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	<title>Sem categoria &#8211; Ary Ramos</title>
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	<description>A grandeza não está naqueles que recebem honras, mas sim naqueles que as merecem. - Aristóteles</description>
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		<title>Parasitismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Oct 2026 23:44:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A sociedade contemporânea tem atitudes interessantes e reveladoras do atraso civilizacional, de um lado, percebemos um estímulo crescente da competição, onde as crianças e os jovens estão crescendo em um ambiente concorrencial, sem privacidade, estimulados pelo consumo desenfreado e os ganhos materiais se transformaram em um verdadeiro prêmio que fica disponível para os melhores e [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">A sociedade contemporânea tem atitudes interessantes e reveladoras do atraso civilizacional, de um lado, percebemos um estímulo crescente da competição, onde as crianças e os jovens estão crescendo em um ambiente concorrencial, sem privacidade, estimulados pelo consumo desenfreado e os ganhos materiais se transformaram em um verdadeiro prêmio que fica disponível para os melhores e os mais capacitados e, de outro lado, percebemos uma sociedade embrutecida, marcada pelo ódio e pelo ressentimento, onde os cidadãos sentem, na pele, os desequilíbrios emocionais e afetivos, o aumento da ansiedade e da depressão, gerando uma geração assustadora, apática e agressiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao estudarmos o capitalismo nacional percebemos um discurso centrado na defesa da concorrência nos setores econômicos nacionais, uma defesa constante da liberdade e da escolha dos agentes econômicos e, percebemos que essa concorrência é algo, totalmente, surreal, somos uma nação nascida na exploração de uma metrópole atrasada e fortemente conservadora, gerando uma elite econômica reacionária e imediatista. Construímos variados monopólios estatais, usamos a estrutura do Estado para construir uma sociedade mais moderna, defendemos o protecionismo governamental e sobrevivemos graças aos mais variados subsídios dos governos de plantão. Na real, percebemos que construímos uma elite parasitária, que sobrevive pregando empreendedorismo e inovação, pouco investe em ciência e em tecnologia, adora as nações empreendedoras e se satisfaz comprando produtos sofisticados no mercado internacional para satisfazer seus anseios de consumismo desenfreado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta sociedade, percebemos uma elite, que controla a nação, uma verdadeira ojeriza a investimentos em pesquisa, ciência e tecnologia, investir em educação é visto como um desperdício desnecessário, afinal, essa elite nunca, lembrem disso, correu riscos, sempre estimulou o Estado Nacional a fazer os investimentos mais agressivos e arriscados e, posteriormente, usou seus instrumentos políticos pouco republicanos para degradar os investimentos anteriores, estimulando a terceirização dos ativos estatais e, posteriormente, adquirindo os ativos nacionais via privatização a preço de banana, embolsando grandes lucros, criando monopólios privados e oferecendo serviços de péssimas qualidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph"> Essa mesma elite parasitária que domina a sociedade nacional há séculos e que compactua abertamente com a grande corrupção e a ineficiência administrativa, denuncia em seus canais de comunicação tradicional e em seus canais digitais os dispêndios, vistos como exagerados, das políticas públicas governamentais, as bolsas famílias e seus congêneres, se esquecendo, deliberadamente, dos bilhões de reais adquiridos via taxas de juros estratosféricos e os recursos garantidos através dos subsídios e das isenções governamentais, recursos estes, pouco transparentes e servem para enriquecer poucos grupos privilegiados em detrimento de uma parcela substancial da sociedade que recebe migalhas e, neste cenário atual, podem perder estes benefícios para garantir, perpetuamente, os ganhos dos donos do capital.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste cenário internacional marcado pelo desenvolvimento tecnológico e pelos agressivos investimentos em ciência e tecnologia, percebemos que vamos continuar sendo importadores de produtos sofisticados e de alto valor agregado e, vamos perpetuar, nosso papel de exportadores de produtos primários de baixo valor agregado, afinal, abrimos mão, historicamente, de nosso potencial científico e tecnológico, haja vista Embraer, Petrobrás e Embrapa. E neste futuro imediato, muito imediato, essa elite parasitária e predatória, vai continuar garantindo seus grandes recursos, pagando salários miseráveis, explorando a classe trabalhadora, devastando os sindicatos, garantindo seus subsídios elevados e isenções fiscais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário</strong>.</p>
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		<title>Confrontos abertos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Sep 2026 17:42:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna Semanal]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[A sociedade brasileira vem passando por transformações generalizadas, com impactos sobre todos os atores sociais, gerando calafrios crescentes, desequilíbrios estruturais, instabilidades variadas e preocupações gigantescas, com impactos sobre a democracia, elevando as incertezas e os confrontos internos, aumentando as movimentações externas e os receios de intervenções internacionais. Vivemos um momento de medos e desesperanças que [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">A sociedade brasileira vem passando por transformações generalizadas, com impactos sobre todos os atores sociais, gerando calafrios crescentes, desequilíbrios estruturais, instabilidades variadas e preocupações gigantescas, com impactos sobre a democracia, elevando as incertezas e os confrontos internos, aumentando as movimentações externas e os receios de intervenções internacionais. Vivemos um momento de medos e desesperanças que podem levar a ascensão de grupos políticos que pregam rupturas democráticas e retrocessos sociais, impulsionando uma guerra de todos contra todos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recentemente, percebemos o aumento das inverdades e das chamadas <em>fake news</em>, na verdade, estas inverdades sempre existiram na sociedade e, neste ambiente de eleições generalizadas, as mentiras crescem aceleradamente, as chamadas narrativas crescem como forma de evitar uma reflexão mais consistente, criando interpretações equivocadas e, com isso, acabam gerando confrontos verbais, desrespeitos físicos, aumentando a violência, as agressões e os ressentimentos, deixando claro, que vivemos numa sociedade marcada por dificuldades de reflexão, ausência de planejamento, desconhecimento histórico e a incapacidade de estratégias de desenvolvimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos uma sociedade onde os confrontos crescem de forma acelerada, no trânsito reina a força do mais forte, os condutores estacionam seus veículos em locais impróprios, percebemos motoristas desrespeitando a sinalização, passando no sinal vermelho, ultrapassando em locais proibidos, transeuntes desrespeitando as regras de convivência cotidiana e as brigas, o incremento de confrontos físicos que podem culminar em mortes e agressões violentas, com isso, consolidamos uma sociedade violenta, longe do chamado homem cordial, destacado pelo ilustre sociólogo Sérgio Buarque de Holanda no aclamado <em>Raízes do Brasil.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">As escolas, que deveriam ser vistas como um espaço de cidadania, do respeito e da convivência pacífica se transformaram em locais de confrontos constantes, professores e funcionários estão sendo agredidos violentamente, gerando um caldo crescente de agressividade e desrespeito, com isso, consolidamos uma nação sem educação, sem horizontes e colhemos uma nação sem horizontes tangíveis. Os professores, anteriormente eram vistos como um grupo respeitado, perderam este status social, gerando jovens que fogem da docência, repudiam as escolas, abominam o ensino superior e sonham em ser empreendedores, vislumbrando carreira de produtor de conteúdo e de <em>influencers.