Políticos usam caricaturas da globalização para ludibriar eleitores, diz ex-diretor do Banco Mundial

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Economista diz que distorções criadas para atender a demandas domésticas prejudicam a economia mundial

Fernando Canzian/ WASHINGTON – Folha de São Paulo, 31/07/2019.

Para o economista Homi Kharas, pesquisador do Brookings Institution e ex-diretor do Banco Mundial, políticos como Donald Trump e movimentos como o Brexit vêm fabricando a narrativa de que problemas internos são causados por outros países.

Segundo ele, há muitos dedos apontados, afirmando que “estamos indo mal porque essas pessoas não jogam limpo; essas pessoas estão roubando nossos empregos, estão fazendo algo injusto”.

Kharas enxerga essas alegações como falsas “caricaturas da globalização” —distorções criadas por políticos para atender a demandas domésticas. Elas prejudicariam estruturas da economia mundial que estão na base do progresso global.

Alguns especialistas afirmam que a classe média nos países ricos encolhe devido à transferência de empregos, sobretudo industriais, para a Ásia. O sr. concorda? 

Sempre que duas coisas acontecem ao mesmo tempo as pessoas observam essas tendências e acham que elas estão conectadas. Não creio que a história seja essa. A classe média na Ásia está indo muito bem porque a economia cresce.

A classe média nas economias avançadas não vai bem porque a desigualdade está aumentando rapidamente e também devido à natureza do crescimento, que vem muito mais das empresas de tecnologia, que têm um número reduzido de funcionários.

São dois padrões de crescimento simultâneos. Mas as pessoas querem tentar conectar os dois e, como sempre, em qualquer país, diante de problemas econômicos, a coisa mais fácil para um político é colocar a culpa em alguém.

Nas economias avançadas há muitos dedos apontados: “Estamos indo mal porque essas pessoas não jogam limpo, essas pessoas estão roubando nossos empregos, estão fazendo algo injusto”. São caricaturas da globalização, que considero falsas, uma história fabricada por políticos, por razões políticas domésticas.

Mas agora essa ideia se tornou parte perigosa de uma narrativa global que prejudica muitas das forças e das estruturas da economia global, como o comércio internacional, que é a base do progresso.

Como o sr. avalia o encolhimento dos empregos industriais e o aumento da desigualdade nos EUA? 

A indústria dos EUA vem perdendo empregos há décadas. Isso é uma tendência. À medida que economias se desenvolvem, a participação da indústria cai e a do setor de serviços aumenta.

Assim, em muitos aspectos, a grande classe média dos EUA foi construída também pelas pessoas que deixaram o setor industrial. Muitos empregos da indústria são perigosos, há acidentes, e há limites para o quanto se pode pagar.

As pessoas nos EUA preferiram migrar para áreas financeiras, de imóveis, da saúde. Elas se profissionalizaram, tornaram-se advogados, economistas. Todas essas profissões são mais bem pagas do que empregos em fábricas.

A maioria dos estudos assinala que a tecnologia é responsável pela mudança na natureza do trabalho. Os carros costumavam ser pintados à mão; hoje, por robôs. Há segmentos inteiros da força de trabalho que tiveram que encontrar outros tipos de ocupações.

Não há evidências de que essas mudanças na economia mundial estejam reduzindo o número de empregos nos EUA. Elas estão mudando a estrutura de um lugar para outro, e isso cria problemas de transição para muitos.

O sr. mencionou o fato de políticos usarem “o outro como inimigo” na narrativa da desigualdade. Quais são as consequências disso? 

Na verdade, acredito que seja possível que a tendência da desigualdade comece a mudar, mas será preciso mais do que ação governamental. Acho que hoje as corporações percebem que é bastante útil serem vistas como empresas que pagam um salário decente.

Hoje, nos EUA, existe uma grande empresa de varejo chamada Target. Ela acaba de aumentar seu salário mínimo para US$ 13 (R$ 48) por hora e concorre com a Walmart, cuja tendência histórica é a de pagar salários muito baixos.

As empresas também estão competindo umas com as outras em termos de reputação, e algumas das melhores empresas estão buscando tanto aumentar os salários quanto alterar a desigualdade salarial.

