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	<title>Blog &#8211; Ary Ramos</title>
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	<description>A grandeza não está naqueles que recebem honras, mas sim naqueles que as merecem. - Aristóteles</description>
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		<title>&#8216;Terrorismo&#8217; também implode o Estado de Direito, por Frei Betto.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Nov 2025 18:55:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[Frei Betto, Escritor, e autor de &#8216;Diário de Fernando &#8211; Nos Cárceres da Ditadura Militar Brasileira” (ed. Rocco), entre outros livros Folha de São Paulo, 09/11/2025 Nas últimas décadas, o conceito de terrorismo tornou-se um dos mais poderosos instrumentos políticos e jurídicos para subverter os princípios do direito. Criado para descrever ações violentas com motivações [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Frei Betto, Escritor, e autor de &#8216;Diário de Fernando &#8211; Nos Cárceres da Ditadura Militar Brasileira” (ed. Rocco), entre outros livros</p>
<p>Folha de São Paulo, 09/11/2025</p>
<p>Nas últimas décadas, o conceito de terrorismo tornou-se um dos mais poderosos instrumentos políticos e jurídicos para subverter os princípios do direito. Criado para descrever ações violentas com motivações ideológicas ou políticas, o termo se transformou em categoria jurídica e moral capaz de justificar exceções à lei e à própria ideia de justiça.</p>
<p>O que começou como resposta legítima a ameaças reais, acabou se tornando uma ferramenta perigosa em mãos de Estados e governos que, em nome da segurança, subverteram princípios do direito internacional e das liberdades individuais.</p>
<p>O ponto de inflexão ocorreu após 2001, com a derrubada das Torres Gêmeas. Diante do trauma coletivo, os EUA e seus aliados declararam a chamada &#8220;guerra ao terror&#8221;. Sob essa bandeira, práticas antes consideradas ilegais, como detenções sem mandado, tortura, sequestros internacionais e prisões secretas, foram normalizadas.</p>
<p>O centro de detenção de Guantánamo, em território cubano, simboliza esse novo paradigma. Ali, centenas de pessoas são mantidas presas e submetidas a torturas por tempo indeterminado, sem acusação formal ou julgamento, sob a justificativa de que a luta contra o terrorismo exige &#8220;novas regras&#8221;.</p>
<p>Essa &#8220;exceção permanente&#8221;, segundo o filósofo italiano Giorgio Agamben, abriu um precedente devastador. Em nome da segurança nacional, diversos países passaram a operar fora dos limites legais e éticos, e tratam o suspeito de terrorismo não como cidadão com direitos, mas como inimigo absoluto, alguém que pode ser neutralizado antes mesmo de se provar sua culpa. O direito à defesa, ao julgamento justo e à presunção de inocência foi substituído pela lógica de antecipação e punição preventiva.</p>
<p>O preocupante é que essa erosão da legalidade não se restringiu ao combate ao terrorismo internacional. A mentalidade de &#8220;guerra permanente&#8221; contaminou outras áreas da segurança pública. </p>
<p>Nos últimos anos, diversos governos, inclusive democráticos, passaram a aplicar a mesma lógica de exceção contra facções criminosas e organizações de narcotráfico. Operações policiais e militares têm adotado o discurso de que certos grupos representam uma ameaça tão grave à ordem pública que o Estado pode agir sem os freios da lei.</p>
<p>Sob o pretexto de combater o crime organizado, como ocorreuagora no Rio de Janeiro, multiplicam-se execuções extrajudiciais, desaparecimentos e intervenções letais em comunidades pobres. O inimigo agora não é o &#8220;terrorista estrangeiro&#8221;, mas o &#8220;traficante&#8221;, o &#8220;miliciano&#8221; ou o &#8220;membro de facção&#8221; —rótulos amplos e fluidos que permitem justificar ações fora do devido processo legal. Em muitos casos, a sociedade, movida pelo medo e pela descrença nas instituições, aplaude essa postura, sem perceber que mina as bases da própria democracia.</p>
<p>Ao transformar o combate ao crime em guerra, o Estado abre mão do papel de garantidor da lei para se tornar juiz e carrasco. A fronteira entre justiça e vingança se apaga. A morte passa a substituir o julgamento; a suspeita, a prova; e o inimigo, o cidadão. Esse processo corrói os princípios que sustentam o Estado de Direito, como a universalidade da lei, a proporcionalidade da punição e a dignidade da pessoa humana.</p>
<p>A força da lei não está em seu predicado de punir, mas em sua capacidade de limitar o poder. Quando o Estado reivindica o direito de matar sem julgar, ele nega a essência do contrato social. </p>
<p>Ao admitir que alguns indivíduos ou grupos podem ser eliminados sem defesa, a sociedade regride à barbárie, em que o mais forte impõe sua vontade sobre o mais fraco.</p>
<p>O desafio agora é resgatar a primazia da legalidade em um mundo que se acostumou à exceção. O combate ao terrorismo e ao crime organizado é legítimo e necessário, mas precisa submeter-se ao controle jurídico e ao respeito aos direitos humanos. Não há segurança duradoura quando o medo se torna justificativa para a suspensão da justiça.</p>
<p>Se o século 21 começou com a promessa de um mundo interconectado, rapidamente revelou o perigo de uma liberdade condicionada pelo terror. Hoje vivemos as consequências de um paradigma que transformou o inimigo em categoria política e o direito em instrumento de exceção. A luta contra o “narcoterrorismo” deve ser travada dentro da lei, nunca acima dela. Do contrário, o Estado, ao tentar nos proteger, acabará por destruir aquilo que mais deveria preservar: a própria ideia de justiça.</p>
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		<title>O que é saúde mental? por Maria Rita Kehl</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Sep 2025 23:30:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[Manda Jade facial Quais os fatores que nos satisfazem psíquica e emocionalmente? Freud pode chocar, ao dizer: a incompletude. Impulso que cria desejo, desloca-nos e gera a busca de sentido no amor e no trabalho. Força que nos afronta a encarar insuficiências e permite o arriscar Por Maria Rita Kehl, no Blog da Boitempo. OUTRAS MÍDIAS Começo [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p> <a href="https://inches2.com/mandajade77-onlyfans/" target="_blank">Manda Jade facial</a></p>
<p><em>Quais os fatores que nos satisfazem psíquica e emocionalmente? Freud pode chocar, ao dizer: a incompletude. Impulso que cria desejo, desloca-nos e gera a busca de sentido no amor e no trabalho. Força que nos afronta a encarar insuficiências e permite o arriscar</em></p>
<p>Por <strong>Maria Rita Kehl, </strong>no Blog da Boitempo. OUTRAS MÍDIAS</p>
<p>Começo com Freud, que era médico mas não tratava da saúde física. A definição de Freud quanto a esse tema é sucinta e (a meu ver), certeira. A saúde mental de uma pessoa pode ser resumida como a sua capacidade de amar e trabalhar. São duas ações muito diferentes, não acham? Mas entre elas há um ponto em comum: Tanto no amor quanto no trabalho, o sujeito, forçosamente, sai um pouco de si mesmo — de sua solidão, de suas ruminações estéreis, de sua vã vaidade — e se entrega a predisposições psíquicas que <em>transcendem o ego.</em></p>
<p>Não que o ego seja supérfluo em nossas aventuras amorosas ou em nosso empenho profissional. O ego é nosso sustentáculo. Mas amor e trabalho nos forçam a ceder espaço psíquico <em>para além dele</em>. O ego nos estrutura, enquanto sujeitos, mas não é tão soberano quanto gostaríamos de acreditar. Quando amamos alguém, por exemplo: uma parte da satisfação que sentimos ao sermos correspondidos no amor é puramente egóica. A proposta freudiana, de que a saúde mental se define pela capacidade de amar e trabalhar, pode ser entendida também desta forma: amor e trabalho <em>produzem saúde mental. </em>Tanto um quanto o outro nos ajudam a dar sentido à vida porque forçosamente abrem brechas no rochedo que nos protege da castração.</p>
<p>Para os leigos em psicanálise (o que não é vergonha pra ninguém) vale esclarecer que “castração” é a metáfora com que Freud tenta explicar nossa incompletude — a qual, aliás, é condição para a saúde mental. A incompletude humana pode ser traduzida como “a falta que move”. É o que nos faz desejantes. Somos sujeitos, por definição, incompletos — por isso mesmo, a falta nos move. Nos move a quê? A criar. E a amar.</p>
<p>Em contrapartida, quando o outro deixa de nos amar, o ego, frequentemente, fica mais ferido do que o “coração”. Nessas horas, para quem for capaz disso, vale a pena entregar-se novamente a algum projeto de trabalho que talvez não traga de volta o ser amado, mas, sim, renova a autoestima.</p>
<p>Além disso, tanto o amor quanto o labor exigem que saibamos encarar nossas insuficiências: tanto um quanto o outro são incompatíveis com excessos narcísicos. Explico: o sujeito que se considera perfeito, ou <em>completo</em>, dificilmente vai conseguir abrir mão dessa agradável fantasia para se arriscar em alguma empreitada na qual pode tanto ter sucesso quanto fracassar. Por outro lado… se não nos arriscamos em empreitadas interessantes (e, se possível, bem-sucedidas), nosso ego se empobrece e deixa de atender a nossos ideais narcísicos.</p>
<p>Sim: algum narcisismo (vale simplificar aqui e traduzir por <em>autoestima</em>) é necessário. Quem não tem nenhum amor por si mesmo tende à depressão. Em situações em que o sujeito não encontra — ou não <em>produz — </em>nada que alimente sua autoestima, ele se deprime. Deixa de amar a si mesmo. Em casos extremos, essa falta de autoestima pode levar a tentativas de suicídio. Eu diria que o <em>bom amor de si mesmo </em>— que nada tem a ver com exageros de vaidade — se alimenta tanto das realizações que o sujeito se empenha em conquistar quanto da estima e do reconhecimento do outro. Mais, ainda: nossa autoestima também é acionada quando, além de receber admiração do outro, somos também capazes de dar o que ele necessita. Sermos solidários <em>nos faz bem. </em>Isso nada tem a ver com uma tendência sacrifical: quem se sacrifica por vaidade (“vejam como sou bom!”) corre o risco de se tornar ressentido: “fiz tanto por ele, mas ele não me agradeceu à altura”… Se você quer fazer algo pelo outro, faça de coração aberto, não como quem investe em uma futura medalha de bom comportamento. Fazer pelo outro, com gosto, nos alegra. “Saúde mental” (o tema desta coluna) tem mais a ver com alegria do que com vaidade.</p>
<p>Se for o caso de sacrificar alguma coisa, sacrifiquemos nosso egoísmo… mas não <em>todo, </em>ok? Vale guardar um pouco de egoísmo para conquistar, e desfrutar de coisas que nos fazem bem!</p>
<p><strong>Maria Rita Kehl</strong> <em>é doutora em psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e atua, desde 1981, como psicanalista em São Paulo. Entre 2006 e 2011, atendeu na Escola Nacional Florestan Fernandes do MST, em Guararema (SP). Integrou a Comissão Nacional da Verdade (2012-2014). Foi jornalista de 1974 a 1981 e segue publicando artigos em diversos jornais e revistas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 2010, ganhou o prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção, com a obra O tempo e o cão, a atualidade das depressões, publicada por nossa casa. Também pela Boitempo, publicou Tempo esquisito, Videologias: ensaios sobre televisão (em coautoria com Eugênio Bucci), 18 crônicas e mais algumas, Deslocamentos e o feminino, Bovarismo brasileiro e ressentimento. Pela Boitatá publicou, em parceria com Laerte Coutinho, Neném outra vez! E disco-pizza. </em></p>