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os confrontos crescem em todas as searas, os tribunais se tornaram espaço de xingamentos, grosserias e ofensas generalizadas, onde a corrupção, o compadrio e o corporativismo crescem e a defesa “invisível” e indiscriminada dos donos do poder se tornam cada vez mais evidentes, desnudando as relações entre o capital e a justiça e, contribuindo, para a perpetuação de uma estrutura social atrasada, violenta e corrupta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os confrontos contemporâneos mostram uma degradação da democracia representativa, os eleitos se utilizam do poder financeiro para garantir a preservação de suas benesses, ventilando mentiras e manipulações como instrumento de proteção e, com isso, garantem a sua perpetuação nas barbas do poder, se vendendo para os donos do dinheiro, embolsando migalhas materiais e se afastando dos interesses da população.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As ofensas e os confrontos abertos nas cortes superiores servem como uma cortina de fumaça para encobrirmos a inoperância de uma sociedade que perpetua a desigualdade, a exclusão e preserva o atraso institucional, somadas a degradação social e financeira dos profissionais da educação, o incremento do feminicídio e o crescimento da violência urbana, tudo isso nos mostra, claramente, que chegamos ao limite da degradação, o próximo passo é, com certeza, a verdadeira barbárie.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ary Ramos da Silva Júnior, bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Dilemas econômicos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 27 Jun 2026 23:28:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coluna Semanal]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[O mundo contemporâneo nos impõe grandes desafios e oportunidades, este ambiente marcado pelo crescimento da tecnologia, pelo aumento da concorrência e por um cenário de grandes incertezas exigem uma grande liderança com capacidade de compreender as mudanças econômicas, as transformações políticas e geopolíticas, sob pena de ficarmos para trás nos novos arranjos econômicos e produtivos, [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">O mundo contemporâneo nos impõe grandes desafios e oportunidades, este ambiente marcado pelo crescimento da tecnologia, pelo aumento da concorrência e por um cenário de grandes incertezas exigem uma grande liderança com capacidade de compreender as mudanças econômicas, as transformações políticas e geopolíticas, sob pena de ficarmos para trás nos novos arranjos econômicos e produtivos, perdendo espaço nas cadeias globais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste cenário, encontramos uma economia marcada por grandes dificuldades e inúmeros dilemas, de um lado, sabemos que precisamos crescer economicamente para incluir a população no mercado de consumo e, de outro lado, o governo não possui força política para mudar este modelo econômico. O crescimento da economia demanda taxas de juros reduzidas, estabilidade das regras, capital humano capacitado e boas condições de investimentos produtivos, tudo isso contribui diretamente para que a economia cresça e se diversifique, gerando emprego e desperte o espírito animal dos setores produtivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos num ambiente econômico, onde as taxas de juros elevadas foram escaladas para evitar que os preços não aumentem de forma exagerada e a inflação não ganhe espaço no cotidiano da população, inflação essa que reduz a renda e empobrece a população, gerando graves constrangimentos políticos e eleitorais para os governos. No caso nacional, com estas taxas de juros elevadas, vivemos estimulando um ambiente descrito pelos economistas como <em>stop and go, </em>a economia cresce um pouquinho e depois perde tração e os governos são obrigados a aumentar as taxas de juros internas para evitar o crescimento inflacionário. Com o aumento dos juros a renda da população se reduz, o desemprego cresce e o salário dos trabalhadores perde espaço, desta forma os grandes ganhadores deste modelo são os rentistas e os financistas, não investem nenhum centavo, controlam os meios de comunicações, manipulam comentaristas econômicos com mesadas generosos e difundem que os vilãos desta situação são os ganhadores das políticas públicas governamentais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos anos 1990, o governo brasileiro seguiu o receituário liberal dominante na época, que preconizava o livre fluxo de capitais externos, onde os recursos estrangeiros poderiam entrar e sair rapidamente nas economias, sem restrições tributárias e sem amarras institucionais, desta forma os “investidores” externos tinham mais liberdade e poderiam escolher os ambientes mais atrativos, locais que garantissem grandes retornos econômicos, privatizações de ativos governamentais e aberturas econômicas, além de facilidades de movimentações financeiras, todas essas vantagens que beneficiam os rentistas existem desde então, os governos (alguns vistos como de esquerda e outros de direita) se alternaram nestes trinta anos e nenhum se mobilizou para reduzir essa liberalização financeira e seus custos econômicos e produtivos para a economia nacional, este modelo econômico e financeiro estimula a jogatina interna e transforma o país num verdadeiro paraíso fiscal e impede a construção de um verdadeiro projeto nacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos num ambiente onde os juros elevados estão no centro do modelo econômico implantado nos anos 1990 como forma de remunerar os capitais especulativos e limitando os investimentos produtivos, isso acontece porque ao reduzir os juros internos os capitais estrangeiros fogem do país, desvalorizando o câmbio e pressionando os preços internos, exigindo juros elevados para estabilizar o câmbio e reduzir os preços. Estamos vivendo um dos grandes dilemas econômico e não vislumbro uma solução definitiva, para resolver este dilema precisamos de força política, algo impensável num ambiente polarizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.</strong></p>
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		<title>Aplicativo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Mar 2026 13:59:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O Aplicativo Ary Ramos está, novamente, disponível na loja do Google, aproveitem! Segue o link:]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O Aplicativo Ary Ramos está, novamente, disponível na loja do Google, aproveitem!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Segue o link:</p>



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		<title>Palestra Espírita</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Mar 2026 23:42:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Palestra na Associação Espírita Allan Kardec, de São José do Rio Preto/SP, no dia 22 de março de 2026, onde o professor Ary Ramos abordou um tema interessante, na ocasião o tema escolhido foi “José de Arimatéia: o discípulo de Jesus”, vale a pena assistir.]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Palestra na Associação Espírita Allan Kardec, de São José do Rio Preto/SP, no dia 22 de março de 2026, onde o professor Ary Ramos abordou um tema interessante, na ocasião o tema escolhido foi “José de Arimatéia: o discípulo de Jesus”, vale a pena assistir.</p>
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		<title>Os desafios do movimento pela reforma agrária, por João Pedro Stédile</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Dec 2024 21:08:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Bons Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[João Pedro Stédile – Instituto Humanitas Unisinos – 06/12/2024 No MST nós temos uma prática social de resolvermos tudo de maneira coletiva e mesmo que eu tenha uma cara mais conhecida na sociedade brasileira, sempre procuro expressar a opinião do nosso coletivo. Quando o MST nasceu e foi construído coletivamente há 40 anos atrás e o nosso ideal [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>João Pedro Stédile – Instituto Humanitas Unisinos – 06/12/2024</strong></p>
<p>No MST nós temos uma prática social de resolvermos tudo de maneira coletiva e mesmo que eu tenha uma cara mais conhecida na sociedade brasileira, sempre procuro expressar a opinião do nosso coletivo. Quando o <strong>MST</strong> nasceu e foi construído coletivamente há 40 anos atrás e o nosso ideal era a luta pela reforma agrária que se baseia naquela visão zapatista da Revolução Mexicana: “<em>tierra es para quien la trabaja</em>”, que foi adotada em toda a América Latina pela <strong>luta dos movimentos camponeses</strong>, isso levava uma concepção campesinos da luta pela terra, ou seja se lutava de forma massiva mas a essência era resolver os problemas das famílias camponesas e agora nós estamos numa nova etapa do capitalismo internacional.</p>