Assim, as empresas agora se concentram em garantir que homens e mulheres recebam salários iguais por trabalhos iguais, de modo que muitas fontes de desigualdade inseridas em nossas estruturas sociais estão sendo abordadas à medida que as pessoas olham mais de perto.

Outra grande fonte de desigualdade é geográfica. Se você pegar o exemplo do Reino Unido, sobre sair ou ficar na União Europeia: todo mundo em Londres, que é onde o crescimento econômico está concentrado, quer ficar. Outros, no interior, querem sair.

A desigualdade que está sendo gerada em lugares como o Reino Unido deve-se em parte à baixa mobilidade. As pessoas não querem se mudar para outro lugar apenas porque há empregos lá. E se elas não estiverem preparadas para mudar, será um período de transição de maior desigualdade.

Então ocorrem mudanças no poder político à medida que as pessoas se mudam geograficamente. Mas, em vez de se mudar, as pessoas podem votar. No “rust belt” (cinturão da ferrugem, estados industriais dos EUA), ou no brexit, em Manchester ou no norte da Inglaterra.

E as pessoas vão tentar ver se há soluções que o governo possa oferecer, que não exijam que elas se mudem. De muitas maneiras, governos tentam estabelecer políticas que superem as forças do mercado, e isso não é fácil. Muitas vezes acaba criando problemas ainda maiores do que os que você estava tentando resolver.

No curto prazo o que vemos é o desejo dessas pessoas de permanecer onde estão, por isso estão votando em Trump, não? 

Claro. Raízes familiares são algo muito poderoso, e não estou dizendo que é ruim. É bom que pessoas se sintam conectadas a onde estão. Mas é algo muito difícil de sustentar em um ambiente moderno, cuja economia exige que você vá para lugares onde os outros se aglomeraram.

Então, a desigualdade no curto prazo…

Pode piorar.

Uma das lições do século 20 foi que, ao final do século 19, quando se comparam países, a desigualdade diminuía. Mas internamente, em cada país, ela aumentava, como vemos agora. No começo do século 20 tivemos uma guerra e agora temos outro tipo, comercial. Como o sr. compara os dois períodos? 

Pode-se afirmar que no final do século 19 e início do 20 a globalização estava em um nível muito alto. Muitos negócios, movimento de capital, de pessoas.

E muitos disseram que as economias estavam tão conectadas umas às outras que uma guerra não poderia acontecer. Bem, hoje sabemos que foi uma avaliação totalmente errada. O fato de as economias estarem conectadas não significa que não poderia haver uma guerra, e tivemos uma das mais brutais. E ainda tivemos que ter uma segunda.

Espera-se que as pessoas tenham aprendido algo com isso. Mas a história tem uma tendência a se repetir. E hoje novamente temos uma situação em que há uma grande potência, os EUA, e uma nova potência surgindo muito rapidamente, a China.

A economia da China está crescendo, mas seu poderio militar ainda é inferior ao dos EUA. Sua economia é, em termos de projeção internacional, muito inferior à dos EUA, e sua tecnologia, apesar de muitas histórias que contam, é na maioria dos setores inferior à americana.

Mas a China está se aproximando em todas as áreas. E a questão, para todo mundo, é como essas duas potências lidarão uma com a outra.

Acredita-se que se houver uma ordem internacional baseada em regras, isso ajudará a minimizar o grau de confronto entre potências. Por isso queremos uma ordem internacional baseada em regras. Por isso o que realmente importa neste momento é abraçar o multilateralismo.

Isso é muito difícil quando se têm sistemas econômicos muito diferentes, e China e EUA os têm. É isso que torna a ordem internacional tão difícil de se construir e manter no período atual.

Homi Kharas, 65
Pesquisador do Brookings Institution, trabalhou durante 26 anos no Banco Mundial, no qual foi economista-chefe para a Ásia. Com o economista Indermit Gill, criou o conceito de “armadilha da renda média”, em que países que alcançam um determinado nível de renda por conta de vantagens específicas têm dificuldades em se tornar ricos (o Brasil é dado como exemplo por alguns)

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