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		<title>A inteligência subordinada, por João dos Reis Silva Júnior</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Aug 2025 17:16:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[João dos Reis Silva Júnior – A Terra é Redonda – 03/08/2025 O artigo de Claudinei Luiz Chitolina, publicado em 31 de julho de 2024 no site  corinna kopf leaked pornA Terra é Redonda, propõe uma reflexão inadiável sobre os impactos da Inteligência artificial nas esferas social, educacional e subjetiva da sociedade brasileira. Longe de qualquer neutralidade [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>João dos Reis Silva Júnior – A Terra é Redonda – 03/08/2025</p>
<p>O artigo de Claudinei Luiz Chitolina, publicado em 31 de julho de 2024 no site   <a href="https://corinnakopfonlyfans.blog/" target="_blank">corinna kopf leaked porn</a><strong>A Terra é Redonda</strong>, propõe uma reflexão inadiável sobre os impactos da Inteligência artificial nas esferas social, educacional e subjetiva da sociedade brasileira.</p>
<p>Longe de qualquer neutralidade contemplativa, o texto se inscreve com vigor no campo das disputas contemporâneas ao denunciar a ubiquidade da automação algorítmica e convocar o leitor a encarar os limites éticos, políticos e civilizatórios impostos pela racionalidade técnica. Esta contribuição, em espírito dialógico, busca expandir, desdobrar e tensionar os argumentos de Claudinei Chitolina, amparada por uma análise ancorada nas categorias de dependência estrutural, financeirização da vida e dominação tecnocrática da razão instrumental.</p>
<p>Desde suas primeiras linhas, o texto recusa a concepção reducionista da Inteligência artificial como mera ferramenta neutra cujo impacto dependeria exclusivamente de seu uso. A ênfase na variável da intenção humana ignora o cerne da questão: a técnica não é instrumento passivo, mas forma histórica de dominação.</p>
<p>Como demonstram Nancy Fraser (2022) e Leda Paulani (2021), a tecnologia digital contemporânea integra um projeto de captura que subordina tempo, saber e vida à lógica expansiva do capital fictício. A Inteligência artificial, nesse quadro, opera como instância ativa de disciplinamento social e reconfiguração das subjetividades.</p>
<p>No Brasil, país marcado pela condição estrutural de dependência, pensar a Inteligência artificial exige reconhecer que sua implementação não escapa às assimetrias históricas. Como ensinou Ruy Mauro Marini (2005), a dependência não é fase superável, mas lógica reprodutiva. Os modelos de linguagem, algoritmos e bases de dados são importados de estruturas epistêmicas do Norte global, reiterando a subalternidade cognitiva sob o disfarce da inovação técnica. A modernização aparece como atualização da exclusão.</p>
<p>Desse processo emerge o que se pode denominar colonialismo algorítmico. Importam-se tecnologias e, com elas, lógicas decisórias que não apenas ignoram, mas deslegitimam os repertórios locais de sentido. Como assinala Eleutério Prado (2022), o saber se converte em ativo intangível – forma de capital que circula por sua promessa reputacional e expectativa de valorização simbólica. A pesquisa transforma-se em mercadoria moldada às exigências dos mercados de métricas, ranqueamentos e algoritmos de avaliação.</p>
<p><strong>2.</strong></p>
<p>O capital simbólico, na acepção de Pierre Bourdieu, sofre mutação profunda: transmuta-se em capital reputacional. Seu valor passa a ser determinado por visibilidade digital, produtividade quantificada e reconhecimento indexado. A universidade, submetida a esses critérios, perde a capacidade de autorreflexão. A avaliação interna cede lugar a avaliações automatizadas, e a Inteligência artificial, longe de servir, governa.</p>
<p>As repercussões sobre o trabalho docente são brutais. O professor é reconfigurado como gestor de si, imerso em um regime de autovigilância contínua. O relatório do ANDES-SN (2023) indica que mais de 60% dos docentes sofrem com sintomas de exaustão. Como observa Byung-Chul Han (2022), a dominação contemporânea já não se impõe por coerção, mas por liberdade monitorada e internalizada.</p>
<p>O paradoxo é gritante: a Inteligência artificial, apresentada como solução para o cansaço docente, reforça o regime performativo. Delegando tarefas repetitivas às plataformas, transfere-se também a exigência de disponibilidade permanente. No ensino básico, os efeitos são ainda mais cruéis. O INEP (2023) revela que a carência de infraestrutura torna a introdução da Inteligência artificial um simulacro de inclusão. Onde faltam condições materiais, a Inteligência artificial aprofunda a exclusão e normaliza a precariedade como se fosse inovação.</p>
<p>Leda Paulani (2021) denomina esse processo de verticalização simbólica. A elite projeta os sistemas; a base executa, sem voz nem mediação. A “inclusão digital” converte-se em subordinação algorítmica. Os estudantes das periferias têm acesso a diagnósticos padronizados, enquanto os filhos da elite exploram ferramentas criativas. A Inteligência artificial, nesses termos, classifica – e classificar, nesse contexto, é sentenciar.</p>
<p>Nas universidades, o padrão se repete. Decisões relativas a financiamento, progressão e avaliação passam a ser mediadas por sistemas que privilegiam o quantificável. As humanidades, os saberes lentos, os territórios de dissenso e conflito são depreciados. A Inteligência artificial não promove democratização: ela normatiza, homogeneíza, enquadra.</p>
<p>O capital reputacional, como formulado por Eleutério Prado (2022), converte a universidade em plataforma de performance. A reputação, transformada em mercadoria, passa a ser o ativo mais valioso – não por seu conteúdo, mas por sua capacidade de circulação. O docente é diluído em funções administrativas, privadas de sentido e de escolha. As plataformas antecipam respostas, desqualificam o vínculo, anulam a escuta. O ANDES-SN (2023) aponta: há uma crise de sentido e de pertencimento.</p>
<p><strong>3.</strong></p>
<p>Bernard Stiegler (2009) compreende a técnica como fármaco – simultaneamente remédio e veneno. A Inteligência artificial pode, sim, organizar o cotidiano e aliviar tarefas. Mas, sob o império do capital fictício, ela expropria tempo, afeto e crítica. A governança algorítmica simula autonomia, mas reproduz controle. A planilha substitui o juízo pedagógico. Relatórios do Tesouro Nacional (2024) evidenciam o deslocamento: o financiamento público encolhe, enquanto a cobrança por desempenho cresce exponencialmente.</p>
<p>Ajusta-se, assim, o espaço público aos imperativos do mercado. Fraser (2022) e Paulani (2021) chamam isso de privatização simbólica: o Estado renuncia à garantia de direitos, mas impõe métricas e controles. A Inteligência artificial encena eficiência e mascara a precarização. A justiça epistêmica é silenciada diante do dado automatizado. O que se produz é um epistemicídio operado por algoritmos.</p>
<p>Recusar essa lógica não significa rejeitar a Inteligência artificial em si, mas negá-la como fetiche. Como advertiu Francisco de Oliveira (2003), o Brasil é especialista em criar ornitorrincos institucionais – formas híbridas de modernização e atraso. A Inteligência artificial pode integrar o projeto universitário, desde que submetida à democracia epistêmica e ao juízo crítico da coletividade.</p>
<p>A disputa é política. É preciso reivindicar outros sentidos para inteligência, saber e docência. Não se trata de negar a técnica, mas de redefinir sua finalidade. No Brasil financeirizado e estruturalmente dependente, a IA pode ser mais uma forma de subordinação — e por isso, há que resistir.</p>
<p>Resistir, aqui, é proteger o tempo de pensar. A universidade não deve ser eficiente: deve ser significativa. E isso, nenhuma IA é capaz de calcular. A escolha não é técnica. É política. E como toda escolha política, exige coragem, imaginação e tempo.</p>
<p><strong>João dos Reis Silva Júnior</strong><em> é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de</em> Educação, sociedade de classes e reformas universitárias <em>(Autores Associados)</em></p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p>ANDES-SN. <em>Relatório Nacional sobre Condições de Trabalho Docente nas Universidades Públicas</em>. Brasília: Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, 2023.</p>
<p>BOURDIEU, Pierre. <em>O poder simbólico</em>. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.</p>
<p>CHITOLINA, Claudinei Luiz. A inteligência artificial e os limites do humano. <em>Periódico Digital</em>, 31 jul. 2024.</p>
<p>FRASER, Nancy. <em>Capitalismo canibal: como o nosso sistema devora a democracia, o cuidado e o planeta – e o que podemos fazer a respeito</em>. São Paulo: Boitempo, 2022.</p>
<p>HAN, Byung-Chul. <em>Psicopolítica: neoliberalismo e novas técnicas de poder</em>. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>
<p>INEP. <em>Censo Escolar da Educação Básica 2023: resultados consolidados</em>. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2023.</p>
<p>LOVINK, Geert. <em>Extrema dependência: crítica das redes sociais em tempos de caos</em>. São Paulo: Ubu, 2023.</p>
<p>MARINI, Ruy Mauro. <em>Dialética da dependência</em>. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2005.</p>
<p>OLIVEIRA, Francisco de. <em>O ornitorrinco</em>. São Paulo: Boitempo, 2003.</p>
<p>PAULANI, Leda Maria. <em>Capitalismo em desencanto: crônicas do Brasil</em>. São Paulo: Boitempo, 2021.</p>
<p>PRADO, Eleutério F. S. <em>Valor, trabalho e capital fictício: ensaios de crítica da economia política</em>. São Paulo: Outras Expressões, 2022.</p>
<p>STIEGLER, Bernard. <em>Pour une nouvelle critique de l’économie politique</em>. Paris: Galilée, 2009.</p>
<p>TESOURO NACIONAL. <em>Execução Orçamentária da Educação Superior: 2015–2023</em>. Brasília: Ministério da Fazenda, 2024.</p>
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		<title>Como se formam os golpistas? por Eugênio Bucci</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Jun 2025 23:22:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[Eugênio Bucci – A Terra é Redonda – 27/06/2025 Fora o acerto da lei, o que vemos hoje na corte não é bom. Algo na voz dos réus, na sua maneira de olhar ou de desviar o olhar, deixa ver que, para eles, o golpismo é um ato de bravura 1. Pela primeira vez na [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Eugênio Bucci – A Terra é Redonda – 27/06/2025</strong></p>
<p><em>Fora o acerto da lei, o que vemos hoje na corte não é bom. Algo na voz dos réus, na sua maneira de olhar ou de desviar o olhar, deixa ver que, para eles, o golpismo é um ato de bravura</em></p>
<p><strong>1.</strong></p>
<p>Pela primeira vez na história do Brasil, militares de alta patente, acompanhados de um ex-presidente da República, tomam assento no banco dos réus. Eles são acusados de organização criminosa armada e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, entre outros crimes. A notícia é tão inusitada que parece boa, mas, na verdade, é apenas um começo.</p>
<p>Por certo, o processo que corre no Supremo Tribunal Federal reluz pelo ineditismo. Diferentemente do que se via no passado, o Brasil não deixa mais por isso mesmo. Agora, há um esforço para responsabilizar os que atentaram contra a normalidade democrática. As coisas avançam semana a semana. Os integrantes do “núcleo crucial” da trama, conforme o nomeou a Procuradoria Geral da República, tiveram de comparecer aos interrogatórios. Agora, houve uma acareação momentosa entre o tenente-coronel Mauro Cid e o general Walter Braga Netto.</p>
