A economia da turbulência: crise e incertezas nos EUA e na UE

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Estados Unidos, Grécia, Irlanda, Espanha, Itália ou Portugal, a crise das economias mais desenvolvidas finalmente se instalou e seus impactos são, até agora, impossíveis de serem mensurados, os números são altos, assustadores e imprecisos e servem apenas para aumentar a combustão e o desequilíbrio do Sistema Financeiro Internacional, neste momento os teóricos do marxismo são os que pareciam acertar em suas previsões, diziam de forma clara e eloqüente que o capitalismo cria seu próprio coveiro, que é o sistema que mais gera riqueza na sociedade mas, infelizmente, concentra tal riqueza nas mãos de poucos e cria uma situação de pobreza e miséria crescentes, tornando o sistema inviável no médio ou longo prazo, se estas previsões feitas no final do século XIX pelo grande pensador alemão Karl Marx estiverem certas, o mundo está diante de uma crise de grandes proporções, cujos impactos são difíceis de serem previstos.

Diante desta situação o mundo se inquieta, as instituições multilaterais construídas no pós-guerra, os governos dos países desenvolvidos e os neófitos integrantes dos Brics se unem para salvar a “sociedade internacional” e evitar a bancarrota dos países e da estrutura econômica global, que geraria uma destruição sem precedentes na humanidade e transformaria os desajustes gerados pela crise de 1929 um simples desequilíbrios regionais, tímidos quando comparados ao que está se desenhando no horizonte.

Mais quais são as raízes desta crise? E porque este sistema econômico apresenta tanta instabilidade? Tanta destruição nos setores produtivos são sintomas de que o modelo capitalista de produção é um sistema incapaz de agregar mais pessoas e construir uma sociedade mais igualitária para todos os indivíduos? E a economia brasileira como vai se comportar nesta instabilidade internacional? Será que vamos sobreviver incólume como na anterior ou seremos mais afetados e, com isso, teremos perdas mais consideráveis? São tantas as perguntas e de tão complexa discussão, que, neste espaço, iremos apenas iniciar uma reflexão.

Recentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) refez as contas do crescimento da economia mundial, nesta nova análise a instituição reduziu as taxas de crescimento de todos os países e regiões, dando mostras claras de que a economia está se desacelerando e, com isso, gerando cenários nebulosos para todos os países, não apenas os desenvolvidos, mas também os em desenvolvimento, os chamados eufemisticamente de emergentes, como o Brasil.

Uma desaceleração da economia dos Estados Unidos da América e da União Européia traria para todas as regiões do mundo, uma desaceleração geral, reduzindo os fluxos comerciais entre países, estes países são caracterizados como grandes consumidores, importam muitos produtos e, com isso, dinamizam a economia internacional e estimulam a produção e a geração de empregos nos países exportadores, a retração de consumo nestas regiões impactaria nos fluxos comerciais de toda a economia global, países como a China, grande produtor de produtos industriais seria afetado diretamente, sua economia reduziria suas vendas externas e forçaria seus dirigentes a ajustes econômicos e políticos, cujos resultados seriam, até então, de difícil projeção para a sociedade internacional.

A economia norte-americana está numa situação de apreensão, os setores mais prejudicados estão se mobilizando para pressionar o governo a adotar políticas mais efetivas para estimular a geração de empregos, recentemente o presidente Barack Obama lançou um pacote de incentivo ao emprego de mais de US$ 400 bilhões, que para muitos analistas econômicos parecem tímidos em face dos graves problemas da economia, o problema premente do país está atrelado à falta de credibilidade dos agentes econômicos, que, mesmo tendo recursos financeiros em caixa, se mostram amedrontados pelos indicadores negativos e restringem seus investimentos, propagando grande instabilidade nos consumidores, que se retraem e geram graves constrangimentos aos setores produtivos aumentando o desemprego, que está próximo dos 10%, algo impensado para um país que sempre se caracterizou como a pátria das oportunidades, do emprego e da ascensão social.

A situação européia não nos parece melhor, seu quadro é desolador, os países fazem reuniões constantes e pouco se decide, o sistema bancário europeu nos parece combalido pelas incertezas geradas pelo possível default grego, que levariam muitos bancos a graves constrangimentos financeiros, o que obrigaria o Banco Central Europeu (BCE) a um resgate altíssimo, alguns analistas calculam o resgate em mais de 200 bilhões de euros, que necessitaria da ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI), cujas reservas financeiras nos parece insuficiente para tal tão arrojada movimentação.

