Os riscos e os desafios da desindustrialização brasileira

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A economia brasileira vem passando por inúmeras transformações nas últimas décadas, desde o começo dos anos 1980 a indústria brasileira vem perdendo espaço no produto interno bruto (PIB), passando por um processo conhecido na literatura econômica como desindustrialização, reduzindo seu espaço e sua relevância na economia global e gerando inquietações e dúvidas sobre a sociedade brasileira e a sustentabilidade do setor industrial.

A trajetória industrial brasileira remete ao meado do século XIX, mas só ganhou força e relevância depois da crise de 1929, neste momento a sociedade brasileira passou por grandes mudanças que culminaram na decisão de estimular um amplo desenvolvimento industrial, centrado, estruturado e financiado por investimentos estatais, neste momento o governo federal chama para si a responsabilidade de desenvolver a industrialização, planejando e construindo as etapas necessárias para uma ampla mudança na base produtiva do país que, na época estava concentrado no meio rural e tinha nos setores agrícolas o grande motor do crescimento econômico.

Nesta época, o país importava todos os produtos que necessitava, desde os produtos mais simples até aqueles que exigiam uma maior capacidade de produção, com isso, o Brasil era uma economia altamente dependente dos mercados internacionais, estávamos inseridos neste ambiente externo como produtores de produtos agrícolas e de baixo valor agregado e importadores de produtos industrializados, atualmente conhecidos como produtos de alto valor agregado, nesta relação comercial nossos produtos tinham seus preços “controlados” pelos consumidores destes e nossas compras tinham seus preços definidos pelos produtores internacionais.

Depois da ascensão de Getúlio Vargas ao poder, o Estado Nacional passou a estimular a industrialização, visando a construção de um setor mais dinâmico e flexível, produtor de produtos com valor agregado maior e uma dependência menor das compras externas. Para conseguir a industrialização foram necessários que o Estado organizasse os atores econômicos, levantasse capital e recursos financeiros, trouxesse mão de obra capacitada do exterior para a empreitada, planejasse políticas específicas para o setor, construísse infraestrutura e protegesse os setores nascentes para evitar que a concorrência externa destruísse nossos primeiros setores industriais, angariando grandes inimizades no mercado internacional, onde as economias desenvolvidas e industrializadas adotaram políticas para inviabilizar toda e qualquer política de desenvolvimento industrial.

No período 1950/1980, o produto interno bruto per capita cresceu a uma taxa de mais de 4,5% ao ano, com isso, percebíamos que o sonho de construirmos um setor industrial forte e dinâmico seria alcançado em pouco tempo, muito brevemente o Brasil conseguiria dinamizar e fortalecer nossa economia, com o surgimento de novos setores industriais, diversificando e abrindo novas oportunidades de negócio e de investimentos.

Neste período, muitos intelectuais e pesquisadores acreditavam que o Brasil seria a nova potência do século XXI, o crescimento era acelerado, a urbanização gerava novas oportunidades de negócio, as condições de vida e de bem-estar social melhoravam de forma crescente, incentivando um progresso maior da economia e abrindo novas oportunidades de negócio, fundamental para o crescimento sustentável da economia nacional.

No final dos anos 70 e início dos anos 80, a economia perdeu força, o crescimento reduziu de forma considerável, a inflação e o endividamento externo ganharam relevância na agenda econômica do governo federal e o sonho de desenvolvimento ficou comprometido, obrigando os sucessivos governos a adotarem políticas para reverter os péssimos indicadores macroeconômicos e colocar o país de volta nas trilhas do crescimento e na melhoria do bem-estar social.

Neste momento a economia internacional vivia um período de transição para um modelo descrito como terceira revolução industrial, centrados na informática e nas telecomunicações, obrigando internamente um ajuste que pedia mais abertura, mais investimento em capital humano e maior competição entre os agentes econômicos e produtivos. Neste novo cenário, o Brasil se mostrou reticente quanto as mudanças necessárias e urgentes, ao postergar estas mudanças acabou perdendo espaço para outras economias no mercado internacional.

