Como o coronavírus mudou o rumo da democracia no mundo, por Adam Tooze.

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Em entrevista ao ‘Aliás’, o historiador Adam Tooze diz que a pandemia foi um divisor de águas na questão das relações EUA-China

Guilherme Evelin, O Estado de S.Paulo – 13/11/2021

O historiador britânico Adam Tooze ganhou notoriedade global com a publicação em 2018 do livro Crashed- how a decade of financial crises changed the world (sem lançamento no Brasil), sobre a crise financeira internacional de 2008. Tooze acaba de publicar uma história da crise planetária provocada pela pandemia do novo coronavírus. O resultado do seu trabalho saiu no livro De Portas Fechadas- Como a Covid abalou a Economia Mundial, recém-lançado no País pela editora Todavia.

Em março de 2020, Tooze estava voltando para Nova York, onde dá aulas na Universidade Columbia, de uma viagem à Africa. No aeroporto de Istambul, na Turquia, ele se deu conta de como o pânico crescente em relação à pandemia estava levando as sociedades – e não propriamente os governos – a simplesmente parar e fechar as portas. Resolveu abraçar então a empreitada intelectual de contar a história desse fato sem precedentes. Ao esmiuçar desde os impactos nos números de pousos e decolagens no aeroporto de Heathrow, em Londres, reduzido ao movimento dos anos 50, até as intervenções do banco central americano, o Fed, para evitar um colapso dos mercados financeiros, Tooze faz a narrativa de 2020 com a lente de quem se assume como um “liberal keynesiano” e vê a pandemia como mais uma crise da era neoliberal iniciada nos anos 80. A seguir, trechos da sua entrevista para o Estadão

Qual é a melhor síntese para a pandemia: ela foi um divisor de águas na política e na economia global ou apenas intensificou tendências já existentes?
Se você pega o papel dos bancos centrais em administrar os mercados globais de finanças, a crise representou uma intensificação de tendências já existentes. Houve uma exacerbação da escala das intervenções dos bancos centrais nos Estados Unidos e na Europa. Em 2020, eles foram forçados a dobrar suas apostas. Um divisor de águas ocorreu nas relações entre Estados Unidos, Europa e a China. As tensões estavam aumentando há um tempo, mas essas relações tomaram uma nova, abrangente e militarizada perspectiva geopolítica. Eu acrescentaria um terceiro ponto. A crise teve também um aspecto de revelação. Ela revelou para nós claramente, com grandes letras em neon, o mundo em que nós estamos vivendo. Vejo o elemento revelatório no reconhecimento de que o problema ambiental, que muitos de nós achavam que estava concentrado na questão climática, tem também outras facetas, que são até mesmo mais amplas em termos dos danos que elas podem causar. A questão climática, a maior parte do tempo, representa uma crise local ou macroregional: os incêndios florestais, as secas, as grandes tempestades. A pandemia mostrou como um problema da relação do homem com o meio ambiente pode afetar todos no planeta.

Qual é a conexão entre seu novo livro e “Crashed”, seu livro sobre a crise financeira internacional? É o fim da ortodoxia que predominou nas políticas econômicas a partir de 1980?
“De Portas Fechadas” é uma espécie de sequência inesperada de Crashed. Eu não esperava tê-lo escrito. O que os une é que nós estamos em meio a um processo de busca por novos caminhos para administrar os riscos financeiros, geopolíticos, ambientais e as instabilidades políticas. Esse processo começou na Europa e nos Estados Unidos em 2008, mas nos mercados emergentes começou antes, na década de 90. Sim, o nível de ortodoxia nas práticas dos governos agora é muito difícil. Mas o que nós estamos vendo é uma evolução antes do que uma ruptura na forma como os governos fazem as coisas: há uma constante inovação com novas técnicas, novos meios de intervenção, novas políticas de administração de mercados financeiros. A nível de estrutura social, porém, há uma grande continuidade.

Todas as dramáticas intervenções dos últimos anos foram profundamente conservadoras. A razão delas não foi um projeto de transformação da sociedade, mas a manutenção do status quo.

