Bolsonaro nunca foi o candidato ideal da nova direita, diz cientista política

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Para Camila Rocha, presidente pode se ‘divorciar’ de Paulo Guedes e ideias liberais para se manter no poder

EDUARDO CUCOLO – FOLHA DE SÃO PAULO – 20/08/2021

“Menos Marx, Mais Mises”, publicado neste ano pela cientista política Camila Rocha 37, é resultado do trabalho iniciado em 2015 de pesquisa e entrevistas com diversos expoentes desse grupo.

Em entrevista à Folha, ela afirma que Jair Bolsonaro nunca foi o candidato ideal da nova direita e que o atual presidente não hesitará em abandonar as ideias desse grupo, principalmente na área econômica, se isso aumentar suas chances de reeleição.

Ela também tem realizado pesquisas qualitativas com grupos do que chama de “bolsonarismo popular moderado” e que mostram piora acentuada na imagem do presidente, inclusive com pessoas que já cogitam votar no PT.

A nova direita brasileira
A direita tradicional é aquela que vinha atuando dentro dos parâmetros do pacto democrático de 1988 e também do que se convencionou chamar de presidencialismo de coalizão.

Essa nova direita vem para romper com os limites desse pacto, querendo falar que a Constituição de 1988 já não serviria mais, romper com as ideias que estavam ali e também com o próprio presidencialismo de coalização.

Pensamento econômico da nova direita
Essa nova direita se afirma muito mais abertamente a favor de um radicalismo de livre mercado, que eu e várias pessoas chamamos de ultraliberalismo. E eles fazem isso a partir, principalmente, da releitura de diversas obras, principalmente do economista austríaco Ludwig von Mises.

A defesa desse radicalismo de livre mercado é uma coisa nova no Brasil, combinada, em variados graus, com a defesa de um conservadorismo mais programático. Não que a direita tradicional não fosse conservadora, mas ela era muito mais reativa e muito pouco propositiva.

No Brasil, principalmente a partir da década de 1980, quando a difusão do neoliberalismo ficou mais acentuada, a discussão toda era feita muito mais em coisas como controle da inflação e toda essa questão do tripé macroeconômico.

Essa nova direita vem com um radicalismo de discutir coisas que não eram postas em discussão pelos economistas neoliberais. Educação pública, saúde pública, privatizar determinadas empresas no Brasil era algo que não era posto em discussão ou a discussão era muito ainda obstaculizada por certo consenso de que em certas coisas você não iria mexer. E a nova direita vem para romper com isso.

Conservador nos costumes
Há pessoas, eu diria que é uma minoria no conjunto de forças que compõem essa nova direita, que, ao mesmo tempo que defendem um radicalismo de mercado, também defendem liberalização de substância ilícitas, de aborto, de propriedade intelectual, até de doação de órgãos, tudo isso sem regulação estatal.

A questão Bolsonaro
A formação dessa nova direita antecede em muitos anos a emergência do bolsonarismo. Quando Bolsonaro se torna pré-candidato, uma liderança com apelo popular, ela já está razoavelmente organizada.

Só que a grande dificuldade da nova direita é encontrar lideranças com apelo popular. Aí o Jair Bolsonaro aparece como uma liderança política que tinha um apelo popular muito grande, principalmente surfando na onda do lavajatismo. Na época, ele não tinha sido formalmente acusado de se envolver em esquema de corrupção.

Porque o próprio Bolsonaro passou a sinalizar com a possibilidade de incorporar esse programa da nova direita, e, também para tirar o PT do poder, as pessoas acabaram apoiando [a candidatura]. A indicação de Paulo Guedes para ser ministro também foi fundamental.

Decepção com o governo
Decepcionados talvez não seja o melhor termo, porque Bolsonaro nunca foi o candidato ideal da nova direita. Quando eu estava fazendo a minha pesquisa, as pessoas já reclamavam bastante, inclusive o desprezavam em certo sentido como político. Foi um apoio a contragosto. Esperava-se que, com Guedes, fosse possível avançar no âmbito da economia.

Hoje, de um lado, tem gente que acredita que o governo poderia ter avançado mais nas privatizações, em toda essa agenda. Outros fazem uma leitura mais otimista, de que teve a crise pandêmica no meio disso tudo que atrapalhou, que o governo teve alguns avanços, sim, nessa agenda de reformas econômicas. Talvez não como seria esperado.

Divórcio
Esse casamento entre a nova direita e Bolsonaro sempre foi muito frágil. Bolsonaro e o grupo mais próximo dele na verdade não estão tão interessados nessa defesa do livre mercado. Tanto que por anos ele defendeu a orientação econômica da ditadura militar.

Se ele tiver de fazer uma alteração brusca nesse sentido para se manter no poder, é o que vai fazer. Se tiver de se divorciar de Guedes, vai fazer, como já fez com outros ministros.

O bolsonarismo é um fenômeno diferente disse que eu estou chamando de nova direita. Bolsonaro não é dessa nova direita. É outra coisa, um fenômeno de extrema direita, que muitas pessoas entendem como populista.

Voto no PT
No início, esse grupo [bolsonaristas moderados] tinha muita esperança de que ele fosse fazer muitas mudanças, a economia fosse melhorar. Passada a pandemia, a maioria das pessoas se sente hoje muito decepcionada, em maior ou menor grau, com a atuação do governo e do próprio Bolsonaro.

As pessoas dizem que até poderiam votar nele novamente, mas como uma alternativa menos ruim, principalmente para quem não quer votar no PT de jeito nenhum.

Outras pessoas já estão começando a se afastar e, eventualmente, até cogitando votar no PT. A gente tem notado muito uma tendência, nesse segmento que a gente chama de moderado, de as pessoas irem desembarcando do bolsonarismo.

‘MENOS MARX, MAIS MISES – O LIBERALISMO E A NOVA DIREITA NO BRASIL’
Preço R$ 69,90 (impresso) e R$ 44,90 (ebook)
Autor Camila Rocha
Editora Todavia

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