Consequências econômicas da IA merecem atenção, por Álvaro Machado Dias

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Mundo deve ficar menos globalizado, mais desigual e bem mais produtivo

Álvaro Machado Dias, Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind.

Folha de São Paulo, 28/07/2025

Em quatro anos, a inteligência artificial foi das palavras regurgitadas às simulações de raciocínio usando táticas de jogos e à aplicação dessas para realizar tarefas na internet, solucionando o mistério dos impactos efetivos na produtividade, de forma ainda hipotética: o êxito atual dessas IAs, chamadas agênticas, é de cerca de 75%, o que significa que um pedido para que reserve uma passagem, um carro e um quarto dará certo em apenas 42% dos casos.

A elevação da taxa de completude dos agentes deverá ser o principal fator de pressão sobre o modus operandi dos escritórios. É provável que, em mais quatro anos, a competição se intensifique, levando ao achatamento dos salários de cargos como secretário e assistente administrativo e os das áreas técnicas, incluindo operações, finanças e contábeis, que serão dominadas por um fordismo atencional de alto nível, voltado à identificação e correção dos erros das IAs.

Técnicos mais ambiciosos irão se reposicionar como gestores de “pessoas e agentes” (HAI), redefinindo o marketing e o RH e achatando seus salários também. Já os executivos capazes de criar novas linhas de receita com IA irão se tornar ainda mais importantes e bem pagos.

A disparidade salarial vai aumentar, mas o que moldará essa nova fase é que a “IA irá ampliar o fosso entre capital e trabalho” (Acemoglu, 2024), sendo o capital intelectual na forma de novas propriedades intelectuais parte central desse arranjo. A sociedade da inteligência artificial é a da prosperidade empresarial baseada na capacidade de ganhar mais com menos calorias, limitada setorialmente pela redução do poder aquisitivo da classe média.

A conclusão parece ser que o brasileiro precisa mudar de foco e empreender —assim como os americanos. Porém, o índice que mede a atividade empresarial total (TEA, 2025) coloca o Brasil quase em pé de igualdade com os Estados Unidos. A razão é simples: tanto lá quanto aqui, mais de dois terços dos que empreendem o fazem por necessidade e, na prática, apenas embalam e vendem o próprio suor.

Em contraste, a trilha da prosperidade empresarial passa pela alteração na distribuição dos custos operacionais (Opex), com mais gastos com executivos visionários e tokens de IAs agênticas e menos com salários em geral.

Esses tokens são créditos conversíveis em trabalho que as organizações de todo o mundo adquirem das big techs. Como esse fluxo aquisitivo é essencial sob o novo paradigma produtivo, as empresas de tecnologia tornam-se sócias “de facto” de praticamente todas as firmas do mundo, na linha das bandeiras e adquirentes, que, ao cobrarem entre 2 e 3% nas vendas de cada loja, tornam-se sócias ocultas em 6 a 9% do varejo global. É isso que explica o comportamento hiperbólico dos fundos de investimento e as aquisições bilionárias para ficar com as pessoas, como no caso de Alexandr Wang, que custou US$ 14,3 bilhões.

A IA será responsável por uma das maiores transferências espontâneas de valor de todos os tempos, enriquecendo os Estados Unidos, a China e alguns outros países, como Holanda e Israel, mas não a América Latina, que sofrerá ainda com a redução do “offshoring” industrial por razões não tributárias, algo bem mais difícil de reverter. No cômputo geral, o mundo ficará menos globalizado, mais desigual, interna e externamente, e bem mais produtivo.

 

Ary Ramos
Ary Ramos
Doutor em Sociologia (Unesp)

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