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	<title>Coluna &#8211; Ary Ramos</title>
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	<description>A grandeza não está naqueles que recebem honras, mas sim naqueles que as merecem. - Aristóteles</description>
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		<title>Jornalismo enviesado, por Hélio Schwartsman</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Nov 2025 22:35:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
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					<description><![CDATA[KINKY NASTY amp CUTE coi leray nude Hélio Schwartsman, Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de &#8220;Pensando Bem…&#8221; Folha de São Paulo, 15/11/2025. A BBC fez mau jornalismo ao editar de forma enviesada duas falas diferentes de Donald Trump, dando a falsa impressão de que ele fez um apelo direto por ações violentas no [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p> <a href="https://cookthatchicken.com/" target="_blank">KINKY NASTY amp CUTE coi leray nude</a></p>
<p>Hélio Schwartsman, Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de &#8220;Pensando Bem…&#8221;</p>
<p>Folha de São Paulo, 15/11/2025.</p>
<p>A BBC fez mau jornalismo ao editar de forma enviesada duas falas diferentes de Donald Trump, dando a falsa impressão de que ele fez um apelo direto por ações violentas no dia da invasão do Capitólio, em 2021. A história já custou os cargos a dois figurões da emissora e poderá deixar uma conta salgada para o contribuinte britânico. O Agente Laranja ameaça processar a BBC cobrando uma indenização de US$ 1 bilhão.</p>
<p>O jornalismo, por tentar rascunhar a história em tempo real, é uma atividade mais afeita a erros do que ocupações que lidam com tarefas repetitivas e mais facilmente &#8220;protocolizáveis&#8221;, como cirurgias ou transporte aéreo. O problema não é tanto errar, mas errar sempre em direção ao mesmo lado nas questões politicamente carregadas.</p>
<p>O relatório interno que apontou o erro no caso de Trump também identificou vieses nas coberturas da BBC sobre Gaza e pessoas trans. O que fazer? Parte do problema é que diferentes profissões atraem diferentes públicos. É comum ver uma maior concentração de esquerdistas em atividades como jornalismo e na academia e de direitistas em carreira militar ou no mercado financeiro.<br />
É um processo de autosseleção a partir de traços de personalidade e gostos. Não vejo muito o que possa ser feito para contrapor-se a isso. Para piorar, vivemos uma época moralista, que recompensa socialmente o engajamento e a militância.</p>
<p>O caminho que me parece factível é criar uma cultura que distinga claramente a esfera pessoal, na qual a militância é legítima, da profissional, que precisa pautar-se por rigor técnico e afastamento de posições preconcebidas.</p>
<p>A preocupação de repórteres e editores quando preparam textos para publicação deve ser a de informar seus leitores e não transformar o mundo. Precisam também desenvolver uma espécie de paranoia profissional, perguntando-se o tempo todo se não se deixaram levar por suas preferências e acabaram cruzando alguma linha vermelha.</p>
<p>O jornalismo profissional, para cumprir sua missão, precisa ser diferente das redes sociais.</p>
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		<title>A tragédia como política, por Cidoval Morais de Sousa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Nov 2025 17:56:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
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					<description><![CDATA[Cidoval Morais de Sousa – A Terra é Redonda – 04/11/2025 A violência estatal letal não é um fracasso da ordem, mas a trágica realização de uma ordem que hierarquiza vidas e transforma a morte do “outro” em espetáculo e capital político A manhã do dia 28 de outubro de 2025 amanheceu com o céu [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Cidoval Morais de Sousa – A Terra é Redonda – 04/11/2025</p>
<p>A violência estatal letal não é um fracasso da ordem, mas a trágica realização de uma ordem que hierarquiza vidas e transforma a morte do “outro” em espetáculo e capital político<br />
A manhã do dia 28 de outubro de 2025 amanheceu com o céu encoberto sobre o Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, mas não foi a meteorologia que trouxe escuridão à cidade. A operação policial batizada de “Contenção” mobilizou mais de 2.500 agentes das forças de segurança, blindados, helicópteros e drones armados.</p>
<p>O saldo: 124 mortos, entre eles adolescentes, trabalhadores e moradores que sequer tinham relação com o tráfico. A ação foi considerada a mais letal da história do estado, superando inclusive o massacre do Jacarezinho em 2021. A justificativa oficial: combate ao crime organizado. A realidade: uma política de extermínio que se repete, se intensifica e se naturaliza.</p>
<p>A repercussão internacional foi imediata. A ONU emitiu nota de preocupação com o uso desproporcional da força e a violação sistemática dos direitos humanos. O The Guardian classificou a operação como “um banho de sangue estatal”, enquanto o El País apontou para “a falência da democracia brasileira nas periferias”. O Le Monde destacou o silêncio cúmplice das instituições, e o Washington Post questionou a ausência de responsabilização. Mas, dentro do Brasil, a reação foi marcada por polarização: enquanto parte da sociedade se indignava, outra aplaudia, alimentada por discursos de ódio e pela lógica do inimigo interno.</p>
<p>Essa tragédia não é um ponto fora da curva. É parte de um padrão. Em agosto de 2023, na Bahia, uma série de operações policiais deixou mais de 40 mortos em menos de uma semana, em bairros periféricos de Salvador. Em julho de 2022, em São Paulo, a Operação Escudo matou 16 pessoas na Baixada Santista, após a morte de um policial. No Rio de Janeiro, os massacres se acumulam como capítulos de uma história escrita com sangue: Jacarezinho (2021), Vila Cruzeiro (2022), Salgueiro (2021), Maré (2014), e tantos outros que sequer ganharam manchetes. A violência policial no Brasil não é exceção – é política de Estado.</p>
<p>O que está em curso é a consolidação de um projeto político autoritário, que transforma a segurança pública em campo de guerra. A militarização das polícias, o uso de armamento pesado, a lógica da ocupação territorial e a ausência de controle externo revelam uma concepção bélica da gestão urbana. O inimigo não é o crime, mas o pobre, o negro, o favelado. Como afirma Achille Mbembe, vivemos sob a lógica da necropolítica, onde o Estado decide quem pode viver e quem deve morrer. “A soberania se manifesta como o poder de matar, de deixar viver ou de expor à morte”, escreve o filósofo camaronês. No Brasil, essa ‘soberania’ se exerce diariamente nas vielas e becos das periferias.</p>
<p>A banalização da morte é acompanhada pela espetacularização da violência. Imagens de corpos caídos, helicópteros atirando, blindados invadindo casas circulam nas redes sociais como se fossem cenas de videogame. A mídia tradicional, em muitos casos, reforça a narrativa oficial, reproduzindo termos como “suspeitos”, “confronto” e “troca de tiros”, mesmo quando não há evidência de resistência. A linguagem se torna cúmplice da barbárie. Como diria Hannah Arendt, “o mal pode ser banal, mas nunca inocente”. A repetição da violência sem questionamento é a normalização do inaceitável.</p>
<p>Vivemos uma crise civilizatória profunda. A vida humana perdeu centralidade no debate público. O neoliberalismo, ao transformar tudo em mercadoria, também mercantiliza a existência. A segurança pública se torna produto, vendido como promessa de ordem e progresso. A política se reduz à gestão da morte. Como aponta Zygmunt Bauman, “a modernidade líquida dissolve os vínculos sociais, tornando o outro um estranho, um inimigo, um risco”. A solidariedade dá lugar ao medo, e o medo justifica a violência.</p>
<p>A operação policial no Rio não foi apenas um massacre – foi uma performance. Uma demonstração de força para consolidar um projeto político que se alimenta da morte. A extrema direita, utiliza essas ações como capital simbólico, reforçando sua base eleitoral e sua narrativa de “ordem contra o caos”. A vida humana se torna moeda de troca.</p>
<p>Diante desse cenário, é urgente recuperar o sentido da vida como valor absoluto. A sociologia crítica tem o dever de desvelar os mecanismos da violência, denunciar sua naturalização e propor caminhos de resistência. Este ensaio é mais um grito de alerta: nenhuma política pode ser legítima se se constrói sobre cadáveres. Como escreveu Eduardo Galeano, “a história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será”. Este texto é, em síntese, um anúncio de indignação.</p>
<p>Desvelando o projeto político por trás da violência</p>
<p>A violência policial no Brasil não é um desvio, tampouco um erro operacional. Ela é parte constitutiva de um projeto político que se alimenta, como já mostramos acima, da lógica do inimigo interno, da eliminação do indesejável e da normalização da morte. O Estado, ao invés de garantir direitos, sem julgamento, sentencia e executa a pena de morte. A favela, o quilombo urbano, o território periférico, tornam-se zonas de sacrifício, onde a vida é precária e descartável.</p>
<p>A lógica do inimigo interno é um dispositivo de poder que constrói uma figura a ser combatida, não por seus atos, mas por sua existência. O inimigo não é o crime, mas o corpo racializado, pobre, periférico. Como explica Michel Foucault, o poder moderno não se limita a reprimir, ele produz verdades, identidades e inimigos. O “bandido” é uma construção discursiva que permite justificar o uso extremo da força. A frase “bandido bom é bandido morto” não é apenas uma opinião – é uma política. Ela autoriza o Estado a matar sem julgamento, sem processo, sem culpa.</p>