<p>Nos últimos 20 anos o capitalismo mundial sofreu grandes mudanças e hoje quem domina a produção agrícola é o capital financeiro e grandes empresas transnacionais; no Brasil e em todo mundo, o que levou o <strong>MST</strong> e os movimentos camponeses em geral, nós nos aglutinamos na Via Campesina, a adequar seu programa diante da nova realidade da <strong>luta de classes na agricultura</strong>. Hoje nós temos uma situação onde três modelos, ou três propostas de organização da agricultura se enfrentam a todo momento no campo no Brasil e na América Latina, que modéstia à parte, conheço um pouco.</p>
<p>O primeiro modelo nós chamamos de latifúndio predador, não é nenhuma nomenclatura acadêmica, é um conceito da luta política. O latifúndio predador são aqueles grandes fazendeiros capitalistas financiados pelo capital de mercado e pelas empresas transnacionais que vão lá na natureza e se apropriam dos bens que são comuns: terras públicas, florestas, minérios, água e biodiversidade em geral; e transformam aqueles bens em mercadorias e com isso tem uma taxa de lucro fantástica.</p>
<p>Portanto, é um modelo que enriquece, porém não é um modelo socialmente justo e é insustentável do ponto de vista ambiental. O segundo modelo é o agronegócio cantado em verso e prosa todas as noites no Jornal Nacional como se fosse moderno, como se fosse o futuro como se fosse o que carregasse o Brasil nas costas. Porém o modelo do <strong>agronegócio</strong> se fundamenta numa forma de organização baseada no monocultivo e aqui no Brasil se resume a apenas cinco produtos: soja, milho, cana-de-açúcar, algodão e pecuária bovina extensiva, mas todos esses produtos são commodities agrícolas para exportação não é para resolver os problemas do povo.</p>
<p>Por outro lado, por serem monocultivos em larga escala, eles adotam sementes transgênicas e agrotóxico e o agrotóxico mata a <strong>biodiversidade</strong>, mata a fertilidade do solo e desequilibra o meio ambiente e são mais perversos para as mudanças climáticas do que as próprias queimadas porque com as queimadas, a natureza se recupera, mas com o veneno não, ele fica lá e mata. Então, o modelo do <strong>agronegócio</strong> é insustentável também tanto do ponto de vista social porque ele não quer empregar pessoas quanto do ponto de vista ambiental porque ele destrói o meio ambiente.</p>
<p>O terceiro modelo é o modelo da agricultura familiar, que, de novo, a imprensa burguesa chama de atrasada, que não existe mais, que não sei o que, porém, a agricultura familiar do Brasil dá emprego para 16 milhões de trabalhadores familiares sem exploração; é a agricultura familiar que produz os alimentos para o mercado interno. O único produto que vai para a mesa do trabalhador que ainda sai do <strong>agronegócio</strong> é o óleo de soja, fora esse, tudo vem da agricultura familiar e é um modelo que pratica policultura, ou seja, tu vai lá em cinco hectares e encontra diversas formas de produção, diversos vegetais, diversos animais e essa combinação é que preserva o meio ambiente, preserva as nascentes.</p>
<p>Em <strong>São Paulo</strong>, nos últimos meses com a seca, houve os incêndios e como é que começaram os incêndios? Uma usina colocou fogo na cana para facilitar a colheita mecanizada, o vento veio e levou ao incêndio que queimou 300 mil hectares de cana em outras regiões. Foi feita a mesma prática por fazendeiros para queimar o pasto que estava seco e aí rebrotava a grama. Veio o vento e queimou 600 mil hectares de cana de pasto bom. A fumaça chegou aqui em São Paulo e, durante uma semana, os médicos denunciaram que morriam 60 pessoas por dia pela inalação da fumaça, claro, em geral idosos e crianças que são muito afetadas por doenças pulmonares.</p>
<p>Agora, fica a pergunta: por que na região da <strong>agricultura familiar</strong> não houve incêndio, na região de <strong>Itapeva</strong> no sul do estado, no <strong>Vale do Ribeira</strong> ou lá na região de <strong>Andradina</strong>? Porque na policultura existem diversas formas de vida vegetal e animal que convivem e, portanto, não há seca e incêndio que destruam isso. Bom, então agora vou ao que interessa: lutar hoje por <strong>reforma agrária</strong> não é apenas lutar por terra para os camponeses; lutar hoje por reforma agrária é lutar pelo que nós chamamos de uma reforma agrária popular.</p>
<p>Ou seja, precisam acontecer mudanças estruturais na propriedade da terra e na organização da produção, que tenham como centro de sua função social dois grandes objetivos: primeiro, produzir alimentos saudáveis para todo o povo, porque o povo brasileiro se alimenta muito mal. Quando a gente fala produzir alimentos para o povo, é de fato pensar em uma cesta básica que leve nutrientes, proteína animal, ovos caipiras para todo o povo. Se continuar essa agressão que o <strong>agronegócio</strong> e o <strong>latifúndio</strong> praticam contra a natureza, isso coloca em risco a vida do ser humano, que já está morrendo também por esses <strong>crimes ambientais</strong>. Então, essas novas funções de uma reforma agrária popular precisam ser daqui para frente.</p>
<p><strong>Por uma agricultura sustentável</strong></p>
<p>Para fazer com que a <strong>agricultura familiar</strong>, que tem 16 milhões de pessoas trabalhando, cumpra a missão de defender a natureza e produzir alimentos saudáveis para todos, é necessário implementar, como modo de produção tecnológica, a agroecologia. A agroecologia é uma junção de conhecimento dos saberes populares, que vêm de geração em geração do convívio dos camponeses com a natureza, mas há também um componente fundamental, que é o conhecimento científico produzido na academia, na Embrapa e nos institutos de pesquisa.</p>
<p>É da combinação dessas duas vertentes, a sabedoria popular e o conhecimento científico, que você vai introduzir e propagar a <strong>agroecologia</strong>. Para que a agroecologia seja utilizada de forma massiva e não como agora, que infelizmente poucas famílias conseguem adotar, não porque não queiram, mas porque não sabem, é preciso difundir e utilizar a agroecologia de forma ampla em todo o Brasil e em todos os biomas. Precisamos enfrentar alguns desafios, e é esse o diálogo que o <strong>MST</strong> e a Via Campesina têm feito com os pesquisadores, nossos aliados das universidades, e agora até com a <strong>Universidade da Agricultura da China</strong>.</p>
<p>O primeiro desafio é que precisamos controlar a produção de sementes. Quem não controla a semente será refém de alguma empresa. A empresa que controla a venda de semente de milho híbrido transgênico, vende 15 quilos por R$ 200 reais, com a taxa de lucro lá em cima. Esse mesmo milho poderia ser produzido pela própria <strong>agricultura familiar</strong>, e o agricultor poderia reservar a semente que vai utilizar. Para citar um exemplo, precisamos resolver o problema do fertilizante orgânico. As formas predatórias de agricultura vão exaurindo a fertilidade natural do solo, que contém milhares de formas e nutrientes.</p>
<p>Em geral, as pessoas, influenciadas pela propaganda do <strong>agronegócio</strong> e dos <strong>agroquímicos</strong>, pensam que a fertilidade do solo se baseia apenas em <em>NPK</em> (nitrogênio, fósforo e potássio), mas isso não é certo. Agora, qual é o problema que enfrentamos? Como produzir um solo fértil? Alimentando com fertilizantes orgânicos, que ativam os micro-organismos e a vida no solo. No Brasil, não há quem venda ou forneça fertilizantes orgânicos em grande escala. O agricultor tenta fazer isso em sua unidade, usando esterco de animal e compostagem, mas isso é em pequena escala.</p>
<p>Por exemplo, nós, no <strong>Rio Grande</strong>, temos seis mil hectares de arroz orgânico que precisam ser alimentados com fertilizantes orgânicos. Alimentar seis mil hectares a cada safra exige uma produção em grande escala. Aqui entra a experiência da China. Durante nossas viagens para lá, onde temos uma brigada de militantes morando em <strong>Pequim</strong> e <strong>Xangai</strong> para interagir com a <strong>agricultura chinesa</strong>, descobrimos que eles desenvolveram a produção de fertilizantes orgânicos a partir dos resíduos das cidades, com restos da alimentação das famílias, restaurantes, podas de árvores, sobras das feiras e mercados. Eles juntam essa matéria orgânica, inserem bactérias que ativam o processo de dar nova vida a essa matéria, e em sete dias têm a produção de fertilizante orgânico.</p>