Os anos 80 podem ser descritos como a década perdida, neste período nosso crescimento foi reduzido, o modelo anterior perdeu força e um novo modelo econômico tinha dificuldades para surgir e se estruturar, mantínhamos uma economia pouco competitiva, fechada, ineficiente e atrasada se compararmos aos concorrentes internacionais, nossa carga tributária era complexa e elevada, nossa infraestrutura apresentava grandes deficiências e nossa mão de obra era pouco qualificada e incapaz de competir nos mercados globais, todos estes fatores contribuíram diretamente para que o país perdesse atratividade no cenário internacional, ainda mais num momento de forte crescimento dos países asiáticos.

Para reduzir a inflação, o governo lança em julho de 1994, o Plano Real, cujos resultados foram bastante significativos na tarefa de reduzir a inflação mas, acabou gerando graves constrangimentos para o setor industrial pois, para combater a inflação, acabou valorizando excessivamente o câmbio e contribuiu decisivamente para o incremento das importações, a valorização gerou um aumento na oferta agregada interna de produtos e na redução dos altos índices inflacionários mas, ao mesmo tempo, contribuiu para a queda das exportações e uma piora do setor industrial, levando o setor a uma desindustrialização, com perdas crescentes de emprego e redução da renda agregada.

Neste ambiente de câmbio valorizado e aumento da concorrência interna, os setores industriais perderam espaço na economia brasileira, muitos grupos estrangeiros entraram no país comprando ou se associando a empresas locais, gerando uma ampla desnacionalização, enquanto outros grupos mais tradicionais iniciaram uma ampla reestruturação produtiva, comprando máquina, tecnologias e equipamentos para aumentar sua eficiência e garantir a sobrevivência da empresa no mercado local.

Além do câmbio valorizado, devemos destacar ainda a concorrência internacional crescente, nos anos 90 a abertura econômica iniciada pelo presidente Fernando Collor somada a desagregação da União Soviética, que colocou mais de 1 bilhão de indivíduos no mercado de consumo global estimulando os Bancos Centrais a inundarem o mercado de créditos com maior liquidez, com crédito farto e estímulos internos, com isso, as empresas dos países mais desenvolvidos aumentaram seus investimentos no mercado global, percebendo a inevitabilidade da situação competitiva global, tudo isto intensificou a competição interna, atraindo empresas e aumentando a concorrência, gerando perdas em muitos setores, desemprego e redução da renda agregada.

A concorrência com os países asiáticos gerou grandes desequilíbrios nas economias ocidentais, a indústria brasileira sofreu bastante com a ascensão de países como a China, Singapura, Malásia, dentre outros, que passaram a atrair novos investimentos de indústrias internacionais de olho em seu grande mercado e em sua mão de obra barata, a concorrência acelerada e as melhores condições dos orientais foi crucial para uma desindustrialização brasileira. O grande desafio de países como o Brasil é que, no começo dos anos 80, éramos conhecidos como a economia com a indústria mais sofisticada do mundo dos países em desenvolvimento e, na atualidade, estamos nos desindustrializando sem nunca termos alçado voos mais sólidos e consistentes, ou seja, nunca conseguimos construir internamente uma indústria mais sofisticada e na atualidade estamos perdendo até o pouco que conseguimos construir em anos recentes.