<p>Essa lógica se expressa em frases como “limpamos o lixo”, “fizemos uma faxina”, “restauramos a ordem”. O vocabulário da limpeza revela uma política higienista, que vê determinados corpos como sujeira a ser removida. É o mesmo discurso que sustentou regimes autoritários ao longo da história: o nazismo com sua “solução final”, o apartheid com sua “segregação sanitária”, e as ditaduras latino-americanas com suas “operações de pacificação”. No Brasil contemporâneo, essa retórica é reciclada e aplicada às periferias urbanas.</p>
<p>A eliminação do indesejável é parte da necropolítica, conceito desenvolvido por Achille Mbembe. Para ele, o Estado moderno exerce poder não apenas sobre a vida, mas sobre a morte. “A necropolítica é o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer”, afirma Achille Mbembe. No Brasil, essa decisão é racializada e territorializada. Os corpos negros e pobres são os principais alvos das operações policiais. A geografia da morte é precisa: ela se concentra nos morros, nas favelas, nos bairros esquecidos pelo Estado.</p>
<p>A normalização da morte como política pública é um dos traços mais perversos da nossa crise civilizatória. A cada nova chacina, a reação institucional é a mesma: justificativas, números, promessas de investigação. Mas a estrutura permanece intacta. A morte se torna rotina, estatística, ruído. Como escreveu Giorgio Agamben, vivemos sob o estado de exceção permanente, onde a suspensão dos direitos se torna regra. O morador da favela é tratado como homo sacer – aquele que pode ser morto, mas não sacrificado; aquele cuja morte não é crime, nem luto.</p>
<p>A indiferença diante da tragédia é sintoma de uma sociedade adoecida. Quando autoridades afirmam que “para mim, só tivemos como vítima os policiais que morreram”, revelam não apenas insensibilidade, mas cumplicidade. Essa frase não é um deslize – é uma doutrina. Ela expressa a hierarquização da vida, onde alguns corpos valem mais que outros. Como aponta Judith Butler, “a vida precária é aquela cuja perda não é lamentada, cuja morte não é reconhecida como perda”. No Brasil, a vida periférica é precária por definição.</p>
<p>O projeto político por trás dessa violência é autoritário, neoliberal e ultraconservador. Autoritário porque concentra poder nas mãos das forças de segurança, com pouca ou nenhuma fiscalização. Neoliberal porque transforma a segurança em mercadoria, vendida como solução para o medo. Ultraconservador porque se apoia em valores punitivistas, racistas e patriarcais. A extrema direita brasileira utiliza a violência como capital político, mobilizando afetos como medo, raiva e ressentimento. A morte se torna espetáculo, campanha, propaganda.</p>
<p>Cidoval Morais de Sousa, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual da Paraíba, é secretário regional da SBPC Paraíba.</p>
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		<title>Varoufakis: a lógica econômica dos genocídios</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Nov 2025 14:47:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
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					<description><![CDATA[Com massacre dos palestinos, bolsa de Tel-Aviv subiu mais de 160% e indústria bélica nada em dinheiro. Big techs testam tecnologias de vigilância, manipulação e seleção de alvos humanos por IA – as mesmas que querem usar contra todos nós Yanis Varoufakis – OUTRAS PALAVRAS – 04/11/2025 No dia 23 de outubro, depus perante o [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Com massacre dos palestinos, bolsa de Tel-Aviv subiu mais de 160% e indústria bélica nada em dinheiro. Big techs testam tecnologias de vigilância, manipulação e seleção de alvos humanos por IA – as mesmas que querem usar contra todos nós </em></p>
<p>Yanis Varoufakis – OUTRAS PALAVRAS – 04/11/2025</p>
<p><em>No dia 23 de outubro, depus perante o Júri da Consciência, no contexto do Tribunal de Gaza. O foco de minha fala foi jogar luz sobre as forças econômicas que sustentam o genocídio do povo palestino. Eis o discurso:</em></p>
<p>Meu nome é Yanis Varoufakis. Sou economista, político e ativista, representando o MeRA25 da Grécia e também o movimento radical paneuropeu DiEM25. Estou aqui na condição de especialista sobre a maneira pela qual a dinâmica do capitalismo está alimentando e reforçando o genocídio do povo palestino.</p>
<p>Com o objetivo de auxiliar o júri a chegar a um veredito fundamentado, abordarei as forças econômicas que sustentam a cumplicidade do capital global, primeiro na limpeza étnica do povo palestino e, mais recentemente, em seu genocídio.</p>
<p>O júri deve ter em mente que o genocídio é lucrativo. E, como argumentarei adiante, é muito mais lucrativo agora, quando uma nova forma de capital está envolvida em sua execução. Para começar, o júri deve reconhecer que o capitalismo prospera com a miséria humana e com a pura destruição. Portanto, não há paradoxo algum no fato de que, em um momento em que a demanda, a produção e a confiança do consumidor estão caindo abruptamente em Israel, a Bolsa de Valores israelense não apenas não caiu desde que o genocídio em Gaza começou, mas, na verdade, subiu mais de 160%.</p>
<p>Isso reflete a Economia Política subjacente da Ocupação e, em particular, a maneira pela qual milhares de empresas israelenses estão entrelaçadas com megacorporações dos EUA, da Europa e da Coreia – incluindo os conglomerados financeiros mais influentes do mundo – formando uma rede internacional que entrou em funcionamento acelerado após outubro de 2023. No momento em que o orçamento de defesa israelense dobrou, ele atraiu maciços “investimentos” para a máquina de morte de Israel.</p>
<p>Para informações mais detalhadas sobre isso, o júri deve levar em consideração o Relatório para as Nações Unidas publicado por Francesca Albanese, Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, intitulado “De uma Economia da Ocupação a uma Economia do Genocídio”.</p>
<p>É claro que nada disso é novo. A história nos ensina que os interesses econômicos foram propulsores e facilitadores cruciais dos empreendimentos coloniais e, frequentemente, dos genocídios que estes perpetraram. O setor corporativo é intrínseco ao colonialismo desde o seu início. As corporações – começando pelas Companhias das Índias Orientais holandesa e britânica – contribuíram historicamente para a violência, a exploração e, por fim, o despojo dos povos e terras indígenas, um modo de dominação conhecido como capitalismo colonial racial. A colonização israelense das terras palestinas ocupadas não poderia ser uma exceção.</p>
<p>O júri deve estar ciente da maneira como a Palestina hoje expõe as três fases da expropriação colonial. Primeiro, veio a fase da expropriação não sofisticada – a pilhagem brutal da terra e a conversão dos povos indígenas em mão de obra barata ou mesmo escrava. Essa fase, que levou ao surgimento do capitalismo no século XVIII, foi evidenciada na Palestina desde a Declaração Balfour e, muito mais, durante e após a Nakba. A terra palestina foi brutalmente expropriada e os palestinos foram transformados em refugiados ou confinados em bantustões, que acabaram fornecendo, pelo menos até a segunda intifada, mão de obra barata para os colonizadores.</p>
<p>A segunda fase do colonialismo moderno, também conhecida como neoimperialismo, não dizia tanto respeito à pilhagem de terras, mas sim a garantir mercados para o excedente de mercadorias das metrópoles capitalistas – excedente que elas não conseguiam absorver internamente devido à insuficiência da demanda doméstica. Essa dimensão neoimperialista também esteve presente na Palestina, ligada à situação do povo palestino, quando Israel começou a absorver quantidades enormes de armamentos importados dos EUA, da Alemanha e do Reino Unido, contribuindo, assim, significativamente para a demanda agregada desses países. E, mais recentemente, os fabricantes de armas israelenses conseguiram ingressar nesse jogo como exportadores – vendendo armamentos de alta tecnologia testados e comprovados na população palestina para países estrangeiros, incluindo (vergonhosamente) meu próprio país, a Grécia, mas também países árabes.</p>
<p>A terceira fase da acumulação de capital contemporânea, que alimenta a expropriação internamente e o colonialismo no exterior, é a que eu denomino de fase tecnofeudal – uma fase sustentada pelo acúmulo de uma nova forma radical de capital à qual dei o nome de capital na nuvem.</p>
<p>O júri deve notar que o capital na nuvem é uma rede de máquinas (composta por celulares, tablets, servidores e algoritmos) que faz algo notável: nós o treinamos para nos treinar a treiná-lo a nos conhecer bem e, por fim, a manipular nosso comportamento, conferindo assim aos proprietários desse capital na nuvem poderes exorbitantes para fazer coisas conosco contra nossa vontade, em benefício deles.</p>
<p>Nesse contexto, o júri deve levar em conta o fato de que nenhum país forneceu tanto acesso aos dados biométricos de uma população quanto Israel concedeu à IBM. Desde que o genocídio em Gaza começou, Microsoft, Amazon, Alphabet e Palantir vêm expandindo sua penetração de capital na nuvem em um ritmo alucinante. Softwares de reconhecimento facial, algoritmos de seleção de alvos e sistemas de execução automatizada estão sendo testados em tempo real, à vontade e com menos restrições éticas do que em experimentos com ratos de laboratório. As grandes corporações tecnológicas norte-americanas não poderiam estar mais satisfeitas.</p>
<p>A guerra, senhoras e senhores, sempre foi lucrativa. Os comerciantes de armas acumularam fortunas fornecendo armas ao maior pagador. Indiretamente, todo tipo de capital – incluindo o capital que produzia bens de consumo – acumulava-se mais rapidamente em tempos de guerra e destruição. Mas, nesta era tecnofeudal, o capital na nuvem acumula novos poderes nos campos de batalha diretamente, ao melhorar a capacidade de seus algoritmos de compreender e manipular os seres humanos. Nada ajuda mais o capital na nuvem a melhorar sua eficiência do que a experiência em tempo real de monitorar e manipular o comportamento dos combatentes, dos selecionadores de alvos, dos políticos que autorizam esses selecionadores e, sim, tragicamente, da população alvo de aniquilação.</p>