<p>O andamento, contudo, é difícil. Para atrapalhar os ritos, surgiram lances de clamoroso cinismo. O réu Jair Bolsonaro, enquanto era interrogado, deu de convidar o ministro Alexandre de Moraes, que conduzia a sessão, para figurar como vice em sua chapa para a Presidência da República em 2026. O tom foi jocoso: piada à queima-roupa. O magistrado apenas sorriu, num clima de quase descontração judicial, e, no seu linguajar característico, declinou. Pilhéria indeferida.</p>
<p>O que nos aguarda? O processo vai transcorrer em risadas? Vai transitar em julgado amaciado? Vai dar cadeia? Virá uma anistia? Uma pizza? Não há como saber. O enredo que nos trouxe até aqui, misturando degradação institucional, escárnio escrachado e realismo fantástico, tem se mostrado imprevisível.</p>
<p>Primeiro, tentou-se derrubar a República numa tramoia que incluiu acampamentos à frente de quartéis, <em>fake news</em> torrenciais sobre as urnas eletrônicas, depredação dos palácios dos três poderes e um plano para assassinar o chefe de Estado, seu vice e um ministro do Supremo. Depois, no julgamento, veio o espetáculo acintoso. Os acusados não se envergonham do que é vergonhoso. Desdenham da autoridade judiciária. Agem como se estivessem acima das leis dos comuns.</p>
<p><strong>2.</strong></p>
<p>O historiador Carlos Fico estuda há décadas “o desprezo dos militares pela política, seu autoentendimento como superiores aos civis”. O retrato que ele nos entrega dessa história, no livro <em>Utopia autoritária brasileira: Como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje</em> (Editora Planeta do Brasil), é desalentador. A virada de mesa tem sido uma constante das Forças Armadas. Trata-se de um vício que se reproduz impunemente.</p>
<p>“Todas as crises políticas brasileiras caracterizadas por ruptura da legalidade constitucional (vou denominá-las ‘crises institucionais’) foram causadas por militares”, afirma Carlos Fico. “As Forças Armadas violaram todas as constituições da República. (…) Indisciplina e subversão marcam a trajetória dos militares no Brasil. Eles foram responsáveis por todas as crises institucionais do país desde a Proclamação da República e jamais foram efetivamente punidos”.</p>
<p>O livro demonstra que, neste país, o golpe compensa – mesmo quando fracassa. Com a palavra, o historiador: “Quando afirmo que nunca houve, no Brasil, a efetiva punição de militares golpistas, me refiro às anistias que foram aprovadas pelo Congresso Nacional beneficiando os oficiais envolvidos nas tentativas fracassadas de 1904, 1922, 1924, 1956, 1959 e 1961. É claro que não cabe falar em punição no caso dos golpes bem-sucedidos (1889, 1930, 1937, 1945, 1954, 1955 e 1964)”.</p>
<p>Por que “não cabe falar em punição no caso dos golpes bem-sucedidos”? Muito simples: quando o golpe dá certo, o ordenamento jurídico que poderia puni-lo não fica de pé para aplicar a lei. Passa a valer o inverso. Por exemplo: com a tomada do poder pelas tropas em 1964, quem fixou residência na prisão não foram os golpistas, mas os que se opunham à quartelada. Eis por que a legislação atual, com acerto, estabelece como crime a tentativa de golpe, não o golpe consumado. A tentativa basta para configurar o tipo penal.</p>
<p>Fora o acerto da lei, o que vemos hoje na corte não é bom. Algo na voz dos réus, na sua maneira de olhar ou de desviar o olhar, deixa ver que, para eles, o golpismo é um ato de bravura. A fixação maníaca na ideia de assalto ao poder constitui um traço cultural que se mantém intacto no ideário das tropas. O que explica essa permanência? De onde vem isso?</p>
<p>A resposta lógica aponta para as escolas em que se formam os oficiais. Se a formação fosse outra, a mentalidade da farda já seria diferente. Será razoável que o currículo das academias das Forças Armadas e das Polícias Militares fique inteiramente a cargo da caserna? Ou será que isso deveria ser da competência da sociedade e do Estado Democrático de Direito?</p>
<p>De forma respeitosa, dialogada e serena, é preciso enfrentar a questão. Ou o Brasil encara essa agenda espinhosa ou talvez não tenhamos como sair dessa espiral em que o populismo de coturnos, quando vai ao banco dos réus, vai em trajes de galhofa.</p>
<p><strong>Eugênio Bucci</strong><em> é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de</em> Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (<em>Autêntica</em>).</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Lula na presidência dos BRICS, por Paulo Nogueira Batista Júnior</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Jun 2025 20:07:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Paulo Nogueira Batista Júnior – A Terra é Redonda – 30/05/2025 Os BRICS configuram o único grupo de países capaz de se contrapor ao G7 e de oferecer alternativas concretas à desordem patrocinada pelo Ocidente Posso voltar a falar de BRICS? Já escrevi muito a respeito, provavelmente demais. É que sou talvez o único brasileiro [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Paulo Nogueira Batista Júnior – A Terra é Redonda – 30/05/2025</p>
<p><em>Os BRICS configuram o único grupo de países capaz de se contrapor ao G7 e de oferecer alternativas concretas à desordem patrocinada pelo Ocidente</em></p>
<p>Posso voltar a falar de BRICS? Já escrevi muito a respeito, provavelmente demais. É que sou talvez o único brasileiro a ter participado das atividades do grupo, continuamente, desde o seu início em 2008 até 2017, o que justifica manter vivo o meu envolvimento no assunto.</p>
<p>Em 2025, há uma razão muito mais forte para voltar ao tema – a presidência brasileira dos BRICS. Temos agora uma oportunidade única, que não voltará tão cedo. Com a ampliação dos membros do grupo – de 5 para 10 países – só daqui a 10 anos o Brasil voltará a exercer a presidência. Não podemos desperdiçá-la.</p>
<p>Infelizmente, não parece que a presidência brasileira vá produzir grandes resultados. Posso estar errado, espero que esteja, e talvez seja cedo para dizer.</p>
<p>Mas a verdade é que governo brasileiro não está politicamente forte. Entre outros motivos, porque se vê infestado de quadros que têm ou pouca ou nenhuma identificação com os BRICS e mantêm ligações prioritárias com EUA e Europa (a famosa quinta-coluna). O Itamaraty, por exemplo, com algumas exceções, vem sendo dominado pela burocracia e pelo carreirismo.</p>
<p>A Fazenda se omite, com o ministro Fernando Haddad se ausentando frequentemente do assunto. O Banco Central sempre foi um obstáculo para os BRICS. Gabriel Galípolo pode mudar isso, mas uma coisa é o novo presidente da instituição, outra a máquina pesada e inflexível do Banco Central. Do Planejamento, nem preciso falar – com exceção de Márcio Pochmann, no IBGE, o que temos lá é uma coleção de neoliberais, todos referenciados à agenda Ocidental.</p>
<p>Há outras exceções, claro, tanto na Fazenda como no Itamaraty (e mais na primeiro do que no segundo ministério). Há exceções, também, na assessoria do Presidente da República. Na Fazenda, uma nova geração de brasileiros faz o possível para vencer as barreiras internas ao avanço do grupo. Porém, essa nova geração não ocupa postos de muito destaque no Ministério e fica, portanto, limitada em sua capacidade de influir.</p>
<p>Erro na fixação da data da cúpula e como corrigir</p>
<p>Um problema foi a decisão clamorosamente equivocada de fazer a cúpula dos BRICS no início de julho, o que arrisca reduzir a presidência brasileira a apenas seis meses – tempo insuficiente para fazer avanços significativos. O motivo foi a percepção do governo brasileiro de que o Brasil não conseguiria organizar duas grandes reuniões no final de 2025 – a COP 30 e a cúpula dos BRICS…</p>
<p>Meu Deus do céu! Lamentável, por pelo menos duas razões. Primeira: subestima a capacidade do País – por que admitir que duas reuniões nos deixariam sobrecarregados? Segunda razão: a COP 30, salvo melhor juízo, terá pouca utilidade prática – será provavelmente mais uma oportunidade para repetir chavões sobre a crise climática, sem repercussão prática. Lula e outros líderes farão os discursos e os apelos de praxe que passarão imediatamente ao esquecimento.</p>
<p>Já os BRICS são a principal força de contestação do status quo internacional. É o único grupo de países capaz de se contrapor ao G7 e de oferecer alternativas concretas à desordem patrocinada pelo Ocidente.</p>
<p>O que fazer então?</p>
<p>Duas coisas. Primeira: deixar claro na cúpula de julho de 2025, no Rio de Janeiro, que ela é uma etapa intermediária da presidência brasileira, que continua no segundo semestre com reuniões ministeriais, de xerpas e de assessores – aproveitando inclusive as diversas ocasiões em que representantes dos 10 países dos BRICS se encontram por outros motivos (reuniões do FMI e do Banco Mundial ou da ONU, por exemplo).</p>
<p>Deveria haver um outro encontro dos líderes dos BRICS em 2025!</p>
<p>Segunda coisa, e mais importante: deixar claro, desde logo, que o Brasil pretende presidir um segundo encontro de líderes do grupo em novembro, em paralelo à cúpula do G20 na África do Sul. Isso permitiria completar a presidência brasileira e, em seguida, passar o bastão à Índia, o próximo país a exercer a presidência dos BRICS.</p>
<p>A maioria dos países dos BRICS são também membros do G20 (caso do Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e Indonésia). Os demais (Egito, Etiópia, Emirados Árabes e Irã) poderiam ser convidados a comparecer como parte do <em>outreach</em> que sempre se faz nas presidências do G20.</p>
<p>Burocratas no Itamaraty ou na Fazenda podem levantar objeções, alegando por exemplo que seria algo inusitado e complicado. Não é verdade. Foi o próprio Brasil, graças à presidente Dilma Rousseff, que criou a tradição de realizar encontros dos líderes <em>dos</em> BRICS à margem da cúpula do G20.</p>
<p>O primeiro foi em Cannes, em 2011, por ocasião da cúpula na França. Na ocasião, eu estava lá e dou testemunho de que havia dificuldades aparentemente insuperáveis. A ideia fora lançada pelo Brasil, mas a China e a Índia não se entendiam sobre quem deveria convocar a reunião. Diplomatas brasileiros, entre eles o então ministro Antônio Patriota, me explicaram que não seria mais possível fazer a reunião. Eu respondi: “mas então o Brasil convoca”. Ninguém aceitou a ideia.</p>
<p>Logo em seguida, eis que chega a Cannes a presidente Dilma Rousseff (os líderes sempre chegam na última hora nas cúpulas). Confrontada com o “impasse”, disse imediatamente: “então eu convoco a reunião”. E assim foi. A primeira reunião desse tipo ocorreu sob a presidência brasileira e correu muito bem. Fiquei com fama de ter grande influência sobre a presidente Dilma Rousseff, eu que mal tinha contato com ela.</p>
<p>No ano seguinte, em 2012, tivemos novo encontro desse tipo em Los Cabos, por ocasião da cúpula do G20 no México. Dessa vez, houve inclusive um comunicado dos líderes dos BRICS. Aí a dificuldade era com a Índia que não queria colocar na mesa a ideia da criação de um fundo monetário dos BRICS. Graças a uma explosão da presidente brasileira, a Índia cedeu e foi lançada a negociação do Arranjo Contingente de Reservas, uma ideia a que ela se afeiçoara. (Dilma Rousseff exagera, mas sabe fazer certas coisas…)</p>
<p>Depois tivemos reuniões do mesmo tipo em várias ocasiões, por exemplo: em São Petersburgo, Rússia (2013), em Brisbane, Austrália (2014), em Antália, Turquia (2015), em Hangzhou, China (2016), em Hamburgo, Alemanha (2017), em Buenos Aires, Argentina (2018) e em Osaka, Japão (2019) – sempre à margem das cúpulas do G20.</p>
<p>Repare, leitor ou leitora, que essas reuniões ocorreram mesmo nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, menos inclinados a atribuir importância aos BRICS. Em 2019, o Brasil exercia inclusive a presidência dos BRICS em pleno governo de Jair Bolsonaro.</p>
