‘Bairros precisam ser mais do que loteamentos, devem ser reinventados’

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Crises tendem a acelerar decisões que em tempos normais demorariam anos ou décadas, como a retomada da vizinhança como referência para as atividades diárias, afirma professor

Pablo Pereira – Estado de São Paulo, 14/06/2020

Jeferson Tavares, professor no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP (IAU-USP)

O momento atual, na visão do professor Jeferson Tavares, da USP, é uma oportunidade de pensar em uma sociedade mais solidária, que incentive a retomada de políticas públicas voltadas ao combate de desigualdades. Ele também acredita na reconstrução da identidade cidadão-cidade, perdida em bairros sem qualidade urbanística. “Quantos bairros conhecemos que não passam de um aglomerado de casas?”, questiona. “Nesses lugares, o cidadão perdeu a identidade com a cidade, e essa identidade precisa ser reconstruída pela base social”.

O professor também defende, para um futuro próximo, sistemas de cidades baseados na cooperação. “Em vez de espaços isolados, podemos construir cidades que cooperem entre si e por isso sejam mais eficazes no combate dos conflitos comuns”.

Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista:

As cidades mudarão a maneira como funcionam? Ou a vida seguirá no mesmo modelo?

Para entender a difusão do vírus da covid-19 é necessário entender o processo de urbanização do nosso território. No Estado de São Paulo, temos evidências de que o vírus se propagou seguindo a rota das principais rodovias e se difundiu a partir das cidades mais centrais. Ao longo de todo o século 20, o Estado estruturou-se por eixos e polos, e são esses elementos da urbanização que estão na base da interiorização da pandemia. As primeiras e principais cidades atingidas ou são cidades-sede das regiões metropolitanas ou sedes das regiões administrativas, indicando que, mais importante que o adensamento, é a conexão desses polos com outras cidades que tem acentuado a disseminação na escala regional. Ou seja, numa pandemia, compreender o território é elemento central para a prevenção e o combate da doença. É difícil prever exatamente quais mudanças ocorrerão no meio urbano, mas entendo que é uma oportunidade de pensar uma sociedade mais solidária, a começar por romper as barreiras históricas da desigualdade do desenvolvimento territorial que levou à precariedade habitacional e urbana, à vulnerabilidade social e ambiental, e à falta de condições mínimas de moradia. É possível traçarmos um quadro das prioridades e a principal delas, certamente, é retomar políticas públicas que combatam essas desigualdades e respeitem as diversidades regionais.

Como o trabalho, o lazer e a movimentação das pessoas nas cidades vão mudar daqui para a frente?

Crises tendem a acelerar decisões que em tempos normais demorariam anos ou décadas para serem tomadas. Desde o urbanismo racionalista de fins do século 19, a divisão monofuncional instalou-se como regra nas cidades e o lugar de trabalho tornou-se distinto do lugar de morar. As críticas a esse modelo são conhecidas há mais de 50 anos e hoje a mudança parece iminente, mas sem alternativas concretas. Haja vista a improvisação do ambiente doméstico para as atividades profissionais. Por outro lado, um indício importante é a retomada da vizinhança como referência para as atividades diárias. Os deslocamentos mais curtos, a valorização das opções do bairro e a integração social comunitária convergem como possibilidades a serem exploradas. Nesse aspecto, os bairros precisam ser mais que loteamentos, precisam ser reinventados. Quantos bairros conhecemos que não passam de um aglomerado de casas sem nenhuma qualidade urbanística? Nesses lugares, o cidadão perdeu a identidade com a cidade. E essa identidade precisa ser reconstruída pela base social.

São Paulo tem cerca de 8 milhões de usuários por dia no sistema público de transportes. Existe a possibilidade de mudanças no transporte urbano?

O transporte urbano é essencial para a qualidade de vida nas cidades. Se hoje é lugar de aglomerações é porque sua frota e/ou sistema não atendem à demanda. É preciso investimento e planejamento, porque ele interage com a estruturação urbana e sua qualidade e eficiência ajudam a tornar a cidade mais justa ao garantir acesso as infraestruturas urbanas, aos serviços públicos e às ofertas de emprego. É necessário integrar os meios de transportes ativos (caminhadas e bicicleta, por exemplo) aos motorizados e transformar as estações em marcos urbanos, pois em sua maioria – e principalmente nas periferias pobres – essas estações representam um lugar de cruzamentos de fluxos de pessoas e produtos sem representar sua importância para a vida contemporânea.

