sociais e as humanidades, vem perdendo espaços na sociedade, os interesses do mundo do negócio, das negociações e dos valores materiais dominam a sociedade, transformando-nos em indivíduos S.A, somos motivados pelos ganhos materiais, nossas maiores energias estão concentradas nas questões profissionais, transformando nossas vidas em trabalhos constantes, deixando de lado outras questões fundamentais, como as saúdes física e emocional, as questões espirituais e os valores sentimentais, deixando todos os interesses dos seres humanos associadas aos trabalhos materiais e profissionais. Neste ambiente, percebemos indivíduos altamente intelectualizados, profissionais de grande capacidade técnica e dotados de conhecimentos de alta complexidade, trabalhadores de grande bagagem gerencial mas, ao mesmo tempo, frágeis e limitados quando enveredamos pelos escaninhos das emoções e dos sentimentos, somos crianças fisicamente convivendo limitações emocionais, pessoas que se frustram com os embates da vida entram em depressão, dominados por transtornos variados, medos generalizados e sentimentos desequilibrados.

Numa sociedade marcada pelos desenvolvimentos científicos centrados nas tecnologias que deixa de lado os valores das ciências sociais e pelas humanidades, transformam os indivíduos em autômatos, verdadeiras máquinas programadas pelos senhores, deixando de lado as reflexões, os questionamentos e a racionalidade emocional, esta sociedade está levando a coletividade para a degradação, a concentração das rendas e das riquezas, o incremento do desemprego, o aumento da miséria, a devastação da natureza e do meio ambiente, degradando os rios e florestas e ainda querem acreditar que somos seres racionais?

Vivemos numa sociedade marcada por inúmeras contradições, de um lado nos emocionamos ao ouvir os grandes filósofos contemporâneos, buscando palestras de intelectuais que nos levam aos prantos ou as emoções, além de reflexões pessoais. Adoramos ouvir as palavras de teóricos como Leandro Karnal, Mario Sérgio Cortella ou Luiz Felipe Pondé, suas reflexões levam multidões de pessoas para as livrarias das grandes cidades para adquirirmos seus últimos livros, suas palestras são concorridas, suas  colunas nos grandes jornais se buscadas como se estivessem as curas para os males individuais ou coletivos, mas ao mesmo tempo não querem aprofundar suas reflexões mais consistentes. Preferem se distanciar das universidades, buscam fórmulas acabadas para combater suas frustrações e desequilíbrios emocionais. Se as pessoas quisessem conhecer as suas estranhas mais íntimas, deveriam buscar os livros e as leituras de outros teóricos da filosofia que contribuíram para a compreensão da sociedade e nos trouxeram reflexões e questionamentos mais consistentes, dando a filosofia instrumentos fundamentais para o desenvolvimento do ser humano. Nesta sociedade, infelizmente, adoramos as emoções dos dramas contemporâneos alheios, nos emocionamos com estas histórias de outros indivíduos e esquecemos de nossos dramas mais íntimos, sem refletirmos nossas limitações mais íntimas nos tornamos seres humanos mais desajustados, desequilibrados e degradados emocionalmente e espiritualmente.

A Filosofia, como ciência, perdeu a empregabilidade da sociedade contemporânea, ao mesmo tempo, outras áreas das ciências sociais ou das humanidades, como a Sociologia, a Antropologia, a História, a Pedagogia, a Ciência Política, dentre outras, perderam o encanto no mundo profissional. Os indivíduos contemporâneos buscam outras áreas do conhecimento humano, preferem a empregabilidade de cursos como o Direito, a Medicina, as Engenharias, os cursos de Computação e de Tecnologia da Informação ganham espaço na sociedade, deixando as outras áreas em segunda ou terceira opção, faltando profissionais das humanidades, reflexões criticam, pensamentos sociais, planejamento e experiências que foram vivenciadas pelos profissionais das humanidades e das ciências sociais, fundamentais para a compreensão do conhecimento humanos que sempre auxiliaram no balizamento do desenvolvimento das sociedades.

Neste momento, percebemos a fragilidade dos profissionais das áreas das ciências sociais e da humanidade, somos os primeiros a serem substituídos pelas aulas à distância, sua presença para a sociedade é desnecessária, somos facilmente substituídos pela máquina, pelas apostilas, pelos programas de computação, os jogos de interação e se caracterizam pela superficialidade, deixando de abordar questões centrais na sociedade da tecnologia. As experiências dos seres humanos e as vivências da coletividade, mostrando que as civilizações que se basearam em valores transitórios, imediatistas e limitadas levam as sociedades as degradações mais íntimas e as devastações mais generalizadas, a história nos mostra inúmeras vezes que muitas civilizações perderam espaço e foram substituídos por outras organizações sociais.

Neste ambiente, percebemos que a força política dos professores é limitada, somos pouco organizados, sem unicidade, sem representatividade e não conseguem mostrar para a sociedade sua importância, nem internamente não conseguem se organizar com outras áreas do conhecimento. Num determinado momento vão perceber que sem a união de todos os polos do conhecimento humano, todos os cursos e profissionais serão substituídos por máquinas e equipamentos, substituídos por robôs e tecnologias sofisticadas, perdendo seus empregos, seus sonhos e mergulhando nas desesperanças, nos medos e na degradação social. Num período percebemos que os profissionais da humanidades estão sendo substituídos por outros equipamentos qualquer, na atualidade os que estão na mira são os profissionais do direito, os engenheiros, os gestores e outros profissionais liberais, num futuro não tão distante outros entrarão na obscuridade, perderiam seus empregos, suas dignidades, sua condição de vida, será que devemos esperar, de braços abertos, os próximos passos deste enredo assustador?

A tecnologia é fundamental para o desenvolvimento econômico e social, a introdução acelerada na sociedade está gerando grandes constrangimentos na coletividade, a ausência dos instrumentos da reflexão das ciências sociais e das humanidades nas discussões contemporâneas podem gerar graves desequilíbrios na convivência social, sem estas reflexões os indivíduos tendem a abraçar as novas tecnologias, as novas máquinas e os equipamentos que revolucionam o convívio social, construindo uma nova construção social, marcada pelo afastamento social, pelo isolamento do convívio social, gerando novos seres humanos, mais pragmáticos, mais flexíveis, menos empáticos, mais frios e superficiais, uma sociedade menos consistente, menos competitivo, mais marcados pelas incertezas e instabilidades, perpetuando as desigualdades, a fome e a exclusão, até o dia em que os seres humanos cansarem desta sociedade agressiva, infeliz e degradante, neste momento as grandes revoluções podem gerar muitas lágrimas, mortes, violências generalizadas e novas perspectivas para os seres humanos.

 

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