Agonia docente

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A sociedade pós-moderna passa por grandes mudanças estruturais, as movimentações de capitais e pessoas abrem novas oportunidades aos indivíduos e criam novos desafios, obrigando cada trabalhador a uma constante atualização, sob pena de se afastar de seu posto de trabalho e ser esquecido como um agente social, sendo relegado à marginalidade.
Nesta sociedade a educação passa a ter um papel fundamental, a formação dos trabalhadores deve ser cada vez mais consistente, acumular informações e desenvolver habilidades é uma forma sólida de manter-se num ambiente competitivo e em constante mutação, obrigando o indivíduo ao estudo sistemático, algo que o trabalhador não foi treinado.
Diante desta realidade o professor e o profissional da educação devem ser vistos de forma especial, como desenvolver as habilidades intelectuais dos indivíduos e dos trabalhadores sem canalizar esforços sérios e efetivos para melhorar a qualidade dos profissionais da educação de uma forma geral, e dos professores de uma forma específica? Esforços generalizados são necessários não só por parte do governo federal, mas de todos os entes federativos, os estados e os municípios tem um papel central e devem contribuir, criando um verdadeiro arrastão em prol da educação brasileira.
A situação geral é assustadora, quando comparamos o Brasil a outros países os números são péssimos, estamos mal colocados em matemática, em ciências e em línguas, ou seja, estamos quase na lanterna de um campeonato que pode nos levar à glória ou ao fracasso, sendo que este último destrói sonhos e cria uma leva imensa de excluídos e miseráveis, comprometendo ou até inviabilizando o país nos próximos anos.
Neste quadro encontramos um paradoxo evidente, somos citados como uma das grandes potências em expansão do mundo contemporâneo, alguns nos colocam como um país emergente que terá um papel central no mundo nas próximas décadas, estamos inseridos no G20 (grupo dos vinte países mais desenvolvidos do mundo) e somos membros dos BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China, somos chamados para as grandes cúpulas internacionais, mas internamente não conseguimos definir os rumos da educação e o que queremos para o país nas próximas décadas, uma escolha fundamental para o futuro do país.
A educação de qualidade é a única forma de elevar o Brasil para uma posição de destaque no mundo contemporâneo, a economia só vai conseguir se expandir de forma sustentada se o gargalo educacional for resolvido, alguns passos importantes foram dados nos últimos quinze anos, mas insuficientes. Saímos de um sistema elitista para um modelo de massa, nesta transição percebemos que a qualidade do primeiro não foi transferida para o segundo, estamos criando analfabetos funcionais e estamos chamando isto de formação profissional, as conseqüências imediatas são várias e a mais nítida é que o ensino ainda é muito fraco e nosso trabalhador não tem condições de concorrer com países que fizeram esta transição com mais êxito e colhem hoje um resultado mais efetivo.
Como podemos pensar em ensino de qualidade quando as universidades privadas colocam em uma sala de aula turmas com 70 ou 80 alunos, nelas os professores devem prender a atenção do aluno para evitar a evasão escolar, e estas quando acontecem são registradas na conta dos mestres, afinal estes não foram competentes o suficiente para manter o aluno em sala, uma visão míope e com graves conseqüências para o futuro. Como pensar em educação de qualidade quando observamos o salário do professor brasileiro, seu contra-cheque é ridículo, como imaginar que a carreira fundamental para formar a inteligência nacional ganha salários tão reduzidos, salários estes que seduzem apenas os piores alunos e condenam o magistério a um circulo vicioso de degradação e ineficiência, reverter esta equação e atrair os melhores quadros escolares para a carreira docente é o desafio central de todos, pois esta é a única forma de transformarmos o Brasil de um país emergente em um país desenvolvido e justo.
Estamos em uma sociedade marcada por choques culturais tremendos, vivemos na sociedade, e na educação em especial, conflitos geracionais entre os Baby Boomers (BB), a geração X e a geração Y, exigindo dos profissionais da educação várias habilidades, atualizações e conhecimentos constantes, somamos a tudo isso uma onda constante de atualizações que levam o profissional ao limite, abrindo espaço para conflitos emocionais íntimos, levando-o à depressão, ao estresse e a obesidade, além de drogas e síndromes variadas, lotando os consultórios de terapeutas, psicanalistas e psiquiatras ou aumentando a demanda por clinicas de repouso e internações.
Outro ponto interessante que não posso deixar de ressaltar é o interesse dos alunos, é comum observar profissionais na mídia defendendo teses e teorias que salientam que os alunos do Brasil contemporâneo estão cada vez mais atentos e interessados, buscando qualificação constante e exigindo cada vez mais dos profissionais da educação, confesso que não conheço estes alunos, em 15 anos de docência no ensino superior o que vejo me assusta cada vez mais, não apenas nas instituições privadas, mas também nas públicas, os alunos chegam cada vez mais despreparados nas universidades, a leitura é algo inexistente, senso comum não existe imagine o senso crítico, o cenário é assustador vale refletir sobre este quadro, mas deixando de lado paixões e sentimentos arraigados que não resolvem o problema, nenhum governo terá êxito na resolução deste gargalo enquanto a sociedade não tomar a frente exigir uma revolução na educação.
Devemos destacar ainda que os conteúdos da educação são fundamentais para a formação dos indivíduos (futuros trabalhadores e cidadãos), estudar é um ato central, agora o que estudar também é primordial, as universidades devem abordar conteúdos variados e formar uma massa crítica para a vida e não apenas para o mercado e para o emprego imediato, cabe às empresas, aos bancos e aos demais empregadores se conscientizarem de que a educação não deve ser desenvolvida apenas para a geração de emprego, o papel da educação é muito maior, o desafio é criar cidadãos conscientes de seus direitos e deveres, formar indivíduos que possuam capacidades múltiplas para compreender o mundo contemporâneo, analisar os desafios do meio ambiente, o desperdício de alimentos e a questão energética, além da importância da água e o respeito ao trânsito e a convivência em coletividade, estes devem ser os objetivos do setor educacional, se estes forem perseguidos com afinco, com certeza, todos os outros serão atingidos e a capacitação para o trabalho será mais sólida e consistente.
Devo destacar ainda que para conseguir atrair bons alunos e dar oportunidades maiores para nossos jovens, tirando-os das ruas e abrindo espaço para um futuro melhor, a sociedade precisa transformar a educação em algo instigante, muitos jovens em idade de estudar abandonam os estudos porque estar na universidade ou na faculdade significa deixar de trabalhar, isto porque muitas famílias pobres contam com a renda dos seus filhos para sobreviver, diante disso, o governo deveria pensar em um instrumento alternativo para atrair estes jovens, uma proposta que deve ser implementada é a concessão de recursos financeiros para o aluno estudar, este auxílio concedido pelo estado não poderá ser de apenas R$ 50,00, mas de um salário mínimo, justamente para suprir o salário do jovem na família, fazendo com que este não deixe de estudar e aumento os números de evasão escolar.
Existe uma equação que deve ser perseguida pela sociedade e pelos formuladores de políticas públicas, que devem se atentar para isso todos os instantes, educação de qualidade se faz com bons profissionais, salários dignos, condições de trabalho adequadas, estimulo à qualificação constante, infra-estrutura eficiente, pesquisa e extensão comunitárias e reconhecimento profissional, só assim vamos atrair para a carreira docente os melhores alunos que se tornarão os melhores profissionais, e que desta forma contribuirão para a melhoria da educação e pelo desenvolvimento do país, alçando assim não mais o posto de um país emergente, mas recebendo o título de país desenvolvido.

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