Países em que algumas vidas valem menos explicam recordes na pandemia, diz ganhadora do Pulitzer

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Jornalista Isabel Wilkerson defende em livro que EUA não são apenas racistas, mas organizados em castas

ANGELA BOLDRINI – FSP – 16/05/2021

BRASÍLIA
“O coronavírus não liga para nacionalidade ou cor da pele, mas são os países com maior divisão hierárquica na sociedade que estão no topo de mortes e casos”, diz a autora americana Isabel Wilkerson, citando os três líderes globais em óbitos por Covid-19: EUA, Brasil e Índia.

Essas divisões, argumenta ela, fazem com que alguns grupos sintam ter menos responsabilidade pela vida de outras pessoas. “Isso tem impacto nas nossas sociedades”, afirma a autora de “Casta: As Origens de Nosso Mal-Estar”, que chegou ao Brasil no final de abril pela editora Zahar.

No best-seller, a vencedora do Pulitzer defende a tese de que os EUA são mais do que um país racista. São, como a Índia, uma sociedade de castas, em que a raça é apenas o elemento visível da divisão social.

À Folha Wilkerson afirmou que é preciso cautela quanto à disseminação de vídeos de casos com o de George Floyd, homem negro assassinado por um policial em 2020, cuja morte gerou comoção mundial. “Esse acesso irrestrito a vídeos de morte e abuso de pessoas negras pode ter a consequência não planejada de anestesiar as pessoas, de contribuir para a desumanização das pessoas negras”, diz.

Ela defende que um caminho para combater a noção de hierarquia embutida na sociedade é conhecer a própria história e o processo que levou a essa hierarquização, e cita semelhanças com a Alemanha nazista e o caminho de reconstrução feito no país europeu e ignorado nos EUA e no Brasil pós-escravidão.

A sra. defende que a sociedade americana é mais do que racista, é uma sociedade de castas. Como começou a desenvolver essa tese?

Ela surgiu a partir do meu primeiro livro, “The Warmth of Other Suns” [o calor de outros sóis], que trata da migração de seis milhões de pessoas negras do Sul dos EUA, fugindo do regime Jim Crow [conjunto de leis segregacionistas estabelecidas no sul dos EUA após o fim da escravidão]. Passei a olhar para os antropólogos que estudaram esse tema na época, e eles usavam a palavra “casta”, porque não era só uma questão de ódio a um grupo, era a manutenção de uma estrutura divisiva em que tudo que uma pessoa podia ou não fazer estava baseado na sua posição em uma hierarquia. E essa posição era baseada apenas na sua aparência.

Então, em 2012, aconteceu o caso Trayvon Martin, em que um adolescente negro foi morto por um homem que achou que ele, por sua aparência, não pertencia àquele local. A partir daí comecei a pensar sobre como a noção de casta ainda nos afeta, como ainda é presente e não ficou apenas na época do Jim Crow.

A sra. já afirmou que a casta dominante atua mais quando se sente ameaçada. É este o caso com o Black Lives Matter e os recentes casos de abuso contra negros?

Sim. Na história americana, qualquer brecha no sistema de castas é vista como uma ameaça à ordem social. Se você olhar para o período que seguiu a Guerra Civil, há por 12 anos a chamada Reconstrução, em que ex-escravos estavam tendo acesso a educação, construindo instituições para si mesmos. Isso gerou um rebote muito grande, e o governo federal deixou de ajudar. A partir daí essas pessoas foram arremessadas de volta para a base do sistema de castas, e se instituíram as leis Jim Crow, 
que duraram quase 90 anos. Então você tem um período curto em que os negros estavam livres, e isso levou a gerações e gerações de um regime brutal. Essa ideia de que pessoas negras podem estar na sociedade é muito nova, a maior parte da história americana foi de exclusão.

A sra. acha que as redes sociais atuam de maneira positiva para a geração atual de jovens negros no combate a esse sistema?

A habilidade de gravar os abusos a pessoas pretas e pardas nos EUA e no mundo significa que coisas que aconteciam antes agora têm milhões de testemunhas. O caso George Floyd, algo que não deveria acontecer com nenhum ser humano, foi testemunhado pelo mundo todo. Quantos George Floyds não existiam antes? Por outro lado, esse acesso irrestrito a vídeos de morte e abuso contra pessoas negras pode ter a consequência não planejada de anestesiar as pessoas, de contribuir para a desumanização das pessoas negras. Nós sabemos dos linchamentos que ocorriam durante o Jim Crow porque as pessoas que os perpetravam tiravam fotos e as transformavam em cartões postais para enviar à família, tinham orgulho. Antigamente 5.000, 10 mil pessoas se reuniam para ver uma atrocidade sendo cometida. Hoje, devido às redes sociais, esse número passou a ser de dezenas de milhões. Além disso, é profundamente perturbador pensar que, quando vemos um desses vídeos, ele é precedido por anúncios, que tem alguém ganhando dinheiro com isso.

Quando a sra. decidiu fazer uma comparação entre Índia, EUA e a Alemanha nazista?

Após o caso Trayvon Martin e dos que aconteceram depois, pareceu-me claro que havia algo que valia investigar. A primeira coisa que fiz foi olhar a definição de “casta” e o sistema mais antigo em que isso foi aplicado, a Índia.