Durante anos, os urbanistas trabalharam para aumentar a densidade populacional nas cidades para reduzir custos e promover convivência baseada na proximidade das pessoas. O que vai acontecer agora? É possível um caminho no sentido contrário?

As economias de aglomeração como estratégias de ordenamento territorial ajudaram a produzir a cidade do século 20 que conhecemos. Mas estamos vivendo uma tendência à dispersão do tecido urbano com a profusão de condomínios residenciais, industriais e de serviços em áreas rurais, fora da mancha urbana e ao longo de rodovias. Essa dispersão força uma diminuição das densidades populacionais, rompe a dicotomia campo-cidade e centro-periferia, mas não representa uma solução adequada porque esse modelo tem intensificado a segregação social, a dependência do automóvel como principal meio de locomoção e a ocupação de áreas verdes cuja função ambiental é suprimida. Estamos vivendo um dilema entre cidades compactas e cidades dispersas que ofusca a essência do debate: é possível um novo modelo de desenvolvimento urbano?

O senhor acha que haverá uma mudança nas diretrizes, por exemplo, com mudanças sanitárias na infraestrutura de coleta de lixo nas ruas e nas residências?

Sem dúvida. Numa crise sanitária, o saneamento é central, sobretudo nos assentamentos precários. A falta de água potável atinge cerca de 40 milhões de pessoas. O déficit habitacional chega a 6,5 milhões de moradias. Some-se a isso as áreas de risco em encostas ou sobre córregos que são agravadas pelo descarte inadequado de lixo. Nas regiões metropolitanas, a desigualdade social acentua esses problemas nos bairros mais pobres. As soluções devem ser integradas aos projetos de urbanização e são urgentes. Atender à demanda é o mínimo a ser feito, mas dar segurança e qualidade de vida deve ser o principal objetivo.

Um dos setores mais afetados pela pandemia nas grandes aglomerações urbanas de hoje é o comércio, principalmente lojas de rua e empresas locais, como restaurantes e bares. O senhor acredita que isso voltará a ser como antes?

Desde os anos 1980, no Brasil, temos acompanhado o esvaziamento da rua pelo argumento da violência e a emergência de formas alternativas de serviços que quase sempre partem da precarização do trabalho informal. Fato é que a origem da cidade é a aproximação, a reunião e o encontro. Na vida urbana, não podemos abandonar a defesa do uso do espaço público. Ruas, praças, parques e calçadões são os lugares que concretizam a esfera pública do convívio. Ao contrário do que se pensa, valorizá-los é uma estratégia para manter a saúde física e mental dos cidadãos. E a vida econômica urbana está ligada a eles.

Existem pensadores que já planejam cidades com áreas independentes, o que facilitaria qualquer necessidade futura de isolamento em caso de futuras epidemias. O senhor acredita que é possível que tenhamos cidades policêntricas em vez das grandes cidades de hoje no futuro?

A descentralização de serviços e a constituição de uma estrutura policêntrica faz parte das políticas mais progressistas de desenvolvimento urbano e estão no centro da democratização da cidade. Portanto, não necessariamente significa independência, mas melhor redistribuição de estruturas de bem-estar social aproximando-as de seus usuários. Numa escala ainda mais ampla, pesquisadores têm estudado o fenômeno da cidade-região como uma nova forma de compreender a realidade urbana. A análise desse fenômeno no contexto brasileiro leva-nos a sistemas de cidades que estejam baseados na cooperação. Ou seja, em vez de espaços isolados, podemos construir cidades que cooperem entre si e por isso sejam mais eficazes no combate dos conflitos comuns.

Quais seriam as mudanças imediatas em metrópoles gigantes de hoje, como São Paulo, Rio, NY, Tóquio, Londres, Paris?

Vivemos num momento de cidades globais, megacidades e megalópolis como paradigmas atuais do urbanismo mundial. Mas a desigualdade, a precariedade e a segregação social nas grandes cidades brasileiras tornam nossa realidade diferente dos casos estrangeiros. Para combater esses problemas, sintetizo três urgências: formar novas instituições de planejamento a partir de uma visão territorial, sistêmica e interescalar; reconhecer que a dinâmica das cidades não está submetida às divisas municipais e, portanto, as principais soluções exigem um diálogo de cooperação interfederativa; e incorporar as águas urbanas nas diferentes escalas do planejamento. Precisamos tensionar os paradigmas de onde as decisões são tomadas para constituir cidades com mais urbanidade. Advogo pela cidade como artefato inacabado cuja perenidade está vinculada à dignidade do trabalho humano que o construiu.

 

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