<p>Esse processo, que chamamos de biorreator, envolve colocar toda essa matéria orgânica num cilindro grande como se fosse um silo, injetar as bactérias, e as bactérias trabalham dia e noite para produzir o fertilizante. O que estamos fazendo agora, e que reforçamos com a vinda da delegação chinesa à reunião do G20, é que queremos instalar unidades dessas fábricas aqui no Brasil para produzir os fertilizantes que a <strong>agroecologia</strong> adora. A terceira linha importante como desafio da agroecologia e do conhecimento científico são as máquinas agrícolas.</p>
<p>Você não vai conseguir produzir alimentos para todo mundo com enxadas, e ninguém mais quer trabalhar apenas com enxadas. Nenhum jovem camponês sonha em ganhar uma enxada no Dia de Natal; ele sonha em ganhar uma moto, um computador, algo moderno e nós também acreditamos nisso. Portanto, as máquinas são a única maneira de aumentar a produtividade do trabalho, pois com menos pessoas, você produz mais, e também aumenta a produtividade da área. Assim, em uma mesma área, você poderá produzir mais arroz, mais feijão, mais produtos variados, etc. De novo, no <strong>Brasil</strong>, temos cinco fábricas de máquinas agrícolas, todas multinacionais, como <em>Fiat</em>, <em>John Deere</em> e <em>New Holland</em>, etc. Todas elas só fazem apenas grandes máquinas para o <strong>agronegócio</strong>, porque o objetivo delas não é resolver os problemas dos agricultores, o objetivo deles é lucro.</p>
<p>Elas se concentram em fabricar máquinas grandes para alcançar uma escala e um lucro cada vez maiores. Então, vamos ser salvos novamente pelos chineses, porque na <strong>China</strong>, em vez de oito marcas, existem oito mil fábricas de máquinas agrícolas espalhadas por todo o território. Com a <strong>reforma agrária</strong> realizada entre 1949 e 1952, cada camponês possui apenas um hectare. Assim, a indústria de máquinas que eles implementaram nos últimos 30 anos, na reindustrialização do país, precisou desenvolver máquinas adequadas para apenas um hectare.</p>
<p>Isso resultou em uma grande variedade de máquinas. Nós queremos trazer essas máquinas para cá. Não será através de compras ou importações, mas sim realizando parcerias com nossas cooperativas e com os governos estaduais, estabelecendo fábricas de máquinas para os camponeses. Aqui no Brasil, já temos delineados pelo menos cinco locais onde vamos colocar essas fábricas.</p>
<p><strong>As relações com a China</strong></p>
<p>O processo de parceria com a <strong>China</strong>, que já vem de muito tempo, agora, com o governo Lula, acelerou as possibilidades. Mesmo durante o governo Bolsonaro, quando havia um boicote à <strong>China</strong>, começamos as conversações através do <strong>Consórcio Nordeste</strong>, já que todos os governadores da região eram progressistas. A parceria com o governo da <strong>China</strong> indicou, como contraponto, a Universidade da Agricultura da China, que é a maior universidade do mundo em agricultura e é responsável por pesquisas e protótipos de máquinas para a <strong>agricultura familiar</strong>.</p>
<p>A <strong>Universidade da Agricultura da China</strong> convocou fábricas para nos fornecer 33 tipos diferentes de máquinas para testarmos. Essas máquinas chegaram em fevereiro deste ano, e, como o <strong>Consórcio Nordeste</strong> apadrinhou essa primeira parceria, foi nossa obrigação testá-las inicialmente no Nordeste. As máquinas foram desembarcadas lá e usadas em algumas áreas. Depois, as levamos para o <strong>Ceará</strong> e o <strong>Maranhão</strong> para serem testadas. Nos próximos dias, antes do final do ano, a universidade fez novos incentivos às fábricas na <strong>China</strong>, e esperamos a chegada de mais 55 máquinas para testar.</p>
<p>Estamos estabelecendo uma parceria com a <strong>Universidade Nacional de Brasília</strong>, e essas máquinas serão enviadas para Brasília para testarmos as condições específicas do Cerrado e daquela região do Centro-Oeste. Estamos todos na expectativa para ver que tipo de máquina vai chegar para nós testarmos. Estamos instalando, nesta semana, um sistema de controle das máquinas por satélite. Então, lá dentro da universidade, vai ter um grande computador com painéis, e em cada máquina vai ter, como se fosse, um chip. Por meio deste chip, serão enviadas mensagens via satélite, que chegarão aos computadores lá da universidade, permitindo que possamos controlar o gasto de combustível, quantas horas a máquina trabalha, qual é o seu desempenho e quantos dias choveu na região onde ela está.</p>
<p><strong>Uma joint venture para máquinas agrícolas</strong></p>
<p>O modelo é montar uma nova empresa aqui no Brasil, uma <em>joint venture</em>, onde já dissemos para os chineses que eles poderiam entrar com até 49%. O 51% seria brasileiro, para que a empresa seja nacional. Assim, o 51% brasileiro será uma mescla entre uma cooperativa nossa e uma empresa brasileira que deseja ser sócia, entendeu? E vamos buscar financiamento no BNDES e fundos que possam se interessar. Há alguns dias nos reunimos com a diretoria da empresa <strong>Tupi</strong>, que é de propriedade da <strong>Previ</strong>, dos bancários. Eles são os maiores acionistas, portanto, a <strong>Tupi</strong> virou uma empresa social.</p>
<p>Ela é a maior produtora de motores aqui no <strong>Brasil</strong>. Os diretores da <strong>Tupi</strong> se interessaram bastante, pois poderiam entrar como sócios na fábrica e produzir os motores aqui, ao invés de importar motores da <strong>China</strong>, nós temos capacidade tecnológica de fazer os motores aqui. Outro exemplo é o projeto da fábrica de pequenos tratores em <strong>Maricá</strong>, onde a prefeitura também vai entrar como sócia, garantindo que os empregos sejam dos moradores de <strong>Maricá</strong>, o que gerará uma multiplicação de renda no município.</p>
<p>O formato é mais ou menos esse, e estamos exatamente nessa etapa de negociar com as empresas chinesas. 90% delas são estatais, e estamos avaliando quais delas se interessam. E, em dois anos, poderemos, então, estabelecer uma <em>joint venture</em> com eles para fabricar os equipamentos aqui no Brasil. Especificamente, estamos falando do biorreator, que é como uma grande panela de pressão onde você coloca os resíduos orgânicos e as bactérias para funcionar.</p>
<p><strong>As famílias assentadas</strong></p>
<p>Infelizmente, a <strong>reforma agrária</strong> está parada. Nos 40 anos de luta, conquistamos terra para 450 mil famílias, o que representa em torno de 8 a 9 milhões de hectares, dando uma média de 20 hectares por família. É importante ressaltar que, nessas áreas, na totalidade de 8 milhões de hectares, existem os 30% de reserva legal, o que significa que nem tudo pode ser cultivado. Na sociedade brasileira, ainda há cerca de 3 milhões de famílias sem-terra, que trabalham como assalariados rurais, como meeiros e arrendatários, e que desejariam ter seu próprio espaço. O que falta é a capacidade do <strong>MST</strong>, dos sindicatos e da Cpt de ajudar a organizar esses 3 milhões de pessoas para que ocupem a terra. Se não ocuparem, nenhum governo do mundo se mexe.</p>
<p>No período de <strong>Jair Bolsonaro</strong>, que ficou para trás, e nos últimos seis anos, incluindo o período de Michel Temer, acumulamos um passivo de famílias que estavam acampadas, e os governos não resolveram essa situação. Esta semana, o <strong>INCRA</strong> finalizou o cadastro de todos os acampamentos, e atualmente há cerca de <strong>90 mil famílias acampadas no Brasil</strong>. Uma parte delas está vinculada ao <strong>MST</strong>, mas também há muitas famílias ligadas a outros movimentos menores, à <strong>CONTAG</strong> e aos sindicatos de trabalhadores rurais.</p>
<p>No <strong>Mato Grosso do Sul</strong>, inclusive, existe um movimento ligado à <strong>CUT Rural</strong>, que se autodenomina assim, e está acampado na região. Então, temos um passivo, e essa é a nossa luta com o <strong>Ministério do Desenvolvimento Agrário</strong> agora. Não se pode falar de reforma agrária sem resolver a situação dessas famílias que, somando 2 anos de <strong>Temer</strong> e 4 anos de <strong>Bolsonaro</strong>, totalizam 6 anos, e agora já se vão mais 2 de <strong>Lula</strong>. Isso significa 8 anos acampados esperando.</p>
<p>A maioria dessas famílias está lutando para sobreviver. Algumas conseguem plantar na área ocupada, ainda que de forma ilegal. Outras estão acampadas à beira da estrada, onde conseguem arranjar trabalhos aqui e acolá. Além disso, alguns assentados cedem áreas para que eles trabalhem, mas essa é uma situação completamente insustentável. Não adianta qualquer ação se não resolver os problemas dos acampados, e já dissemos isso ao <strong>Lula</strong>. Como diria o saudoso <strong>José Gomes da Silva</strong>, o maior especialista em <strong>reforma agrária</strong>, que completaria 100 anos este ano, e deu uma entrevista histórica para a revista Teoria e Debate, aqueles que tiverem curiosidade, leiam na Teoria e Debate.</p>
