Larry Summers diz que ameaça de ‘japanificação’ dos EUA eleva chance de recessão no Brasil

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Economista diz que taxas de juros perto de zero e sistema bancário problemático travariam progresso

Érica Fraga – Folha de São Paulo – 15/09/2019

SÃO PAULO

O risco de os Estados Unidos mergulharem em uma nova recessão até o fim do próximo ano é, hoje, “substancialmente maior” do que há seis meses.

A opinião é de Larry Summers, um dos mais proeminentes economistas americanos, que foi secretário do Tesouro de Bill Clinton e assessor de Barack Obama, além de ter presidido a Universidade Harvard, onde ainda leciona.

Segundo ele, países desenvolvidos estão à beira a estagnação secular, sujeitos a recuperações fracas e repetidos mergulhos recessivos.

Nos Estados Unidos, ele vê uma probabilidade pouco inferior a 50% de que a lenta recuperação desde a crise financeira de 2008 se converta em um novo ciclo de contração da atividade.

“Dadas as consequências de uma recessão, é um resultado muito adverso”, disse o economista em entrevista por telefone à Folha, na quarta-feira (11).

Segundo ele, uma nova recessão levaria a maior economia do mundo a entrar em um processo de “japanifização”, termo usado em referência às quase três décadas de luta do país asiático contra a deflação e o baixo crescimento.

Se esse for o destino dos Estados Unidos, Summers alerta que países emergentes como o Brasil também podem ser afetados.

“Num ambiente de recessão americana, por exemplo, seria mais difícil para a América Latina atingir progresso e integração”,diz.

A situação brasileira nos últimos anos, segundo ele, foi complicada pelas evidências de que fatores como infraestrutura inadequada, corrupção e incerteza política se mostraram “um problema maior do que muitas pessoas teriam imaginado há alguns anos”.

Crítico das políticas do presidente americano, Donald Trump, Summers diz acreditar que a guerra comercial travada com a China tem piorado a situação econômica:

“Acho que o governo atual está incorrendo em riscos desnecessários. A guerra comercial tem aumentado a incerteza, levando a uma queda do investimento e a um aumento da poupança”.

No atual contexto de incapacidade da política monetária de animar a economia, ele defende uma elevação dos gastos do governo americano em áreas como infraestrutura.

O economista preferiu não fazer comentários sobre as chances de vitória de um candidato democrata na eleição presidencial de 2020.

Quando a economia americana parou de crescer num ritmo sustentável?

Acho que, em retrospectiva, agora conseguimos ver sinais disso ocorrendo 15 anos atrás ou mais.

A economia americana cresceu num ritmo razoavelmente rápido antes da crise financeira. Mas, a fim de impulsionar aquele crescimento, precisávamos de bolhas de ativos extremas, um grande aumento da alavancagem e uma política monetária extremamente frouxa com elevados déficits orçamentários.

Na ausência desses desenvolvimentos anormais, a economia provavelmente teria estado muito mais fraca antes da crise financeira.

As dificuldades que encontramos foram que aqueles desenvolvimentos estavam associados a excessos financeiros, que então levaram à crise. Desde então, a estagnação secular tem sido confirmada pelo ritmo vagaroso da recuperação.

O PIB [Produto Interno Bruto] americano hoje relativo ao seu nível em 2008 não é muito melhor –se for algo melhor– do que era em 1940 em relação a 1929.

Como o sr. avalia a política econômica do atual governo americano para evitar uma possível recessão? 

Acho que o governo atual está incorrendo em riscos desnecessários.

A guerra comercial [com a China] tem aumentado a incerteza, levando a uma queda do investimento e a um aumento da poupança. O que isso faz é complicar os problemas econômicos e reduzir a demanda.

A interferência em relação a outros países, por meio da imposição de tarifas, está reduzindo a competitividade dos produtores americanos e dificultando a venda dos nossos bens em mercados externos.

A guerra de tarifas está tendo o efeito contrário do desejado? 

Exatamente, acho que é contraproducente.

Além disso, a decisão de reduzir impostos substancialmente antes de termos qualquer tipo de desaceleração econômica, consumindo nosso canhão fiscal pode se provar custosa. Então, não acho que o governo tem agido de forma inteligente para evitar uma recessão.

Quais são os riscos de uma recessão no curto prazo? 

