Pobreza, concentração de renda e desigualdade no Brasil do século XXI

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O mundo globalizado vem gerando grandes transformações na sociedade mundial, com impactos generalizados em todas as regiões e países, afetando empresas, organizações sociais e trabalhadores, criando constrangimentos e preocupações em todo o globo, o futuro nunca foi tão incerto e assustador para uma parcela substancial da população internacional, gerando novos medos, desesperanças e incremento na violência e no xenofobismo. Neste ambiente de novas discussões, encontramos visões diferentes e complementares, uns mais entusiasmados e otimistas, acreditando na panaceia da tecnologia e da inclusão digital como instrumento de inserção social e melhora na qualidade de vida da população, de outro lado, encontramos os mais céticos e pessimistas que veem este momento como mais um período de degradação social e desigualdade crescente, as promessas abundam, mas a realidade é sempre assustadora e imediata.

Os teóricos mais animados com as mudanças em curso acreditam que o mundo do trabalho está se transformando e seus impactos serão muito melhores para toda a coletividade, divulgam dados do incremento da produtividade do trabalho e do aumento da riqueza da sociedade que geram grandes comemorações, neste novo momento, o trabalho deve se transformar e novas ocupações estão ainda sendo construídas, para estes estudiosos, nos próximos anos mais de setenta por cento da população estará ocupada em atividades que ainda não foram criadas, profissões que estão sendo pensadas pela sociedade e pelo rápido crescimento da tecnologia e das novas formas de inovação.

Segundo estes teóricos, o momento ainda está fortemente caracterizado por incertezas e instabilidades, estas serão reduzidas com o passar dos tempos e a sociedade tende a iniciar um grande ciclo de prosperidade e progresso, onde a grande maioria poderá usufruir destas novas facilidades que estão sendo introduzidas em todas as áreas e locais, gerando mais riqueza e criando novas oportunidades para todos os grupos sociais, o mundo que estamos construindo nos trará grandes benefícios num futuro muito próximo.

Olhando para a sociedade brasileira, muitas são as dúvidas que surgem de nossas reflexões, em um país como o nosso o Estado tem uma grande relevância e sempre foi um dos atores mais importante para alavancar o crescimento econômico, com investimentos em várias áreas e setores, impactando a coletividade e criando bases concretas para promover novos investimentos e uma geração mais sólida e consistente no emprego e nas melhorias sociais.

Neste ambiente, ao nos depararmos com os dados das pesquisas que nos foram trazidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os sentimentos que nutrimos são de indignação, desesperança e medo. Por estes dados percebemos que mesmo sendo uma das economias mais ricas da sociedade mundial, mesmo sendo detentores de solos e terras altamente produtivas, somos uma sociedade marcada por uma alta concentração de renda com bolsões enormes de pobreza, exclusão e indignidade, com isso, estamos caminhando a passos largos a uma sociedade de fortes rupturas, cujos impactos podem ser assustadores e muito perigosos.

A sociedade brasileira apresenta, e todos temos consciência disso, uma alta concentração de renda, somos uma das economias que mais concentram renda da sociedade internacional, somos um país onde os mais ricos recebem 34 vezes o ganho dos mais pobres, um verdadeiro escárnio em pleno século XXI, uma vergonha que todos os brasileiros deveriam repudiar de uma forma mais enfática, nos manifestando diretamente contra esta barbárie e nos manifestando contra esta verdadeira incivilidade.

A sociedade brasileira apresenta um contingente de mais de 100 milhões de cidadãos que não possuem esgoto e saneamento básico em suas residências, com isso, percebemos gastos em saúde pública que poderiam ser evitados, levando aos cofres públicos mais de 1 bilhão de reais que poderiam ser utilizados para melhorar as condições de vida da população. Neste ambiente encontramos muitas discussões sobre tecnologia, máquinas de última geração, inteligência artificial, internet das coisas, indústria 4.0 e pouco nos importamos com esgoto e saneamento básico, condenando, com isso, uma grande quantidade de cidadãos a indignidade e a degradação, sendo que muitos deles estão desempregados, na informalidade, no subemprego ou até mesmo, estão desalentados.

A concentração excessiva da renda na sociedade brasileira é histórica, somos uma sociedade que se conhece excludente, desde tempos imemoriais nos destacamos como uma sociedade com marcas profundas de degradação, trazemos em nossas entranhas mais de 300 anos de escravidão, o patrimonialismo que se apodera de recursos estatais e empregos públicos, a marginalização e exclusão dos grupos mais vulneráveis. O incremento da concentração da renda, na contemporaneidade, tem outras raízes mais conjunturais, onde destacamos uma forte recessão econômica que nos acompanhou no período 2014/2017, cujos custos sociais e econômicos foram imensos, levando um grande contingente que tinham conseguido ascender socialmente em anos anteriores, a voltar para a pobreza e para a indignidade, avanços e retrocessos estão na raiz de nossos indicadores e, com isso, nossa concentração de renda se torna cada vez mais estrutural.