<p>Ele era um homem fantástico, um agrônomo de primeira, tinha uma área aqui em <strong>Pirassununga</strong> que acho que era de 700 hectares, cultivada de maneira exemplar, e era um defensor da <strong>reforma agrária</strong> como forma de superação da pobreza. Ele tinha uma expressão sobre a reforma agrária que é genial, quase como uma veia no estilo de <strong>Carlito Maia</strong>. Ele dizia o seguinte: a reforma agrária é igual à feijoada. Você pode ter toucinho, orelha de porco, o que quiser colocar na panela. Mas, se não tiver feijão, nunca será feijoada.</p>
<p>Na reforma agrária é a mesma coisa; você pode ter um monte de medidas complementares, mas se não tiver terra, não será <strong>reforma agrária</strong>. Então, essa é a lição: leia a entrevista do José Gomes da Silva que você vai aprender um pouco sobre o que é reforma agrária. Sem desapropriação e sem resolver o problema dos acampados, não se pode falar a respeito da reforma agrária.</p>
<p><strong>Os golpistas</strong></p>
<p>Dessas mentes insanas dos golpistas eu não duvido de nada. Lembremos que ele foi expulso do exército em função do seu comportamento insano. Tenho a biografia auto-entrevistada, pasmem, do general Ernesto Geisel, que foi dada a um historiador da Fundação Getúlio Vargas com uma condição: só publique o livro depois que eu morrer. Assim como tenho a autobiografia daquele outro general que se comportou muito mal durante o governo <strong>Lula</strong> e depois apoiou <strong>Jair Bolsonaro</strong>, que nem vou citar, mas ele está lá numa cadeira de rodas.</p>
<p>Quando o general <strong>Ernesto Geisel</strong> foi perguntado sobre sua opinião a respeito do deputado capitão <strong>Jair Bolsonaro</strong>, ele disse: “Eu não vou dar pitaco, porque essa pessoa é um desequilibrado mentalmente.” E foi por isso que ele foi expulso do nosso glorioso exército. São pessoas insanas que adotaram como ideologia, cujo responsável é Olavo de Carvalho, o fascismo. O fascismo ao qual me refiro não é um movimento de massas como ocorreu no Japão e na Europa. Aqui, o fascismo se manifesta na ideologia. O fascismo, como ideologia, prega o ódio e a violência na prática política para se chegar ao poder. Assim, esses senhores, do ponto de vista ideológico, são fascistas. Por quê? Porque adotam o ódio e a violência para obter e exercer o poder.</p>
<p>A violência pode ser tentar destruir o seu inimigo. Nós, o povo de esquerda, moralmente, fomos alvo do que eles fizeram com a prisão de Lula. Sérgio Moro e a turma da Lava Jato são <strong>fascistas</strong>, porque usaram a violência para destruir um inimigo. A violência moral. Ah, ele é ladrão, então tem que ir preso. Mas nem era ladrão, nem devia ser preso. Essa é a natureza da violência, que não se limita a atirar. A violência também é desmoralizar publicamente, como fazem com as fake news e as redes sociais. Esse setor tem apoio de outros setores fascistas do mundo.</p>
<p>Refiro-me ao governo de Israel, que sempre apoiou com seus instrumentos. Agora, isso está comprovado, inclusive com a venda de equipamentos para a <strong>ABIN</strong>, daquele programa <strong>Pegasus</strong>, e cedendo computadores. Na primeira eleição, os computadores estavam em <strong>Taiwan</strong>. Na última eleição, circularam informações de que os computadores que apoiaram <strong>Jair Bolsonaro</strong> estavam em vários países, entre eles a <strong>Moldávia</strong>, porque a <strong>Moldávia</strong> não está no <strong>Tribunal Penal Internacional</strong>.</p>
<p>Assim, escolheram um país que estaria à revelia do sistema judicial mundial. Portanto, está comprovado que os computadores que ajudaram a criar as fake news e que dispararam 80 milhões de mentiras durante a campanha estavam instalados na <strong>Moldávia</strong>, que, nem sabemos exatamente onde fica, precisamos procurar no mapa para descobrir que parte do mundo é essa. Com uma <strong>ideologia fascista</strong> que prega o ódio, ou seja, a tensão social permanente, e promove a tensão política como método, pode-se esperar de tudo. Quem está disposto a matar o presidente da república, qualquer um abaixo dele pode ser alvo.</p>
<p>Mas, como eles não adotam a <strong>luta de classes</strong> nem a correlação de forças como método, é evidente que eles não se consideravam, e nem se consideram, como sujeitos a reações e reações de massa. Nós, do <strong>MST</strong>, se houvesse um golpe, iríamos reagir. E, certamente, outros setores da esquerda, do <strong>PT</strong>, do movimento popular e do movimento sindical também reagiram. Ou seja, nós não somos sapos para morrer quietos debaixo da pata do boi, como dizíamos em <strong>Lagoa Vermelha</strong>, minha terra no Rio Grande do Sul.</p>
<p><strong>As redes sociais</strong></p>
<p>A atuação do <strong>MST</strong> e a causa da <strong>reforma agrária</strong> nas redes sociais são geridas pelo nosso setor de comunicação social. Foram eles que receberam o convite para ir ao <strong><em>Flow</em></strong>. Eu nem sabia que existia, porque sou meio alienado nessas coisas, mas eles insistiram: “<strong>João Pedro</strong>, vá lá, o rapaz não é fascista e se compromete a se comportar republicanamente.” Assim, como decidiu o nosso setor, eu disciplinadamente me submeti e fui lá, claro, acompanhado pelos nossos jornalistas. Tive uma grande surpresa, pois as perguntas foram todas muito sensatas, fui tratado muito bem e, depois, ainda estava aquele clima pré-eleitoral.</p>
<p>Soube que, no total, já chegaram a 5,7 milhões de visualizações. Fiquei até muito grato, porque nenhum outro espaço, exceto no <strong>Jornal Nacional</strong>, poderia proporcionar tanto alcance. Talvez, quando fui à <strong>CPI</strong>, a TV Câmara também tenha acompanhado o tempo todo, e parece que isso também resultou em muitas visualizações.</p>
<p>Agora, de maneira geral, é assim que me comporto: eu não tenho uma política pessoal, a política é do <strong>MST</strong>, mas me somo às teses de que a esquerda precisa difundir suas ideias naquilo que, tradicionalmente, chamávamos de agitação e propaganda. Agitação e propaganda envolvem duas vontades políticas: agitar é denunciar o capitalismo, expor as mazelas e os problemas que o povo enfrenta. Já a propaganda é anunciar qual é a solução para esses problemas, ou seja, defender nosso programa, que no caso do <strong>MST</strong> é defender a reforma agrária popular, entre outras mudanças. Agora, como é que você faz agitação e propaganda?</p>
<p>A nossa teoria e prática é que não podemos nos limitar a um único veículo; devemos atuar em todas as frentes possíveis. Porém, a primeira delas, que consideramos a forma mais eficaz, é que a melhor maneira de fazer agitação e propaganda é através dos meios culturais, porque é preciso chegar ao coração das pessoas. Não se ganha as pessoas pela lógica racional de um argumento; conquista-se as pessoas pelo coração, pelo sentimento. E como você chega ao sentimento das pessoas? Você chega pela poesia, pela música, pelo teatro, por uma palavra de ordem, algo em que <strong>Carlito Maia</strong> era especialista.</p>
<p><strong>A realidade das esquerdas</strong></p>
<p>Nas últimas três décadas, estamos vivendo tempos de crise mundial. Há uma crise do capitalismo, que por sorte gera muitas contradições, entre elas a decadência do império estadunidense, a decadência do dólar e a emergência dos BRICS, que é muito importante. Assim, há uma crise do capitalismo e suas consequências. Há também uma crise das esquerdas em geral, porque no fundo, os movimentos de esquerda são originários do período do capitalismo industrial, que tinha a fábrica, o sindicato e o partido operário. Esse mundo do capitalismo industrial ruiu.</p>
<p>Agora, emergiu, e é hegemônico, o capital financeiro, rentista, as grandes multinacionais e o agronegócio. Isso exige uma <strong>renovação das esquerdas</strong>, pois há uma nova base social que precisa ser construída e que exige novos métodos. Entre esses novos métodos, defendemos sempre a criação de novas articulações internacionais. As articulações que existiam no período anterior, onde partidos só falam com partidos e sindicatos só falam com sindicatos, estão superadas. Precisamos criar grandes articulações internacionais da classe trabalhadora sob a égide de uma unidade, o anti-imperialismo.</p>
