Eleições nacionais e o recado do eleitor brasileiro

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People waiting in line to vote.

As eleições nacionais são sempre um momento de grande apreensão para a sociedade, ainda mais quando nos debatemos sobre várias escolhas diferentes, desde Presidente da República, passando por Senadores, Deputados e Governadores, o leque de votação é imenso e o desafio da escolha é sempre bastante desafiador afinal, a escolha atual recai sobre quatro anos ininterruptos, os erros tem preços altíssimos e resultados assustadores.

Nestas últimas eleições percebemos um recado claro dos eleitores para a classe política, de um lado percebemos uma busca por nomes novos e desvinculados com denúncias de corrupção e desmandos com o dinheiro público, uma forma clara de protesto contra uma classe política acostumada ao enriquecimento ilícito e a mal utilização do dinheiro público, e de outro uma mudança para um perfil mais centro direita, um comportamento mais conservador por parte do eleitor, que depois de eleições votando em candidatos mais à esquerda, opta por uma mudança mais forte e estruturada para a direita e para o conservadorismo.

Neste ambiente, percebemos muitos políticos tradicionais que foram derrotados nas urnas, desde a família Sarney, passando pelos ex-governadores Beto Richa, Marconi Perillo e Fernando Pimentel, pela ex-presidente Dilma Rousseff que buscava uma vaga no senado por Minas Gerais, pelo ex-senador e atual vereador paulistano Eduardo Suplicy e pelos atuais senadores Romero Jucá, Edison Lobão, Eunício Oliveira, Magno Malta e Ricardo Ferraço que não conseguiram se reeleger, todos e muitos outros foram desaprovados pelos eleitores, políticos importantes e com grande força nos seus estados e com influência na política nacional.

Os eleitores estão mostrando para a sociedade um descontentamento generalizado com a classe política, depois de séculos de desmandos e pouca transparência, a população está se manifestando de forma direta e exige da classe política uma postura diferente, depois de três anos de recessão e baixo crescimento econômico, que fez a renda da população ser reduzida a números próximos ao encontrado em 2013, a população exige mudanças substanciais tanto no trato da coisa pública como no desempenho e na performance das políticas públicas, um desafio e tanto para uma classe política amadora e marcada por indicações baseada em critérios políticos e eleitorais.

Partidos tradicionais perderam espaço no poder, os tucanos que nas últimas cinco eleições presidenciais foram para o segundo turno, nesta eleição ficaram em quarto lugar, com seu candidato angariando menos de 5% dos votos, a menor quantidade de votos do partido em todos os tempos, um recado claro de que a sociedade não mais aceita o seu jeito titubeante de atuação e sua postura omissa e inconsequente, a população está demonstrando que tem memória e sabe, muito bem, que as atitudes desconectadas serão rejeitadas num futuro muito próximo.

Outro partido que sai menor das eleições de ontem foi o Partido dos Trabalhadores (PT), embora tenha conseguido votos suficientes para levar seu candidato ao segundo turno, dificilmente conseguirá reverter a situação que ora se construiu, seu discurso dúbio centrado em uma moral inexistente e sua prática econômica intervencionista, tão deletéria e negativa, contribuiu decisivamente para jogar o país na situação econômica vivida pelo país na atualidade, embora neguem e prefiram colocar a culpa nos outros, suas políticas públicas, principalmente no governo Dilma Rousseff, contribuíram para a degradação econômica atual que estamos vivendo.

Ambos os partidos saem menores destas eleições, reduziram suas bancadas e viram seus ideários serem mitigados por outros grupos políticos que crescem com suas ruínas, a ausência de uma auto-crítica consistente e verdadeira reforçam a percepção de que, infelizmente, a sua debacle abre oportunidades para novos grupos sociais, mais conservadores nos costumes e liberais na economia, o fortalecimento do conservadorismo é cada vez maior e mais consistente.

Na esteira destes grupos políticos que perderam força, destacamos o crescimento de partidos como o Partido Social Liberal (PSL), que até esta eleição tinha apenas 1 parlamentar e passa a ocupar na próxima legislatura, mais de cinquenta cadeiras no legislativo federal, mostrando a força do grupo liderado pelo candidato Jair Messias Bolsonaro que, cada vez mais, se cacifa para ser o próximo Presidente do país.

A eleição presidencial será decidida em segundo turno, os candidatos escolhidos terão mais alguns dias para mostrar suas principais propostas, os debates mostrarão o mais preparado na visão dos eleitores mas, mesmo assim, percebemos que nesta nova eleição se contrapõem duas visões diferentes de sociedade, uma mais liberal na economia e conservadora nos costumes e outra mais desenvolvimentista na economia e mais liberal nos costumes, são pensamentos diferentes que empolgam alguns setores e geram ojeriza em outros, criando instabilidades, incertezas e espaços crescentes de especulação e notícias falsas, as chamadas Fake News.

Percebemos nesta eleição, uma forte tendência ao conservadorismo político, grupos mais conservadores ganharam fortes espaços nos cargos eletivos, discursos mais liberais na economia ganharam espaço na mente dos eleitores, todos sabemos que as condições fiscais e financeiras do Estado Brasileiro são ruins e exigem medidas corretivas fortes e com impactos negativos em toda a sociedade, todos sabemos que estes esforços exigem racionalidade e sabedoria na gestão da coisa pública, todos sabemos que o país tem pressa e as medidas precisam ser iniciadas o mais rápido possível.