Neste ambiente de incertezas encontramos espaço para movimentos variados da população, cidadãos europeus e norte-americanos se lançam em novas reivindicações, protestos se alastram pelo mundo todo e, agora chegam aos Estados Unidos, neles encontramos estudantes, desempregados, ex-militares, funcionários públicos, professores, sindicalistas, marxistas, punks, ambientalistas, artistas, anarquistas, manifestantes dos movimentos negros, defensores dos direitos dos homossexuais, intelectuais, etc. Estes grupos sociais se unem, num movimento que está sendo denominado “Ocupem Wall Street”, para fazer reivindicações contra os graves problemas que a sociedade vive, o crescimento desproporcional do setor financeiro que detém 40% de todo o lucro da economia norte-americana, algo assustador e jamais visto na história econômica do país, este lucro contrasta com a carência de uma parcela cada vez maior da população, em pesquisa recente constatou-se que, no país, quase 50 milhões de pessoas se encontram em situação de exclusão econômico-social, algo vergonhoso para a maior economia do mundo, detentora de um produto interno bruto de US$ 15 trilhões e um PIB per capita de US$ 50 mil por ano, o que está acontecendo com a economia do país?

As revoltas sociais não se restringem apenas ao tio Sam, a Europa, que vê seu modelo de União Econômica em xeque, também deve se preocupar com a agitação social, sua população sequiosa de perder seus benefícios sociais, tão duramente conquistado nas últimas décadas, se movimenta para preservá-lo, garantir aposentadorias confortáveis, sistemas de saúde e educação de qualidade são motivos de mobilização social para seus cidadãos, que ouvem discursos claros de seus líderes políticos que clamam por austeridade fiscal e redução dos dispêndios dos governos, discursos estes que podem comprometer seus benefícios sociais e mergulhar o bloco em grave crise recessiva, e acabando em definitivo com estes repasses de recursos do Estado, comprometendo a saúde da população.

Os gregos, os italianos, os portugueses, os espanhóis e os irlandeses já se manifestaram nas ruas de suas cidades, foram para suas capitais e deram seus recados para a classe política de seus países, os franceses, os alemães e os ingleses já perceberam que a situação é mesmo preocupante, sabem que neste ambiente de instabilidade e incertezas, podem perder muito, e com isso, comprometerem sua situação social e suas condições de vida num futuro que parece bastante assustador, onde o risco do desemprego se faz presente todos os dias, e pior, a exclusão social gerada pela transformação crescente do mercado de trabalho.

A população se mobiliza porque receia algumas medidas que estão sendo cogitadas nos círculo de poder político e nos ambientes financeiros nacionais e internacionais, governos sofrem pressões constantes de organismos internacionais e multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (Bird), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco de Compensação Internacional (BIS), para injetar recursos nos bancos combalidos pela crise financeira, cujos balanços estão bastante deteriorados pelas exposições agressivas e medidas arriscadas tomadas anteriormente, sem o socorro governamental, destacam os defensores deste socorro, estes bancos brevemente perderão recursos, gerando graves desequilíbrios para os setores produtivos, afetando o lado real da economia e aumentando o desemprego no sistema, de outro lado, os trabalhadores se movimentam e reivindicam claramente que, como existe dinheiro e recursos monetários para salvar os bancos e o sistema financeiro e não tem para socorrer a população que se encontra em situação de medo e desesperança, o que fazer nesta situação?

Neste ambiente, destacamos a inexistência de líderes inteligentes e engenhosos, estamos numa sociedade onde não encontramos lideranças criativas e experientes que encontrem soluções mais imediatas e deixem de postergar uma situação que remonta vários anos e cujos impactos sobre a comunidade internacional se arrasta e compromete a credibilidade dos agentes políticos, tão combalidos diante dos escândalos constantes e políticas desastrosas, que promovem guerras e instabilidades onde deveriam construir ambientes de harmonia e estabilidade, como forma de legitimar seus mandatos democráticos concedidos pela população de seus países, mas só criam medo e agitação social e leva seus cidadãos a lembrar de lideranças inteligentes, visionárias e capacitadas, como Winston Churchill e Franklin Delano Roosevelt, líderes que ficaram para a história e deveriam inspirar os representantes da atualidade.

O mundo vive momentos interessantes e impressionantes, os grandes sucumbem diante da crise internacional, os detentores de fortunas de outrora se organizam na atualidade para continuar detendo poder e os emergentes, que durante muitos anos foram vítimas de suas experiências econômicas e financeiras, utilizados como laboratórios de suas políticas de liberalização, desregulamentação e privatização são vistos hoje como os únicos em condições de promover uma ajuda eficiente e duradoura.

A sociedade mundial encontra-se num período bastante perigoso, as decisões de cunho econômico-político que forem implantadas neste momento tendem a influenciar os rumos e os comportamentos dos agentes sociais, estimulando novos investimentos ou reduzindo-os imensamente, o risco moral tão propalado nos meios acadêmicos e intelectuais, pode criar um grande constrangimento para o sistema capitalista, inviabilizando-o no longo prazo e deixando claro para todos que este modelo serve para poucos iluminados, são estes os grandes ganhadores, que acumulam lucros crescentes com a produção e garantem ganhos mirabolantes com a especulação financeira e quando se arriscam demasiadamente, colocando seus recursos em situações críticas são salvos pelos governos, criando e perpetuando a desigualdade e a desesperança no mundo contemporâneo.

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