Allan Kardec, o Espiritismo e o mundo dos espíritos

0
898

Em meados do século XIX, a sociedade parisiense foi chacoalhada com as informações trazidas pelo pedagogo francês Hippolyte Leon Denizard Rivail, cujas teses descortinavam o mundo material e trouxeram novos instrumentos de análise, denunciando o materialismo e abrindo novos espaços para o progresso da sociedade global, o teor da novas teorias eram tão transformadoras que o intelectual francês passou a assinar suas obras com um pseudônimo, Allan Kardec, surgia neste momento O livro dos Espíritos, publicado em 1857, cujas questões debatidas se pareciam muito mais com um tratado religioso, moral, ético e científico, uma verdadeira obra multidisciplinar, versando profundamente sobre temas variados.

O século em questão apresentou grandes descobertas científicas e tecnológicas que auxiliaram no progresso da sociedade mundial, muitas das grandes inovações que estão, na atualidade, impulsionando a economia global, tiveram início naquele momento, dentre elas destacamos as descobertas do evolucionismo de Charles Darwin, os debates sobre o capitalismo como modelo dominante e excludente, estimuladas por Karl Marx e Friederich Engels, as revoluções geradas pela energia elétrica, ferrovias, o telefone e o telégrafo, além de outras grandes teorias e pensamentos sociais que impactaram sobre a coletividade.

Neste século, a Igreja ainda detinha poderes na sociedade europeia, embora seu poder estivesse restrito a algumas regiões do continente, dentre estas destacamos a península Ibérica, Portugal e Espanha, países muito afetados pelo poderio da religião católica, que ainda controlava muitas áreas e setores, dominando ainda as obras e os livros que eram publicados nestes países, influenciando tudo que os fiéis liam e pensavam, uma verdadeira política de alienação.

A Igreja detinha poderes especiais nestas regiões da Europa, materializados no chamado Santo Ofício, todos os livros de cunho religioso que, por ventura, fossem publicados na região deveriam passar pelo crivo da Igreja Católica, diante destas exigências a instituição impunha censura a algumas obras que achasse que estavam em desacordos com os seus princípios. Em 1861, num episódio que recebeu o nome de Auto da fé de Barcelona, cerca de 300 obras espíritas, de autoria de Allan Kardec e de outros correligionários, foram confiscadas pelo bispo de Barcelona e queimadas ao ar livre, sem que tenha havido qualquer ressarcimento aos credores. Apesar dos prejuízos financeiros, o atentado acabou por despertar ainda mais interesse do povo da região pela Doutrina Espírita, além de inflamar a já crescente revolta popular contra o absolutismo da Igreja Católica.

As pesquisas do pedagogo francês tiveram início em 1854, quando tomou contato com os fenômenos das mesas girantes, um fenômeno até então inexplicável, onde as pessoas rodeavam as mesas e faziam perguntas que eram prontamente respondidas pelos espíritos, uma situação que levou as elites francesas a grande agitação e movimentou a sociedade da época, gerando curiosidades, medos e interesses variados, atraindo pessoas de várias cortes da Europa. Analisando os fenômenos com grande atenção e reflexão crítica, percebe que os acontecimentos eram deveras complexo e necessitava de grandes estudos, lançando assim as bases para aquilo que viria a ser conhecido como a Doutrina dos Espíritos, unindo a religião, a ciência e a filosofia.

O pedagogo francês nasceu em 1804 e começou seus estudos e contribuições para a codificação apenas em 1854, ou seja, mais de cinco décadas depois de seu nascimento, isto só aconteceu porque neste período os ventos da inquisição e a força da Santa Sé ainda eram fortes e violentos na região, somente com o enfraquecimento destes ventos é que foi possível o surgimento de novas ideias religiosas. Neste instante Hippolyte Leon Denizard Rivail, posteriormente Allan Kardec, inicia seu apostolado como codificador e grande difusor do pensamento espírita, faz-se importante deixar claro que as contribuições do pedagogo foram fundamentais, mas a Doutrina Espírita não é obra de um único homem, a Doutrina é obra de um conjunto de espíritos de alta luminosidade que trouxeram ao mundo a chamada Terceira Revelação prometida por Jesus Cristo.

Num período de quinze anos, 1854/1869, o pedagogo francês se transformou no maior estudioso destes fenômenos sobrenaturais, buscando informações variadas, lendo e pesquisando todos estes movimentos e escrevendo tratados e livros que foram comercializados em todas as regiões do mundo, nascia neste momento, pelas mãos de Allan Kardec, uma nova religião, descrita também como uma ciência e uma filosofia, o Espiritismo, que surge para nos mostrar que existiam muitas coisas invisíveis ao olho dos seres humanos, mas presente de forma inerente nos olhos do espírito.

