Carta de um professor aos novos governantes, por Walber Gonçalves de Souza.

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Convido-os a conhecer as entranhas de uma escola

Walber Gonçalves de Souza, Professor, é doutor em geografia (PUC Minas).

Folha de São Paulo, 01/01/2023

Completo 22 anos de magistério, do ensino básico ao superior —são muitas experiências acumuladas no chão de uma sala de aula. Sempre pensei que pela educação podemos transformar o rumo de uma nação, em especial o nosso Brasil, um país tão rico, de gente (maioria) tão pobre.

Infelizmente não é isso que tenho percebido. A educação pública no Brasil não passa, com raras exceções, de uma grande mentira, de uma farsa. Vemos uma triste realidade camuflada em índices e um monte de conversa fiada, com ares de uma pedagogia modernizada. Basta conhecer as entranhas de uma escola que saberão que nossa realidade é de aterrorizar.

Sem medo de errar, posso afirmar que a nossa educação é de péssima qualidade e caminha a passos largos para se tornar ainda pior, mesmo parecendo não ser mais possível ultrapassar o fundo do poço. Um dia pensei que a educação poderia mudar a sociedade, mas o que vejo é justamente o contrário: a sociedade mudou a educação e levou para dentro das escolas todos os seus vícios e problemas.

Discursos bonitos aparecem em todas as eleições. Mas vivemos de promessas e contos do vigário. Sempre há alguém que nunca pisou em uma sala de aula da educação básica propondo uma metodologia nova; mas, como diria o ditado popular, “de boas intenções o inferno está cheio”.

A “pedagogia da modinha”, criada por aqueles que não conhecem a realidade de uma escola, só escancara um dos nossos grandes desafios: estabelecer uma política pública de Estado para a nossa educação, não a corriqueira política de governo.

Nossas escolas estão tomadas e reféns da indisciplina, várias pelo tráfico e abandono. A falta de professores já é percebida. A educação brasileira é um faz de contas. Pouco se ensina, por inúmeros motivos, e por consequência pouco ou quase nada se aprende. Mas o discurso governamental é sempre o mesmo: nossa educação vai bem! Afinal, ninguém quer admitir a realidade.

Provavelmente esta carta não chegará ao seu destino final, mas fica o desabafo e a eterna esperança de dias melhores. Peço: vamos encarar os desafios da educação. Ela não pode ser medida simplesmente por estatísticas. Precisamos alcançar resultados, que se manifestam na vida das pessoas, através de condições humanas e civilizadas de vida.

Precisamos solucionar a indisciplina, valorizar a carreira docente, tornar o ambiente escolar um lugar propício e necessário para o aprendizado e, principalmente, estimular as pessoas a acreditarem na escola (educação) como um meio de crescimento humano e social. O que não dá mais é continuar como está: fingindo que as coisas estão acontecendo.

Finalizando, convido-os a escolherem uma escola de uma cidade brasileira, pois retratará a realidade da imensa maioria, e ministrarem aulas durante um mês. E, se não for pedir demais, que vossos salários, ao longo do mandato, sejam iguais aos dos professores. Quem sabe assim entenderiam o que é a educação brasileira e, por consequência, fomentariam as devidas soluções.
Cordiais saudações de um professor que não vai desistir da educação!

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