Bolsonaro só faz sentido no Twitter, diz Francisco Razzo

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Professor de filosofia afirma que Bolsonaro subverte pilares da ideologia, como prudência e ceticismo

Francisco Razzo

[RESUMO] Conservador, autor defende que grupo que ascendeu com a vitória de Bolsonaro subverte princípios basilares do conservadorismo, como prudência e ceticismo, ao construir imagem do presidente como guardião soberano da vontade do povo e tentar sobrepor ideias reguladoras à experiência concreta dos brasileiros.

Os termos direita e esquerda não são bons para quem pretende pensar a política com seriedade. Há debates muito mais instigantes do que escolher um lado no plano ideológico.

Longe de mim querer determinar o que as pessoas devam pensar a respeito de seus posicionamentos políticos —para ser sincero, eu só gostaria de lembrar que uma das mais difíceis e arriscadas perguntas em política não é saber qual a melhor forma de administrar o Estado a fim de usar seu poder para combater a pobreza, fazer distribuição de renda, garantir saúde, Previdência social, segurança, educação e paz.

Ninguém duvida que todas essas coisas sejam boas e desejáveis em si mesmas. Da mesma maneira, todos concordam, com a exceção de libertários e anarquistas, que o Estado cumpra importante função nisso. Minha dúvida é de outra natureza.

Antes do debate, liberais versus socialistas, das opções entre defender uma economia de mercado ou ser mais intervencionista, das rivalidades ideológicas que nos forçam a tomar partido entre direita ou esquerda, há um problema na base de qualquer debate a respeito dos limites da ação do Estado. A depender de nossa resposta, dividirá a todos em dois grandes e irreconciliáveis grupos: conservadores e progressistas.

Eis a pergunta crucial: a coesão harmônica de uma sociedade, aquilo que nos torna efetivamente membros de uma comunidade moral, é de ordem superior ou nós humanos não passamos de meras entidades materiais tentando sobreviver, cada um à sua maneira, nessa terra sem sentido? Ao estabelecer alguns parâmetros, ficará fácil perceber que não é possível analisar e criticar a onda conservadora no poder se não observarmos que ela oferece uma resposta ao problema.

Concorde ou não com a resposta, apenas assim será possível entender como os atuais conflitos políticos são demarcados, como a escalada aos extremos se desenvolve e que tipo de epidemia é a violência que toma conta da atmosfera cultural.

Para começo de conversa, deixemos bem claro que um conservador defende a primeira opção, enquanto um progressista, a segunda. Para conservadores, o que mantém a sociedade coesa, o que dá sentido, consistência e faz a vida digna de ser vivida não vem de interesses individuais ou coletivos imediatos, nem das relações de trabalho e do dinheiro: não tem origem no sentimento de afeto e nas redes de solidariedade identitárias entre os seres humanos; não são bens materiais, psicológicos ou sociais sujeitos a uma existência vazia e efêmera.

O que assegura o fundamento da sociedade vem de uma ordem outra de valores. Para progressistas, essa conversa não passaria dos efeitos metafóricos do ópio.

Sejam cínicos demagogos ou cidadãos piedosos, o fato é que os atuais conservadores que chegaram ao poder não oferecem uma teoria a respeito da democracia e de como o Estado deva ser administrado —para eles, essa não é a questão mais importante da política. Os atuais conservadores, na verdade, almejam uma transformação dos fundamentos da ordem social moderna mediante a mobilização política do povo.

Paradoxalmente, a onda conservadora passa a ser vista como populista e revolucionária, mas não no sentido em que essas categorias são adotadas pela ciência política liberal-progressista, que qualifica, numa tacada só, todo movimento conservador como manifestação de extremistas reacionários.

Para entender o conservadorismo de um modo geral, e o conservadorismo no poder em particular, é preciso um pouco de caridade hermenêutica e fazer as distinções corretas. Está equivocado quem julga os conservadores como se fossem um bloco único guiado por interesses de uma elite política que só deseja o poder pelo poder, aproveitando-se de uma suposta ingenuidade do povo.