O escolhido para a missão apresentava características especiais, suas credenciais eram volumosas, seus estudos e pesquisas na área da educação, influenciado pelo pensador suíço Johann Heinrich Pestalozzi lhe garantiram instrumentos teóricos e analíticos para compreender as mudanças em curso na sociedade, no mundo da educação e do conhecimento e conduzir a sociedade neste novo momento histórico, onde o mundo material não mais se tornaria um imenso mistério e, aos poucos, seria descortinado de forma simples, intensa e com grande capacidade analítica e de reflexão.

As obras de Allan Kardec, inicialmente O Livro dos Espíritos (1857), O livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), Céu e Inferno (1865),  e A Gênese (1868), além destas, destacamos ainda a fundação da Revista Espírita (1868), que nos mostraram que a vida não se encerra na matéria, que todos nós somos irmãos e somos interdependentes, que a morte não existe e que a verdadeira vida se dá no mundo espiritual, a matéria pode ser descrita como um momento de reencontro e progresso conjunto, onde recebemos de acordo com as nossas escolhas individuais, se passamos por dificuldades, é porque plantamos equívocos em vidas anteriores e, nesta encarnação, expiamos os nossos erros e equívocos, todos caminhamos para o progresso, a Doutrina dos Espíritos é progressista, este progredir pode demorar mais ou menos tempo, isto depende de cada indivíduo, uma doutrina que defende a verdadeira meritocracia.

Os ensinamentos trazidos pela doutrina dos espíritos impactaram diretamente em variados setores da sociedade, mexeram com as estruturas de poder e influenciaram decisões, hábitos e comportamentos, levaram indivíduos a se conscientizarem das suas dificuldades e passaram a ver a ciência como uma aliada da religião, restabelecendo uma parceria que tinha sido desfeita pela dominação mantida pela Igreja, que via na ciência um empecilho para seu intenso domínio, alienação mental e controle social.

Ao descortinar uma nova sociedade e mostrar que a morte, sempre tão temida pelas sociedades, não existe, que morrer é, na verdade, uma passagem para um outro mundo, o mundo dos espíritos, uma sociedade nova se abre para os indivíduos. O espiritismo traz uma visão de que Deus é um ser soberanamente justo e bom, que não nos pune por nossos erros e equívocos, quando erramos passamos por um processo de educação, as dificuldades devem ser vistas de forma diferente, não como punição divina, mas como um processo de autoeducação.

Hippolyte Leon Denizard Rivail se impessoalizou para codificar a Doutrina dos Espíritos, abandonou seu nome e adotou um pseudônimo, Allan Kardec, que era um de seus nomes em encarnações anteriores, quando viveu na pele de um druida, na região da Gália, adotou um pseudônimo como forma de se desvencilhar de suas ideias anteriores, mesmo assim, como grande intelectual francês, metódico, disciplinado, respeitado e competente educador, trouxe à nova revelação um caráter de maior credibilidade, respeitabilidade e confiabilidade, angariando para o movimento adeptos respeitados e estudiosos conscientes das novas ideias como instrumento de renovação da sociedade, não apenas a europeia, mas toda a sociedade mundial.

Além das obras e dos artigos que escreveu, Allan Kardec divulgou a Doutrina Espírita por todas as regiões da Europa, fez conferências e seminários em inúmeras salas e salões, participou de debates e entrevistas para jornais e revistas, além destas atividades, e da fundação da primeira casa espírita, o codificador foi o responsável pela primeira livraria espírita e pela primeira revista dedicada inteiramente ao movimento espírita (inaugurada em 1858), seu pioneirismo e exemplo de seriedade e dedicação a causa trouxe para o espiritismo um grande número de adeptos e apoiadores, que mesmo com seu desencarne trouxeram bons frutos que se espalharam para a sociedade mundial, principalmente para o Brasil, atualmente a nação que mais abraçou o movimento espírita, o que motivou o livro clássico de Humberto de Campos, intitulado: Brasil: coração do mundo, pátria do evangelho, que destaca o papel fundamental da nação brasileira neste instante de renovação e de grandes transformações da sociedade mundial.