O risco de que tenhamos uma recessão no próximo ano e meio, durante o mandato do presidente Trump, não é muito menor do que 50%. Dadas as consequências de uma recessão, é um resultado muito adverso.

O sr. disse recentemente que a economia americana está a uma recessão da “japanificação”. O que isso significa? 

A “japanificação” da economia americana significa uma situação em que as taxas de juros estão quase permanentemente estabelecidas em zero, o sistema bancário está em uma condição problemática e as autoridades podem tentar o quanto quiserem, mas não conseguem elevar a inflação.

Quais seriam as consequências de uma “japanificação” americana para a economia global e, particularmente, para os mercados emergentes? 

Uma economia americana fraca complica a capacidade de os Estados Unidos de proverem liderança no mundo; do ponto de vista econômico, como o mercado de última instância para as exportações; e, do ponto de vista político, como o país que fez tanto para manter a estabilidade, por meio das organizações internacionais, mas não apenas dessa forma.

Num ambiente de recessão americana, por exemplo, seria mais fácil para a América Latina atingir progresso e integração.

Qual seria o impacto econômico disso para países como o Brasil?

 Acho que as chances de uma recessão aumentariam porque haveria menos demanda para seus produtos, e tanto menos capacidade quanto menos apetite de risco por parte das empresas americanas para fazer investimentos estrangeiros.

Quão grande é esse risco? 

Embora a chance seja um pouco menor do que 50%, ela parece substancialmente maior agora do que há seis meses.

O Brasil vive uma lenta recuperação após três anos da recessão, com desemprego e subemprego altos. Alguns economistas locais dizem que o país pode estar vivendo uma histerese [efeitos duradouros ou permanentes criados por longas crises]. Que consequências isso pode ter? 

Isso protela a desaceleração, a incerteza, a interferência no crescimento.

Com certeza, isso deixa o Brasil com um bloco de capital produtivo substancialmente menor do que era esperado por economistas brasileiros há cinco ou dez anos.

E, por fim, isso leva a um crescimento lento e a uma menor produção.

Surpreende que o Brasil esteja crescendo tão pouco? 

Acho que temos visto que há problemas estruturais muito mais profundos –como infraestrutura inadequada, corrupção, incerteza sobre o ambiente político– e tudo isso é um problema maior no Brasil do que muitas pessoas teriam esperado há alguns anos.

A situação de crescimento mais fraco da economia global reduz as chances de os mercados emergentes fazerem sua renda convergir para o nível dos países ricos?

 Acho que muitos países são muito afetados pela maré da economia global.

Quando essa maré está mais baixa, seu desempenho econômico não será bom.

E acho que estamos diante de uma maré baixa na atividade econômica global por alguns anos pela frente.

Há o risco de redução permanente na capacidade de crescimento dos países emergentes se a economia global mantiver uma tendência de expansão mais fraca no longo prazo?

 [O contexto] Demandará que eles tenham políticas sólidas, para encontrar fontes de demanda doméstica que, esperemos, garanta que esse estágio de crescimento lento não seja permanente.

Quais são as políticas que os países desenvolvidos deveriam adotar para evitar a estagnação secular?”. Acho que precisaremos de uma maior ênfase em políticas que estimulem a oferta, assim como políticas estruturais e fiscais, e menor foco em políticas puramente monetárias e financeiras, que já fizeram o que podiam para a estimular a economia.

Em que os países desenvolvidos deveriam investir?

Isso varia de país para país. Acho que, no caso dos Estados Unidos, as duas prioridades principais são investimentos em inovação e em infraestrutura pública.

O sr. acha que as medidas necessárias serão tomadas? E a situação aumenta a chance de eleição de um candidato democrata em 2020? 

Não vou tentar prever política. Mas como afirmam que Winston Churchill dizia sobre os Estados Unidos: nós normalmente fazemos a coisa certa, mas só depois de esgotar as alternativas.

LARRY SUMMERS, 64

Bacharel pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) e doutor pela Universidade Harvard, ambos em economia. É atualmente professor de Harvard, instituição que presidiu de 2001 a 2006. Foi secretário do Tesouro dos Estados Unidos, entre 1999 e 2001, durante o governo democrata de Bill Clinton. Voltou a ocupar um cargo proeminente em uma gestão democrata, quando dirigiu o Conselho Econômico Nacional e foi o principal conselheiro econômico de Barack Obama, de 2008 a 2010. Entre 1991 e 1993, foi economista-chefe e vice-presidente do Banco Mundial

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