Os analistas políticos e os economistas destacaram muito uma forte tendência de fragilização da democracia, este governo descrito como do povo está em franco enfraquecimento em muitas regiões do mundo, em alguns países percebemos um forte pendor autoritário dos governantes, como os da Rússia, da Turquia, da Venezuela, da Áustria, dentre outros, ventos estes que podem afetar países como o Brasil, como destacam os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, na recomendadíssima obra Como morrem as democracias.

Segundo os autores, a democracia está em risco na sociedade global e seus detratores não mais se ocupam de golpes militares para tomar o poder, como era feita a tempos atrás, na atualidade, os governantes eleitos se utilizam deste poder e legitimidade concedidos pelas eleições e passam a doutrinar as instituições políticas, se utilizando de seu poder para nomear ministros de tribunais superiores e, com isso, introduzindo leis e instrumentos legais para sua perpetuação no poder, com isso, criam um verdadeiro regime de exceção com nuances democráticos.

A democracia está fragilizada na sociedade mundial porque, dentre outras coisas, nos anos 90 foi muito atrelada ao pensamento neoliberal, que defendia a globalização e viam nesta a panaceia do mundo, as promessas feitas pelos artífices do globalismo neoliberal se mostraram frágeis e inconsistentes, as benesses prometidas não foram efetivadas e as esperanças construídas se mostraram frágeis e limitadas, garantindo a uns poucos os avanços da globalização e a uma parte considerável da sociedade internacional ansiedades, medos, instabilidades e inseguranças.

As demandas da população cresceram de forma generalizada, o cidadão passou a exigir políticas públicas consistentes para reduzir os desgastes gerados nos sistemas econômicos com a abertura defendida por setores neoliberais, de um lado os Estados Nacionais eram pressionados para socorrer os grupos que perdiam espaço e, de outro, as empresas transnacionais exigiam subsídios e isenções fiscais que aumentavam os buracos fiscais e levaram a uma degradação dos serviços públicos gerando, em contrapartida, uma situação social preocupante, com um incremento na violência urbana e nos conflitos sociais urbanos.

De outro lado a sociedade percebe os gastos com juros da dívida pública crescendo e a ineficiência das políticas públicas aumentando, gerando um mal estar sobre todos os grupos sociais, um aumento do desemprego e uma queda da renda e do salário, gerando uma recessão generalizada e perspectivas sombrias para todos os setores da sociedade, principalmente os mais vulneráveis e necessitados de serviços públicos, grupos estes que aumentavam rapidamente em consequência da recessão econômica e degradação dos canais de comunicação política.

A corrupção generalizada, os bilhões de recursos desviados para as campanhas políticas e para o bolso de políticos sem escrúpulos, cidadãos sem serviços públicos mínimos, obras deixadas ao relento e hospitais e escolas sendo degradados pelo conluio entre empreiteiras e partidos políticos, um judiciário leniente com toda esta estrutura de desmandos e corrupção, sem falar das brigas e dos constrangimentos impostos pela Suprema Corte, onde os ministros se comportam como crianças mimadas e despreparadas para julgar e institucionalizar a sociedade, estamos num momento de grande inquietação e as decisões tomadas vão definir o futuro do país.

O sentimento contra a corrupção é generalizado no país, os cidadãos estão cansados destes desmandos e exigem medidas corretivas imediatas, tudo isto é bastante importante e necessário na construção de uma verdadeira nação, mas é importante destacar que a grande corrupção não deve ser tolerada mas que a pequena também deve ser evitada para que de pequena se transforme em casos clássicos de corrupção com impactos generalizados para a sociedade.

Na reta final da disputa os candidatos buscam apoios na sociedade, as promessas crescem e as alianças aumentam, grupos políticos que se engalfinhavam a dias buscam fazer as pazes para garantir seus interesses imediatos, a pequena política ainda sobrevive e mantem seus tentáculos sólidos e  abertos, buscando novos espaços políticos e cargos bem remunerados para a manutenção de seu status quo, é neste ambiente que a classe política se mostra por completo e nos deixa claro quais estão preocupados com os rumos do país ou apenas com seus interesses mais mesquinhos.

As eleições são festejadas como o coroamento da democracia e um fortalecimento dos laços de participação política da sociedade, o Brasil vem escolhendo seus próprios governantes deste 1990, desde então escolhemos quatro presidentes, sendo que dois deles sofreram impeachment e foram retirados do cargo, um número alto e preocupante para uma jovem democracia como a brasileira, a estabilidade do sistema é fundamental para que possamos construir políticas de longo prazo, investir em educação e estruturar uma melhor performance em ciência e tecnologia, pré-requisitos importantes para tirar o país desta inércia econômica e construir um país mais inclusivo, com menos injustiças sociais e mais espaços para transformar seu potencial em crescimento econômico e desenvolvimento social concreto.

Pela primeira vez em eleições presidenciais dois candidatos que representam tão claramente os dois grupos políticos e ideológicos dominantes, Direita X Esquerda, se encontram nas urnas, o resultado dependerá dos ânimos da população, neste primeiro turno o resultado foi amplamente favorável ao primeiro grupo, no segundo turno as coisas podem se alterar, embora acreditemos que as mudanças sejam difíceis, sabemos que, o mais importante é que o país que sairá das urnas no dia 28 de outubro será mais consciente de seu papel social e sua população mais ciente de que o progresso social e econômico de uma nação prescinde da participação e do engajamento de todos os grupos e classes sociais, somente desta forma vamos construir um país melhor, menos desigual e mais vocacionados para o desenvolvimento social.

 

 

 

 

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