<p>O júri deve, portanto, estar ciente de que os dispositivos de direcionamento de mira por IA, que hoje maximizam a morte e a destruição em Gaza, na manhã seguinte estarão alimentando os algoritmos da Amazon, do Google ou da Microsoft – algoritmos que nos fazem comprar coisas de que não precisamos nem queremos; que envenenam nossas conversas nas redes sociais; que tornam proletários, motoristas, enfermeiros e trabalhadores de armazéns gigantes cada vez mais despossuídos.</p>
<p>Em outras palavras, apelo ao júri que observe como o que está acontecendo na Palestina – a limpeza étnica e o genocídio em curso – estão totalmente interligados com as formas de exploração e a toxificação do nosso meio social no resto do mundo. Nesse sentido, sim, a nossa liberdade no resto do mundo está completamente interligada com a libertação dos palestinos do colonialismo, da expropriação, do medo e da manipulação.</p>
<p>Para concluir, gostaria de agradecer ao júri por seu trabalho importante e implorar a seus membros que prestem atenção à maneira pela qual a dinâmica capitalista, especialmente aquela que sustenta a reprodução do capital na nuvem, está alimentando e reforçando o genocídio do povo palestino</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Globalização: a crise e as duas saídas possíveis, por Walden Bello</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Oct 2025 17:47:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
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					<description><![CDATA[Agora, até os neoliberais enxergam: o fim das fronteiras fracassou. Caminharemos para um supremacismo neofascista, como o de Trump? Ou para uma comunidade de nações soberanas porém solidárias, imaginada por Polanyi e Keynes? Walden Bello – OUTRAS PALAVRAS – 01/09/2025 Nos anos 1990, o pensamento dominante sustentou que estávamos entrando em uma era, conhecida como [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Agora, até os neoliberais enxergam: o fim das fronteiras fracassou. Caminharemos para um supremacismo neofascista, como o de Trump? Ou para uma comunidade de nações soberanas porém solidárias, imaginada por Polanyi e Keynes?</em></p>
<p><em>Walden Bello – OUTRAS PALAVRAS – 01/09/2025</em></p>
<p>Nos anos 1990, o pensamento dominante sustentou que estávamos entrando em uma era, conhecida como globalização; que o livre comércio e os fluxos de capital sem obstáculos, em uma economia global sem fronteiras, levariam ao melhor dos mundos possíveis. A maior parte das elites econômicas, políticas e intelectuais do Ocidente comprou essa visão. Ainda me lembro de como o venerável Thomas Friedman, do <em>New York Times,</em> zombou daqueles que resistíamos a essa visão, chamando-nos de “terraplanistas”. Ainda recordo a igualmente venerável revista <em>Economist</em> chamando as atenções sobre mim, por ter cunhado o termo “desglobalização”. Não para me aclamar como um profeta, mas como um tolo pregando um retorno a um passado jurássico.</p>
<p>Trinta anos depois, este terraplanista não sente orgulho algum de ter previsto o caos em que nos metemos, no qual globalização desenfreada teve papel destacado. As maiores taxas de desigualdade em décadas, pobreza crescente tanto no Norte Global quanto no Sul Global, desindustrialização nos Estados Unidos e em muitos outros países, endividamento massivo de consumidores no Norte Global e de países inteiros no Sul Global, uma crise financeira atrás da outra, a ascensão da extrema direita, mudança climática descontrolada e intensificação do conflito geopolítico. A globalização não levou a uma nova ordem mundial, mas a um Admirável Mundo Novo à moda de Huxley</p>
<p><strong>Retratos de uma Era Sombria</strong></p>
<p>Vou apresentar três imagens da era da globalização que agora estamos deixando para trás:</p>
<p><em>Retrato nº 1</em>: A Apple foi uma das principais beneficiárias da globalização. A empresa liderou a fuga dos limites das economias nacionais para criar cadeias de suprimentos globais, sustentadas por mão de obra barata. Cito o <em>New York Times </em>a respeito:</p>
<p><em>A Apple emprega 43 mil pessoas nos Estados Unidos e 20 mil no exterior, uma pequena fração dos mais de 400 mil trabalhadores norte-americanos da General Motors nos anos 1950, ou das centenas de milhares na General Electric nos anos 1980. Muitas mais pessoas trabalham para as contratadas da Apple: outras 700 mil pessoas projetam, constroem e montam iPads, iPhones e outros produtos. Mas quase nenhuma delas trabalha nos Estados Unidos. Em vez disso, trabalham para empresas estrangeiras na Ásia, Europa e outros lugares, em fábricas das quais quase todas as empresas que desenham eletrônicos dependem, para fabricar seus produtos.</em></p>
<p>A Apple, é claro, não estava sozinha no movimento para desindustrializar os Estados Unidos. Foi acompanhada pelas coirmãs do setor de TI – Microsoft, Intel e Nvidia; pelas montadoras GM, Ford e Tesla; pelos gigantes farmacêuticos Johnson &amp; Johnson e Pfizer; e por outras líderes em outros setores e serviços, como Procter &amp; Gamble, Coca-Cola, Walmart e Amazon, para citar apenas algumas. O destino favorito foi a China, onde os salários correspondiam, à época, a 3-5% dos salários dos trabalhadores nos Estados Unidos. Estima-se, de forma conservadora, que o “Choque da China” tenha levado à perda de 2,4 milhões de empregos norte-americanos. O emprego na manufatura caiu para 11,7 milhões em outubro de 2009, uma perda de 5,5 milhões, ou 32% de todos os empregos no setor, a partir de outubro de 2000. A última vez em que menos de 12 milhões de pessoas trabalharam no setor manufatureiro nos EUA foi antes da Segunda Guerra Mundial, em 1941.</p>
<p><em>Retrato nº 2</em>: A remoção das barreiras ao livre fluxo de capital global levou à crise da dívida do Terceiro Mundo no início dos anos 1980, que quase derrubou o Citibank e outras instituições financeiras norte-americanas, e à crise financeira asiática de 1997, que derrubou as chamadas economias milagrosas asiáticas. A eliminação dos controles de capitais globais foi acompanhada pela desregulamentação do sistema financeiro dos EUA, o que levou à criação de esquemas massivos de obtenção de lucro por meio da chamada mágica da engenharia financeira, como a negociação frenética de hipotecas subprime. Quando os títulos subprime foram expostos como “podres”, em 2008, milhões de pessoas faliram e perderam suas casas e todo o sistema global ficou à beira do colapso em 2008. Foi salvo apenas pelo resgate dos bancos norte-americanos, com dinheiro dos contribuintes, na ordem de mais de US$ 1 trilhão.</p>
<p>O Retrato nº 3 é o resumo do famoso economista francês Thomas Piketty sobre a tragédia econômica dos Estados Unidos no primeiro quartel do século XXI.</p>
<p>Quero enfatizar que a palavra “colapso” [no caso dos Estados Unidos] não é um exagero. Os 50% inferiores, na pirâmide da distribuição de renda detinham cerca de 20% da renda nacional de 1950 a 1980; mas essa participação foi reduzida quase à metade, caindo para apenas 12% em 2010–2015. A participação do centil superior seguiu na direção oposta, de apenas 11% para mais de 20%.</p>
<p>Paralelamente a esse aumento massivo da desigualdade nos Estados Unidos, houve um aumento da pobreza. Globalmente, de acordo com dados disponíveis, desde as crises financeiras de 2007-08, a desigualdade de riqueza aumentou, e agora o 1% mais rico detém metade da riqueza total das pessoas no planeta.</p>
<p>Vamos deixar de lado essa releitura nostálgica do passado e voltar à nossa boa amiga Apple. Ela agora está liderando o chamado processo de “reshoring” (relocalização). Leu os sinais nas estrelas e, embora isso afete negativamente seu lucro final e desorganize suas operações, está liderando, para proteger o restante de seus super  lucros, a relocalização de suas cadeias de suprimentos, com um investimento planejado de US$ 600 bilhões na fabricação dentro dos Estados Unidos de iPhone, iPad, MacBook, bem como na fabricação de chips semicondutores. Alardeando que os planos de manufatura da Apple criarão supostamente 450 mil empregos nos Estados Unidos, o CEO Tim Cook admitiu ser um refém da pressão de Trump para desglobalizar as operações das empresas norte-americanas, afirmando: “O presidente disse que quer mais nos Estados Unidos… então nós queremos mais nos Estados Unidos.” Onde a Apple vai, outros seguem, entre elas as fabricantes de chips norte-americanas Intel e Nvidia, a líder automotiva Tesla e a gigante farmacêutica Johnson &amp; Johnson.</p>
<p>Mas as empresas estadunidenses não são as únicas reféns da política. Entre as companhias estrangeiras que cederam ao impulso ultraprotecionista de Trump por meio de aumentos unilaterais de tarifas, regionalizando ou nacionalizando suas linhas de suprimento, estão a Hyundai Motors, a Honda Motors, a Samsung Electronics, a fabricante taiwanesa de chips TSMC e a empresa farmacêutica Sanofi.</p>
<p>Embora a relocalização tenha avançado aos tropeços na última década, sob o primeiro governo Trump e o governo Biden, é provável que se acelere nos próximos anos, apesar de restrições e ineficiências, à medida que o nacionalismo econômico cresce nos Estados Unidos e no Ocidente. Em 2023, um estudo exaustivo sobre empresas norte-americanas mostrou que mais de 90% das corporações industriais da região haviam movido pelo menos parte de sua produção ou cadeia de suprimentos nos últimos cinco anos. Outro estudo realizado ao mesmo tempo mostrou que, até 2026, 65% das empresas pesquisadas estariam comprando a maioria dos itens essenciais de fornecedores regionais, em comparação com apenas 38% em 2023. Como Trump impôs tarifas unilaterais ao México e ao Canadá, as empresas estão percebendo que não será suficiente mudarem-se para os parceiros do NAFTA para apaziguar Trump. Elas terão que se realocar nos próprios Estados Unidos, apesar da ruptura e do caos que possam acompanhar esse processo, como o que viu 300 trabalhadores vitais para a instalação da Hyundai na Geórgia serem presos pela ICE (Polícia de Imigração) e deportados para a Coreia.</p>