Não, as coisas não funcionam mais assim, menos ainda para o populismo e as radicais transformações em curso. O povo, hoje, também tem orgulho de se dizer conservador.

Na eleição do ano passado, o cidadão votou no primeiro que conseguiu oferecer uma resposta sobre a crise dos fundamentos da ordem social. Os eleitores de Jair Bolsonaro se sentiam traídos por uma elite corrupta que prometeu liberdade, prosperidade e segurança, mas entregou desemprego, dívidas e 60 mil homicídios por ano.

Nesse quadro, desintegrou-se o valor básico que assegurava a relação entre a ordem social e a ordem política. A crise política é, antes, uma crise de confiança. O sentimento generalizado é de que as elites políticas, econômicas e intelectuais são todas corruptas.

Antes de prosseguir, gostaria de distinguir quem é quem nessa onda, porque nem todo conservador quer o Estado se intrometendo na vida das pessoas e da cultura. Em linhas gerais, conservadores são divididos da seguinte maneira: quanto à natureza do fundamento social e com relação à crença na política.

Em relação ao fundamento, há dois tipos de conservadores. Os que defendem uma ordem de valores superior transcendente, isto é, algo mais metafísico e ligado a um sentimento religioso, e os que sugerem que esta ordem se consolida pelos aspectos históricos da experiência humana, sem apelo ao transcendente.

Nesse caso, os primeiros acreditam que Deus garante os fundamentos últimos da justa e boa vida social. O segundo tipo, por outro lado, pensa a sociedade a partir dos vínculos simbólicos de uma tradição que se manifesta na cultura — a religião seria um aspecto importante, mas não decisivo.

Com relação à crença política, há conservadores para quem o Estado é a principal entidade capaz de manter a harmonia social. Eu discordo. Por isso faço parte do grupo daqueles mais céticos: os que negam essa finalidade ao Estado e à política.

Os primeiros pensam a sociedade a partir de uma relação mais profunda entre Estado e nação, quase uma relação de identidade. Vou chamá-los de conservadores otimistas. Por sua vez, os mais céticos depositam suas crenças na experiência cultural.

Para nós, o importante é estabelecer limites bem definidos ao poder político, coisa que só a esfera moral e cultural pode fazer. Somos pessimistas quanto à política, já que o poder sempre corrompe.

Os conservadores que chegaram ao poder com Bolsonaro acreditam, ou fingem acreditar, na ordem superior transcendente e no Estado. São fiéis à causa política e religiosa. Acham que a força do destino deu a eles o poder soberano de guardiões da vontade do povo. Trata-se de uma crença poderosa, que dispensa as mediações de sociedade civil, cultura, religião e política.

Em teoria, para esses conservadores o político no poder cumpre um destino glorioso, representa a grandeza da nação e, mais que isso, a vontade divina. A identidade entre povo, nação e Estado consistiria na única força capaz de garantir que uma sociedade não se degenere.

Ao contrário do pacto social da moderna teoria contratualista — noção abstrata de um suposto ato voluntário que tira o homem do estado de natureza e garante a sua entrada na sociedade civil—, na expectativa de um conservador a sociedade é a comunhão contínua entre pessoas reunidas numa unidade orgânica: o povo. Não é uma abstração filosófica, mas uma paixão que deseja preservar valores que mereçam ser preservados.

O que resulta num sentimento profundo e perigoso de responsabilidade que autoriza rechaçar tudo aquilo que coloca esses valores em risco. Nesse ponto chave, o conservadorismo otimista pretende reabilitar a relação substancial entre ordem metafísica, ordem moral e ordem política, que foi quebrada pelos liberais e materialistas modernos —tanto individualistas quanto coletivistas—, esvaziada pelos progressistas e deformada por racionalistas.

Por esse prisma, o inverso desse tipo de conservadorismo otimista não admite que uma realidade transcendente possa ser determinada por critérios políticos. No máximo, essa experiência deve ficar reservada ao âmbito da vida cultural.

