Concentração de renda

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A pandemia está desnudando inúmeras realidades em curso na sociedade brasileira. Com este momento de crise sanitária, somados as dificuldades econômicas e políticas, estamos percebendo algumas características que muitos indivíduos não querem acreditar. Precisamos refletir sobre nossas indignidades e nos prepararmos para os desafios contemporâneos, uma sociedade cada vez mais interconectada, marcada pelo crescimento da tecnologia e da automação, centrada na concorrência crescente, mais imediatista, mais caracterizada pelo pragmatismo e, na estrutura, uma sociedade mais desigual, centrada no racismo, nos preconceitos e na exclusão social.

Os dados recentes divulgados pelo Relatório de Riqueza Global do Banco Credit Suisse, mostram que 1% da população brasileira, algo em torno de 2 milhões de afortunados concentram mais de 49,6% da riqueza nacional. Estes números são vergonhosos e, mais ainda, quando analisamos os dados em retrospecto, percebemos que em 2010 os valores eram de 40,5%, quase dez pontos percentuais, um verdadeiro escândalo. Os dados apresentados pelo banco mostram que, na comparação entre dez países, apenas o topo da pirâmide da Rússia conseguiu concentrar mais riqueza do que a elite no Brasil.

Estas feridas foram desnudadas pela pandemia, deixando exposta a pobreza da sociedade brasileira, que sempre foi encoberta pelos grupos dominantes, que evitaram a construção de políticas efetivas para uma sociedade mais igualitária. Muitos grupos econômicos e políticos difundem conceitos de meritocracia e empreendedorismo como forma de acobertar as parcas possibilidades de ascensão social, criando expectativas positivas de melhorias de vida e progresso social e profissional.

Neste ambiente, percebemos que nos últimos quarenta anos a economia brasileira perdeu a capacidade de geração de riquezas para a grande parte da sociedade, perdemos dinamismo industrial e a capacidade produtiva inovadora e passamos a adorar os valores da especulação financeira, enriquecendo um pequeno grupo de sábios e financistas que vivem e, enriquecendo, gerindo fortunas em um ambiente marcados por taxas de juros escorchantes e taxas de câmbio valorizado, que garantem lucros extraordinários para um pequeno grupo sem preocupação com os rumos da sociedade brasileira. Vivemos numa sociedade marcada por tributação regressista, onde os que ganham mais pagam menos impostos, nossa estrutura tributária castiga o consumo e a produção e alivia a propriedade e isentam lucros e dividendos, um escárnio mundial, garantindo benefícios para os afortunados em detrimentos dos mais pobres e dos miseráveis, contribuindo para o quadro destacado pelo Banco Credit Suisse.

Neste momento, a FGV Social acaba de publicar o Atlas das Juventudes e de novos estudos, destacando a existência de 50 milhões de brasileiros entre 15 a 29 anos decepcionados, sem perspectivas de trabalho e insatisfeitos com a condução do país. Se pudessem, quase a metade (47%) dos jovens brasileiros deixariam o país. A pesquisa nos mostra, que se este quadro não for alterado, o cenário do mercado de trabalho para essa juventude configurará o desperdício do maior potencial histórico em termos de crescimento e produtividade brasileiros.

O mundo pós-pandemia vai exigir políticas mais efetivas dos Estados Nacionais, investimentos maciços em capital humano, em pesquisas científicas e mais consciência dos grupos dominantes e reflexões críticas pelas elites intelectuais. Estas medidas estão sendo construídas nos países desenvolvidos, vide o intervencionismo estatal no Plano Biden. Está na hora ou melhor, já passando da hora, de seguirmos os caminhos do desenvolvimento e do bem-estar da sociedade brasileira, abandonando os caminhos da insegurança jurídica, adotando políticas tributárias progressistas, melhorando as políticas públicas e ações que estimulem o desenvolvimento, deixando para trás os dados descritos pelo relatório do banco suíço.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 30/06/2021.

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