‘EUA e China têm de ser parceiros na rivalidade’, diz Graham Allison

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Sociólogo americano afirma que as duas potências caminham para um confronto inevitável

Entrevista com Graham Allison, cientista político de Harvard e autor do livro ‘A caminho da guerra’

Rodrigo Turrer, SÃO PAULO – Estado de São Paulo – 24/10/2020

Sempre que uma potência hegemônica em determinada época percebe a ascensão de outra potência, pode provocar uma guerra que seria inevitável. Essa dinâmica é chamada de “a armadilha de Tucídides” pelo cientista político americano Graham Allison, e estaria acontecendo neste momento entre China e Estados Unidos.

Allison usa as ideias do historiador grego, que há dois mil anos narrou o conflito entre Atenas e Esparta, para demonstrar como um conflito crescente entre as duas superpotências atuais é inevitável.

Em A Caminho da Guerra, lançado pela editora Intrínseca, o professor de Harvard analisa o impacto do crescimento da potência asiática sobre os EUA e sobre a ordem mundial. Em entrevista ao Estadão, Allison, que foi consultor de Ronald Reagan, Bill Clinton e Barack Obama, diz que os países seguem em rota de colisão.

A era de domínio dos EUA pode estar chegando ao fim?

Para os americanos que cresceram em um mundo em que os EUA eram o número um – e isso seria todo cidadão desde aproximadamente 1870 – a ideia de que a China poderia derrubar os EUA como a maior economia do mundo é impensável. Muitos americanos imaginam que a primazia econômica é um direito inalienável, a ponto de se tornar parte de sua identidade nacional. A menos que os EUA se redefinam para se contentar com algo menos do que ser o “número 1”, os americanos cada vez mais acharão que a ascensão da China é perturbadora e intimidadora. Este não é apenas mais um caso de “competição entre as grandes potências”, mas uma rivalidade clássica da ‘armadilha de Tucídides”, em que cada um vê o outro como uma ameaça à sua identidade.

O sr. acha que os EUA perderam influência? 

Estamos vendo uma mudança tectônica do poder internacional. O PIB nacional cria a subestrutura do poder internacional. A participação dos EUA no PIB global diminuiu de metade em 1950 para um quarto no final da Guerra Fria em 1991; é um sétimo hoje e está em trajetória para ser um décimo em meados do século. Em 1991, a China mal aparecia em qualquer tabela de participação. Desde então, disparou para ultrapassar os EUA em PIB em paridade de poder de compra, ou PIB (PPP), uma medida que a Agência Central de Inteligência (CIA) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) consideram como o melhor parâmetro de comparar economias nacionais. O impacto dessa mudança é sentido em todas as dimensões, não apenas entre EUA e China, mas entre cada um deles e seus vizinhos. Quando a China entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, o principal parceiro comercial de cada grande nação asiática eram os EUA. Hoje, o parceiro comercial predominante de cada um é quem? China. Dito isso, seria prematuro excluir os EUA. Como o investidor mais bem-sucedido do mundo, Warren Buffet lembra repetidamente aos investidores: ninguém nunca ganhou dinheiro no longo prazo vendendo a descoberto os EUA.

Como evitar a armadilha?

Ao longo dos quatro anos desde que meu livro foi publicado tenho procurado maneiras de dar uma resposta positiva a essa pergunta – na verdade, para escapar da armadilha de Tucídides. Até o momento, identifiquei nove possíveis “vias de escape”. Aquela que estou agora explorando mais ativamente com acadêmicos chineses e americanos combina um antigo conceito chinês de “parceiros na rivalidade”, uma abordagem que o presidente John Kennedy adotou depois de ter sobrevivido à crise dos mísseis cubanos – ele pediu para que EUA e União Soviética coexistam em um “mundo seguro para a diversidade”. Parceiros na rivalidade descreve a relação que o imperador Song da China concordou em estabelecer com Liao, uma dinastia da Manchúria na fronteira norte da China, após concluir que seus exércitos não seriam capazes de derrotá-los. No Tratado de Chanyuan, de 1005, Song e Liao concordaram em competir agressivamente em algumas arenas e, simultaneamente, cooperar em outras. O Tratado exigia que Song prestasse homenagem a Liao, que concordou em investir esses tributos no desenvolvimento econômico, científico e técnico da China. A questão hoje é se os estadistas americanos e chineses poderiam encontrar seu caminho para um análogo do século XXI da invenção de Song, que lhes permitiria competir e cooperar simultaneamente. A possibilidade de que as nações possam competir implacavelmente e cooperar intensamente, ao mesmo tempo, soa para os diplomatas como contradição. No mundo dos negócios, porém, é chamado de vida. Apple e Samsung oferecem um exemplo poderoso. Os dois são rivais implacáveis no mercado global de smartphones. Mas quem é o maior fornecedor de componentes da Apple para smartphones? Samsung.

O sr. acredita que China e EUA entraram numa nova guerra fria?

As relações entre EUA e  China estão destinadas a piorar antes de piorar muito. A razão subjacente é a armadilha de Tucídides. Quando um poder crescente ameaça substituir um poder governante, alarmes soam: perigo extremo à frente. Tucídides explicou essa dinâmica no caso da ascensão de Atenas para rivalizar com Esparta na Grécia antiga. Nos séculos desde então, essa história se repetiu indefinidamente. Os últimos 500 anos viram 16 casos em que uma potência em ascensão ameaçou deslocar um grande poder governante e 12 terminaram em guerra. França contra os Habsburgos, França contra Reino Unido, China e Rússia contra Japão, Reino Unido contra Alemanha. Enquanto os americanos estão começando a descobrir que a China é um rival sério em todas as frentes, a analogia para este embate é cada vez mais a “Guerra Fria”. Mas as diferenças entre as rivalidades EUA e China e EUA e União Soviética são mais significativas do que as semelhanças. Compreender como essas grandes rivalidades são diferentes será fundamental na elaboração de uma estratégia dos EUA para o desafio da China. A possibilidade de uma guerra real entre os EUA e a China, por incrível que pareça, é maior do que a maioria das pessoas avalia.

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