Sofrimentos cotidianos, provas e expiações na visão espírita

0
90

O sofrimento acomete a sociedade mundial desde os primórdios da humanidade, somos sempre vitimados por dificuldades, dores e provações e estamos envoltos por problemas dos mais variados tipos, não importando a classe social, grau de instrução e o gênero, somos todos passíveis de sofrimentos, de quedas e de dificuldades, afinal estamos num mundo imperfeito, com pessoas imperfeitas e cheio de contradições.

A Doutrina Espírita nos traz uma visão nova sobre a questão do sofrimento humano, vivemos num mundo de provas e de expiações e neste mundo somos muito atraídos pelo sofrimento e pelas dores do cotidiano. Na questão 931 de O livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta ao Espírito da Verdade: Por que são mais numerosas, na sociedade, as classes sofredoras do que as felizes? E recebe a seguinte resposta: “Nenhuma é perfeitamente feliz e o que julgais ser a felicidade muitas vezes oculta pungentes aflições. O sofrimento está por toda parte. Entretanto, para responder ao teu pensamento, direi que as classes a que chamas sofredoras são mais numerosas, por ser a Terra lugar de expiação. Quando a houver transformado em morada do bem e de Espíritos bons, o homem deixará de ser infeliz aí e ela lhe será o paraíso terrestre”.

A Doutrina Espírita nos mostra claramente que os momentos de alegrias e de dificuldades se alternam na vida dos seres humanos, nenhum destes são totalmente felizes, alternamos momentos de felicidades, de alegrias e sorrisos sinceros com momentos de decepções, dores e dificuldades. As alegrias eternas ainda não pertencem ao mundo atual, mas num futuro próximo poderemos vivenciá-la, desde que entendamos a realidade da vida e passemos a trabalhar intimamente visando um progresso e uma evolução constantes, para isso devemos viver em concomitância com as Leis divinas.

Num mundo marcado pelo crescimento das tecnologias, as redes sociais ganharam espaço e relevância nesta sociedade e passou a moldar comportamentos e atitudes, muitos indivíduos colocam fotos nas redes destacando sorrisos e alegrias, muitas delas artificiais e momentâneas, criando para outrem a ilusão de uma felicidade inexistente, atraem com isso olhares de inveja e de cobiça, em muitos casos, de rancor e de ressentimento de pessoas invejosas e infelizes, que ambicionam e invejam a felicidade alheia, incapazes de construir para si uma felicidade verdadeira, sólida e consistente.

Muitas pessoas ricas e profissionalmente de destaque, indivíduos que conseguiram acumular um patrimônio vultuoso, com recursos para viagens e passeios paradisíacos, detentoras de famílias estruturadas, muitas vezes se queixam de sofrimentos, de dores emocionais e de vazios espirituais e existenciais, são indivíduos que possuem tudo para serem considerados felizes, mas se declaram depressivos e excessivamente melancólicos, males modernos que acometem a sociedade mundial e vitima milhões de pessoas no mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 350 milhões de indivíduos sofrem de depressão no mundo, a chamado moléstia da alma e, da forma como a sociedade global está caminhando, muitos outros serão afetados por esta doença, cujas dores são imensas e exigem tratamentos médicos e espirituais.

O sofrimento, como nos disse o Espírito da Verdade, está por todos os lados e afeta todas as pessoas, independe de classes sociais, etnias e preferências sexuais, isto acontece porque somos passageiros de uma sociedade caracterizada como de provas e de expiações, onde as felicidades são passageiras e os amores materiais são temporários e inconsistentes, numa sociedade marcada pelas contradições e os indivíduos pelas incertezas e instabilidades crescentes. O Espiritismo nos mostra ainda, que os sofrimentos humanos estão inscritos no subconsciente de cada indivíduo, todos sabemos os motivos de nossas infelicidades e de nossas dores, a explicação está dentro de cada pessoa, no interior de cada indivíduo, mas para podermos acessar estas dores necessitamos refletir sobre nossos comportamentos, refletir sobre nossas vidas e sentimentos mais íntimos e, numa sociedade como a nossa, termos tempos para nossas reflexões é um dos maiores desafios da sociedade e do cidadão da contemporaneidade.

Numa sociedade marcada pelas provas e pelas expiações, faz-se necessário que entendamos as raízes das dificuldades do mundo, mesmo vivendo neste momento histórico e caminhando para um mundo novo, como nos mostra os escritos de Transição Planetária, ainda chafurdamos na lama e na pobreza de um mundo onde os odores estão atrelados ao ressentimento, a inveja e ao egoísmo, sentimentos fortes e dominantes que ainda não nos conduz a um crescimento mais sólido e consistente, como o espiritismo nos mostra com clareza e maestria.

No mundo de provações, nos mostra Joanna D Angelis no livro Plenitude, psicografia de Divaldo Pereira Franco, os sofrimentos são vistos como instrumentos de educação e de progresso espiritual, quando conseguimos vencer as dificuldades damos um passo consistente para um progredir fundamental para nosso desenvolvimento espiritual, ambicionados por todos os espíritos encarnados no mundo material. As expiações servem para que nos reeduquemos enquanto espíritos, ao passar por estas experiências dolorosos conseguimos melhorar nossos comportamentos e, em muitos casos, voltamos para um momento anterior, quando cometemos equívocos e degradamos nossos passos para o progresso, como um suicida que ao se entregar aos deslizes do suicídio engendra dores imensas em seu caminhar, para estes, as expiações servem para reconstruir o caminho perdido anteriormente.

