Armadilhas

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A pandemia está trazendo grandes transformações para a sociedade, criando novos desafios, novas oportunidades e novas preocupações. A sociedade global vive um momento de desesperança, para muitos especialistas, a globalização era uma realidade inexorável e todas as nações deveriam se adaptar, abrir suas economias e se integrar os fluxos de comércio e de finanças. Se não nos adaptássemos aos ventos da globalização seríamos deixados de lado diante do progresso e renegados do desenvolvimento econômico. Na verdade, com as mudanças contemporâneas, alguns mitos estão perdendo espaço, levando a novas estratégias e novas formas de planejamento, não apenas centrados nos governos, mas na integração entre os governos e os mercados. Neste momento, todas as nações que estão superando este momento de incertezas e instabilidades são os que conseguiram construir um projeto nacional.

A pandemia deixou claro para a sociedade que é fundamental um setor industrial moderno e dinâmico, sem isso, nossa dependência será mais visível, deixando claro a nossa pouca autonomia. Sem desenvolver o setor industrial, somos uma nação dependente de insumos farmacêuticos, dependentes da importação de produtos hospitalares, respiradores e outros insumos fundamentais para a tão proclamada independência nacional.

Estamos numa situação de crescimento da dependência externa, somos importadores de produtos que, anteriormente, éramos autossuficientes. Deixamos de lado os sucessivos investimentos em ciência e tecnologia, reduzimos os recursos para os centros de pesquisas e passamos a acreditar que, num momento de instabilidade, seríamos socorridos pelos parceiros internacionais. Ledo engano, percebemos que precisamos construir nossas tecnologias e, para isso, não existe fórmulas rápidas e imediatas, demandam investimentos, focos na pesquisa científica, na formação de capital humano qualificado, ensino da ciência e o estímulo constante ao desenvolvimento da investigação científica.

Sem estes recursos, sem uma política pública concatenada pelos gestores públicos e pelos investimentos privados, vamos continuar formando profissionais de alta qualificação, cujos custos são elevados e, na maioria das vezes são formados por instituições públicas e, sem oportunidades internas e digna remuneração, são contratados por outras nações, cujos investimentos são valorizados no desenvolvimento de pesquisas científicas e tecnológicas.

A globalização nos trouxe grandes transformações, alterou a estrutura produtiva, aumentou os investimentos em ciência e tecnologia, mas ao mesmo tempo, deixou claro a necessidade de um projeto nacional, um plano concatenado que deve unir todos os setores da sociedade e estimulando a construção de um setor produtivo consolidado e diversificado. Nesta empreitada, percebemos que é fundamental a construção de um consenso político, consciente de que os entraves são violentos, tanto internos e externos. De um lado, encontramos grupos ganhadores desta situação de degradação social e pobreza crescentes, pessoas e grupos socais que ganham fortunas com a miséria que degrada a sociedade. De outro lado, países que sempre atuaram para impedir o desenvolvimento das potencialidades deste país, estimulando a perpetuação desta situação de desgoverno, desigualdade e degradação da sociedade.

Precisamos estimular a reflexão e a reconstrução da sociedade, a globalização reduziu os poderes nacionais e transferiu poder para os grandes grupos econômicos e financeiros, reduziu os poderes dos trabalhadores e criando espaços de dependência que ultrapassam as autonomias nacionais, aumentando as fragilidades e reduzindo a soberania.

Neste momento, precisamos retomar o controle dos rumos da sociedade, reconstruindo as estruturas industriais e consolidando nossa soberania. Nesta pandemia, percebemos o incremento da dependência externa, precisamos urgentemente de um grande projeto de desenvolvimento, fortalecendo os setores produtivos, investimento em capital humano e mostrando a importância da ciência nacional, retomando espaços de destaque na sociedade global.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre e Doutor em Sociologia/Unesp, professor universitário. Publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 31/03/2021.

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