<p>O imperialismo está levando a um risco de verdade, inclusive o risco de uma guerra atômica. O imperialismo está provocando genocídio em Gaza, genocídio na Síria, genocídio no Sudão, e não podemos ficar calados. Então nossa unidade mundial deve ser a derrota do império estadunidense. Refiro-me a isso porque nós, do <strong>MST</strong> e da <strong>Via Campesina</strong>, fomos contundentes na defesa do governo Maduro e da Venezuela. Por quê? Porque quem é hoje <strong>anti-imperialista</strong> na América Latina? Poucos governos e poucos países, entre eles, claro, <strong>Cuba</strong>, que é anti-imperialista há 60 anos, e a <strong>Venezuela</strong>. Portanto, todos que forem anti-imperialistas, devemos nos somar a eles. Queremos novos espaços de articulação internacional sob a bandeira do anti-imperialismo estadunidense.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Medo do crescimento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Oct 2024 20:02:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[O Brasil sempre se caracterizou por uma sociedade profundamente desigual, marcada por uma grande concentração de renda e de propriedade, salários muito baixos, educação deficiente, ausência de saneamento básico e condições de indignidade para uma parte significativa da população, ao mesmo tempo percebemos um país que se destaca por uma grande riqueza natural, clima favorável [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O Brasil sempre se caracterizou por uma sociedade profundamente desigual, marcada por uma grande concentração de renda e de propriedade, salários muito baixos, educação deficiente, ausência de saneamento básico e condições de indignidade para uma parte significativa da população, ao mesmo tempo percebemos um país que se destaca por uma grande riqueza natural, clima favorável e com condições naturais positivas.</p>
<p>Ao analisar as condições naturais e geográficas do cenário global, o Brasil deve ser visto como uma das nações mais ricas de recursos naturais do cenário internacional, sempre fomos vistos como um fornecedor global de alimentos e de minérios que auxiliaram no desenvolvimento de outras nações. Desta forma, o Brasil sempre foi inserido no ambiente produtivo internacional, desde o descobrimento estamos inseridos no cenário mundial como uma nação produtora e exportadora de produtos primários de baixo valor agregado e como importadores de produtos manufaturados, cuja relação de troca, no comércio global, sempre foi desfavorável para o Brasil.</p>
<p>No século XX, a sociedade brasileira ganhou relevância no cenário internacional, fomos uma das economias que mais cresceram no século anterior, modificando toda a estrutura produtiva, angariando espaços interessantes no cenário internacional, passando de uma economia de industrialização intermediária e nos tornando uma das dez maiores economias do mundo, levando nações asiáticas a buscarem compreender os passos seguidos pelo Brasil, visto que nos anos 1970 o Brasil se transformou num exemplo claro de expansão e transformação econômica e produtiva.</p>
<p>Depois dos anos 1980 perdemos o dinamismo econômico e produtivo, a indústria nacional perdeu espaço e passamos a perder posições relevantes no comércio internacional. Com o início da abertura econômica dos anos 1990, as privatizações e a redução do papel do Estado na economia eram vistas como novos horizontes de modernidade. Conseguimos estabilizar a economia nacional mas, infelizmente se perderam na política cambial e elevamos demais as taxas de juros, criando uma categoria muito forte, dotada de grande poder econômico e político, os chamados rentistas e financistas, que passaram a controlar os sistemas econômico e financeiro, manipulando as taxas de juros e controlando os lucros, os dividendos e seus retornos imediatos, garantindo suas isenções fiscais e tributárias, que garantem seus ganhos elevados em detrimento de uma classe média empobrecida, desesperançada e marcadas por rancores e ressentimentos.</p>
<p>Depois de décadas de baixo crescimento econômico e produtivo, aumento do desemprego, redução dos salários reais, a fragilização da indústria nacional, além da venda de empresas nacionais ou o repasse dos ativos mais interessantes do Estado para seus apaniguados, percebemos alguns lampejos de recuperação econômica, recuperação dos salários, inflação controlada, superávits comerciais, Bolsas em ascensão e perspectivas de melhorias econômicas. Neste cenário, percebemos ecos de elevação das taxas de juros que impactam imediatamente sob o sistema econômico e postergam a melhora dos indicadores positivos da economia nacional, reduzindo a criação de empregos e limitando o incremento da renda dos trabalhadores e, ao mesmo tempo garantindo mais ganhos financeiros para poucos grupos, perpetuando uma desigualdade em ascensão e nos deixando claro quem são os verdadeiros donos do poder na sociedade brasileira.</p>
<p>Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.</p>
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		<title>A crise climática, segundo Thomas Piketty</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Dec 2023 00:57:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[Fiona Harvey – A Terra é Redonda &#8211; 04/12/2023 A desigualdade em matéria de carbono é atualmente um dos problemas mais prementes do mundo As questões de classe social e econômica devem estar no centro de nossa resposta à crise climática, para enfrentar as enormes desigualdades entre a pegada de carbono dos ricos e dos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Fiona Harvey – A Terra é Redonda &#8211; 04/12/2023</p>
<p>A desigualdade em matéria de carbono é atualmente um dos problemas mais prementes do mundo</p>
<p>As questões de classe social e econômica devem estar no centro de nossa resposta à crise climática, para enfrentar as enormes desigualdades entre a pegada de carbono dos ricos e dos pobres e evitar um retrocesso contra as políticas climáticas, afirmou o economista Thomas Piketty.</p>
<p>Serão necessárias regulamentações para proibir bens e serviços que tenham emissões de gases de efeito de estufa desnecessariamente elevadas, como jatos privados, veículos de grandes dimensões e voos de curta distância, disse ele numa entrevista ao jornal The Guardian.</p>
<p>Os países ricos também devem criar impostos progressivos sobre o carbono que levam em consideração a renda das pessoas e sua capacidade de reduzir as emissões, uma vez que as políticas atuais não se adaptam às necessidades reais das pessoas.</p>
<p>“Temos que colocar a classe e os estudos sobre a desigualdade entre as classes sociais no centro de nossas análises sobre os desafios ambientais em geral”, afirmou Thomas Piketty. “Se não o fizermos, não conseguiremos obter uma maioria [de pessoas a favor de uma ação forte] e não seremos capazes de realizar isso”.</p>
<p>O proeminente economista francês é o autor da obra seminal O capital no século XXI e um dos principais pensadores mundiais sobre a desigualdade. Seu trabalho foi muito influente após a crise financeira de 2008 e ele está cada vez mais atento à crise climática como codiretor do World Inequality Lab.</p>
<p>Até o momento, embora os ambientalistas tenham apontado o dedo para os países desenvolvidos, contrastando suas elevadas emissões com a difícil situação do mundo em desenvolvimento, qualquer forma de análise de classe – abordando as preocupações das pessoas pobres nos países ricos – tem estado em grande parte ausente, segundo Thomas Piketty. “Um dos grandes fracassos do movimento ambientalista tem sido sua tendência em ignorar a dimensão de classe e a desigualdade social. Acho isso muito surpreendente”.</p>
<p>Ele disse que a questão da desigualdade em matéria de carbono é atualmente um dos problemas mais prementes do mundo. A profunda desigualdade em matéria de carbono “é agora maior do que já foi alguma vez desde o século XIX”, afirmou. Este é um fator importante para os ataques que estão sendo feitos à política climática por alguns setores.</p>
<p>As políticas energéticas mal orientadas em todo o mundo sobrecarregam as pessoas pobres, para quem a energia, a alimentação e a habitação representam uma parte muito maior dos orçamentos familiares do que para os mais abastados. Segundo Thomas Piketty, este fato está provocando uma reação negativa.</p>
<p>Se as políticas climáticas forem vistas como injustas, afetando as pessoas de baixa renda enquanto as que têm estilos de vida luxuosos continuam intocadas, movimentos de protesto surgirão, como os “gilets jaunes” que paralisaram a França há cinco anos, disse. “Todas as pessoas compreendem agora que todos terão que fazer algum esforço [para reduzir as emissões], não serão apenas os ricos. Mas este esforço tem que ser distribuído de uma forma que possa ser aceito pela população. Se não abordarmos esta questão, vamos ter um movimento gigantesco de coletes amarelos em todos os lugares. E é um pouco isso o que temos”.</p>