<p>O governo Lula ficará aquém?</p>
<p>Paulo Nogueira Batista Jr.<em> é economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS. Autor, entre outros livros, de</em> Estilhaços (<em>Contracorrente</em>)</p>
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		<title>Economistas ainda pensam em crescimento eterno, diz José Eli da Veiga</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 May 2025 18:28:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Professor da USP defende noção de crescer decrescendo e afirma que COP30 pode ser a mais difícil de todas; Eduardo Sombini, Doutor em geografia pela Unicamp, é repórter da Ilustríssima. Folha de São Paulo, 10/05/2025 Nem abandonar a ideia de crescimento econômico nem confiar nela cegamente. José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Professor da USP defende noção de crescer decrescendo e afirma que COP30 pode ser a mais difícil de todas;</p>
<p>Eduardo Sombini, Doutor em geografia pela Unicamp, é repórter da Ilustríssima.</p>
<p>Folha de São Paulo, 10/05/2025</p>
<p>Nem abandonar a ideia de crescimento econômico nem confiar nela cegamente.</p>
<p>José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, recorre a essa dupla negativa para sintetizar sua análise em “O Antropoceno e o Pensamento Econômico” (Editora 34), terceiro volume de sua trilogia sobre as ciências e as humanidades em um período de crise climática e transformação acelerada do planeta pela sociedade.</p>
<p>No livro, o intelectual revisita escolas e pensadores à margem do mainstream da economia para sustentar que a disciplina não acompanhou o avanço da fronteira do conhecimento e ainda passa ao largo, por exemplo, da teoria da evolução e da física moderna.</p>
<p>Em razão disso, Veiga argumenta, o pensamento econômico ignora os fluxos de energia e matéria envolvidos no processo de produção, o que faz com que economistas concebam um crescimento eterno e não se preocupem com as condições de vida das gerações futuras.</p>
<p>Na entrevista, o pesquisador fala sobre as ideias de crescer decrescendo e decrescer crescendo, um caminho do meio entre manter o modelo atual e as propostas de decrescimento da economia.</p>
<p>Veiga também discute o impasse em fóruns multilaterais dedicados à crise ambiental, como as COPs. Para ele, negociações entre as corporações e os governos responsáveis pela maior parte das emissões de gases do efeito estufa teriam mais resultado que encontros anuais com a participação de mais de uma centena de países.</p>
<p>Leia abaixo os trechos principais da entrevista.</p>
<p><strong>O pensamento econômico hoje</strong></p>
<p>Existe uma corrente muito secundária, vista pelos economistas como uma coisa heterodoxa e estranha, a economia evolucionária. Tem uma muito forte, a economia institucional. Tem uma bem sólida, mas que não é muito reconhecida, a economia ecológica. Mas, se você perguntar como uma inteligência artificial classifica as várias correntes da economia, o risco é que nem apareçam essas que eu citei.</p>
<p>Porque as principais são aquelas que, no fundo, formam o currículo tradicional de um curso de economia: macro, micro, história do pensamento econômico, um pouco de história econômica. A formação de um economista é mais ou menos essa.</p>
<p>Será que uma humanidade —a economia não é uma ciência— precisa ser compatível com a física e com a biologia, para não falar de química e geociências? Minha tendência é dizer que é errado ser incompatível.</p>
<p>Tem ramos da economia que avançaram muito, principalmente aqueles afeitos à modelização matemática, mas a economia ainda hoje é absolutamente prisioneira da mecânica clássica e, principalmente, da ideia de equilíbrio. Ignora totalmente a termodinâmica, para começar. Você chega a conclusões muito diferentes a respeito de como pode ser o desenvolvimento se levar em conta ou não a termodinâmica.</p>
<p><strong>O conceito de entropia</strong></p>
<p>Uma das primeiras coisas com que um estudante de economia se defronta é um diagrama do fluxo circular, que explica como funciona o chamado sistema econômico. Não entra nada nem sai nada desse sistema. Ele ignora a entrada de energia —nós somos uma dádiva do Sol— e, principalmente, todos os resíduos, do outro lado, além da entropia.</p>
<p>O que interessa para um economista na questão da entropia? Quando se usa energia —e nós não fizemos outra coisa que procurar fontes de energia que nos dessem cada vez mais produtividade—, parte dessa energia se dissipa. Permanentemente, estamos perdendo uma boa parte da energia que mobilizamos.</p>
<p>A rigor, a longo prazo, você não pode pensar em crescimento econômico. Você tem que pensar que o futuro da humanidade ou o desenvolvimento vão ter que prescindir do crescimento. Essa é uma conclusão que choca um economista ortodoxo, tradicional. Para eles, é subentendido que o crescimento é uma coisa eterna.</p>
<p><strong>A economia e a ética</strong></p>
<p>A dicotomia entre a economia como ética e uma economia mais logística, que a gente normalmente chama de o lado engenheiro da economia, é bem antiga. Houve tentativas teóricas de dizer que a economia devia se limitar só a esse aspecto logístico e não entrar em nenhum tipo de consideração ética. Evidentemente, isso não é uma coisa que foi seguida pelos economistas, mesmo por economistas que eu classificaria como ortodoxos. Uma parte deles, ao contrário, é bem ligada em considerações éticas.</p>
<p>Para nós, isso é muito importante porque o aquecimento global —para não falar de todos os outros prejuízos ao meio ambiente que a gente vem causando pelo menos há uns 80 anos de forma muito intensa– coloca em questão as condições de vida das próximas gerações. Esse é um dilema ético para nós.</p>
<p><strong>Resultados frustrantes das COPs</strong></p>
<p>Uma das coisas chocantes é notar que a questão da camada de ozônio, que era complicadíssima, teve um arranjo de cooperação internacional que deu muito resultado. Por quê? Como foi o formato?</p>
<p>No início, só se juntaram os que mais eram responsáveis pelo assunto. Eram poucos países que tinham as empresas que faziam o estrago. A partir disso, paulatinamente, foram ganhando adesões à convenção. É difícil encontrar, pelo menos na área ambiental, outra convenção ou outro tratado que tenha tido tanto sucesso.</p>
<p>Quando, em 1988, se criou o IPCC, houve muita pressa, porque a Rio-92 estava marcada e ia ser uma coisa muito importante. Mais importante que mera pressa, havia a conjuntura internacional geopolítica desse período. Ainda se vivia muito daquele entusiasmo e otimismo que surgiu a partir da queda da União Soviética. Hoje, olhando com a facilidade de estar distante disso, parece uma coisa infantil imaginar que você poderia fazer uma assembleia anual de todos os países do mundo e chegar a algum tipo de decisão.</p>
<p>A Convenção do Clima criou uma arena para que houvesse disputas políticas das mais variadas. No início, era sempre o Sul querendo dizer que a culpa era do Norte e que eles tinham que pagar. Depois, foram encontrando algumas saídas e, no famoso Acordo de Paris de 2015, a ideia é que cada país vai determinar ele mesmo qual é a contribuição que pode dar. Isso foi um grande avanço.</p>
<p><strong>Neutralidade de carbono</strong></p>
<p>No meio disso, com um grupo de Oxford liderando, cientistas começaram a levantar a ideia de que existem emissões que podem ser, de certa forma, abatidas —quando, por exemplo, uma área desmatada é restaurada— e isso levou à ideia de compensação de carbono.</p>
<p>Foi um tremendo desserviço. Quer dizer, tinha um lado bom e um lado ruim. O lado bom é que muitas empresas que olhavam para a questão do aquecimento global e viam sempre como um sacrifício ter que reduzir emissões, de repente, falaram: &#8220;Bom, vamos também poder abater aquilo que a gente faz de positivo&#8221;. Isso deu um certo incentivo para que elas não simplesmente banissem a ideia do aquecimento global.</p>
<p>Por outro lado, as empresas que mais emitem acharam o máximo. &#8220;Comprar uns créditos de carbono do pessoal que restaura na Amazônia, se a gente for muito pressionado, senão vamos continuar emitindo&#8221;. O resultado? É só olhar o que aconteceu.</p>
<p>Do Acordo de Paris para cá, as emissões de CO<sub>2</sub> equivalente não pararam de aumentar, em um ritmo que é difícil imaginar se seria diferente. O impacto dos créditos de carbono nem começou a fazer cócegas por enquanto. Conheço muitos colegas que acreditam que, por volta de 2050, haja neutralidade de carbono –quer dizer, que o aquecimento global vai continuar, mas que as emissões estariam sendo mais ou menos integralmente abatidas por esses descontos.</p>
<p>Quando olho os números, acho que o máximo que se pode dizer é que talvez seja um problema que tenha solução neste século, mas não vai ser desse jeito, com essa convenção.</p>
<p><strong>Um novo modelo para as COPs</strong></p>
<p>Do meu ponto de vista, o que pode melhor acontecer é que, em algum momento, esse mesmo sistema de COPs descubra que é preciso reconsiderar a própria convenção. Hoje, a gente sabe que 80% das emissões saem de 57 empresas que estão em 34 países.</p>
<p>Se você juntasse esses 34 países em vez de juntar mais de cem uma vez por ano, eles não demorariam para encontrar uma maneira de se comprometer com um esquema de redução. Por exemplo, o chamado &#8220;cap and trade&#8221;: você fixa uma meta de redução das emissões para o ano que vem e as empresas que tiverem conseguido atingir essa meta recebem créditos que poderão ser vendidos para aquelas que ainda não conseguiram. Um esquema desse tipo é o que funciona no mercado de carbono europeu.</p>
<p>Aos poucos, você teria muito mais resultados se o arranjo fosse só com esses 34 países ou essas 57 empresas —ou a parte deles que topasse. Se a convenção não fosse abolida, as COPs poderiam começar a ser reunidas de cinco em cinco anos. É um desperdício de tudo, de dinheiro, de energia. Essas COPs são uma coisa assustadora.</p>
<p><strong>Expectativas para a COP30</strong></p>
<p>Do ponto de vista das negociações diplomáticas, acho que vai ser praticamente mais do mesmo. Sempre aparece alguma coisa que você pode usar para dizer que foi um avanço, mas, no frigir dos ovos, não vai ter nada de significativo nesse plano.</p>
<p>Só que surgiu uma novidade muito importante. No discurso do Lula na Assembleia Geral da ONU, ele fez a sugestão de que nós fizéssemos um balanço ético global.</p>
<p>A ideia é que o balanço seja feito a partir do momento em que todos os países apresentem os seus compromissos nacionalmente determinados, os NDCs, e pouquíssimos países, por enquanto, apresentaram. Vai ficar muito em cima da COP, em novembro, que se terá esse conjunto e se poderá começar a fazer esse balanço.</p>
<p>Não vai ser exatamente na COP, mas, com isso, a COP poderá ter desencadeado na sociedade civil uma dinâmica que ainda não existe: a sociedade civil mundial se mobilizar em torno desse balanço ético global e isso gerar uma forma de maior responsabilização e pressão sobre o conjunto dos países. Se eu não estiver muito enganado, vai acontecer algo de muito positivo, mas meio que fora da COP em si, que virou uma espécie de feira anual de lobistas.</p>
<p>Não vai ser muito diferente desta vez —e com conflitos. Tem tanta gente na Amazônia e tantas tendências da sociedade civil muito mobilizadas em torno disso que é provável que seja, de todas as 30, a mais difícil de conduzir.</p>
<p><strong>Crescer decrescendo</strong></p>
