Anatomia golpista remete à Comissão da Verdade, por Marcos Augusto Gonçalves

0
33
Brasília - Tumulto e confusão marcaram sessão da Câmara do Deputados sobre 50 anos do golpe militar de 1964 (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Insatisfação militar com apurações e voto de Bolsonaro no impeachment prenunciavam golpismo

Marcos Augusto Gonçalves, Editor da Ilustríssima, formado em administração de empresas com mestrado em comunicação pela UFRJ. Foi editor de Opinião da Folha.

Folha de São Paulo, 09/02/2024

Os primeiros sinais mais enfáticos de politização e insatisfação de setores das Forças Armadas, em especial do Exército, começaram a ser notados após a instalarão da Comissão da Verdade durante o governo de Dilma Rousseff.

No dia 16 de maio de 2012, com a presença dos ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, uma cerimônia no Palácio do Planalto, presidida pela então presidente, que tinha um passado de militância em organização de esquerda da luta armada, deu início aos trabalhos, embasados em lei aprovada no ano anterior.

Tratava-se, nas palavras de Dilma, de reconhecer que “o Brasil merece a verdade, as novas gerações merecem a verdade e, sobretudo, merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo”. O principal objetivo seria apurar episódios de desaparecimento de mais de uma centena de opositores da ditadura, sem registro de prisão, que teriam sido sequestrados por agentes da repressão.

Em que pesem as ressalvas de que não haveria ódio ou revanchismo, a comissão, que apresentou relatório em 2014, foi muito mal recebida por militares, que viam na iniciativa a quebra de um pacto estabelecido em torno da anistia.

A contrariedade com as apurações e com as pressões que se avolumavam para levar militares a julgamento espalhou-se e chegou à cólera, notadamente entre os mais radicais, ligados aos chamados porões da ditadura, os subterrâneos da tortura e da eliminação de oponentes.
Na votação do impeachment, ao se formalizar a conspiração que derrotou e depôs a petista, as manifestações de exasperação eram gritantes.

A mais escabrosa veio no voto contra Dilma proferido pelo então deputado Jair Bolsonaro, ex-militar afastado da caserna: “Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve. Contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff. Pelo Exército de Caxias, pelas nossas Forças Armadas, por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim”.

A saudação ao notório torturador e demais considerações eram uma síntese do projeto de governo do futuro presidente. Antes de chegar ao poder, porém, o maior beneficiário da deposição da mandatária, Michel Temer, deu vazão à movimentação militar ao nomear um general para o Ministério da Defesa pela primeira vez desde que a pasta fora criada por Fernando Henrique Cardoso, em 1999 –além de banalizar as requisições das Forças Armadas para operações de segurança.

Na esteira dos abusos cometidos pela Lava Jato, que culminaram na prisão sem solidez jurídica de Lula, veio um novo anúncio do ânimo intervencionista. Por ocasião do julgamento de um pedido de habeas corpus da defesa do ex-presidente ao STF, no início de abril de 2018, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, foi ao Twitter proferir uma ameaça – que de velada de fato nada tinha – às instituições, caso os ministros do tribunal concedessem o pedido.

Ao vencer o pleito, Bolsonaro, como se sabe, entulhou o governo de militares, com direito a general da ativa até na Saúde, cooptou instituições policiais, manipulou a Abin, confrontou o sistema eleitoral, ameaçou o Supremo e tentou articular um golpe de Estado, como agora novas evidências vão reiterando.

Muitos anos (quase oito completos) e muitos panos se passaram desde que o populista celerado da ultradireita anunciou suas intenções na votação do impeachment. Só não viu quem não quis. Felizmente, a democracia venceu.