<p>Para além da regulamentação destinada a limitar as emissões mais desnecessárias, Thomas Piketty sugere um “imposto progressivo sobre o carbono”, através do qual todos teriam uma permissão de livre emissões cobrindo as necessidades normais, mas as atividades que ultrapassassem esse limite – como voos frequentes de férias, casas grandes ou veículos grandes – seriam tributadas com aumentos maiores, de modo que as atividades mais poluentes fossem sujeitas a “uma enorme tributação”.</p>
<p>Ele acredita que esta abordagem seria popular. Atualmente, muitas pessoas menos abastadas estão preocupadas com o fato de serem elas que suportarão o peso das medidas de redução das emissões. “Muitas pessoas, e os grupos socioeconômicos mais desfavorecidos, sentem que é tudo contra eles e que eles vão pagar por todos, especialmente as pessoas das zonas rurais. Essa é uma grande parte da dificuldade política que temos atualmente”, afirmou. “Temos que tentar fazer tudo o que pudermos para convencer esses grupos de que as pessoas no topo estão pagando sua parte justa. Temos que começar no topo, [com] as pessoas que andam de jato privado”.</p>
<p>A crise climática é frequentemente vista como uma oposição entre os países desenvolvidos, o chamado norte global, e os países em desenvolvimento, no sul global. Mas as pessoas pobres dos países ricos correm o risco de serem seduzidas por políticos nacionalistas ou populistas que se opõem à ação climática.</p>
<p>Thomas Piketty argumenta que essas pessoas precisam ter certeza de que seus interesses também estão sendo considerados. “Se quisermos escapar deste tipo de sentimento nacionalista, de país contra país, temos que desenvolver uma nova forma de solidariedade de classe que vá além do Estado-nação”, afirma. “Temos que convencer a classe média e os grupos com rendas mais baixas do Norte [global] de que, ao obrigar os grupos mais ricos a contribuir muito mais e a reduzir seu estilo de vida, estaremos ajudando a resolver o problema do Sul [global], mas isso pode ao mesmo tempo resolver alguns problemas do Norte”.</p>
<p>Sem essas reformas, disse Thomas Piketty, “teremos uma grande catástrofe climática”, uma vez que as políticas atuais não estão funcionando.</p>
<p>Fiona Harvey é jornalista.</p>
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		<title>Estado de Direito nos protege dos devaneios de capitães e tecnocratas, por Marcos Lisboa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Sep 2021 01:38:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[A maioria celebra os feitos dos grandes, mas por vezes se esquece do potencial destrutivo dos incompetentes que exercem o poder Marcos Lisboa Presidente do Insper, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005) e doutor em economia. Folha de São Paulo – 12/09/2021 Um paranoico comandante norte-americano, acreditando que os russos estariam envenenando [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A maioria celebra os feitos dos grandes, mas por vezes se esquece do potencial destrutivo dos incompetentes que exercem o poder</p>
<p>Marcos Lisboa Presidente do Insper, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005) e doutor em economia.</p>
<p>Folha de São Paulo – 12/09/2021</p>
<p>Um paranoico comandante norte-americano, acreditando que os russos estariam envenenando a água nos EUA, decide despachar aviões com bombas nucleares para serem descarregadas na União Soviética.</p>
<p>“Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, é uma comédia sobre os apocalípticos anos 1960. Em tempos de Guerra Fria. não faltavam militares ensandecidos para provocar o temor.</p>
<p>Muitos temiam que o clima beligerante, agravado por comandantes desvairados, pudesse resultar em um conflito que saísse do controle. A documentação do período, incluindo gravações de conversas de presidentes dos EUA, mostra quanto se mentiu para a sociedade naqueles anos.</p>
<p>O confronto bateu na trave na crise dos mísseis soviéticos em Cuba. Durante dias, autoridades americanas procuraram decifrar os movimentos do oponente, em meio a relatos de ataques inexistentes.</p>
<p>No auge do conflito, o líder soviético, Khruschov, enviou dois telegramas para o presidente dos EUA, Kennedy, com mensagens contraditórias. O governo americano jogou com a sorte para interpretá-las, decidiu na contramão da linha-dura e o descontrole foi evitado.</p>
<p>Em “Dr. Fantástico”, Kubrick nos alerta sobre os riscos do poder desmedido. No filme, o comandante ignora que os soviéticos haviam pouco antes concluído um dispositivo que responderia com armas nucleares contra os EUA se a União Soviética fosse atacada. Uma vez acionada, a reação não poderia ser interrompida.</p>
<p>O objetivo seria evitar a guerra nuclear uma vez que a existência do dispositivo fosse anunciada. Por que os americanos iniciariam um conflito se o resultado, independentemente da vontade de quem quer que fosse, seria a destruição de todos?</p>
<p>Não deu tempo. O comandante delirante iniciara o gatilho da guerra uma semana antes de os soviéticos anunciarem o dispositivo que dissuadiria os confrontos nucleares.</p>
<p>A maioria celebra os feitos dos grandes, mas por vezes se esquece do potencial destrutivo dos incompetentes que exercem o poder na ausência dos contrapesos do Estado de Direito.</p>
<p>O presidente do Brasil insiste no confronto com os demais Poderes. O problema já foi o ex-presidente da Câmara, agora é o Supremo. Desde o começo, a imprensa é inimiga.</p>
<p>Há quem afirme estar decepcionado com o governo. Não deveriam. O chefe do Executivo sempre disse, com seu linguajar usual, a que vinha. Alguns acreditaram na promessa de terceirização da gestão da política econômica. A inconsistência das propostas não parecia incomodar empresários experientes. Pois bem, as consequências vêm depois.</p>
<p>Trata-se de um presidente que vocifera, desde que esteja no comando. Sua preocupação principal parece ser distribuir privilégios às corporações que o apoiam, como aumentar a remuneração dos militares, ou defender medidas pouco relevantes, como alterar a legislação sobre pontos na carteira de motorista.</p>
<p>Por vezes, defende propostas descabidas, revelando o despreparo do seu governo. No começo do seu mandato, por exemplo, disse que iria apresentar uma medida que supostamente geraria mais recursos do que a reforma da Previdência.</p>
<p>O país enfrenta crises anunciadas, como a inflação e o preço da energia, que o presidente trata como um torcedor de futebol. Aparentemente, ele ignora o papel do seu governo nos aspectos sutis da gestão pública, que requer governança organizada, avaliação de impacto e cuidado com a implementação das políticas.</p>
<p>Ser o chefe do Executivo não se resume a fazer bravatas no cercadinho. Construir uma agenda para o país não implica ser conivente com as emendas parlamentares.</p>
<p>O presidente ataca o Supremo Tribunal Federal que o teria impedido de agir durante a pandemia. Caso pudesse decidir, ele afirmou ao STF em petição conjunta com o então advogado-geral da União, André Mendonça, que sua opção seria por não adotar qualquer medida de distanciamento social.</p>
<p>Ficamos assim: o presidente nada pôde fazer porque o Supremo restringiu suas ações. Mas, se ele pudesse agir, sua decisão seria por nada fazer.</p>
<p>Durante a pandemia, o chefe do Executivo limitou-se a propor que fossem utilizados medicamentos sem eficácia comprovada, enquanto defendia que motociclistas não pagassem pedágio nas estradas e denunciava supostos culpados pelo alto preço dos combustíveis.</p>
<p>O presidente parece desconhecer a sua responsabilidade pela gestão da política econômica e pela crise institucional que resultaram no câmbio desvalorizado, contribuindo para o aumento da inflação e do custo do diesel.</p>
<p>A cada derrota, o presidente bradou sua vitimização, denunciou inimigos e convocou ao confronto. Houve quem se arvorasse o direito de ameaçar prédios públicos e de planejar golpes.</p>
<p>Felizmente, ele compensou o despautério com uma coragem de calças-curtas diante da reação em defesa da democracia. “Minhas palavras, por vezes contundentes, decorreram do calor do momento”, escreveu o presidente da República em um dia em que caminhoneiros bloquearam estradas e ficaram a ver navios.</p>