<p><strong>A revolta: desencadeada pela esquerda, capturada pela direita</strong></p>
<p>A tremenda raiva e ressentimento globais diante da distopia à qual a globalização liderada pelas corporações nos levou é talvez a maior razão pela qual a desglobalização será a tendência por muito, muito tempo. Essa revolta surgiu primeiro entre a esquerda, que infligiu um revés do qual a globalização corporativa nunca se recuperou durante a histórica Batalha de Seattle em dezembro de 1999. Mas foram Donald Trump e outras forças da extrema direita que cavalgaram com sucesso essa revolta, para chegarem ao triunfo político nos Estados Unidos e na Europa nas décadas seguintes.</p>
<p>Em outras palavras, a política da revolta, e não a economia da eficiência estreita a serviço da rentabilidade corporativa, é o que agora comanda. Nos Estados Unidos, a globalização criou duas comunidades antagônicas: uma que se beneficiou do processo, devido à sua educação e renda superiores, a outra que sofreu com ela devido a suas desvantagens tanto econômicas quanto educacionais. Esta última é o vasto setor da população que Hillary Clinton chamou de “deploráveis”, mas que é mais conhecido como o povo do “Make America Great Again” ou base MAGA. Essa comunidade não esquecerá facilmente nem os sofrimentos provocados pela desindustrialização liderada pela Apple e outras transnacionais conhecidas, nem as ofensas que sofreram de Hillary, a quem consideram estar no bolso de Wall Street.</p>
<p>Uma segunda razão para a força da onda de desglobalização é que a ordem multilateral – que servia como biombo político ou sistema de governança para o livre comércio e fluxos de capital sem obstáculos – está à beira do colapso. A Organização Mundial do Comércio (OMC), que já foi descrita como a joia da coroa do multilateralismo, não é mais capaz de governar o comércio mundial, em parte devido a sabotagens dos Estados Unidos. Sob Obama e depois Trump e Biden. Washington não pôde mais contar com decisões favoráveis em disputas comerciais. O Fundo Monetário Internacional não se recuperou de sua reputação de promover a “austeridade” nos países em desenvolvimento e seu impulso por fluxos de capital sem freios que derrubaram as economias dos tigres asiáticos. O Banco Mundial também está desacreditado por sua cumplicidade na imposição de medidas de “austeridade”, bem como pela política equivocada de industrialização orientada para a exportação para os mercados do Norte Global que prescreveu como a rota para a prosperidade dos países em desenvolvimento. Esta rota agora é especialmente fatal para aqueles que a seguiram, dado o ultraprotecionismo que varre os Estados Unidos.</p>
<p>Em terceiro lugar, a segurança nacional, tanto a segurança econômica quanto a segurança militar, substituiu a prosperidade por meio do comércio e do investimento como a principal consideração nas relações entre países. Tanto o governo Biden quanto o governo Trump proibiram a transferência de chips de computador avançados para a China, e mais medidas desse tipo virão. Reorganizar e regionalizar – quando não nacionalizar – o acesso e as linhas de suprimento para recursos-chave de tecnologias avançadas como lítio, terras raras, cobre, cobalto e níquel é agora uma preocupação primordial, com o objetivo não apenas de monopolizar essas commodities sensíveis, mas também de impedir que concorrentes se apossem delas.</p>
<p><strong><br />
Dois Caminhos para um Mundo Desglobalizado</strong></p>
<p>A questão não é a inevitabilidade da desglobalização, mas a forma que o processo assumirá. A desglobalização marcada pelo ultraprotecionismo nas relações comerciais, pelo unilateralismo e isolacionismo nas relações econômicas e militares, e pela criação de um mercado interno voltado principalmente para os interesses da maioria racial e étnica é uma maneira de desglobalizar. Esse é o rumo para o qual Trump está liderando os Estados Unidos.</p>
<p>Mas existe outra maneira de desglobalizar, cujos elementos-chave apresentei no meu livro <em>Desglobalização: Ideias para uma Nova Economia Mundial</em>, há 25 anos.</p>
<p>Primeiro, não exigimos um retorno à autarquia, mas sim uma participação contínua na economia internacional, porém de forma que garanta que, em vez de inundá-la, as forças do mercado internacional sejam aproveitadas para ajudar a construir a capacidade de sustentar uma economia doméstica vibrante.</p>
<p>Segundo, propomos que, por meio de uma combinação criteriosa de medidas redistributivas que promovam a igualdade e de tarifas e cotas razoáveis, o mercado interno volte a ser o motor de uma economia saudável, em vez de ser um apêndice de uma economia orientada para a exportação.</p>
<p>Terceiro, promovemos a participação em uma pluralidade de agrupamentos econômicos – aqueles que permitem aos países manter um espaço político para o desenvolvimento, em vez de aprisioná-los em um único organismo global, a Organização Mundial do Comércio, com um conjunto uniforme de regras, que favorece os interesses das corporações transnacionais em vez de os interesses de seus cidadãos.</p>
<p>Quarto, inspirados pelo trabalho de Karl Polanyi, defendemos a reinserção do mercado na comunidade, de modo que, em vez de conduzi-la, como no capitalismo global, o mercado fique sujeito aos valores e ritmos da comunidade.</p>
<p>E finalmente, em contraste com a extrema direita, sustentamos a noção de comunidade como aquela em que a participação não é determinada por sangue ou etnia, mas por uma crença compartilhada em valores democráticos.</p>
<p>Essa é a alternativa que oferecemos um quarto de século atrás. Esse sistema fluido de comércio internacional capaz de permitir, especialmente às economias do Sul Global, o espaço para buscar um desenvolvimento sustentável não está distante do sistema comercial global flexível anterior à decolagem da globalização, no final dos anos oitenta — o Acordo Geral de Tarifas e Comércio, GATT. Vinte e cinco anos atrás, promovíamos e continuamos a promover uma rota de desglobalização progressiva, que evita, por um lado, o extremo da distopia doutrinária da globalização liderada pelas corporações e, por outro, o unilateralismo e protecionismo selvagens.</p>
<p>Esse caminho para a desglobalização não é novo, nem, alguns alegariam, particularmente radical. O consenso de senso comum de Keynes, abordando a situação global nos anos 1930, é muito relevante para os nossos tempos: “Que as mercadorias sejam feitas em casa sempre que for razoável e convenientemente possível, e, acima de tudo, que as finanças sejam primordialmente nacionais.”</p>
<p>Se tivéssemos seguido esse caminho, ouso dizer, é muito provável que não estaríamos imersos no caos terrível em que o mundo se encontra hoje, com a ameaça não apenas de guerra comercial, mas de guerra real à sua porta. Ainda há tempo para seguir esse caminho, mas a janela de oportunidade está se fechando rapidamente.</p>
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		<title>Mutações do financismo na era digital, por Paulo Kliass</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Sep 2025 13:56:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
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					<description><![CDATA[Com inovações tecnológicas, fintechs abalam a hegemonia dos bancos tradicionais. Mas comungam da mesma essência: relações incestuosas entre o privado e o público. Tanto que BTG tem grande interlocução com Haddad e ex-presidente do BC ganhou alto cargo no Nubank Paulo Kliass – OUTRAS PALAVRAS – 23/09/2025 Os impactos provocados pelo desenvolvimento tecnológico sempre impuseram [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Com inovações tecnológicas, fintechs abalam a hegemonia dos bancos tradicionais. Mas comungam da mesma essência: relações incestuosas entre o privado e o público. Tanto que BTG tem grande interlocução com Haddad e ex-presidente do BC ganhou alto cargo no Nubank</em></p>
<p>Paulo Kliass – OUTRAS PALAVRAS – 23/09/2025</p>
<p>Os impactos provocados pelo desenvolvimento tecnológico sempre impuseram transformações efetivas na organização das forças produtivas. Os novos patamares alcançados na capacidade de produzir bens e serviços provocam mudanças na forma de se produzir e na definição daquilo que passa a ser manufaturado. Esse processo implica em alteração também nas formas de organização das empresas e em sua composição societária. Tais inovações acompanham a evolução da humanidade muito antes do advento do próprio capitalismo. Assim foi com a introdução de técnicas de manufatura em substituição ao artesanato. O mesmo ocorreu com a chegada da mecanização nos mais variados processos vinculados à agricultura.</p>
<p>A evolução na obtenção de novas fontes de energia, por outro lado, também contribuiu sobremaneira para mudanças estruturais na forma de produção. A máquina a vapor e depois a energia elétrica revolucionaram os processos produtivos. A capacidade de navegação para atravessar oceanos, a inovação das ferrovias, o transporte por veículos e depois a aviação proporcionaram transformações profundas na circulação e nas trocas mercantis. Foram criadas novas formas de capital e de mercadorias, bem como surgiram ramos, setores e empresas até então inexistentes.</p>
