A política do século 20 se foi para sempre, por Yascha Mounk.

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Em algumas democracias, partidos social-democratas parecem estar prestes a desaparecer por completo

Yascha Mounk O cientista social Yascha Mounk é professor associado na Universidade Johns Hopkins e autor de “O Povo contra a Democracia”.

Folha de São Paulo, 25/05/2021

Nos últimos anos uma sucessão interminável de autores previu a morte da social-democracia.

Eles tinham razão, em parte: os tempos áureos da social-democracia nunca vão voltar. Mas também estavam em parte errados: outros partidos-ônibus, como os democratas cristãos, também se encaminham para a lata de lixo da história.

Na era do pós-Guerra, partidos social-democratas conquistaram uma grande parcela dos votos em virtualmente todos os países europeus, em partes da América Latina e em países que vão da Austrália a Israel. Eles eram um dos dois principais “Volksparteien”, ou “partidos do povo”, na França, na Alemanha e no Reino Unido. Dominaram a política nos países escandinavos.

Desfrutaram períodos no poder no Reino Unido, na Austrália e em boa parte da América Latina. Na virada do século, ainda parecia provável que exerceriam um papel crucial no século 21.

Desde então, os partidos social-democratas se enfraqueceram significativamente em quase todas as grandes democracias. Em algumas delas, parecem estar prestes a desaparecer por completo.

Na França, o Partido Socialista se viu reduzido a 25 cadeiras na Assembleia Nacional e mal tem chance de participar do segundo turno das eleições presidenciais do próximo ano. Na Alemanha, a parcela do voto dada ao SPD encolheu
pela metade ao longo de 20 anos. No Reino Unido, Tony Blair ainda é o único político trabalhista em mais de meio século a ter conquistado um mandato para governar, e o Partido Trabalhista agora está sendo eviscerado em sua base tradicional do nordeste proletário do país.

Na Escandinávia, os social-democratas deixaram há muito tempo de ser o partido naturalmente governante. E, do Peru a Israel, os partidos tradicionais de centro-esquerda foram eviscerados.

Existem algumas razões específicas que motivam os estertores de morte da social-democracia. O proletariado deixou de ser um contexto social coeso. Como observou o político trabalhista britânico Douglas Alexander após a última eleição no Reino Unido: “Oferecemos aos eleitores um passeio até o museu local de mineração. Eles queriam ir à EuroDisney”.

Em consequência disso, partidos de centro-direita, como o Conservador britânico, ou de ultradireita, como o Rassemblement Nationale francês, hoje recebem a maioria dos votos da classe trabalhadora.

As previsões amplas se concretizaram: a social-democracia está morta. Mas, como vamos descobrir, os social-democratas não passavam da vanguarda de uma tendência muito mais ampla: o declínio e queda dos partidos-ônibus do século 20 de qualquer vertente ideológica.

Numa escala de tempo mais longa, os democratas cristãos vêm sofrendo um declínio semelhante. Os Republicanos franceses estão se saindo apenas marginalmente melhor que o Partido Socialista.

Os democratas cristãos alemães caíram para 23% nas sondagens atuais, atrás dos Verdes. Na Itália, a Lega, de ultradireita, que tem raízes separatistas, é hoje o principal partido de direita, seguida pelo Irmãos da Itália, de ultradireita, que tem raízes fascistas. E, do Brasil aos Estados Unidos, os partidos tradicionais de centro-direita foram capturados ou derrotados por populistas de ultradireita.

As razões disso correm em paralelo com a razão que explica a queda dos social-democratas. Assim como restam poucos proletários no século 21 (e os que existem tendem a ser culturalmente de direita), também restam poucos burgueses no século 21 (e aqueles que existem tendem a ser culturalmente de esquerda).

Mas não é apenas que os dois ambientes tradicionais das principais famílias partidárias europeias estejam desaparecendo —é que as perguntas para as quais eles trazem respostas deixaram de figurar no epicentro da política.

Quatro ou cinco décadas atrás, uma pergunta simples lhe permitiria adivinhar em quem votara uma pessoa na França ou na Suécia, no Peru ou na Austrália: “Você preferiria ter um Estado de bem-estar social maior e pagar mais impostos ou ter um Estado de bem-estar social menor e pagar menos impostos?”.

Aqueles que optavam pelo Estado de bem-estar social maior —predominantemente mas de modo nenhum exclusivamente proletários— provavelmente votavam em social-democratas. Os que optavam por impostos mais baixos – predominantemente mas de modo nenhum exclusivamente burgueses—provavelmente votavam em conservadores ou democratas cristãos.

Hoje o campo de batalha principal da política passou das questões econômicas para as culturais.

Questões relativas a alíquotas de impostos e o Estado de bem-estar social são menos cruciais para a política do que eram no passado. Portanto, se você quiser saber se um eleitor se identifica como sendo de esquerda ou direita, provavelmente terá que lhe fazer algumas perguntas culturais sobre imigração, patriotismo ou possivelmente sobre a confiança nas instituições de elite.

Pelo fato de seus eleitorados tradicionais terem visões divergentes sobre essas questões culturais, os partidos-ônibus tradicionais têm grande dificuldade em desenvolver um perfil claro em relação a essas questões. E, por isso, pelo menos em países ricos, eles estão sendo substituídos rapidamente por movimentos que foram fundados para responder a questões culturais, não econômicas.

A política do século 21 tem muito mais chances de ter a cara da batalha de Emmanuel Macron contra Marine Le Pen, ou do Partido Verde alemão contra o partido de direita radical Alternativa para a Alemanha, do que de parecer uma disputa entre social-democratas e democratas cristãos.

Quer você ame ou odeie o fato, a política do século 20 ficou para trás. As tentativas de ressuscitá-la acabarão inevitavelmente em fracasso.

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