<p>Considero essa ideia uma espécie de ovo de Colombo, porque fica um debate entre os decrescentistas e aqueles que dizem: &#8220;Olha a fórmula que funcionou até hoje. Você terá população em queda, educação e inovações institucionais e tecnológicas continuando. Os problemas ambientais meio que se resolvem pelos preços. Não tem que ficar discutindo se tem que ter ou não crescimento. Quanto mais crescer, melhor&#8221;.</p>
<p>No entanto, quando você para para pensar em termos práticos, tem coisas que não podem mais crescer e tem outras que são promissoras e que precisam ter espaço para crescer. Não se trata de dizer, para quem está com a responsabilidade da política econômica, que deva pisar no acelerador ou no freio do crescimento. Ao contrário.</p>
<p>Tudo o que emite e queima energia fóssil demais, o ideal é que decresça. As energias renováveis precisam crescer. Estou falando do terreno da energia, mas você pode encontrar exemplos em todos os terrenos. É permanente esse caminho do meio.</p>
<p>Tem uma ideia que eu procuro ressaltar no fim do livro: o fundamental é desacoplar. Este é o verbo-chave da mensagem que a gente pode tirar de uma análise sobre o Antropoceno. Desacoplar, fundamentalmente, significa que tenho que procurar ao máximo possível estimular as atividades que usem menos energias fósseis e que, portanto, emitam menos. Não é o único desacoplamento, mas é o principal.</p>
<p><strong>A viabilidade política da ideia</strong></p>
<p>Na conjuntura atual, diria que é uma inviabilidade. O principal sinal disso é o Trump, mas não está sendo assim na China e a União Europeia está na vanguarda. Para construir a ideia, não posso condicioná-lo ao fato de a agenda ser ou não ser realista.</p>
<p>Se não for, eu estiver errado e essa conjuntura extremamente negativa perdurar, pior para vocês que estarão vivos [risos].</p>
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		<title>O socialismo e a excepcionalidade chinesa, por Elias Jabbour</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 May 2025 02:00:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[ Elias Jabbour – A Terra é Redonda &#8211; 02/05/2025 Chegou a momento de discutir a excepcionalidade chinesa enquanto um socialismo com as características daquela formação histórica que está impondo vitórias sucessivas ao seu próprio povo e derrotas ao imperialismo O sério e respeitável intelectual e militante Valerio Arcary nos entregou recentemente sua análise particular do [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em> </em><em>Elias Jabbour – A Terra é Redonda &#8211; 02/05/2025</em></p>
<p><em>Chegou a momento de discutir a excepcionalidade chinesa enquanto um socialismo com as características daquela formação histórica que está impondo vitórias sucessivas ao seu próprio povo e derrotas ao imperialismo</em></p>
<p>O sério e respeitável intelectual e militante Valerio Arcary nos entregou recentemente sua análise particular do processo em curso na China. O texto chamado de “A excepcionalidade chinesa”, publicado no site <strong>A Terra é Redonda</strong> é mais uma prova da vasta cultura política e histórica de Valerio. Na verdade, ele não trata de uma única excepcionalidade chinesa, mas de algumas – sendo que a linha de cada uma das excepcionalidades leve à constatação de o país ter restaurado o capitalismo, amiúde não ter transformado o regime político; o que em si já instigaria um estudo.</p>
<p>O núcleo do argumento de Valerio Arcary é muito claro e vai na direção dos riscos da esquerda mundial em abraçar um novo campismo em torno da China. Vamos aqui trocar ideias sobre alguns pontos levantados no texto de forma não de criticar os pressupostos do escrito, mas no sentido de demonstrar que o desenrolar da experiência chinesa nos demanda não somente uma completa reformulação da gramática política sobre as experiências socialistas.</p>
<p>Devemos rediscutir o próprio socialismo diante dos inegáveis avanços à classe trabalhadora chinesa de um projeto que, antes de mais nada, advoga o socialismo. E não outro “ismo” como nos lembra Xi Jinping.</p>
<p><strong>O verdadeiro “campismo”</strong></p>
<p>De imediato não acredito neste risco. Valerio Arcary fala em “o melhor da esquerda mundial” e os riscos dela se alinhar aos chineses. Em primeiro lugar, o que seria esta esquerda mundial? Se for a esquerda baseada em um marxismo que não se livrou da Europa e que hoje é hegemônica em todo o mundo onde PCs não ocupam o poder político, o risco do campismo não existe. Esta esquerda rejeita as experiências socialistas e observam a China com a mesma cosmovisão que os europeus enxergam os negros, índios, latinos etc.</p>
<p>O que deverá ocorrer, e já ocorre, é a crescente simpatia, de forças nacionalistas revolucionárias que hoje pipocam na África e desalojam governos pró-imperialistas, pela experiência chinesa. São bandeiras chinesas que as pessoas empunham no Níger, Burkina-Faso e alhures como inspiração às suas lutas. Neste sentido, o melhor da esquerda mundial não está no Brasil, na Europa e nos EUA e sim na África onde essa esquerda que enfrenta e derrota o imperialismo francês não é financiada por fundações e/ou ONGs de partidos socialdemocratas europeus como vemos no Brasil e na América Latina operando uma tragédia política de grandes proporções.</p>
<p>Logo, o campismo é entre a esquerda “<em>Open Society</em>” e as forças políticas que integraram o marxismo às suas realidades nacionais. Assim ao africanizar o marxismo, forças políticas que operam no campo oposto da “<em>Open Society</em>” nos entrega esperança, não o niilismo da esquerda no ocidente e sua franja.</p>
<p>A China aí é força política com amplo e decisivo papel positivo no fortalecimento da consciência nacional e revolucionária da periferia africana e asiática do sistema. Suas relações “Sul-Sul” via Iniciativa Cinturão e Rota demonstram com clareza as diferenças entre a globalização financeira que “africanizou a África” e as tendências que o desenvolvimento chinês entrega aos povos do mundo.</p>
<p><strong>Equívocos básicos</strong></p>
<p>Valerio Arcary comete equívocos básicos em seu texto. Por exemplo, Deng Xiaoping não foi preso e torturado na Revolução Cultural, nem tampouco existe uma formulação oficial do governo chinês de uma “NEP de longa duração”, “transição ao capitalismo” e em seguida “um novo giro histórico e reiniciar a passagem ao socialismo.</p>
<p>A formulação oficial é simples objetiva: a China encontra-se na etapa primária do socialismo, etapa esta caracterizada pela convivência de diversas formas de propriedade sob a dominância da propriedade pública. Outro equívoco básico é a colocar acento no “modelo econômico que aprofunda a desigualdade social por uma etapa indefinida não pode ser considerada socialista”.</p>
<p>Aliás, concordo com Valerio Arcary nisso, mas os dados dizem o contrário. Uma pesquisa rápida e fácil nos demonstrará a que as desigualdades sociais e territoriais na China está em curva descendente há pelo menos 20 anos e que esta mesma burguesia que, segundo ele, se favorece de uma ilimitada acumulação de capital tem visto seu patrimônio cair em um terço nos últimos cinco anos, fruto de uma operação em que a contabilidade da firma se submete cada vez mais à contabilidade social. Aqui vou dispensar as fontes, apenas sugerindo pesquisar cada afirmação que exponho aqui.</p>
<p>Valerio Arcary não demonstra conhecimento das políticas executadas pela governança chinesa voltadas ao controle da expansão do capital privado, o verdadeiro enquadramento de sua burguesia a uma ordem política que se tem demonstrado cada vez mais hostil a ela e a inexistência de elementos de contabilidade da firma nas decisões de investimentos estratégicos: o capitalismo é incapaz, em qualquer momento histórico, de entregar 45000 km de trens de alta velocidade em apenas vinte anos.</p>
<p>Outro ponto, que não se trata de um equívoco em si, é o fato de no texto não existir nenhum dado que demonstre de fato que houve uma restauração capitalista na China. Valerio Arcary se contradiz ao propor um estudo capaz de entender a tal da “contrarrevolução social” (sic) sem mudança de regime. Qual o regime anterior a 1978? Não podemos tratar, também, como equívoco a sua alusão ao “massacre” da Praça Tiananmen de 1989. Guarda certa ingenuidade não perceber ou mesmo não se dar ao trabalho de ler os relatórios liberados pela CIA sobre aqueles acontecimentos.</p>
<p>O mesmo pode se dizer sobre a comparação entre Deng Xiaoping e Mikhail Gorbachev. São figuras históricas e políticas antagônicas, inclusive na gramática política chinesa o homem que destruiu a URSS é tratado como um traidor e idiota (adjetivo usado por Deng Xiaoping). As reformas econômicas chinesas nada tem a ver com a <em>Perestroika</em> e a <em>Glasnost</em>. A primeira legitimou um Estado Socialista e as outras duas foram funcionais à destruição da primeira experiência socialista de nossa época.</p>
<p><strong>A “burocracia”</strong></p>
<p>Um dos problemas que identifico nas formulações da corrente política a qual se afilia o professor Valerio Arcary é um certo universalismo de noções pari passu a um envelhecimento das mesmas. Por exemplo, o que não se encaixa em um <em>check-list</em> pode ser considerada “restauração capitalista”. O mesmo se aplica ao conceito amplamente utilizado, e de forma muito séria e competente por León Trótsky, de “burocracia”.</p>
<p>É inescapável em trabalhos de trotskistas o refúgio nessas noções. Aqui eu sugiro substituir o universalismo (um desvio claramente liberal) pela categoria de formação econômico-social. O que significa que a burocracia descrita por León Tróstky, herdeira do czarismo, pouco tem a ver com a burocracia herdeira do modo de produção asiático.</p>
<p>Evidente que a tendência da burocratização é o aburguesamento e digo mais, à corrupção. Esse fenômeno também ocorre na China e é inegável. Não proponho passar por cima desta contradição, que não se tornou uma “contradição antagônica” na China, mas observar que essa burocracia simplesmente realiza: retirou 800 milhões de pessoas da linha da pobreza em 40 anos, construiu 45000 km de trens de alta velocidade em 20 anos, construiu uma imensa economia baseada no setor público capaz de rivalizar a colocar de joelhos o capitalismo estadunidense.</p>
<p>E entrega aumentos salariais nos últimos dez anos acima da inflação, do crescimento do PIB e da produtividade do trabalho, enquadra e coloca limites na burguesia, expropria seus bens e delibera pela distribuição ao povo, constrói um sistema de assembleias populares e de comitês de bairros que foram fundamentais na mobilização de quatro milhões de profissionais da saúde voluntários para enfrentar a morte em Wuhan, planeja a destruição criativa schumpeteriana a ponto de deslocar 200 milhões de chineses do campo às cidades em dez anos sem o risco de favelização etc. etc. etc.</p>
<p>Esta burocracia é herdeira da casta de burocratas que exerciam a administração estatal desde antes de Cristo ocupada com o gerenciamento e execução de imensas obras públicas. A perda de capacidade desta burocracia em entregar grandes obras levava massas camponesas influenciadas por Laotsé a derrubar dinastias.</p>
<p>Ao invés de enveredar a discussões abstratas sobre o “substitucionismo social” seria mais interessante entender a dialética entre o papel histórico do camponês chinês, sua capacidade de pressão sobre a burocracia e as razões de a China não ter sucumbido à contrarrevolução de 1989: os camponeses estavam com o socialismo e não ladeando com um levante pró-imperialista. Hoje esses camponeses são trabalhadores urbanos responsáveis por rebeliões de diversa ordem, colocando contra a parede os herdeiros de Mao Zedong.</p>