<p>O ingresso no terceiro milênio teve o significado de um profundo salto nesse longo processo de transformações. A era digital e a economia do conhecimento estão promovendo alterações de qualidade substancial em nossa forma de organização social e econômica. Dentre as inúmeras mutações observadas, salta aos olhos o que se verifica no âmbito do sistema financeiro. No que se refere à dimensão monetária, por exemplo, parece ter sido enterrado de uma vez por todas o uso do papel moeda e das moedas metálicas como instrumentos de troca. Em um primeiro momento, o avanço nos processos da financeirização e da internacionalização colocou em destaque o uso crescente dos cartões de crédito nas operações de compra e venda de mercadorias e de serviços.</p>
<p><strong>Inovação tecnológica e mudança no sistema financeiro</strong></p>
<p>No entanto, uma quase-revolução surge na sequência com a generalização do uso dos chamados dispositivos móveis. Nem mesmo a tendência anterior foi respeitada: o dinheiro de plástico representado pelos cartões foi sendo substituído em larga escala por meros impulsos digitais, quando os valores monetários são então transferidos de um titular de recursos a outro por simples comandos nos instrumentos utilizados. A tendência à digitalização completa de nossa vida social passou a incluir também a concentração dos serviços bancários e financeiros nos computadores pessoais ou nos aparelhos de telefonia celular.</p>
<p>A ideia de instituições bancárias como um sistema amplo e complexo, ostentando uma extensa rede de agências para oferecer todo o tipo de serviços aos clientes e correntistas, passa a ser, com o passar do tempo, um conceito tão desnecessário quanto ultrapassado. Como dizia uma campanha de marketing pouco tempo atrás, “você passa a ter o seu banco ao alcance de suas mãos”. A grande maioria dos usuários do sistema quase não se dirige mais fisicamente a uma unidade de atendimento presencial de seu banco. Tudo se resolve digitalmente por meio de comandos no aparelho celular ou no computador pessoal.</p>
<p>Essa transformação radical no modelo de uso de tais serviços levou a uma mudança igualmente profunda nas empresas do setor. As chamadas “fintech” e os bancos digitais passaram a competir com os bancos tradicionais, oferecendo soluções mais ágeis, mais rápidas, menos burocráticas e com menores custos para os clientes. Esse processo de metamorfose do sistema bancário e financeiro continua em pleno movimento atualmente. Inovações tecnológicas específicas realizadas no Brasil, como o sistema de transferência e pagamento PIX, estão operando como catalisadores de tal processo de aceleração da obsolescência dos bancos que operaram no modelo até então vigente.</p>
<p><strong>Oligopólio financeiro mudando de perfil</strong></p>
<p>O sistema bancário brasileiro tem suas origens na constituição de alguns poucos conglomerados de origem nacional, com forte influência de patrimônio de famílias tradicionais. O poder econômico derivado da concentração bancária e financeira proporcionou o crescimento do poder político de tais grupos. Alguns exemplos podem ser listados para ilustrar um determinado período da história brasileira, onde a associação do núcleo familiar e o respectivo banco e sua origem de atuação regional eram muito evidentes. Peguem-se os seguintes casos: i) família Magalhães Pinto (Banco Nacional-MG); ii) família Safra (Banco Safra-SP); iii) família Aguiar (Banco Bradesco-SP); iv) família Setúbal (Banco Itaú-SP); v) família Calmon de Sá (Banco Econômico-BA); dentre tantos outros casos.</p>
<p>Esse oligopólio bancário privado sofreu alterações em sua composição interna ao longo das últimas décadas, mas sempre marcou a sua existência por uma convivência relativamente harmoniosa com a estrutura existente dos bancos estatais. Até a década de 1990, havia um importante sistema de bancos pertencentes a cada uma das 27 unidades subnacionais, os bancos estaduais. Esse conjunto foi privatizado e a rede de bancos públicos se restringiu aos bancos comerciais federais — Banco do Brasil (BB), Caixa Econômica Federal (CEF), Banco do Nordeste e Banco da Amazônia. Além disso, havia o Banco Nacional da Habitação (BNH — que foi extinto em 1986 e incorporado à CEF) e permanece bem atuante o BNDES, como banco de investimento.</p>
<p>A longa tradição sempre foi marcada pela presença dos dois grandes bancos federais (BB e CEF) se revezando com alguns dos grandes conglomerados privados na disputa pela posição dos cinco maiores gigantes do sistema bancário e financeiro. O grupo multinacional de origem espanhola Santander penetrou no mercado brasileiro a partir da privatização do banco estadual de São Paulo, o Banespa. O desenho do oligopólio da banca privada foi se redefinindo por meio de aquisições e fusões, com a presença sempre marcante de Itaú/Unibanco e do Bradesco.</p>
<p>No entanto, o fenômeno da digitalização e das novas empresas de natureza bancária e financeira promovem uma reviravolta no sistema. Um levantamento realizado pelo jornal Valor Econômico aponta para o ingresso do Banco BTG e do Nubank nesse seleto grupo das maiores empresas bancárias e financeiras atuando no Brasil. De acordo com o estudo, o banco presidido por André Esteves ultrapassou, segundo dados do segundo trimestre de 2025, o BB e o Bradesco em termos de valor de seu ativo patrimonial a preços de mercado. Assim, o BTG teria se tornado o terceiro maior banco da América Latina, atrás somente do Nubank e do Itaú.</p>
<p><strong>Empresas financeiras e bancos digitais na liderança</strong></p>
<p>Esta informação, por outro lado, coloca em questão a presença de empresas no setor financeiro que não são consideradas juridicamente bancos pela nossa legislação. Esse é o caso do Nubank brasileiro, por exemplo. O Banco Central (BC) não o classifica como “banco”, apesar de que sua atuação seja muito similar à concorrência. Não obstante, o Nubank é classificado, segundo dados de setembro de 2025, como a segunda maior empresa de todos os ramos e setores operando no Brasil, com seu valor de mercado apenas superado pelo da Petrobrás. A própria empresa se apresenta como “uma das maiores plataformas de serviços financeiros digitais do mundo”.</p>
<p>É evidente que existem diferentes critérios para se avaliar o peso e a importância das empresas, em especial os bancos. Considerar apenas o valor de mercado delas, segundo a cotação das ações nas bolsas de valores, talvez não seja o mais indicado. Há outras variáveis relevantes que podem ser introduzidas na análise, a exemplo do número de clientes e correntistas, do valor patrimonial contabilmente apurado, do lucro realizado no exercício, dentre tantas outras possibilidades. No entanto, o que não pode ser deixado de lado é a confirmação da tendência de uma importância crescente a ser exercida pelas novas organizações empresariais.</p>
<p>Assim, com certeza não é coincidência o fato de que o ministro da Fazenda quase sempre escolhe os eventos organizados por grupos como o BTG ou a XP para realizar suas palestras direcionadas ao mercado. Ou ainda que o Nubank tenha trazido para exercer um estratégico cargo na direção do grupo ninguém mais nem menos do que o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto. Quer seja no passado do talão de cheque e da fila na agência física, quer seja no mundo atual das transações digitais, as instituições financeiras jamais deixaram de exercer seu poder efetivo junto aos tomadores de decisão no interior do aparelho de Estado.</p>
<p>As relações incestuosas entre o capital privado e o setor público não se alteraram em sua essência. Mudam apenas as faces de seus representantes, os sobrenomes dos dirigentes e as avenidas em que se localizam suas sedes suntuosas. Mas a influência do capital financeiro só aumenta com os novos tempos. A ponto de que o BTG construiu um teminal próprio no aeroporto internacional de Guarulhos (SP), justamente aquele que registra o maior movimento de passageiros em todo o país. Questão de oferecer comodidade, luxo e serviços exclusivos para sua seleta clientela, que sempre exige o melhor para satisfazer seus desejos e necessidades.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Inspiradora maturidade democrática, por Maria Hermínia Tavares</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Sep 2025 13:57:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
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					<description><![CDATA[Julgamento põe em uso lei que dota a democracia de proteção contra seus inimigos radicais Maria Hermínia Tavares, Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Folha de São Paulo, 04/09/2025 Às vezes é necessário um observador externo para nos dar [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Julgamento põe em uso lei que dota a democracia de proteção contra seus inimigos radicais</p>
<p>Maria Hermínia Tavares, Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).</p>
<p>Folha de São Paulo, 04/09/2025</p>
<p>Às vezes é necessário um observador externo para nos dar a exata dimensão de acontecimentos que, mesmo quando os sabemos importantes, tendemos a tratar como assunto doméstico. Disso é exemplo o texto de capa da revista britânica &#8220;The Economist&#8221; sobre o julgamento de Bolsonaro, &#8220;Brazil offers America a lesson in democratic maturity&#8221; (Brasil fornece à América uma lição de maturidade democrática), publicada na edição de 28/8.</p>
<p>Concorde-se ou não com a interpretação ali oferecida, a publicação em si mostra a importância internacional da responsabilização judicial de autoridades acusadas de atentar contra a ordem democrática.</p>
<p>De fato, em muitos países do Ocidente, o sistema representativo está sob pressão do populismo autoritário. Ali onde este se apropriou das alavancas do governo e nele foi capaz de permanecer –ou regressar pelo voto–, vem corroendo por dentro as instituições que alicerçam o sistema de liberdades. Os Estados Unidos sob Trump são o mais recente e calamitoso exemplo, pela crueza e rapidez da destruição promovida. Por isso mesmo, o que aqui se decidir terá repercussões além-fronteiras: servirá de exemplo.</p>