Depois deste baixo crescimento econômico do período citado acima, o país está tendo grandes dificuldades para recuperar uma melhora no cenário econômico, saímos da recessão, mas não conseguimos engatar um novo período de crescimento econômico, com isso, percebemos uma grande degradação no mercado de trabalho e perspectivas sombrias para inúmeros grupos sociais que prescindem dos gastos e dos investimentos estatais, que atualmente se encontram em forte retração.

Os dados da concentração de renda na sociedade brasileira nos mostram uma situação dramática e muito perigosa, nela vemos que os 10% da população com maiores ganhos detinham, no ano passado, 43,1% da massa de rendimentos, algo em torno de R$ 119,6 bilhões. Na outra ponta, os 10% da população mais pobres ficaram com apenas 0,8% dos rendimentos, algo em torno de R$ 2,2 bilhões. Com isso percebemos que a distância entre os grupos é muito elevada, gerando instabilidades e incertezas das mais graves, com possíveis impactos sociais e políticos severos, ameaçando as bases da democracia e colocando em xeque as instituições econômicas, políticas e judiciais.

Os dados disponibilizados pelo IBGE nos mostram que a concentração de renda tem forte conotação regional, o Sudeste, que concentra 40% da população, concentra uma massa de rendimento superior a de todas as outras regiões somadas. Nestes dados, descobrimos que a região Nordeste possui e menor média de salário, R$ 1497,00, enquanto a região sudeste, com R$ 2572,00 apresenta a maior média salarial.

Pelos dados levantados percebemos que o Índice de Gini, que mede a desigualdade em uma escala de 0 (perfeita igualdade) a 1 (máxima concentração) aumentou em todas as regiões do país e atingiu o maior patamar da série histórica, 0,509. Depois de um período de melhorias sociais e crescimento econômico, do período 2003/2013, o Brasil volta a ver seus indicadores de renda degradados, denotando que neste período recessivo, o Brasil passou a incrementar sua concentração de renda e sua população perdeu renda e piorou suas condições sociais, com desemprego crescente e degradação na renda.

Depois da publicação de O Capital no século XXI, (2014) Thomas Piketty ganhou importância na sociedade mundial, suas pesquisas estimularam novas discussões na seara dos economistas, que passaram a ver a alta desigualdade com mais atenção, percebendo ser ela um detonador de graves crises e desequilíbrios nas economias nacionais. Numa das pesquisas feitas pela Escola de Economia de Paris, o Relatório da Desigualdade Global, que congregam pesquisas domiciliares, contas nacionais e declarações de impostos de renda, sustentam uma conclusão ainda mais assustadora para a sociedade brasileira, que segunda a pesquisa os 0,1% mais ricos se apropriam de 28,3% dos rendimentos brutos totais, enquanto os 50% mais pobres ficam com apenas 13,9% do conjunto de todos os rendimentos. Os resultados destas duas pesquisas são todos estarrecedores para a sociedade brasileira, devendo servir como um alerta para os grupos dominantes, sem uma melhoria nestas condições estaremos condenados e muito próximos de uma situação simular a uma barbárie social.

As pesquisas econômicas com relação a pobreza passaram a ganhar relevância e levaram o americano nascido na Índia Abhijit Banerjee, a franco-americana Esther Duflo e Michael Kremer, também dos Estados Unidos, a ganhar o Nobel de Economia deste ano, por seus trabalhos no combate à pobreza, quem sabe com esta manifestação da Academia  Real de Ciência da Suécia a comunidade internacional passe a compreender que os lucros das empresas são fundamentais, mas que este não deve ser conquistado com a degradação das condições de vida da população, com mais concentração da renda e com mais indignidade social.

Neste ambiente de grandes riquezas no capitalismo internacional, onde a produção extrapole os 70 trilhões de dólares, recursos estes que poderiam garantir uma renda de uns US$ 10 mil para cada um dos 7 bilhões de cidadãos do mundo, percebemos uma pequena quantidade vivendo em condições de altíssimo luxo, ostentação e desperdício e uma grande parte vivendo na indigência, na pobreza e na falta de perspectivas, sem saneamento básico, sem alimentação e sem condições de sonhar com um futuro melhor, muitos se entregando a criminalidade, a violência e formas abjetas de sobrevivência.

Na realidade brasileira encontramos dados similares, o que nos mostra como estamos criando uma sociedade explosiva e extremamente excludente, onde as cadeias e as carceragens das delegacias estão abarrotadas de pessoas pobres, negras e excluídas de uma sociedade cuja marca mais evidente é a exclusão social, onde os assassinatos acontecem a céu aberto, onde os presídios estão dominados pelos marginais, onde a classe política fica discutindo assuntos sem interesse para a população, criando crises e desentendimentos para postergar os debates mais consistentes e imprescindíveis para reduzir o desemprego e melhorar as condições de vida da população. Neste ambiente, percebemos discussões para aumentar a impunidade daqueles que matam demais e oficializar uma situação onde os oprimidos armados matam seus semelhantes em nome de uma justiça de fachada, onde os verdadeiros marginais usam ternos e gravatas importadas e transferem para os pobres e marginalizados o pagamento de seu luxo e de sua inoperância.

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