<p>Não se entende a China sem conhecer profundamente sua história. O que significa que se é atual a velha máxima do “mandato dos céus ser revogável pelo povo”, não é difícil concluir, conhecendo as minúcias de como aquela sociedade funciona, e a história dessas minúcias, que se trata de um país onde ceder a frágeis noções de “país fechado” e “autoritarismo” para descrever um país e sociedade onde o niilismo não comparece e onde se respira futuro.</p>
<p><strong>“Defesa incondicional de realizações”?</strong></p>
<p>Em 1949 a expectativa de vida dos chineses era de 35 anos. Hoje ultrapassou os EUA. As mulheres estavam submetidas ao processo de enfaixar seus pés de forma a criar uma sinistra forma artística para agradar os homens e hoje ocupam postos de destaque em todos os âmbitos da sociedade. O Tibet era uma semicolônia inglesa submetida por uma teocracia escravista e hoje seu padrão de vida melhora de forma mais rápida que as verificadas em outras regiões do país. A China derrotou o imperialismo em sua guerra civil e na Guerra da Coreia e hoje a derrota novamente no campo comercial e tecnológico.</p>
<p>Os avanços sociais incontestes aprofundados desde 1978, não reduzindo à eliminação da pobreza extrema, mas também a possibilidade de um camponês pobre ser submetido a intervenções cirúrgicas complexas e gratuitas há milhares de km de distâncias por um médico mediado por esquemas de inteligência artificial deveria por si ser um desmentido ao despautério de apontar na China uma “contrarrevolução social” quando ocorre simplesmente o oposto e sua realização não se separa do poder político erigido por uma longa luta revolucionária.</p>
<p>Nenhum cidadão chinês minimamente informado concordaria com uma afirmação tão irreal quanto absurda vendo camponeses pobres se transformando em cientistas e uma vibrante democracia de base enviar mais de 3000 emendas às resoluções da última Assembleia Popular Nacional. A decadência da ciência social ocidental, que atinge duramente o marxismo, não está no não reconhecimento dos feitos da revolução chinesa e sim na elaboração de noções sem nenhuma conexão com aquela realidade e a igualando com completa miséria extrema que assola um país, esse sim, de capitalismo dinâmico como a Índia. É o fundo do poço.</p>
<p>Reconhecer os feitos das revoluções socialistas é um ato de humanismo em um mundo onde a miséria, a fome e a guerra se tornam a regra. É negar a tendência ao ceticismo e ao niilismo e uma quase adesão ao racismo; pois é de racismo que se trata quando lemos os veredictos de intelectuais sem nenhum compromisso com o poder político e influenciado pela decadência do marxismo ocidental. Não é o caso de Valerio Arcary, evidente. A humanidade pode vencer e qualquer indicador social chinês nos demonstra isso.</p>
<p>Seria “campismo” o reconhecimento desses feitos? Não. Seria demonstração de fé no futuro. Isso não significa fechar os olhos para as imensas contradições que afetam a sociedade chinesa. A corrupção, a luxuria, a existência (cada vez menor) de bilionários e milionários, crise ambiental, fosso social formado por imensos equívocos de políticas executadas na segunda fase de reformas.</p>
<p>Tudo isso está apontado em meus livros e artigos sobre a China. Mas só se cria contradições onde o Partido Comunista se propõe a ser motor do desenvolvimento. Nada do que ocorreu após 1978 foi planejado milimetricamente. Não, o que veio foi um gigantesco processo de desenvolvimento e suas contradições proporcionais a este processo, além do altíssimo preço deste desenvolvimento.</p>
<p>A “prova do pudim” de um Partido Comunista no poder está no exercício absoluto de seu poder sobre todas as esferas da produção, da finança e impor à burguesia o seu ritmo e objetivos. Afora isso, este teste também se estende à demonstração de capacidade de o Partido Comunista em perceber a contradição e indicar rumos à sua superação.</p>
<p>Desafio alguém me mostrar que o Partido Comunista da China não enfrenta, e está vencendo e apontando rumos, a todas as contradições criadas pelo seu processo de desenvolvimento.</p>
<p><strong>Discutindo o socialismo em nossa época como adultos</strong></p>
<p>A experiência chinesa, imersa tanto em contradições quanto em ferramentas políticas e institucionais para enfrentar suas contradições, deveria nos obrigar não a temer um “campismo” ou nos refugiar em noções criadas na década de 1930 para compreender os limites da URSS sob a ótica de uma corrente política derrotada e sem nenhuma experiência pratica de poder político desde 1917. Deveríamos os render a mais abstrações (visão de processo histórico) e menos prisões no abstrato (visão ideológica e imersa em apriorismos).</p>
<p>Chegou a momento de discutir a excepcionalidade chinesa enquanto um socialismo com as características daquela formação histórica que está impondo vitórias sucessivas ao seu próprio povo e derrotas ao imperialismo vistas somente na 2ª Guerra Mundial.</p>
<p>É preciso encarar o objeto e penetrar nele; descobrir as suas regularidades e coerência interna. Observar como adultos seria colocar todas as contradições daquele processo em perspectiva de movimento real da mesma forma como observamos seus encaminhamentos resultando em um país estranhamente capitalista que nunca passou por uma crise. As estruturas de propriedade baseadas na propriedade pública e crescente participação de conselhos de trabalhadores em decisões de investimento, o amplo controle do Partido Comunista sobre o setor privado.</p>
<p>É descobrir como após 75 anos de poder político exercido no então país mais pobre do mundo, hoje observamos essa forma histórica encaminhando soluções tanto às três questões centrais de nossa época: o desenvolvimento, a paz e a crise climática. É inescapável não colocar, repetindo, que a base dessas realizações é o próprio poder político que se propõe a revolucionar a sua sociedade em saltos qualitativos e fazendo com que a ciência penetre nos poros de seu tecido social.</p>
<p>No detalhe, é ir fundo na investigação de como aquela experiência consegue dar início, meio e fim a todos os projetos as quais ela se propõe. Aqui, percebemos que a ciência do projetamento criada por Ignacio Rangel se realiza na China sob diversas formas. Por exemplo, o sucesso de um grande projeto depende da equalização das estruturas de custo e benefício de todas as cadeias produtivas envolvidas, por exemplo, no projeto de erradicação da pobreza.</p>
<p>A prática de construção de mais de cem anos de socialismo no mundo nos coloca a evidência empírica de que somente o socialismo é capaz de operar essa equalização e que a mesmo sob o capitalismo hoje é impossível e quando foi possível (consenso keynesiano) ocorreu às custas de desperdício imenso de recursos.</p>
<p>O socialismo ainda está no início de sua trajetória histórica, portanto com regularidades ainda em construção. Em nossa época, a experiência chinesa pode nos entregar uma definição de socialismo que a relaciona com a transformação de ciência em instrumento de governo.</p>
<p>Penetrando à fundo na experiência, percebemos que o “socialismo com características chinesas” se distingue dos estados desenvolvimentistas, além da natureza do poder político e da estrutura de propriedade, pelo fato de dar forma a um Estado Socialista que absorve a natureza do Estado Desenvolvimentista e a supera de forma que se demonstre capaz de introduzir contradição no seio do organismo econômico, gerando movimento e corrida da sociedade empenhada no exercício de observar “<em>just in time</em>” a matriz insumo-produto e entregar as soluções institucionais para promover a transferência intersetorial de recursos.</p>
<p>Está aí a excepcionalidade chinesa. O contrário seria admitirmos que o capitalismo – dados os feitos da experiência chinesa – tem um ainda largo caminho civilizatório pela frente. Precisamos sair do jardim da infância que ainda domina o debate sobre o socialismo.</p>
<p><strong>Elias Jabbour</strong><em> é professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. Autor, entre outros livros, junto com Alberto Gabriele, de</em> China: o socialismo do século XXI <em>(Boitempo) </em></p>
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		<title>O Papa Francisco – entre os pobres e o Vaticano, por Guilherme Defina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Apr 2025 00:35:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Guilherme Defina – A Terra é Redonda – 23/04/2025 Francisco encarnou uma contradição viva: a de um papa jesuíta, latino-americano, comprometido com os pobres – mas dentro das muralhas de uma Igreja milenar, hesitante entre o altar e a praça A morte de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, sela com solenidade ambígua uma das [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Guilherme Defina – A Terra é Redonda – 23/04/2025</p>
<p></em></p>
<p><em>Francisco encarnou uma contradição viva: a de um papa jesuíta, latino-americano, comprometido com os pobres – mas dentro das muralhas de uma Igreja milenar, hesitante entre o altar e a praça</em></p>
<p>A morte de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, sela com solenidade ambígua uma das experiências mais inquietantes do catolicismo contemporâneo. Para uns, um pontífice populista e quase herege; para outros, o último respiro evangélico antes da burocratização definitiva da fé. Entre a denúncia profética e a suspeita doutrinal, Francisco encarnou uma contradição viva: a de um papa jesuíta, latino-americano, comprometido com os pobres – mas dentro das muralhas de uma Igreja milenar, hesitante entre o altar e a praça.</p>
<p>Não foi o primeiro a despertar fantasmas – tampouco será o último a deixar feridas abertas. Mas foi talvez o único a arrastar, com autoridade pontifícia, os dilemas teológicos da América Latina para o coração de Roma. Sob sua batina branca pulsava, ainda que domesticada, a centelha da Teologia da Libertação. E com ela, a memória do Cristo pobre, da Igreja dos oprimidos e da esperança em tempo presente.</p>
<p>Neste ensaio, nos propomos a pensar a morte do Papa Francisco não como um epílogo, mas como sintoma. Sintoma de um catolicismo que, ao tentar responder aos apelos do mundo, tropeça nas sombras de sua própria tradição. À luz da crítica conservadora católica – especialmente aquela desenvolvida por Gustavo Corção –, interrogamos os sentidos e os limites de uma Igreja “em saída”. O que resta da mística quando o dogma se abre à política? É possível conjugar a opção preferencial pelos pobres sem dissolver a fidelidade à ortodoxia?</p>
<p>Contra o entusiasmo dos progressistas e o desprezo dos reacionários, talvez caiba aqui uma terceira via – não a do centro conciliador, mas a da leitura crítica, situada e contextual. A figura do Papa Francisco não será compreendida nem em slogans pastorais nem em anátemas doutrinários. Ela exige um retorno às raízes das disputas que marcam o catolicismo latino-americano desde o século XX, especialmente àquelas que opuseram tradição e profecia, mística e práxis, o Cristo Rei e o Cristo subversivo.</p>
<p><strong>O Papa Francisco entre os pobres e o Vaticano – da Teologia da Libertação ao “marxismo eclesiástico”</strong></p>
<p>No princípio, havia a suspeita. Quando o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi alçado à cátedra de Pedro em 2013, não foram poucos os que, à direita e à esquerda, estranharam o gesto. Os primeiros viam com inquietação o sotaque portenho do novo papa, sua liturgia austera e sua recusa ostensiva aos protocolos do poder. Os segundos temiam, com igual intensidade, que a promessa de renovação não passasse de encenação. Afinal, o que poderia fazer um jesuíta de hábitos silenciosos, saído de uma das províncias mais conservadoras da Companhia de Jesus, num Vaticano ainda traumatizado pelo curto e rígido papado de Bento XVI?</p>