Os estímulos fiscais e monetários adotados pelos governos e pelos bancos centrais foram enormes em 2020. Os governos colocaram em prática uma série de políticas há muito tempo reivindicadas por políticos de esquerda, assim como o adágio de John Maynard Kenyes: “Qualquer coisa que possamos realmente fazer, podemos pagar”. No entanto, como o senhor demonstra no livro, isso não representou uma vitória da esquerda. Por quê?
Há uma espécie de paradoxo. A esquerda é capaz de gerar diagnósticos, que são poderosos, atraentes e, muitas vezes, são os melhores em oferta. Mas ela não é capaz de reunir uma coalizão política para sustentá-los. Um diagnóstico correto não leva à necessária transformação. É preciso uma síntese dialética entre análise e poder político concreto. Muitas das políticas do repertório da esquerda foram adotadas por tecnocratas que estão no poder e têm condições de colocá-las em prática porque se sentem livres para fazer isso precisamente porque a esquerda é tão fraca. Se a esquerda fosse de fato um agente radical de mudança social, isso seria amedrontador para as pessoas no poder. Uma razão para que os bancos centrais independentes adotem ideias da Teoria Monetária Moderna não é porque eles acreditem que essa é a coisa certa a fazer. Na verdade, eles não sentem medo de que o radicalismo deles abra a porta para o radicalismo de outros ou para uma massiva insurgência de forças agressivas contra o sistema. Os bancos centrais operam com grande liberdade tecnocrática.

Como estamos vendo nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden está tendo grandes dificuldades para conseguir apoio para seus planos de gastos trilionários com infraestrutura, programas sociais e ações de enfrentamento do aquecimento global. Isso não é a demonstração de que a ortodoxia econômica resiste?
Não acho que seja o neoliberalismo que esteja resistindo, mas o conservadorismo. O que nós estamos vendo nos Estados Unidos é o resultado do crescente fosso entre as forças que se reúnem em torno do Congresso e dos mecanismos eleitorais existentes em cada Estado e a opinião da maioria do eleitorado americano que vive nas cidades e tem se inclinado pelos candidatos presidenciais do Partido Democrata, de centro-esquerda. Esse drama representa mais a crise do sistema político americano do que uma história sobre o futuro do neoliberalismo. O ímpeto para gastar de pessoas como Chuck Schumer (líder do Partido Democrata no Senado) e Nancy Pelosi (presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos) tem menos a ver com uma epifania para agir como social-democratas do que um medo genuíno em relação à preservação da democracia americana, pela qual eles temem caso eles sejam derrotados nas eleições para o Congresso em 2022. O que nós estamos vendo não é uma luta sobre neoliberalismo, mas uma luta sobre a Constituição americana, que tem um grande viés contra uma ordem majoritária, e como ela deve funcionar.

Ao resenhar seu livro, Robert Rubin, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, se perguntou se a democracia americana iria sobreviver. Qual é a sua resposta para essa pergunta?
Isso depende do que você entende ao perguntar se a democracia americana irá sobreviver. Eu espero uma guerra civil? Não. Espero que os mecanismos da Constituição americana se tornem disfuncionais? Sim. Espero que o sistema político americano produza uma governança consistente pela maioria? Não. O Partido Republicano está comprometido em garantir que esse não seja o caso. Será uma democracia funcional no sentido de produzir decisões rapidamente em resposta aos grandes desafios? Não. Isso, na verdade, já está acontecendo. A democracia americana não tem funcionado bem há décadas. Sabemos que, em termos de comparação com outros países de renda alta, por vários indicadores, como concentração de riquezas, os EUA não têm funcionado bem.Eu concordo com o espírito da pergunta, mas não sei qual é a resposta. Diria que a democracia americana vai sobreviver de algumas maneiras. Os americanos não conhecem outra forma de governo. A ideia de que Trump poderia ter-se transformado numa espécie de ditador é absurda. Mas os EUA vão se tornar crescentemente uma democracia disfuncional? Eles já estão bem à frente nesse caminho.

Seu livro é uma advertência de que nós devemos nos preparar para uma onda de crises. O senhor está vendo algum progresso real na Conferência do Clima (COP-16) em Glasgow para evitar uma grande crise ambiental?
Não quero parecer desdenhoso em relação ao que foi feito na COP. Não é a abordagem mais construtiva. Mas vimos o grande e decisivo avanço que seria um acordo coletivo de todos os grandes consumidores de carvão para acabar com o consumo de carvão? Não. Vimos uma grande promessa em relação ao deflorestamento, mas onde estão os detalhes, os compromissos? Há promessa de zerar as emissões de carbono em 2050, mas em 2050 a maioria das pessoas envolvidas nesses acordos não estará viva. É o tipo de acordo ou promessa fácil de fazer, mas que tem muita pouca substância.