Sim, estamos nos limites da religião; e em geral as elites progressistas, tanto liberais quanto socialistas, cometem os mesmos erros ao tratarem todos os religiosos como ingênuos e ameaças à ordem pública. O problema não é a religião se manifestar na ordem pública, mas sim assumir a estrutura da realidade política. Os devotos políticos são perigosos.

Esse é o ponto crucial que estabelece uma diferença irreconciliável entre conservadores otimistas e pessimistas. Para estes últimos, jamais deveríamos acreditar que o ser humano possa alcançar, mediante seus próprios esforços, uma vida perfeita. A redenção vem do “alto”, não da vontade do povo representada pelo presidente da República.

Há uma concepção muito singular no conservadorismo pessimista: nossa condição humana será sempre propensa a falhas graves. Numa palavra: somos imperfeitos e insuficientes, e não podemos transformar nossa natureza. Uma resposta um tanto melancólica, eu confesso, para o fato de saber que se é mortal e aspirar, ainda assim, à imortalidade.

Esse seria o lado “trágico” do conservadorismo, que pode se subverter em nacionalismos perigosos devido à incapacidade de políticos — seres humanos propensos a erros— lidarem com o caráter trágico da experiência humana.

A propensão a criar desordem e descambar para violência só é compensada pela capacidade de criar obras de arte magníficas, de realizar grandes descobertas científicas e ainda, eu espero, buscar os pequenos gestos de gratidão, bondade, altruísmo e caridade.

Os conservadores jamais poderiam aceitar qualquer tipo de pretensão em forjar um novo homem, um novo país, uma nova nação, sobretudo via política. A consequência lógica dessa premissa é que a perfeição da sociedade não passa de fantasia. Podemos buscá-la, mas não realiza-la. Pelo menos não nessa terra devastada por egoísmo, ódio e desejo de poder.

Em termos de promessas políticas, a única virtude que deveria orientar a vida de um conservador é o ceticismo. O termo pode ser substituído por um mais ligado à vida moral e política: prudência.

O que é ceticismo ou prudência? Ser cético ou prudente, neste contexto, tem a ver com a disposição da inteligência prática. Um jeito de pensar antes agir, frear as paixões e fazer de tudo para não meter os pés pelas mãos.

Em outros termos: a disposição cética nos fornece senso de proporção e reconhecimento de que a natureza nos predispôs para realização de coisas boas e coisas não boas: as coisas boas são difíceis de conquistar e fáceis de perder; as não boas, fáceis de conquistar e difíceis de esquecer. Tentar escapar dessa tensão presente em nossa vida é enganar a si mesmo e naufragar em expectativas absurdas.

Com isso quero dizer que o ceticismo é humilde ao reconhecer o tremendo esforço necessário para vencermos certas inclinações potencialmente desastrosas. Isso não elimina o acaso e o erro, mas nos torna mais amadurecidos e virtuosos. Trata-se, portanto, de uma formação moral mediante a consolidação de uma segunda natureza em nós, conhecida como hábito, que se adquire por meio de um longo condicionamento dos apetites e um árduo processo de interiorização de valores.

Trata-se de um bem tão público quanto privado, que parte do postulado de que o ser humano está propenso a cometer erros terríveis e nunca alcançar um estado de perfeição e plenitude.

A prática política conservadora dos últimos meses subverteu a virtude da prudência. Primeiro por não ser capaz de reconhecer a mais difícil de todas exigências impostas a alguém que pretenda um governo conservador para o Brasil: afinal, o que significa ser brasileiro? Qual ordem superior permanente dá coesão a nossa comunidade moral brasileira?

Não é óbvio e não adianta importar teorias estrangeiras, pois um dos postulados básicos do conservadorismo, como vimos, exige o respeito às próprias tradições culturais.