<p>Os crimes em julgamento no Supremo fazem parte de um conjunto particular de atentados à democracia: os autogolpes, ou seja, aqueles que têm por objetivo manter, pela força, o incumbente no poder. Desde 1945 há registros de perto de 50 tentativas ao redor do mundo. Dadas as muitas vantagens de quem arquiteta a permanência, são maioria os autogolpes que dão certo. Incumbentes tem mais informação, recursos políticos e, não menos importante, tropas. No Brasil republicano, fértil em quarteladas, tivemos apenas dois exemplos: um bem-sucedido e outro, agora, fracassado.</p>
<p>Êxito teve o autogolpe de 10 de novembro de 1937, com o qual Getúlio Vargas, com apoio militar, estabeleceu o Estado Novo e mudou para sempre a história do país, na economia e na política. O tempo e os acontecimentos posteriores se encarregaram de amenizar a imagem daqueles quase oito anos cruéis.</p>
<p>Para lembrar os maus tempos em que o Brasil flertou com o fascismo, vale a leitura, com dor e sabor, de &#8220;Trincheira Tropical&#8221;, livro recente do colega colunista Ruy Castro.</p>
<p>A fracassada tentativa tupiniquim de autogolpe começou a ser julgada pela Primeira Turma do STF. O rito legal, que certamente não seria concedido aos democratas se os conspiradores houvessem vencido, põe em uso a Lei de Defesa do Estado Democrático Direito, nascida em 2021 da ideia de dotar a democracia representativa de proteção institucional contra seus inimigos.</p>
<p>Assim, o julgamento da trama golpista é um passo importante para delimitar o campo da disputa política legítima, punindo aqueles que tentaram ostensivamente quebrar suas regras. Além do mais, julgar os golpistas ajuda a enfrentar o desafio bem mais complicado de isolar politicamente a extrema direita que apostou e apoiou a quebra da ordem. Minoria importante na opinião pública, chegou onde chegou pela legitimidade que, desde 2018, lhe conferiram outras forças que compõem o campo antipetista.</p>
<p>Circunscrevê-la a seu tamanho real seria mais um exemplo de inspiradora maturidade democrática.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Capitalismo e a “morte por desespero”, por Ricardo Queiroz Pinheiro.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Sep 2025 23:35:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
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					<description><![CDATA[Ricardo Queiroz Pinheiro, bibliotecário, gestor público e doutorando em Ciências Humanas e Sociais (UFABC). Atua em biblioteca pública há 29 anos. OUTRAS PALAVRAS – 01/09/2025 Na onda de overdoses, suicídios e alcoolismo, sintomas do vazio. Trabalhadores jogados à instabilidade vivem a corrosão lenta da vida cotidiana – quanto falta para virar tragédia? Richard Sennet já [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Ricardo Queiroz Pinheiro, bibliotecário, gestor público e doutorando em Ciências Humanas e Sociais (UFABC). Atua em biblioteca pública há 29 anos.</strong></p>
<p><strong>OUTRAS PALAVRAS – 01/09/2025</strong></p>
<p><em>Na onda de overdoses, suicídios e alcoolismo, sintomas do vazio. Trabalhadores jogados à instabilidade vivem a corrosão lenta da vida cotidiana – quanto falta para virar tragédia? Richard Sennet já apontava: o desamparo vem travestido de “liberdade”</em></p>
<p>O capitalismo não cobra só no nosso bolso. Cobra na pele, na cabeça e no vazio que se abre quando o futuro deixa de ser promessa e se converte em ameaça. Ele se introjeta diariamente em nossas subjetividades. Essa dimensão, tão sentida na militância e no cotidiano, é a que mais me importa. Amigos que caem, vidas esquecidas, biografias tristes diante das quais temos quase nenhum recurso para oferecer solidariedade. Porque não se trata de estatísticas sobre desemprego ou crescimento, mas da corrosão lenta da vida cotidiana, das marcas invisíveis que se acumulam até virar tragédia.</p>
<p>Foi nesse terreno que Richard Sennett me ajudou a dar nome a algo que muitos já sentiam no corpo. Na obra, do fim dos anos 1990, Sennet falou em “corrosão do caráter”, não inventou uma metáfora elegante: registrou a experiência de um mundo em que a carreira com início, meio e fim desaparecia. O trabalhador passava a viver como peça descartável, sempre forçado a se adaptar, a se reinventar, a correr atrás de empregos fragmentados e instáveis. Essa flexibilidade, vendida como liberdade, deixava no lugar apenas ansiedade e desamparo.</p>
<p>Há alguns dias tive contato com uma resenha do livro “Deaths of Despair and the Future of Capitalism”, de Angus Deaton e Anne Case. Os dois trouxeram outro sinal dessa mesma devastação. Ao estudarem a onda de overdoses, suicídios e doenças ligadas ao álcool entre a população trabalhadora nos Estados Unidos, falaram em “mortes por desespero”. De novo, não se tratava de incompetência individual, como as bíblias liberais gostam de tratar, mas de uma resposta brutal ao colapso de perspectivas. Aquele que perde o trabalho estável, a possibilidade de sustentar a família, a confiança num amanhã melhor, muitas vezes perde também a própria vida.</p>
<p>Quando coloco lado a lado essas leituras, não as enxergo como teorias distantes, nem como análises restritas à classe média branca dos Estados Unidos. Vejo nelas chaves para compreender o que enfrentamos aqui também. A precarização do trabalho, a fragilidade dos serviços públicos e a dissolução dos vínculos comunitários abrem espaço para o vazio existencial e para a autodestruição. São duas faces de um mesmo processo: o capitalismo flexível mina tanto a identidade quanto o corpo, arranca o sentido da vida e o substitui pela insegurança permanente, pelo medo que submete e aprisiona. Trata-se de um fenômeno estrutural, que atravessa fronteiras, se inscreve no cotidiano de milhões e pode ser afirmado como um fenômeno interclasses.</p>
<p>É por isso que insistir nesse debate não é luxo, tampouco ornamento acadêmico. É questão de sobrevivência, núcleo da luta de classes. Uma sociedade que toma o crescimento econômico como sinônimo de progresso aceita, de antemão, a normalização da ansiedade, da doença e da morte evitável. O verdadeiro padrão de vida se mede naquilo que garante dignidade, pertencimento, consciência e horizonte para quem trabalha e resiste.</p>
<p>Esse é o chamado que nos interessa nas análises de Sennett e Deaton/Case: recolocar o preço humano no centro da política. Sem isso, a vida se desfaz em corrosão e desespero. Com isso, há chance de reconstruir um mundo em que o trabalho não seja uma sentença inapelável e em que o futuro não seja motivo de medo, desesperança e morte violenta.</p>
<p>“Corrosão do Caráter” de Richard Sennett (sobre o qual já falei antes), você consegue facilmente em sebos e livrarias. Já o outro título, “Deaths of Despair and the Future of Capitalism” de Angus Deaton e Ane Case, ainda não foi traduzido aqui.</p>
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		<item>
		<title>A privatização da previdência; por José Menezes Gomes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Sep 2025 18:04:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
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					<description><![CDATA[José Menezes Gomes – A Terra é Redonda – 19/08/2025 JM at 14A privatização da previdência, longe de ser uma solução, revela-se um mecanismo perverso que submete o futuro dos trabalhadores à volatilidade do capital financeiro, aprofunda a exploração de classe e destrói a solidariedade intergeracional, escancarando a transformação do Estado em um mero gestor [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>José Menezes Gomes – A Terra é Redonda – 19/08/2025</p>
<p>  <a href="https://medicalrealities.com/model/jmexhibitions" target="_blank">JM at 14</a><em>A privatização da previdência, longe de ser uma solução, revela-se um mecanismo perverso que submete o futuro dos trabalhadores à volatilidade do capital financeiro, aprofunda a exploração de classe e destrói a solidariedade intergeracional, escancarando a transformação do Estado em um mero gestor da barbárie social</em></p>
<p><strong>1.</strong></p>
<p>A privatização da seguridade social (saúde, previdência e assistência) ocorreu justamente no momento de aprofundamento da crise capitalista (crise mexicana 1995, crise asiática 1997, crise russa 1998, crise argentina 2001, crise da economia.com (2000), crise de 2008 e suas várias etapas. Essa crise resulta da queda da taxa de lucro nos setores industriais desde os anos 1980.</p>
<p>Tal fato, deslocou capital para áreas que até então estavam ocupadas pelo Estado, onde existiu o Estado de bem-estar social. A privatização de serviços públicos e as reformas do Estado visavam criar uma nova institucionalidade que permitisse o capital privado atuar de forma mais rentável vendendo novos produtos (saúde privada, educação privada, previdência privada, segurança privada, etc.).</p>
<p>A privatização da previdência teve sua primeira experiência no continente com o golpe militar no Chile em 1973, que permitiu aos <em>Chicagos boys</em> aplicarem suas políticas neoliberais. Entretanto, esse processo teve seu grande impulso nos anos 1980, justamente nos países que vivenciaram o Estado de bem-estar e tiveram apoio de setores ligados a esquerda com a ideia de que os trabalhadores ao aplicarem seus recursos num fundo de pensão significaria a constituição de um capitalismo em que teriam capital de longo prazo, onde poderiam ter participação nos conselhos de administração das empresas, onde esses teriam participação nos destinos das empresas, o que poderia representar uma nova forma de organizar a sociedade.</p>