<p>Kubrick conhecia a arte de fazer filmes. Peter Sellers surpreende nos três papéis que exerce em “Dr. Fantástico”, incluindo o de um cientista emigrado para os EUA que, por vezes, não consegue evitar que seu braço se erga em saudação nazista.</p>
<p>Capitães e tecnocratas prometem fantasias, mas revelam, descontroladamente, os seus instintos. O Estado de Direito nos protege dos seus devaneios.</p>
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		<title>‘Está surgindo uma arte populista de governança’, diz cientista político</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ary Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Aug 2020 20:33:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[Líderes autoritários que se preocupam com gestão podem usar pandemia para ter mais poderes, analisa alemão Jan-Werner Müeller Entrevista com Jan-Werner Müeller, cientista político Guilherme Evelin, O Estado de S.Paulo &#8211; 15/08/2020. Líderes populistas “inteligentes” e preocupados com a gestão de seus governos, e não só com “guerras culturais” podem aproveitar a pandemia do novo coronavírus para [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Líderes autoritários que se preocupam com gestão podem usar pandemia para ter mais poderes, analisa alemão Jan-Werner Müeller</p>
<p>Entrevista com Jan-Werner Müeller, cientista político</p>
<p>Guilherme Evelin, O Estado de S.Paulo &#8211; 15/08/2020.</p>
<p>Líderes populistas “inteligentes” e preocupados com a gestão de seus governos, e não só com “guerras culturais” podem aproveitar a pandemia do novo coronavírus para concentrar poderes e reforçar seu autoritarismo, à maneira do que está fazendo Viktor Órban na Hungria. O alerta é do cientista político alemão Jan-Werner Müeller, uma das principais referências mundiais no debate sobre a ascensão de líderes considerados populistas e que chegaram ao poder surfando ondas de revolta contra o sistema político, como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro no Brasil.</p>
<p>Depois de escrever <em>O que é populismo?</em>, lançado no mesmo ano da eleição de Trump, Müeller, professor da Universidade Princeton, está fazendo pesquisa para um novo livro. Nele, vai discutir propostas para revigorar os partidos políticos e a imprensa – dois pilares cruciais, segundo Müeller, das democracias liberais, mas ambos em crise. Em entrevista, por e-mail, ao <strong>Estadão</strong>, ele discutiu possíveis efeitos da pandemia para líderes populistas.</p>
<p>Acho que isso dependerá de muitas variáveis e os contextos nacionais ainda são muito importantes. Líderes populistas inteligentes, com conhecimento de governo e de administração – como Viktor Orbán, na Hungria – estão aproveitando a situação para consolidar seu poder. Mas populistas interessados principalmente na guerra cultural e profundamente desinteressados das questões de governo e da administração – como Trump e Bolsonaro – não estão indo bem.</p>
<ul>
<li><strong>A resposta à pandemia ditará quais líderes populistas permanecerão no governo e quais vão concentrar mais poder? </strong></li>
</ul>
<p>Os populistas experientes usaram o momento para aumentar seus poderes – não há dúvida sobre isso. Mas não há garantia de que, apesar de toda a repressão, eles vão se manter. Estamos apenas começando a ver o início das consequências econômicas da pandemia. E os cidadãos podem ficar muito insatisfeitos com líderes que dizem que lutam por “pessoas comuns”, mas operam, na realidade, como cleptocratas e apenas reforçam ainda mais as políticas neoliberais.</p>
<ul>
<li><strong>A menos de três meses da eleição presidencial nos Estados Unidos, Joe Biden, do Partido Democrata, é hoje o favorito. Por que a guerra cultural promovida pela direita americana até agora não produz os mesmos resultados de outras campanhas eleitorais? </strong></li>
</ul>
<p>É um momento muito perigoso e, ao mesmo tempo, de muita esperança nos EUA. É perigoso porque, num sistema bipartidário, um dos partidos passou a se opor a princípios democráticos básicos. Trump não é a causa, mas um sintoma da crise do Partido Republicano, que virou uma agremiação dedicada ao populismo plutocrático. Ao mesmo tempo, é um momento esperançoso porque a mensagem de movimentos como o “Black Lives Matter” passou a ecoar. Os observadores têm razão em dizer que Biden dificilmente é uma figura progressista inspiradora. Mas Lyndon Johnson ou, até certo ponto, Franklin Delano Roosevolt também não eram. O que importa é que eles promoveram mudanças porque os movimentos sociais continuaram a pressioná-los.</p>
<ul>
<li><strong>Qual pode ser o impacto político de uma eventual derrota de Trump para outros movimentos populistas de direita no mundo?</strong></li>
</ul>
<p>É ingênuo pensar que uma derrota de Trump necessariamente prejudicará outros autoritários populistas. Repito que os contextos nacionais são importantes. Uma coisa, porém, provavelmente mudará: os EUA deixarão de sinalizar aos ditadores que a democracia não importa.</p>
<ul>
<li><strong>No Brasil, Bolsonaro também tem resultados ruins no enfrentamento à pandemia, mas mostrou resiliência política. Quão importante é a guerra cultural como ferramenta de luta política? </strong></li>
</ul>
<p>Os populistas dizem que eles, e somente eles, representam o “verdadeiro povo”. Para eles, no entanto, o “povo” não é formado por todos. Minorias consideradas indesejadas ou pessoas com ideias de esquerda são excluídas. O modelo político dos populistas é dividir as pessoas e marcar uma fronteira entre quem realmente pertence ao “povo” e quem não. A guerra cultural é realmente muito importante para eles, mas, por si só, não vence eleições.</p>
<ul>
<li><strong>A pandemia do coronavírus ocorre em um ambiente em que a desinformação é promovida com fins políticos e a imprensa está sendo atacada por líderes autoritários. Que efeito a pandemia terá para o jornalismo profissional? </strong></li>
</ul>
<p>Em tese, a pandemia deve levar os cidadãos a perceber o quão importante são as notícias precisas (não apenas os fatos, mas também as interpretações de especialistas). O jornalismo que reporta as notícias locais é especialmente importante e sofreu tremendamente porque Google e Facebook acabaram com seu modelo de negócios baseado na publicidade. Essa percepção abstrata, porém, não é, obviamente, suficiente; é preciso haver uma pressão política por novas regulamentações – como tributar o Google e o Facebook para que noticiários locais sejam subsidiados de forma adequada.</p>
<ul>
<li><strong>Bolsonaro não tem partido para apoiá-lo, mas seu governo está cheio de oficiais das Forças Armadas. Isso aumenta o risco de uma deriva autoritária no Brasil?</strong></li>
</ul>
<p>De maneira mais geral, diria que estamos vendo o surgimento de uma arte populista de governança – resultado do fato de que os líderes populistas também podem aprender uns com os outros. Na maioria das vezes, os militares têm sido marginais nesta nova arte (ou foram conscientemente subjugados, como no caso da Turquia). Os populistas têm preferido colonizar a administração do Estado e usar a economia para exercer poder, por meio de redes clientelistas.</p>
<ul>
<li><strong>A oposição a Bolsonaro permanece fragmentada. Isso joga a favor de líderes autoritários?</strong></li>
</ul>
<p>Em geral, uma oposição deve ser unida – essa continua sendo uma das lições importantes das transições para a democracia nas décadas de 1970 e 1980. Mas há também uma armadilha: uma situação de “todos contra um, um contra todos” pode parecer confirmar a retórica dos populistas de que o establishment está fechando fileiras contra os recém-chegados, a fim de preservar seus privilégios corruptos. Portanto, uma oposição inteligente se unirá quando se trata de defender o básico da democracia, mas saberá manter diferenças políticas normais e não se envergonhará de apontar contrastes entre si.</p>
<ul>
<li><strong>Quais serão os principais aspectos a serem observados no futuro para verificar a força das democracias liberais no mundo?</strong></li>
</ul>
<p>Acho que precisamos prestar mais atenção às instituições que, desde o século 19, foram consideradas cruciais para fazer funcionar a democracia representativa: partidos e imprensa livre. Precisamos ao mesmo tempo reinventar como essas instituições são financiadas e precisamos torná-las mais abertas, e não menos abertas, aos cidadãos. Não sou tão pessimista quanto alguns observadores que pensam que as redes sociais ou os partidos políticos baseados em plataformas da internet significam o fim da democracia. Acredito que precisamos pensar em novas regulamentações para os partidos e para a imprensa que estejam alinhadas com os padrões democráticos básicos.</p>
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