A Alemanha é menos óbvia, mas em 2017 houve o protesto de Charlottesville [EUA] contra a derrubada das estátuas de generais confederados. E os próprios manifestantes fundiram os símbolos da Confederação com os ícones nazistas, eles viram essa conexão.

A sra. reconta no livro que Martin Luther King Jr. foi à Índia e, lá, foi comparado aos intocáveis, a casta mais baixa. É marcante, considerando sua tese. A sra. já conhecia esse episódio?

Não conhecia. Pesquisando sobre sua viagem à Índia descobri a visita a uma escola de dalits. Lá, o diretor o introduziu aos alunos assim: “Quero apresentar a vocês um colega intocável dos EUA”. Ele ficou irritado de ser chamado dessa maneira, mas refletiu e pensou nos 20 milhões de negros americanos que naquela época não podiam votar e concluiu que, sim, era um intocável.

E que todos os negros americanos eram intocáveis. Quando você toca um projeto de longo prazo você tem alguns marcos de que está na direção certa, e este certamente foi um deles.

E quais similaridades encontrou entre os três sistemas?

Foi chocante ver quantas intersecções havia. Eu terminei listando oito pilares para o sistema de casta e diria que o mais profundamente embutido em todas as três sociedades é o de “pureza”. Isto é, nos três casos as castas dominantes se preocupavam muito com evitar uma contaminação da sua suposta pureza a partir do contato com aqueles que eram supostamente sujos. Na Índia, a casta inferior é chamada de intocável literalmente porque essa pureza seria comprometida pelo toque. No caso dos nazistas, judeus eram proibidos de usar as mesmas águas que os “arianos”, no caso dos EUA os negros não podiam usar as mesmas piscinas e praias.

A noção de “pureza” foi o que criou nos EUA a regra da “gota de sangue” [leis que determinavam que qualquer ancestralidade negra, ainda que remota, é suficiente para que uma pessoa seja considerada negra]? Esse princípio ainda é levado em conta?

Essa noção existe há tanto tempo que nós ainda vivemos sob sua sombra. Se a raça é uma construção social, como definir quem é ou não é de algum grupo? Se você enfileirar pessoas com base na sua cor de pele, da mais escura para a mais clara, como você cria a nota de corte? É tão arbitrário que cada estado tinha uma regra.

Nos EUA, a escravidão era muito lucrativa, e se estabeleceu que só negros eram escravizáveis. Portanto, você tinha que criar uma regra que colocasse o máximo de pessoas possível sob esse guarda-chuva.

E um dos pilares da casta é a endogamia, então você tinha que ter definições muito claras de raça para poder saber quem podia casar com quem. Isso acabou gerando famílias e linhagens, já que as pessoas se reproduziam com aqueles que eram mais parecidos com eles próprios. Dá para dizer que a população americana foi “curada” por esse tipo de lei. E, ainda hoje, se a sua família é identificada como sendo de um dos grupos, não importa a sua aparência, você também será definido dentro dele.

É possível abolir as castas? Como?

Numa peça, o elenco [em inglês, “cast”, similar a casta, “caste”] sabe suas falas, sabe exatamente o papel de cada um e, se alguém sai do roteiro, todos sabem que há algo errado. O que precisa primeiro ser feito é que as pessoas reconheçam que há um roteiro e que, se ele foi escrito por humanos, ele também pode ser reimaginado por humanos.

Para isso, é necessário conhecer nossa história, saber qual a origem do que estamos batalhando.

Como engajar a casta dominante na sua destruição? 

Na Alemanha, eles lidaram com a própria história. Eles fazem questão que as crianças aprendam o que aconteceu, não há monumentos homenageando os perpetradores dos horrores, e os espaços de terror foram transformados em espaços de aprendizado. A sociedade pode não concordar em tudo, mas concorda com um básico de história. E isso não acontece em vários países que lidam com o passado de um horror diferente, o da escravidão. Isso não é um “capítulo triste” da história dos países, é algo que se embute na sua sociedade e que tem que ser reconhecido como tal. E, por fim, acho que é preciso reconhecer que isso machuca todos. A pandemia mostra isso com clareza. O coronavírus não liga para nacionalidade ou cor da pele, mas são os países com maior divisão hierárquica na sociedade que estão no topo de mortes e casos.

Os países que vêm à mente são os EUA, que estão em primeiro lugar nas mortes, o Brasil, que está em segundo, e a Índia, em terceiro. O que eles têm em comum?

Hierarquias embutidas, quer eles admitam, quer não. Essas divisões fazem com que grupos sintam que têm menos responsabilidade pela vida de outras pessoas, que lhes disseram que não têm tanto valor. Isso tem impacto nas nossas sociedades.

ISABEL WILKERSON, 60
Jornalista americana formada pela Howard University, é autora dos livros “The Warmth of Other Suns”, sobre a migração em massa da população negra para o norte dos EUA durante a época Jim Crow, e “Casta: A Origem de Nosso Mal-Estar”, lançado no Brasil pela editora Zahar. Em 1994, como chefe da sucursal de Chicago do jornal The New York Times, tornou-se a primeira mulher negra a ganhar um Prêmio Pulitzer de jornalismo.

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