As dores das provações, segundo os bons espíritos são agressivas e violentas, mas são suportadas pelo indivíduo, são dores que lhe acometem o corpo físico ou os vazios do espírito, mas que, com força de vontade, perseverança e fé em Deus são suportados e superados. As expiações são mais severas e agressivas, muitas vezes aparecem como dores morais ou deficiências e limitações físicas que impõem aos indivíduos grandes dificuldades, obrigando-o a uma grande força de vontade para superar este momento de dores, lágrimas e intensas desesperanças.

Nas provações os espíritos que estão reencarnando podem participar dos planejamentos para a reencarnação ou são representados por espíritos amigos ou protetores espirituais que trabalham com o objetivo de auxiliar para que a reencarnação atinja seus mais auspiciosos êxitos e o irmão em prova consiga crescer espiritualmente e se desenvolver moralmente, angariando novos e consistentes valores. Nos sofrimentos de expiação percebemos uma outra realidade, estes irmãos são obrigados a aceitar o que lhe é imposto pelo plano superior, estes indivíduos ao reencarnar tendem a passar por uma situação que lhe é imposta pela espiritualidade como forma de se reeducar e construir novos espaços de consolidação espiritual.

As expiações são muito mais severas para o espírito, neste processo ele perde a condição de escolha e tudo lhe é imposto, obrigando-o a aceitar e buscar trabalhar para que seu espírito consiga se reeducar das agruras e dos desequilíbrios anteriores, fruto da imperícia do espírito que, mesmo cometendo equívocos severos não está sendo condenado ao degredo eterno, isto não existe nas Leis de Deus, mas o espírito precisa se reeducar para trilhar novos momentos de crescimento espiritual e de desenvolvimento moral.

No livro Memórias de um suicida, psicografia de Yvonne do Amaral Pereira, Camilo Cândido Botelho e seus amigos descobrem na vivência no Instituto Maria de Nazaré, que suas próximas encarnações seriam marcadas por dores acerbas, nesta situação muitos deles não poderiam escolher quais seriam suas limitações físicas ou emocionais, numa próxima vida. Todos sabiam das limitações que seriam obrigados a conviver, mas nenhum deles poderia influir nas escolhas e nas imposições da espiritualidade maior, imposições estas com um único objetivo, o de levar estes indivíduos novamente ao caminho do progresso, caminho este por eles abandonados no momento do suicídio.

No livro Ação e Reação, ditado pelo espírito de André Luiz e psicografado pelo médium mineiro Francisco Cândido Xavier, nos deparamos com as experiências de vida de Adelino Correia, hoje um espírita consciente e devotado ao estudo e as atividades doutrinárias, cuja história nos mostra equívocos e dificuldades em vidas anteriores quando como Martin mandou matar seu pai para casar com sua madrasta. O crime se efetivou, mas a perseguição sofrida foi tão intensa que Martin nunca conseguiu ser feliz no casamento, as lembranças do ato insano e a perseguição de seu pai desencarnado o levaram a loucura e, posteriormente, no mundo espiritual passou a sofrer as agruras de suas atividades na matéria, mas trabalhou incansavelmente para se melhorar e conseguir progressos e avanços espirituais. No retorno ao corpo físico Martin reencarna como Adelino Correa e traz no corpo físico as marcas de um eczema agressivo, como conseguiu algum avanço no mundo espiritual os espíritos superiores o auxiliam para que o eczema se concentrasse apenas em uma parte de seu corpo material, isto porque anteriormente esta doença cobriria todo seu corpo físico.

O livro nos mostra como muitas de nossas atitudes pode reduzir nossas dores, Adelino Correia como trabalhador dedicado e imensamente caridoso, onde auxiliou muitos enfermos e crianças abandonadas, dentre elas algumas que, em vidas anteriores os auxiliaram em seus desatinos e, principalmente, aquele que foi seu genitor, tendo com isso, méritos suficientes para ter suas dificuldades reduzidas e seu amparo cada vez maior e mais consistente. O livro Ação e Reação nos mostra que em todas as ações que engendramos na vida somos impactados por uma reação, quando nossas ações são positivas e edificantes recebemos da própria espiritualidade maior, reações saudáveis, equilibradas e positivas, com isso, a Doutrina dos Espíritos nos mostra que os chamados carmas são conceitos imprecisos, acreditar que estamos condenados numa encarnação nos parece muito equivocado, temos sim as dificuldades, mas se agirmos de forma concernente as Leis de Deus os nossos “carmas” serão, com certeza, reduzidos e minimizados pelos espíritos de luz.

No estudo dos sofrimentos humanos, encontramos na literatura espírita muitas obras de vulto, nelas descobrimos que nos momentos de dores e dificuldades, muitas pessoas se colocam como vítimas, bradam contra Deus e acreditam não ter escolhido passar por aquelas situações de sofrimentos. A Doutrina nos mostra que, se não escolhemos nos foi imposto, aí percebemos ser uma expiação, o que é muito pior e preocupante, agora, na imensa maioria dos casos, foram os encarnados que pediram, melhor, suplicaram por aquelas provações como forma de educação e posterior progresso espiritual.

Os sofrimentos e as dificuldades da vida sempre existiram e sempre existirão para os seres humanos, a forma como a encaramos estas dificuldades é de fundamental importância para que consigamos extrair delas, instrumentos de progresso e de aprendizado, para que construamos um mundo íntimo mais consistente e vinculado aos mais nobres sentimentos e valores emanados pelo Cristo, este sim os valores eternos da vida.

DEIXAR RESPOSTA

Por favor digite seu comentaário
Digite seu nome