<p>O que se viu, porém, foi o progressivo desdobramento de um pontificado que não se deixaria definir por categorias fáceis. O Papa Francisco não foi – como tantos desejaram ou temeram – um “papa da Teologia da Libertação”. Mas tampouco a renegou. Incorporou-lhe os gestos, o vocabulário, os interlocutores. Canonizou mártires, visitou favelas, promoveu sínodos regionais. Acima de tudo, reafirmou com insistência quase incômoda a “opção preferencial pelos pobres”, não como um adereço pastoral, mas como chave hermenêutica da própria fé cristã. Com isso, recolocou no centro da doutrina aquilo que há décadas fora relegado às margens da diplomacia eclesiástica.</p>
<p>Se os documentos do Vaticano II haviam insinuado uma abertura, foram os teólogos latino-americanos – Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Ignacio Ellacuría – que a levaram às últimas consequências, resgatando a figura de um Cristo encarnado na luta dos povos. Contra essa tradição se insurgiu o conservadorismo católico, tanto europeu quanto latino-americano, que viu na Teologia da Libertação uma contaminação da fé por um marxismo travestido de pastoral. Gustavo Corção foi um de seus críticos mais enfáticos. Para ele, toda tentativa de politizar o Evangelho era uma forma de corrupção espiritual – uma entrega da mística ao mundo, do mistério ao método.</p>
<p>O Papa Francisco, nesse cenário, é uma figura desconcertante. Ele não abraçou o marxismo, tampouco silenciou diante das injustiças sociais. Sua crítica ao capitalismo global – sistemática e reiterada – não partia do materialismo histórico, mas de uma leitura evangélica radical. Seu engajamento com os pobres não era revolucionário nos moldes da luta de classes, mas restaurador de uma eclesiologia esquecida. E, ainda assim, foi acusado por setores conservadores de ser o “papa comunista”. Jorge Mario Bergoglio pagou o preço de não caber nos rótulos: foi visto como herético por uns e tímido por outros, exatamente por tentar reabilitar, a partir do centro, aquilo que fora rejeitado pela periferia do poder.</p>
<p>O que está em jogo, no fundo, é a tensão irresoluta entre o mistério e a missão. Para Corção, o mistério é anterior e superior à práxis – é aquilo que nos retira da história para nos lançar ao sagrado. Para o Papa Francisco, a missão não dilui o mistério, mas o manifesta: Deus não está fora do mundo, mas encarnado nele – especialmente onde há dor, miséria e abandono. O desacordo, portanto, não é apenas político ou pastoral. É ontológico. Trata-se de duas formas de conceber a fé: uma como guarda do sagrado, outra como fermento no mundo. Uma como muralha, outra como caminho.</p>
<p>Com sua morte, o Papa Francisco talvez tenha encerrado a última tentativa de resgatar, a partir do trono, a memória subversiva do Evangelho. Resta saber se a Igreja – essa instituição tão afeita a enterrar vivos e canonizar cadáveres – encontrará coragem para continuar o que ele, em sua ambiguidade e ousadia, apenas começou.</p>
<p><strong>Gustavo Corção e o catolicismo do mistério – crítica ao mundo moderno e à Igreja em mutação</strong></p>
<p>Se há algo que Gustavo Corção jamais tolerou foi a diluição do sagrado na política. Ao longo de sua trajetória como pensador católico, a modernidade aparecia não como palco da redenção possível, mas como laboratório da perdição. A secularização, o racionalismo, o progressismo – tudo isso era, para ele, sintoma de uma civilização doente, que havia trocado o mistério pela máquina, a liturgia pelo discurso, a alma pelo sistema. Ao contrário dos teólogos da libertação, Gustavo Corção via na política não um caminho para o Reino, mas um atalho para o pecado – e talvez, em última instância, para a perdição da própria Igreja.</p>
<p>A fé, para ele, não precisava ser útil, aplicável, performática. Ela era um ato interior, um salto no invisível, uma adesão radical ao mistério. O cristianismo que pregava não procurava transformar estruturas sociais, mas salvar almas. Em suas palavras, era necessário “resgatar a infância espiritual”, recuperar a capacidade de maravilhar-se diante do mundo – aquilo que ele chamava de “saúde do espírito”. E foi justamente essa “infância espiritual” que ele não enxergava nos teólogos da libertação, a quem acusava de instrumentalizar a fé em nome de projetos ideológicos.</p>
<p>Se comparado ao Papa Francisco, Gustavo Corção parece pertencer a outra Igreja – mais antiga, mais cerrada, mais desconfiada do mundo. E de fato, em certa medida, pertence. Mas essa comparação revela algo mais profundo: a batalha nunca pacificada entre dois modos de ser católico. Um que desconfia do tempo presente, outro que aposta na sua redenção. Um que enxerga na tradição o último refúgio contra o caos; outro que a vê como instrumento vivo, passível de conversão contínua.</p>
<p><strong>A morte do papa como alegoria: fim de um ciclo ou início de outro?</strong></p>
<p>A morte de um papa nunca é apenas biológica – é litúrgica, política, simbólica. Com o Papa Francisco, não se sepulta apenas um homem de carne e ossos, mas uma tentativa, uma gramática, um gesto. Enterra-se o último grande representante de um catolicismo pastoral que ousou articular justiça social e ortodoxia, sem que uma engolisse a outra. E, ao mesmo tempo, abre-se espaço para a rearticulação das forças que sempre buscaram, em nome da pureza doutrinal, silenciar a dimensão terrena do Evangelho.</p>
<p>Mas talvez o que morra com o Papa Francisco não seja apenas um modo de governar a Igreja, e sim uma figura teológica: o papa como ponte. Ponte entre doutrina e mundo, entre liturgia e rua, entre Trento e Medellín. E como toda ponte, sustentada pela tensão. Sua morte reabre a fissura: quem será agora o mediador entre o mistério e a história?</p>
<p>A resposta, talvez, não venha da cúpula, mas das margens. Nas periferias do mundo católico – aquelas mesmas que o Papa Francisco visitou, abraçou e fez escutar –, o cristianismo segue vivo, não como ideologia ou aparato, mas como presença.</p>
<p>Em última instância, a morte do Papa Francisco é um espelho. Reflete uma Igreja dilacerada entre dois impulsos: o de conservar a fé e o de encarná-la. O de guardar o fogo e o de espalhá-lo. E nesse dilema, tão antigo quanto a própria tradição apostólica, talvez esteja o segredo da Igreja: não escolher um lado, mas suportar o peso de ser ambos.</p>
<p>Gustavo Corção, com sua mística do recolhimento, e o Papa Francisco, com sua teologia da saída, são menos antagonistas do que parecem. Ambos denunciaram, à sua maneira, os ídolos do tempo presente – o mercado, o Estado, o ego. Ambos sabiam que não há Igreja viva sem tensão. E ambos, por vias diferentes, apontaram para o mesmo horizonte: um Deus que não cabe em nenhum sistema.</p>
<p><strong>Guilherme Defina</strong> <em>é mestrando em ciência política na Unicamp</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Mario Vargas Llosa e as ficções do liberalismo, por Khoury Oliveira &#038; Kaysel</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Apr 2025 00:05:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Mariana El Khoury Oliveira &#38; André Kaysel A Terra é Redonda – 22/04/2025 A dualidade entre o legado literário e político-intelectual de Vargas Llosa – a interseção entre suas obras e suas escolhas políticas 1. O falecimento do escritor peruano Mario Vargas Llosa (1936-2025) no último dia 13 de abril o trouxe novamente à [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Mariana El Khoury Oliveira &amp; André Kaysel </strong></p>
<p><strong>A Terra é Redonda – 22/04/2025</strong></p>
<p><em>A dualidade entre o legado literário e político-intelectual de Vargas Llosa – a interseção entre suas obras e suas escolhas políticas</em></p>
<p><strong>1.</strong></p>
<p>O falecimento do escritor peruano Mario Vargas Llosa (1936-2025) no último dia 13 de abril o trouxe novamente à cena em dois personagens, um literário e outro político. Acompanhando as repercussões no debate público, fica-se com a impressão de que quando um se apresenta, o outro está na coxia, como um gêmeo oculto. Aqui nos dedicaremos, justamente, a unificar os personagens que o laureado com o Nobel de Literatura de 2010, seus apologetas e mesmo alguns de seus críticos buscaram incessantemente separar.</p>
<p>Os holofotes atingem sua face especialmente na crítica literária e em seu ríspido ataque a seu compatriota, o escritor indigenista José María Arguedas (1911-1969), em sua obra <em>La utopia arcaica: José María Arguedas y las ficciones del indigenismo</em> (1996) que parafraseamos neste título.</p>
<p>Pouco mais de um quarto de século após a morte de Arguedas, Vargas Llosa publicou a análise acima citada do conjunto de sua obra, sublinhando alguns aspectos biográficos e seu comprometimento político com os povos indígenas da serra peruana que são de grande importância para seus romances, como <em>Los Ríos Profundos</em> (1958) e <em>Todas Las Sangres </em>(1965), entre outros.</p>
<p>Categorizando-o como um apêndice do indigenismo [I], classificação rejeitada pelo próprio José María Arguedas em seus ensaios, Vargas Llosa renega o valor estético de sua prosa, que conteriam “<em>una visión de la literatura en la que lo social prevalecía sobre lo artístico y en cierto modo lo determinaba</em>” [II]. Para ele, José María Arguedas teria chegado “<em>hasta el sacrificio de su talent</em>o” en búsqueda de una “mímica revolucionaria” [III]. Podemos apreender, portanto, que Vargas Llosa via a conexão entre política e literatura não apenas como uma escolha errônea, mas como uma rejeição da dimensão artística na literatura engajada. Aqui se repõe uma questão fundamental: é possível que exista a arte sem que sejam perceptíveis algumas inflexões políticas de quem a produziu?</p>
<p>Nas elegias e homenagens à Vargas Llosa, essa separação aparece tão clara quanto o era para ele. Por exemplo, em um artigo publicado no diário espanhol <em>El país [IV]</em>, no qual o autor manteve por quase três décadas uma coluna quinzenal, seis escritores peruanos dividiram suas opiniões entre o “legado literário” e o “legado político-intelectual”. A completa cisão se disseminou entre seus leitores e mesmo entre seus críticos, como se o escritor não guardasse nenhuma semelhança com seu gêmeo oculto, o político. O que estamos propondo é um ponto de vista que, reconhecendo a grandeza de seus romances, incorpore também suas escolhas em torno de seus temas, de suas polêmicas e de seus alinhamentos políticos.</p>
<p><strong>2.</strong></p>
<p>Quando se tratava de tomar posições públicas, Vargas Llosa nunca foi um autor vacilante. Durante a década de 1960, foi defensor das experiências socialistas, em especial da Revolução Cubana (1959), tendo visitado a ilha em 1962, em plena crise dos mísseis [V]. No Peru, deu apoio às reformas de base da ditadura da Junta Militar, representada pelo general Juan Velasco Alvarado (1968-1975), como a reforma agrária, a nacionalização das minas e de outras empresas estratégicas.</p>
<p>Nesse período, o autor publicou suas três primeiras e principais obras: <em>La ciudad y los perros</em> (1962), <em>La casa verde</em> (1966) e <em>Conversaciones en la Catedral</em> (1969). Representante do <em>boom </em>latino-americano, apesar de escrevê-los desde a Europa, seus romances tinham como palco a sociedade peruana. Vargas Llosa organiza através da literatura o Peru fragmentado e corrupto, utilizando-se de narrativas complexas, combinando temporalidades e personagens distintas para a elaboração de relatos que compõem seus livros.</p>