Se em décadas anteriores, principalmente entre 1950/1980, nosso setor industrial conseguiu atingir mais de 30% no produto interno bruto, na atualidade, a indústria nacional perdeu centralidade e relevância, alcançando no ano passado valores próximos de 11%, mostrando uma queda consistente e dificilmente se conseguirá encontrar os altos índices de décadas passadas. O grande desafio neste cenário é conseguir retomar o setor industrial, isto porque a indústria é fundamental para o desenvolvimento de um país, mas como nos mostra Paulo Gala, não existe desenvolvimento econômico pela via agrícola, por mais que este setor tenha uma importância considerável para a economia, o setor agrícola não consegue nos levar ao desenvolvimento econômico, emprega muito pouco trabalhadores, algo em torno de 3%, no máximo 5%, onde podemos destacar os Estados Unidos, Espanha ou França, isto se dá porque a produtividade deste setor é altíssima e necessita de muito pouco mão de obra.

Nossa economia apresenta grande potencial na produção de commodities, somos grandes produtores de petróleo, soja, laranja, carnes e minério de ferro, estes produtos garantem grandes superávits comerciais para o país, mas como dar um salto para a produção de softwares, como transformar esta especialização em commodities num salto para as partes mais nobres da cadeia produtiva? Afinal, somos produtores e exportadores de commodities mas, ao mesmo tempo, somos importadores de maquinários, agrotóxicos, fertilizantes, etc… a ascensão nesta mesma cadeia de produção nos parece muito complexa, os poucos que conseguiram foram países sofisticados tecnologicamente, como Estados Unidos, Tailândia, Finlândia, Noruega, França, Malásia.

Perdemos muito espaço na estrutura industrial global, estamos na atualidade presente em poucas cadeias produtivas da indústria, como no setor de petróleo e gás, na produção de aeronaves e na produção de automóveis, algo muito reduzido para um país que almeja dar um salto no crescimento econômico nas próximas décadas, sem nos aperfeiçoarmos tecnologicamente não vamos conseguir alçar voos mais consistentes e necessários.

A indústria é fundamental para a geração de empregos de maior valor agregado, recuperar o setor industrial deve ser uma meta clara dos governos nacionais, mas para isso, faz-se necessário que todos os agentes econômicos e políticos se integrem com este fim, a união de forças será fundamental, onde aos empresários devem se destacar e estimular uma gestão de excelência, com metas claras e busca constante por produtividade, ao Estado cabe uma articulação política interna entre setores e uma sólida política industrial como todos os países desenvolvidos fizeram e ainda fazem, reconhecendo a importância e a centralidade deste setor para o desenvolvimento econômico. Nesta orquestração os trabalhadores têm um papel central, a capacitação e a forte qualificação devem ser perseguidas de forma acelerada como forma de incrementar a produtividade e garantir novos mercados e um maior bem-estar social.

O setor industrial alavanca as pesquisas científicas, qualifica de forma consistente a mão de obra, melhora a produtividade da economia e aumenta a tecnologia empregada na produção, garantindo retornos interessantes e crescentes para o setor produtivo, a junção das empresas com as universidades, com os centros de pesquisas e os laboratórios de tecnologias garantem novos espaços de crescimento e consolidação do país, todas estas experiências foram testadas e trouxeram resultados positivos em todos os países que conseguiram se industrializar do mundo, cabe aos agentes públicos e privados se integrarem para garantir estes retornos para que nossa indústria posso competir com igualdade de condições no ambiente externo.

A indústria é fundamental para o crescimento da economia brasileira e o tão almejado desenvolvimento econômico, inúmeras políticas devem ser adotadas mas antes de mais nada, é fundamental a construção de um ambiente macroeconômico salutar, com taxas de câmbio estáveis, juros reduzidos, investimentos em alta, taxas de desemprego baixas, renda em ascensão e boas perspectivas para a economia do país nos próximos anos, somente desta forma conseguiremos galgar posições importantes no cenário internacional e nos capacitarmos para atuar de forma mais integrada e competente no mundo contemporâneo, uma sociedade em constantes crises e desequilíbrios, marcadas por uma concorrência acelerada, quedas no crescimento econômico e por um incremento na desigualdade social, na pobreza e na indigência urbana dificilmente terá oportunidades de crescimento e sobrevivência no mercado internacional.

 

 

 

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