<p>Todavia, o que a realidade mostrou é que este processo de privatização da previdência foi acompanhado pela restauração capitalista nos países do bloco soviético, desde 1991 que adotaram políticas neoliberais. Neste mesmo ano a crise capitalista deu sinal com a recessão americana. Depois desta crise se manifestar na periferia do capitalismo ela se descola para o epicentro capitalista.</p>
<p>Com isso a isso ela ocorre em 2000 e seguida de 2008, quado os fundos de pensão se tornam cada vez mais arriscados. Somente em 2008, os fundos de pensão, nos EUA, perderam U$ 4 trilhões nas suas aplicações nas bolsas. Vale lembrar que os fundos de pensão estadunidense foram grandemente beneficiados quando a taxa de juros do Banco Central dos EUA (FED) subiu de 5% para 20% em 1979.</p>
<p><strong>2.</strong></p>
<p>No Brasil, a realidade acabou mostrando que esses fundos acabaram deslocando grande parte dos seus recursos para os títulos da dívida pública em função da política de juros altos praticada pelo Banco Central. Desta forma os recursos dos fundos de pensão passaram a ser aplicados cada vez mais em títulos públicos, devido os ganhos vindos dos juros altos para rolagem da dívida pública. Com isso maior seriam os rendimentos destes títulos e maior possibilidade para o pagamento das aposentadorias e pensões no futuro.</p>
<p>Aqui se estabeleceu um dilema entre o futuro para previdência privada e o presente para os servidores públicos, já que quanto mais se elevava os juros maior era o endividamento do Estado nas várias esferas e maior a necessidade de se fazer o ajuste fiscal para que sobrasse dinheiro para o pagamento da dívida pública.</p>
<p>Para se fazer esse ajuste fiscal, para pagar essa dívida que crescia foram criados desde 1994, o Fundo de estabilização fiscal, a Lei de responsabilidade fiscal (LRF), a Desvinculação de Recursos da União (DRU), a Lei de teto de gastos e agora o arcabouço fiscal. Essas transformações ocorridas permitiram o que chamo de “Estado gestor da barbárie”, já que este dá continuidade a uma política tributária regressiva, faz renúncia fiscal de R$ 500 bilhões, privatiza quase todas as estatais usando dinheiro estatal subsidiado do BNDES, abre nova etapa de endividamento interno e externos dos estados e tenta impor uma reforma administrativa onde a precarização do trabalho, OSs e PPPs se aprofundam.</p>
<p>Em outras palavras, um Estado submetido ao sistema da dívida que pratica políticas de austeridade que aprofunda a barbárie social. Dentro disso resta a pergunta: Para que serve o Estado nacional?</p>
<p>A privatização da seguridade social, em especial da previdência, acabou submetendo os trabalhadores a outra dimensão de rentismo e ao mesmo tempo significou uma nova dimensão de colaboração de classes, já que esses fundos a medida que possuem volumes gigantescos de recursos aplicados em ações passam a compor os conselhos de administração das grandes empresas.</p>
<p>Desta forma essas empresas geridas pelos capitalistas clássicos e os representantes dos fundos continuam a ter como objetivo obter o máximo de mais valia. Ou seja, aplicam a precarização do trabalho para assegurar mais dividendos para que no futuro possam pagar as pensões e aposentadorias. Com isso os trabalhadores do Banco do Brasil, via Previ, passaram a controlar a Vale, via Valepar e com isso passaram indiretamente a ser cúmplices do aumento da exploração dos trabalhadores da Vale.</p>
<p>Por outro lado, os trabalhadores da Vale, via seu Fundo de Pensão, passaram a ter ações do Banco do Brasil e com isso ser cúmplices da precarização do trabalho dos trabalhadores do Banco do Brasil. Isso implicou no fim da solidariedade dentro da classe trabalhadora. Tudo isso só foi possível quando se destruiu o regime de repartição simples, onde uma geração financiava a outra, não tendo necessidade de se constituir um fundo para ser aplicado seja em ações ou em títulos públicos, acabando com a solidariedade entre as gerações.</p>
<p><strong>3.</strong></p>
<p>Tudo isso, porém, resultou da desorganização política da esquerda mundial que passou pela perda da identidade de classe e incorporação do ideário neoliberal e abandono das bandeiras históricas da classe trabalhadora.</p>
<p>O momento atual, em que se tenta mais uma nova contrarreforma da previdência temos uma crise da previdência privada, já que depende cada vez mais do mercado financeiro, que amplifica seus riscos quanto mais se aprofunda a crise capitalista. Enquanto isso, os planos de saúde vivem um momento em que grande parte dos médicos credenciados abandonam esses planos, que cobram cada vez mais caro e reduz ainda mais os serviços.</p>
<p>Os servidores públicos novos, nas três esferas, exceto militares, estão submetidos aos regimes próprios, que no caso dos estados e municípios, se submeteram ao regime de capitalização, que dependem cada vez mais do mercado e estão submetidos a suas incertezas.</p>
<p>A crise do Banco Máster revela como a busca por aplicação de maior retorno pelos regimes próprios pode levar a investimento de maior risco como aconteceu recentemente, acarretando perdas para vários regimes próprios.</p>
<p>Essas perdas nos regimes próprios podem ameaçar o pagamento futuro das aposentadorias. Já as perdas ocorridas nos grandes fundos de pensão como PREVI, PETROS e correios podem levar aos participantes a ter que aumentar a contribuição para recomposição dos valores perdidos. O caso mais grave ocorreu com o PETROS, dos Funcionários e aposentados da Petrobras que vão pagar por 18 anos uma conta de R$ 14 bilhões por perdas registradas.</p>
<p>O dilema dos regimes próprios dos estados fica mais claro pelos desvios e perdas reveladas pela CPI do RIOPREVIDENCIA. O regime próprio de Alagoas, o AL Previdência acabou criando um fundo garantidor a partir das 304 escolas públicas do Estado, significando a privatização dos prédios das escolas públicas, além do envolvimento da empresa estatal não dependente Alagoas ativos S/A em esquema de securitização.</p>
<p><strong>4.</strong></p>
<p>Como estou orientando uma tese de uma aluna que investiga esses dois regimes próprios estou acompanhando as atas de reuniões do conselho consultivo do Al Previdência. Nestas atas posso observar que as reuniões deste Conselho sempre começam com a leitura do boletim Focus, que é elaborado pelos rentistas e as decisões de investimento deste regime sempre depende deste economista contratado e do que indica esse boletim. Em outras palavras, a independência do Banco Central e a elevação da taxa de juros, alegando combater a inflação, mas que na verdade permite que numa taxa básica de 15% e inflação de 5% permitem que o comprador de títulos tenha um ganho real de aproximadamente 10%.</p>
<p>Com essa política monetária temos um crescente aumento dívida pública que em seguida vai exigir um novo ajuste fiscal e um novo ataque aos servidores públicos como a proposta de reforma administrativa e da previdência. Neste processo os servidores públicos estão colocados como responsáveis pelo aumento das despesas públicas, encobrindo o verdadeiro responsável pelo aumento desses gastos: a dívida pública, a política de juros altos, a renúncia fiscal crescente.</p>
<p>O grande desafio que temos no momento é o crescimento da bancada BBBB (Bancos, Bíblia, Boi e Bíblica) que usa a pauta moral para se eleger e que em seguida produzem a retirada dos direitos sociais e reafirma a austeridade fiscal e a política de juros altos. Curiosamente dentro desta bancada temos uma aliança invisível entre os mais ricos, que querem privatizar tudo e os mais pobres que fazem base das igrejas neopentecostais, impulsionados pela teologia da prosperidade e teologia do domínio.</p>
<p>Aqui os mais pobres e que necessitam de políticas sociais são os que dão votos naqueles que são os mais ricos e também os que mais recebem recursos do Estado via BNDES, renuncias fiscais, perdão de dívidas e apoio dos órgãos estatais aos seus empreendimentos privados.</p>
<p>Para darmos continuidade a luta contra a reforma administrativa e da previdência temos que construir a unidade entre os trabalhadores do setor privado e do setor público destacando que o principal determinante dos gastos públicos é a dívida pública. Nesta direção precisamos esclarecer junto à população que grande parte da dívida federal é dívida dos estados e que na sua maioria é dívida resultante da conversão das dívidas privadas das burguesias regionais junto aos bancos estaduais.</p>
<p>Sendo assim, temos que denunciar que entre os deputados e senadores que estão votando as contrarreformas temos uma grande parte que se beneficiou dos bancos estaduais no seu enriquecimento privado. Auditar as dívidas estaduais é parte fundamental para o diálogo com a maior parte da população que tanto precisa da ampliação dos direitos sociais.</p>
<p><strong>José Menezes Gomes</strong><em> é professor de economia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL)</em>.</p>
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		<title>Belluzzo: Faria Lima, PCC e a sociedade do dinheiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 Aug 2025 02:06:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
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					<description><![CDATA[No rescaldo da operação no coração financista do país, reflexões sobre o “demônio monetário”. Ele dilui a fronteira entre o lícito e o ilícito. O Estado é submetido. E o impulso doentio por acumulação vira uma “virtude” dos homens de bem Luiz Gonzaga Belluzzo – Carta Capital – 29/08/2025 A Operação Carbono Oculto sugere considerações a respeito [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>No rescaldo da operação no coração financista do país, reflexões sobre o “demônio monetário”. Ele dilui a fronteira entre o lícito e o ilícito. O Estado é submetido. E o impulso doentio por acumulação vira uma “virtude” dos homens de bem</em></p>
<p>Luiz Gonzaga Belluzzo – Carta Capital – 29/08/2025</p>