Aqui considero um dos maiores riscos do atual conservadorismo no poder: criar ideias reguladoras transcendentes de nação, povo e destino e sobrepor essas ideias à experiência concreta dos brasileiros. O que seria o “Brasil acima de todos”, senão o próprio esvaziamento da nossa experiência pessoal como brasileiros?  Enquanto país, o Brasil não passa por uma crise política, mas de identidade —e o maior de todos os erros é achar que a solução passa por conferir mais poder ao Estado.

Na específica forma mental dos conservadores no poder, a “ordem superior permanente” se tornou uma mistura poderosa para quem se sentiu traído pelas elites progressistas e agora redescobriu que o povo brasileiro também representa os verdadeiros valores da civilização ocidental —que, aliás, estaria prestes a ruir por causa de ideologias perniciosas que corroeram as suas bases por dentro.

O sentimento de que a família, a escola, a universidade, a imprensa, o Congresso, o tribunal e a Igreja estão sendo destruídos e degenerados vem daí. Todas as instituições sociais e políticas foram corrompidas por “ideologias Inimigas” (curiosamente, todas são ocidentais).

Gostaria de mencionar apenas dois exemplos de como essa jornada espiritual pelos valores da civilização autoriza os novos conservadores no poder a combaterem seus inimigos: o ataque a professores de esquerda nas universidades e o ataque à imprensa. Ambos, aliás, alimentados pelo mesmo clima de linchamento nas redes sociais, que reflete bem a alma desses conservadores.

Com a desculpa de que a universidade é neutra e não lugar de militância partidária, o governo Bolsonaro tem empreendido um verdadeiro clima de perseguição. Afirma-se que as universidades, sobretudo de humanidades, são verdadeiras usinas de esquerdistas.

Ora, ainda que a maioria dos professores seja realmente de esquerda, não cabe ao governo determinar como deve se comportar, pensar e refletir em sala de aula. Isso não é um problema do Estado. No entanto, não foi André Mendonça, advogado-geral da União, que defendeu operações policiais nas universidades para coibir viés ideológico de professores em ambientes públicos?

A universidade, como instituição social responsável por preservar e compartilhar conhecimento e cultura, não responde a poder político nenhum. Professores e alunos devem satisfação a seus pares e a mais ninguém. Se os conservadores querem mudar isso, deveriam tentar pelos meios institucionais, e não pegar atalhos via força do Estado.

O ataque a jornalistas que criticam o governo já se tornou escancarado. Em 16 de maio, um dia após as manifestações contra cortes de verbas na educação, Bolsonaro rebateu a pergunta de uma jornalista da Folha sobre o tema dizendo que ela deveria entrar “numa faculdade que presta e fazer bom jornalismo”. E disse ainda que a Folha “não pode contratar qualquer uma para ser jornalista, ficar semeando a discórdia e perguntando e publicando coisas nojentas por aí”.

Mais que o tom grosseiro de um presidente pouco polido, a atitude revela o sentimento que anima os conservadores no poder: a imprensa foi corrompida por ideologias inimigas. O fundamento do ataque é o mesmo, a imprensa deve ser neutra. Não, a imprensa deve ser uma instituição livre. Cabe aos jornalistas se movimentarem nos limites morais de suas convicções, com responsabilidade, coragem e transparência.

O conservadorismo brasileiro no poder se deixou contaminar por um sentimento otimista de hostilidade a tudo o que se opõe a sua causa: essa poderosa mistura de nostalgia pelo passado e expectativa sobre o futuro de uma grande nação.

A nova era política conservadora se tornou uma triste e imprudente cruzada pela preservação de um ideal difuso de ordem social superior transcendente, a cada dia mais distante dos brasileiros. Só faz sentido no twitter do presidente e de seus seguidores.

O maior risco é usarem o poder do Estado para invadir esferas nas quais, por princípio, o Estado jamais deveria se meter. Esse seria o efeito colateral de quem está seduzido pela própria verdade —único caso de verdade que, em vez de libertar, poderá nos arruinar.

Francisco Razzo é professor de filosofia e autor dos livros “Contra o Aborto” e “A Imaginação Totalitária” (Record)

 

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