Quando se trata dos compromissos em relação a dinheiro, eles estão raspando o tacho para juntar 100 bilhões de dólares, quando deveríamos estar ganhando trilhões a cada ano. Não é como Trump e Bolsonaro fingindo que o problema não existe, mas não é um compromisso de ação que ataca a severidade da crise existente. É uma espécie de negacionismo “de facto”, sem se engajar no absurdo de negar que o problema existe. Isso reforça a percepção de que a COP não deve ser o fórum de decisões para esse tipo de acordo e que deve ser dada mais atenção às políticas nacionais dos grandes emissores: China, Europa e Estados Unidos. Não houve um fracasso total, como na COP de Copenhague, mas, ao final do jogo, a reunião de Glasgow serviu para traduzir as promessas do Acordo do Clima de 2015 em metas ao nível das nações, onde poderemos ver, talvez, ações reais.

Quais serão as implicações do novo cenário geopolítico com o aumento da competição entre EUA e China? Pode haver uma guerra no futuro?
Existem pessoas nos Estados Unidos e na China, cujo trabalho é planejar para a guerra. Se você os ouve, a guerra é uma possibilidade nítida. E eles claramente consideram que em Taiwan há um casus belli (expressão latina para designar um fato considerado suficientemente grave pelo Estado ofendido, para declarar guerra ao Estado supostamente ofensor.) É difícil acreditar que os Estados Unidos se movimentarão decisivamente para uma confrontação militar por causa de Taiwan. Mas é preciso levar em consideração que as pessoas no Pentágono, num ecossistema de poder complexo como o dos Estados Unidos, vivem em seus próprios mundos à parte. Houve uma virada notável entre o começo e o último ano do governo Trump e o começo do governo Biden: as pessoas que conduzem a política para a China não são mais as pessoas do Departamento do Tesouro ou do Departamento do Comércio ou do Fed (o banco central americano). É agora o pessoal do Conselho de Segurança Nacional e do Pentágono. A narrrativa agora em Washington é que as pessoas da área econômica lideraram as relações com a China, e elas fracassaram porque não entenderam a natureza do problema. Agora, chegou a vez de outra turma jogar. Por causa dessa mudança, não sei como essa bola poderá agora ser devolvida. Uma vez que a bola foi passada para o pessoal militar e da segurança nacional, eles agora têm que jogar o jogo até que ele chegue a uma espécie de conclusão. Talvez não seja a velha política de segurança nacional que leve a uma guerra com a China, porque soldados sabem quão sérias as guerras são.

Mas as relações com a China foram profundamente militarizadas. Elas estão sendo tratadas agora na dimensão da segurança nacional – e o governo Biden tem sido muito relutante em mudar essa abordagem. Os chineses viram que o governo Biden não iria mudar a linha de atuação para uma abordagem econômica mais convencional. E não é por acaso que tenham ocorrido tão poucas interações de alto nível entre Washington e Pequim desde o início do governo Biden.

Também não é um acidente que Xi Jinping não tenha comparecido à COP-26. Xi não quer estar na mesma conferência em que esteja Biden. A questão central para Xi, claramente, é a competição entre regimes. Os americanos anunciaram isso, e os chineses levaram esse anúncio a sério.

A pandemia atingiu severamente a América Latina e aumentou a percepção da crise da região. Como vê o impacto da pandemia no Brasil e na região?
O fato de que a América Latina, por causa dos altos níveis de informalidade, de desigualdade social e do populismo de alguns expoentes da política da região, foi mais duramente atingida pela pandemia não é surpreendente, porque o vírus, precisamente, ataca com mais força onde há fraquezas. Um segundo aspecto que eu quis enfatizar no livro foi a competência, a capacidade, a sofisticação dos Estados latino-americanos, com a exceção da Argentina e talvez do Equador, de lidar com o stress financeiro gerado pela pandemia. Depois que Fed injetou liquidez nos mercados, os principais hubs financeiros latino-americanos foram capazes de escapar de uma maciça tempestade financeira. Isso não é novo, mas, antes, não poderia ser considerado como uma coisa certa. Isso é o resultado de acúmulo de reservas financeiras , de capacidades, de competências, de networking, de capital cultural e social das elites financeiras latino-americanos dentro do sistema global. Isso implica também conformidade aos parâmetros ditados por Wall Street. Não são mais os rebeldes dos anos 60. Isso é altamente significativo. Não confere uma soberania radical, mas um grau de autonomia e uma habilidade para amortecer e evitar o pior, que seria uma crise sanitária, uma crise social e, ainda por cima, uma crise financeira. Um terceiro aspecto dessa crise é o grande ponto de interrogação que ela deixa em relação ao futuro da América Latina. É uma questão que tem sido colocada por intelectuais na América Latina há mais de um século, mas que ganhou ainda mais proeminência depois desse choque.

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