Ascensão chinesa

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Nos últimos anos percebemos grandes alterações geopolíticas internacionais, levando países coadjuvantes ao protagonismo, alterando as bases da sociedade global, mudando a estrutura de poder político e o arranjo produtivo. A globalização reestruturou as nações, alguns países estão perdendo espaço e outras nações estão ganhando força, gerando preocupações, medos e constrangimentos.

Dentre as economias que vem ganhando espaço na sociedade global, destacamos a China. De um país intermediário no cenário global, os chineses se tornaram, em curto prazo, um dos grandes jogadores internacionais. A transformação começou no final dos anos 70 com a adoção de um modelo de abertura econômica, atraindo investimentos estrangeiros em parcerias com grupos locais, onde os estrangeiros se comprometeram a transferir tecnologia em troca de um mercado consumidor de mais de 1 bilhão de pessoas. Destas parcerias, pensadas e construídas pelo governo, a China começou a se transformar no grande competidor internacional. Inicialmente nos mercados industriais de baixo valor agregado e, posteriormente, nos produtos de alta tecnologia, ganhando espaço, escala e produtividade, inundando mercados e tornando-se o maior exportador da economia global, desbancando países com tradição exportadora, como a Alemanha e os Estados Unidos.

A ascensão chinesa deve ser compreendida como a construção de um modelo que comunga forte intervenção estatal, políticas pragmáticas em comércio internacional, câmbio desvalorizado, fortíssimos investimentos em ciência e tecnologia, fortalecimentos das empresas estatais, enfoque no cenário global e a busca crescente de incremento de produtividade. Todas estas políticas foram somadas aos fartos empréstimos concedidos por instituições governamentais, com condições favoráveis, taxas de juros reduzidas e pagamentos no longo prazo.

Quarenta anos atrás a China não possuía nenhum conglomerado econômico e financeiro internacionais, atualmente os chineses contam com mais de noventa grandes conglomerados produtivos. Empresas inexpressíveis anteriormente se tornaram grandes grupos econômicos, nomes como Alibaba, Tencent, Baidu, Lenovo, Chery, Huawei, Sinopec, Xiaomi, ICBC, PetroChina, dentre outras. Muitas destas empresas o público brasileiro nunca ouviu falar, são grandes conglomerados econômicos e financeiros dotados de força política e grande capacidade produtiva, que contribuíram para que a China se tornasse o maior setor industrial mundial, com capacidade produtiva de mais de 4 trilhões de dólares. A China não é mais um país exportador de quinquilharias e produtos de baixo valor agregado, neste momento percebemos que os chineses são grandes atores econômicos e que buscam a liderança na economia internacional.

O crescimento econômico da China está transformando a geopolítica internacional, gerando medos e preocupações de países que estão amedrontados com o crescimento chinês. A ascensão chinesa está criando novas oportunidades para países como o Brasil, dono de grandes estoques de produtos primários e commodities, produtos necessários para garantir a segurança alimentar do parceiro asiático. Neste momento, cabe ao Brasil construir uma estratégia para garantir espaços privilegiados de comércio com o gigante chinês, exigindo transferência de tecnologia e fortes investimentos internos no desenvolvimento científico e tecnológico. Cabe a sociedade o fortalecimento de setores estratégicos, estimulando políticas industriais, exigindo contrapartidas viáveis e imediatas e a consolidação de instituições políticas.

Nos anos 80 os chineses vieram conhecer o modelo econômico que garantiu grande crescimento econômico para o Brasil no pós-guerra, desde então os chineses adotaram políticas parecidas com o modelo brasileiro, colhendo crescimento e espaços na geopolítica internacional. Neste ínterim o Brasil se perdeu na ortodoxia, esquecendo da produção e dos setores industriais, abrindo espaço para o crescimento das finanças especulativas, garantindo grandes lucros para os rentistas e nos transformando num paraíso dos juros altos e um inferno para os empreendedores e dos vocacionados para o desenvolvimento econômico.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno de Economia, 12/05/2021.

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