            O movimento espírita tem em Allan Kardec seu grande divulgador, suas ideias estão apoiadas nas contribuições trazidas pelo espírito da verdade e por um grande contingente de espíritos que participaram da codificação, entidades altamente avançadas nas mais variadas áreas e setores que, ao serem indagados por Kardec, descortinaram assuntos variados e de grande importância para a sociedade, pensamentos estes baseados nos ensinamentos de Jesus Cristo, o maior espírito que passou pelo planeta Terra, considerado pelo movimento espírita o Governador do Planeta Terra, suas contribuições foram tamanhas que a sociedade se dividiu entre o antes e o depois de Jesus Cristo, com isso, percebemos que a Doutrina dos Espíritos tem na religião uma de suas bases mais consistentes, aliando ainda a Ciência e a Filosofia, mas como nos diz o doutor Inácio Ferreira, a base da doutrina está e sempre estará em Jesus Cristo.

Com sua morte precoce, Allan Kardec recebeu bela homenagem e foi seguido por intelectuais de respeito que abraçaram a Doutrina dos Espíritos e deram prosseguimento a suas obras, dentre seus seguidores mais conhecidos, podemos citar Leon Denis, Gabriel Delanne, Arthur Conan Doyle, Camille Flamarion, Cesare Lombroso, entre outros. Todas estas personalidades se destacaram em suas áreas de atuação, todos eram intelectuais e pensadores, além de cientistas que viam no Espiritismo uma doutrina afeita as descobertas científicas, como sempre destacou Kardec: “…Se o Espiritismo disser uma coisa e a Ciência disser outra, fique com a Ciência”.

            Ao contrário de outras crenças e filosofias religiosas, a Doutrina Espírita não cultua santos e personalidades, sabe que todos temos qualidades e defeitos, respeitamos as pessoas, suas ideias e pensamentos, diante disso, percebemos a importância de Allan Kardec para o espiritismo e para a humanidade de uma forma geral, defendemos seu legado, sua história, suas contribuições e todas as informações preciosas que nos trouxe, mas sem cultos exteriores e práticas de canonização como outras o fazem constantemente.

As revelações trazidas em O livro dos Espíritos mostravam uma realidade diferente daquela defendida pela religião dominante, destacava a existência de um Deus amoroso, analisava o sofrimento por uma ótica diferente, defendia a inexistência do céu e do inferno e mostrava claramente a importância das leituras e dos estudos constantes, instrumentos de crescimento e desenvolvimento do ser humano.

Ao matar a morte e defender abertamente a existência do mundo espiritual e a continuidade da vida, a Doutrina mostra a importância do ser bom, do fazer o bem, da oração e do pensamento positivo, somente tendo consciência da importância da vida e do viver é que os seres humanos poderão ter consciência de que tudo que existe no mundo, desde as coisas mais simples as mais complexas, nasceram de um único ser, o Deus todo poderoso que criou o homem a sua imagem e semelhança.

A Doutrina dos Espíritos nos mostra a importância da reencarnação, sem ela temos dificuldades de compreender a bondade de Deus, sem ela temos grande dificuldade de entender a noção e a importância do conceito de meritocracia, se o mundo acaba com a morte do corpo físico, como podemos ser julgados se muitos nascem na bonança e no progresso material e emocional, enquanto outros nascem na miséria e na indigência.

Allan Kardec nos mostra que o verdadeiro homem novo é aquele que está sintonizado nas mudanças do mundo, aquele que busca se analisar constantemente e compreender suas limitações e potencialidades e, constantemente busca sua evolução, pois existem muitas moradas na casa de meu pai e todos temos consciência disso.

No momento de seu sepultamento, os discursos emocionados e as honrarias eram constantes, dentre elas, destacamos a do colega, admirador e astrônomo francês Camille Flamarion, que proferiu um longo discurso, ontem enfatizou: “Voltaste a esse mundo donde viemos e colhes o fruto de teus estudos terrestres. Aos nossos pés dorme o teu envoltório, extinguiu-te o teu cérebro, fecharam-se-te os olhos para não mais se abrirem, não mais ouvida será a sua palavra… Sabemos que todos havemos de mergulhar nesse mesmo último sono, de volver a essa mesma inércia, a esse mesmo pó. Mas, não é nesse envoltório que pomos a nossa glória e a nossa esperança. Tomba o corpo, a alma permanece e retorna ao espaço. Encontrar-nos-emos num mundo melhor e no céu imenso onde usaremos das nossas mais preciosas faculdades, onde continuaremos os estudos para cujo desenvolvimento a Terra é teatro por demais acanhado. (…) Até à vista, meu caro Allan Kardec, até a vista!”

DEIXAR RESPOSTA

Por favor digite seu comentaário
Digite seu nome