<p>O encantamento com o regime da ilha começou a se desfazer, em sintonia com diversos intelectuais latino-americanos, devido à invasão soviética da Tchecoslováquia em 1968 (mesmo ano em que Vargas Llosa pisou em solo soviético [VI]), e o apoio dado por Fidel Castro à intervenção que liquidou o experimento democratizante da chamada “primavera de Praga”. Para arrematar a fratura com a Revolução Cubana, deu-se a prisão do jornalista e escritor Herberto Padilla pelo regime, em 1971.</p>
<p>Mas, ao contrário de outros signatários dos manifestos em defesa de Herberto Padilla, como seu colega argentino Julio Cortázar, os franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir ou o estadunidense Noam Chomsky, o escritor peruano levou sua divergência às últimas consequências, rompendo com o horizonte socialista e às esquerdas em geral.</p>
<p>Na década de 1980, passou a defender abertamente as ideias neoliberais de Friedrich von Hayeck, liderou a oposição de direita ao governo do aprista Alan García (1985-1990) e escreveu o prólogo ao livro <em>El otro Sendero</em> (1988), de seu compatriota Hernando de Soto, que responsabilizava o Estado pelos males que afligiam tanto o Peru, como a América Latina em seu conjunto, preconizando como saída reformas de livre-mercado que impulsionassem o empreendedorismo popular, contido nos setores ditos informais: “<em>La opción de los ‘informales’ – la de los pobres – no es el refuerzo y la magnificación del Estado sino su radical disminuición. No es el colectivismo planificado y regimentado sino devolver al individuo, a la iniciativa y a la empresa privadas, la responsabilidad de dirigir la batalla contra el atraso y la pobreza</em>” [VII]. Assim, a ruptura com o socialismo levou ao extremo oposto: as ficções do liberalismo, de uma “ordem social espontânea”, baseada na livre-iniciativa individual.</p>
<p><strong>3.</strong></p>
<p>Desse modo, o que criticou em José María Arguedas estava também presente em si mesmo. Ao criticar a “utopia arcaica” de José María Arguedas, que buscava vincular a identidade nacional peruana às populações andinas e sua cosmovisão, Vargas Llosa apresenta a sua própria utopia: a utopia da modernidade capitalista. O foco dado às narrativas que negam a mágica contida na experiência andina, que negam a coletividade e qualquer possibilidade de persistência desse ponto de vista no mundo moderno, calcado em uma racionalidade individualista, apontam para sua concepção sobre seu país, o continente e o mundo. Isso não significa, ao contrário do que o próprio Vargas Llosa pontificou em sua análise sobre José María Arguedas, uma rejeição estética e artística de sua literatura, mas adiciona um conteúdo político às suas obras.</p>
<p>Retornando ao problema do indigenismo, na matéria acima citada de <em>El país</em>, o escritor Juan Manuel Robles, em uma apreciação em geral bastante positiva, conclui afirmando que Vargas Llosa foi incapaz de compreender as populações indígenas dos Andes e de simpatizar com suas manifestações. Isso já se evidenciava em seu relatório, produzido por encomenda do governo peruano sobre os assassinatos de jornalistas na comunidade de Uchuraccay (1983), em meio ao conflito interno armado entre o Estado peruano e o grupo maoísta extremista Sendero Luminoso, em que responsabilizou os <em>comuneros</em> “pouco lúcidos” pelas mortes [VIII].</p>
<p>A linguagem de cunho colonial utilizada por Vargas Llosa em seu figurino político-intelectual para a caracterização destes camponeses – que, vale salientar, não aparecem em seus romances –, refletem ainda outro aspecto: a valorização do legado colonial ibérico, associado ao pertencimento a um “Ocidente atlântico”, resgatando a velha chave “civilização” versus “barbárie” do liberalismo latino-americano do século XIX [IX]. Desse modo, não é de se estranhar que o escritor peruano, que desde 1993 também era cidadão espanhol, tenha aceito de bom grado em 2011 o título de Marquês por parte do então monarca, Juan Carlos I de Bourbon y Bourbon. [X]</p>
<p>Cerca de quarenta anos mais tarde, o escritor recebeu em 2023 a condecoração da Ordem do Sol no grau de Grande Colar [XI] da Presidenta interina do Peru, Dina Boluarte, cuja ascensão em 2022, na esteira da destituição de Pedro Castillo, havia levado à morte de cerca de 50 pessoas, especialmente na região andina de Puno, que protestavam contra o novo governo. Por que o autor de <em>La guerra del fin del mundo</em> (1981), foi capaz de empatizar com sertanejos brasileiros do final do século XIX, mas avaliza o massacre de seus concidadãos indígenas no século XXI?</p>
<p>Possivelmente a resposta resida no fato de que, nas ficções liberais por ele abraçadas, não existam falas para essas personagens, salvo talvez sob a fantasia de “empreendedores” nos bairros populares de Lima, na realidade um precariado que procura arrancar a sobrevivência no dia-a-dia de uma metrópole caótica.</p>
<p>Enfim, no último ato, as personagens de Vargas Llosa aparecem reunificadas, demonstrando a inexistência de um gêmeo oculto nas coxias. Emancipado do figurino, o ator é o mesmo. Perceber a carga política de seus romances não significa reduzi-los a este aspecto ou subtrair sua importância, mas complexificá-los.</p>
<p><strong>Mariana El Khoury Oliveira</strong> <em>é doutoranda em Ciência Política na Unicamp</em>.</p>
<p><strong>André Kaysel</strong><em> é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor, entre outros livros, de</em> Entre a nação e a revolução (<em>Alameda</em>).</p>
<p>Notas</p>
<p>[I] Corrente literária e política peruana do século XX calcada na valorização da cultura indígena-andina. Além do próprio Arguedas, entre seus principais representantes estão a escritora feminista Clorinda Matto de Turner (1852-1909), o poeta e ensaísta anarquista Manuel González Prada (1844-1918), o etnólogo Luís E. Valcarcel (1891-1987), o jornalista e militante socialista José Carlos Mariátegui (1894-1930), os romancistas Ciro Alegría (1909-1967) e Manuel Scorza (1928-1983). Para uma visão sintética sobre a relação entre indigenismo e cultura de esquerda no Peru, cf. RENIQUE, José Luís. <em>A Revolução Peruana</em>. São Paulo: Ed. UNESP, 2009.</p>
<p>[II] VARGAS LLOSA, Mario. La utopía arcaica: José María Arguedas y las ficciones del indigenismo. Madrid: Alfaguara, 1996, p. 17.</p>
<p>[III] Idem, Ibidem.</p>
<p>[IV] “O legado literário e político-intelectual de Vargas Llosa”, por Naiara Galarraga Gortázar e David Marcial Pérez, publicado em <em>El País</em>, 13 de abril de 2025.</p>
<p>[V] “A bizarra guinada à direita de Mario Vargas Llosa”, por Martín Ribadero, publicado na Revista <em>Jacobin</em> em 2024.</p>
<p>[VI] Idem,Ibidem.</p>
<p>[VII] VARGAS LLOSA, Mario. “Prólogo”. In DE SOTO, Hernando<em>. El otro Sendero</em>. Lima: El Barranco, 1986, p. XXVI.</p>
<p>[VIII] Informe sobre Uchuraccay, escrito para a Comissão da Verdade e Reconciliação.</p>
<p>[IX] GIMÉNEZ, María Julia. “Em La Antesala de La Iberosfera: un mapeo de la participación de la derecha española en las redes de think-tanks liberales y la actuación en clave atlantista”. <em>E-L@tina – Revista Electrónica de Estudios Latinoamericanos</em>. Vol. 23, No. 91, p. 251, 2025.</p>
<p>[X] Evidenciado no texto de Luis Felipe Miguel, “Vargas Llosa: gênio e canalha”</p>
<p>[XI] “Peru: Vargas Llosa critica governos que defendem Castillo”, publicado na Folha de S. Paulo em 2023.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Tarifas são como um retrocesso tecnológico, por Bernardo Guimarães</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Apr 2025 22:32:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Elas visam substituir cadeias de produção produtivas por um processo menos eficiente Bernardo Guimarães, Doutor em economia por Yale, foi professor da London School of Economics (2004-2010) e é professor titular da FGV EESP Folha de São Paulo, 09/04/2025 Na semana passada, o rei da confusão, Donald Trump, fez história ao anunciar sua insana política [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Elas visam substituir cadeias de produção produtivas por um processo menos eficiente</p>
<p>Bernardo Guimarães, Doutor em economia por Yale, foi professor da London School of Economics (2004-2010) e é professor titular da FGV EESP</p>
<p>Folha de São Paulo, 09/04/2025</p>
<p>Na semana passada, o rei da confusão, Donald Trump, fez história ao anunciar sua insana política comercial com sua patética tabela de tarifas.</p>
<p>Para entender por que essas tarifas são um tiro no pé e uma facada no mundo, pense em como é feita uma simples caneta. Ela custa 12 segundos de trabalho de quem recebe o salário médio nos Estados Unidos. Doze segundos! Esse valor paga todo o processo de produzir a caneta, desde a extração dos minerais usados até a montagem do produto, incluindo o custo de usar as máquinas e equipamentos.</p>
<p>A caneta custa tão pouco porque o processo de produção é dividido em várias etapas, executadas por empresas diferentes. Da extração da matéria-prima à montagem, incluindo a produção dos equipamentos, o processo vai incluir dezenas de países.</p>
<p>Crucialmente, esse processo de produção não foi arquitetado por um planejador: cada empresa foi buscando fornecedores mais baratos, encontrando maneiras mais eficientes de produzir, e assim, com o tempo, chegamos a uma altíssima produtividade, que faz a caneta custar 12 segundos do trabalho de um norte-americano médio.</p>
<p>As tarifas vêm para matar esse processo produtivo. Trump quer que a produção de bens consumidos nos Estados Unidos aconteça no país. Esse é o maior erro.</p>
<p>Substituir cadeias de produção altamente produtivas, escolhidas pela mão do mercado, por um processo que não aproveitará as vantagens comparativas de cada país tem efeito similar ao de um retrocesso tecnológico. Caem a produção e a renda.</p>
<p>O argumento usual para proteger a indústria é que essas perdas são compensadas por algum aprendizado que estimulará uma indústria nascente e gerará ganhos futuros. Mesmo quem é simpático a esse argumento deve concordar que os Estados Unidos não precisam aprender a fazer meias e bicicletas.</p>
<p>Os Estados Unidos podem produzir camisetas, telefones e carros sem negociar com o exterior. Só que os salários seriam muito menores ou os preços dos bens seriam muito maiores (dá no mesmo).</p>
<p>E para quê?</p>
<p>O segundo problema, como explicou a coluna de Cecília Machado desta semana, é que ninguém vai investir para montar esse novo processo de produção 100% americano se ninguém sabe como serão as tarifas no ano que vem.</p>
<p>A parte patética é que as tarifas foram calculadas para punir países com os quais os Estados Unidos têm déficit comercial mais alto. Isso faz tanto sentido quanto o dono da pizzaria querer punir o produtor de tomates porque compra mais tomates do que vende pizzas para ele. A conclusão inescapável é que Trump tem uma visão mercantilista extremamente rudimentar da economia.</p>
<p>Em retrospectiva, é fácil ver que mercados foram excessivamente otimistas ou benevolentes com Trump. Talvez ainda estejam sendo.</p>
<p>É ridícula a crença de que Trump impôs essas tarifas para forçar outros países a eliminarem barreiras comerciais. Quem entende os benefícios do comércio internacional jamais tomaria essa medida, por entender o enorme custo que as tarifas impõem à própria economia americana.</p>
<p>Agora o mundo quer saber se Trump vai voltar atrás. O problema é que Trump não vai dizer que errou, era brincadeira. Ele precisa cantar vitória. A resposta da China –impor mais tarifas aos Estados Unidos– atrapalha demais esse caminho.</p>
<p>&nbsp;</p>
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