<p>A Operação Carbono Oculto sugere considerações a respeito das façanhas do Demônio Monetário. Entre tais façanhas há que observar o apagamento dos limites que separam o lícito e o ilícito. No Brasil do PCC, a dissolução dessas fronteiras permitiu a adesão de instituições financeiras às práticas do crime organizado</p>
<p>Fausto vendeu-se ao demônio. Para adquirir poder e dinheiro entre os mortais, hipotecou a alma pela eternidade. Tamanha era a força da sua cupidez que a fome da riqueza monetária fez a eternidade durar apenas um segundo.</p>
<p>Vai pela casa da tonelada a quantidade de tinta gasta para deplorar o poder do dinheiro, a sua força para corromper as consciências, desfigurar as almas e os sentimentos. Contra esse poder e essa força, lançaram-se poetas, filósofos, teólogos e até os moralistas de folhetim.</p>
<p>George Simmel, em seu livro <em>A Filosofia do Dinheiro</em>, mostra que o sujeito atacado pelo amor “doentio” ao dinheiro não é uma aberração moral, mas o representante autêntico do indivíduo criado pela sociedade argentária. As qualidades dos bens e o gozo de suas utilidades tornam-se absolutamente indiferentes para ele. Suas preferências, sentimentos, desejos, são totalmente absorvidos pelo impulso de acumular riqueza monetária.</p>
<p>É curioso observar como a sociedade argentária, ao transformar violentamente os indivíduos e suas subjetividades em simples coágulos monetários, pretenda ao mesmo tempo colocar barreiras, ensinando-lhes as virtudes da moderação, da frugalidade, da solidariedade. Então, como podemos falar de sentimentos como honradez, dignidade, autorrespeito numa sociedade em que todos os critérios de sucesso ou insucesso são determinados pela quantidade de riqueza monetária que cada um consegue acumular?</p>
<p>É difícil escapar da sensação de que a contenção desse impulso é impossível sem a coação e a intimidação crescentes. As leis devem se tornar cada vez mais duras e especializadas na tentativa de coibir o enriquecimento “sem causa” e a qualquer custo. Verdade? A experiência contemporânea parece demonstrar que os circuitos de enriquecimento ilícito – apesar do grande número de prisões e condenações – não fazem outra coisa senão aumentar, multiplicando-se mundo afora. As drogas e seus sistemas de produção e comercialização, a espionagem industrial e tecnológica, a corrupção política, a compra e a venda de informações e de “desinformação” da opinião pública formam uma rede formidável e em rápido crescimento de circulação de dinheiro “sujo”.</p>
<p>Esse dinheiro transita e é “esquentado” e “esfriado” nos mercados financeiros liberalizados. Negócios legais são muitas vezes fachadas para “branquear” dinheiro de origem ilícita. Os sistemas fiscais – diante dos circuitos financeiros que permitem a livre movimentação de capitais – perdem o seu caráter progressivo e passam a depender cada vez mais dos impostos indiretos e da taxação dos assalariados.</p>
<p>Daí o enfraquecimento sem precedentes da esfera pública, a desmoralização dos poderes do Estado, a crescente onda de moralismo que revela, aliás, mais impotência do que indignação. Os perdedores desse jogo entregam-se a lamentações e ondas de protesto que se esgotam rapidamente entre o escândalo do momento e o próximo. Sem tempo para raciocinar, entregam-se ao consumo de fatos sensacionais e escabrosos.</p>
<p>Nessas situações crescem os clamores por medidas “salvacionistas”, apoiadas na invocação da própria santidade, honestidade ou bons propósitos. Em geral, esses movimentos de opinião voltam-se contra o “formalismo” dos procedimentos legais. Os grandes pensadores da modernidade encaravam com horror a possibilidade de vitória dos grupos que veem no direito e na formalidade do processo judicial obstáculos ao exercício da moral. Para eles, tais protestos não são apenas errôneos, mas revelam apego malsão à sua própria particularidade, desfrutada narcisisticamente sob o disfarce da moralidade.</p>
<p>No capitalismo realmente existente são os negócios que invadem a esfera estatal. A concorrência entre as grandes empresas impõe a presença do Estado nos negócios e envolve a disputa por sua capacidade reguladora e por recursos fiscais. Isso significou abrir as portas para a invasão do privatismo nos negócios do Estado.</p>
<p>O neoliberalismo também pode ser entendido como um projeto de retorno a uma ordem jurídica alicerçada exclusivamente em fundamentos econômicos. Para tanto, é obrigado a atropelar e estropiar, entre outras conquistas da dita civilização, as exigências de universalidade da norma jurídica. No mundo da nova concorrência e da utilização do Estado pelos poderes privados, a exceção é a regra. Tal estado de excepcionalidade corresponde à codificação da razão do mais forte, encoberta pelo véu da legalidade.</p>
<p>Seria uma insanidade, no mundo moderno e complexo, tentar substituir os preceitos e a força da lei pela presunção de virtude autoalegada por qualquer grupo social ou, pior ainda, por aqueles que ocupam circunstancialmente o poder.</p>
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		<title>Abra os olhos, Folha! por Juca Kfouri</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 Aug 2025 15:41:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
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					<description><![CDATA[Impossível não se indignar diante da nova tentativa de ruptura da democracia Juca Kfouri, Jornalista, colunista da Folha e autor de ‘Confesso que Perdi’ (Companhia das Letras); é formado em ciências sociais pela USP. Folha de São Paulo, 23/08/2025 Os mesmos terroristas que quase levaram aos céus, em vez dos aviões, o aeroporto de  Brasília, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Impossível não se indignar diante da nova tentativa de ruptura da democracia</p>
<p>Juca Kfouri, Jornalista, colunista da Folha e autor de ‘Confesso que Perdi’ (Companhia das Letras); é formado em ciências sociais pela USP.</p>
<p>Folha de São Paulo, 23/08/2025</p>
<p>Os mesmos terroristas que quase levaram aos céus, em vez dos aviões, o aeroporto de  Brasília, e continuaram suas ações no dia 8 de janeiro, estão hoje na Câmara dos Deputados, na tentativa de golpear a democracia brasileira.</p>
<p>Se não bastasse, têm o apoio de quem o presidente Lula chamou corretamente de &#8220;imperador do mundo&#8221;.</p>
<p>Desta vez quem quer dar o golpe não é o banqueiro Magalhães Pinto, o &#8220;rouba mas faz&#8221; Ademar de Barros ou o &#8220;Corvo&#8221; Carlos Lacerda, líderes civis da marcha antidemocrática que redundou na ditadura militar de 1964.</p>
<p>Desta vez os apoiadores de Jair Bolsonaro, aquele que quis explodir a adutora do Guandu em 1987, não são os governadores de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, embora os três atuais ocupantes dos mesmos cargos sejam cúmplices dos extremistas de direita e não têm constrangimento em revelar covardia e submissão a interesses externos.</p>
<p>Agora os porta-vozes da aventura são tipos inconversáveis, verdadeiros ogros do PL bolsonarista, como o violento Paulo Bilynskyj, o histérico Marcelo van Hattem, a mãe desnaturada Júlia Zanatta e o &#8220;patriota&#8221; Eduardo Bolsonaro, guiado pelo neto do derradeiro ditador, o fujão Paulo Figueiredo — entre outras figuras tão pequenas como Bia Kicis, a defensora da liberdade de imprensa que processou mais de uma dezena de jornalistas.</p>
<p>Nem Lyndon Jonhson, o presidente dos EUA em 1964, embora estivesse na origem do golpe, teve a coragem de assumi-lo publicamente como faz o arrogante intervencionista Trump.</p>
<p>Tratar com tons de normalidade o processo em curso é, de duas, uma: ou se fazer de avestruz ou colaborar para mais uma interrupção do processo democrático duramente conquistado como fez esta Folha ao apoiar o golpe seis décadas atrás —para depois se engajar corajosamente na campanha das &#8220;Diretas Já&#8221;.</p>
<p>&#8220;O Globo&#8221; fez o mesmo, apoiou o golpe, não a campanha por seu fim, e o &#8220;Estado de S.Paulo&#8221; também.</p>
<p>Não trabalho nem para um e nem para outro, seria indevido querer pautá-los, além de apostar que jamais publicariam um artigo como este, e exponho aqui meu desalento — noves fora a esperança de sensibilizar, não de pautar, para mudança de rumo na cobertura da insânia em curso.</p>
<p>Pouco importa estar de acordo ou não com o atual governo.</p>
<p>Trata-se de defender a soberania e a democracia sem concessões e outroladismo para quem solapa a democracia.</p>
<p>Não há isenção possível entre Winston Churchill e Adolf Hitler. Ou entre Ilan Pappe e  Binyamin Netanyahu.</p>
<p>Durante anos esta Folha adotou o lema &#8220;Um jornal a serviço do Brasil&#8221;.</p>
<p>Por menos que tenha sido fiel ao bordão antes, durante e depois do golpe, pode se orgulhar de tê-lo seguido ao se transformar no diário mais arejado, criativo, instigante do país, também o de maior circulação, graças a jornalistas como Otavio Frias Filho e seu Projeto Folha, Ricardo Kotscho, &#8220;o Repórter das Diretas, e Matinas Suzuki, o mais inquieto dos editores, para citar apenas três responsáveis pela guinada iluminista.</p>
<p>Então, trabalhar na Folha era motivo de orgulho mesmo quando, a FOLHA sendo FOLHA, tropeçava aqui ou ali.</p>
<p>Hoje não está bem assim.</p>
<p>Onde está a indignação, a denúncia veemente, a cobrança incessante para que o dócil e intimidado Hugo Motta tenha 10% da postura de Ulysses Guimarães na presidência da Câmara?</p>
<p>Por críticas que se façam ao ministro Alexandre de Moraes, e é acaciano dizer que ninguém está acima delas, deixar de enaltecer seu papel em defesa do país é, no mínimo, ingratidão, além de injusto.</p>
<p>Como são injustos, ingratos e oportunistas os que cobram de Lula o diálogo com quem nos ameaça e chantageia ao ignorar o ensinamento de Millôr Fernandes: &#8220;Quem se curva diante dos opressores mostra o traseiro para os oprimidos&#8221;.</p>
<p>Abre os olhos, Folha!</p>
<p>&nbsp;</p>
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