Confrontos esperados

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Abertura, liberalização e privatização sempre foram assuntos proibidos e condenados pela esquerda brasileira, segundo esta o ideário neoliberal deveria ser defenestrado da sociedade, sob pena de condenar o país a uma encruzilhada das mais tenebrosas possíveis, podendo nos conduzir eternamente à miséria e a desesperança, para evitar tais profecias o Estado deveria atuar na sociedade como um agente organizador e fomentador do progresso político e social.

Diante disso, encontramos no Brasil uma polarização bastante extrema e insensata, para não dizer limitada entre Estado e Mercado, onde cada um deveria atuar em campos diferentes e este último deveria ser fortemente regulado pelo primeiro, como forma de garantir à sociedade serviços, produtos e mercadorias de qualidade sem criar uma dependência das forças do mercado, visto como um agente econômico marcado pela ganância e pela ambição. Nos últimos dez anos percebemos uma mudança bastante clara de enfoques, desde a ascensão do presidente Lula o Brasil evoluiu um pouco nesta polaridade, o Estado assumiu papeis variados, impulsionou o sistema econômico em um período de crise econômica internacional, alavancou a demanda e incrementou investimentos produtivos, reduzindo impostos e criando um ambiente propício para reduzir o impacto do desastre econômico internacional sobre nossa economia, o grande problema do crescimento do Estado é que um modelo centrado neste setor tende a ser muito lento e inflexível diante das demandas crescentes do mundo globalizado, aparelhar o Estado e fatiá-lo nas mãos de um determinado grupo político pode trazer graves prejuízos para a sociedade brasileira, aumentando a histórica ineficiência do setor público, o desperdício e a corrupção, males que assolam o Brasil desde a colonização.

O governo Lula (2002-2010) aceitou investidores internacionais, garantindo lucros fabulosos ao sistema financeiro, aumentou os repasses de recursos para as empresas via BNDES e, ao mesmo tempo, seguiu com uma política econômica anteriormente criticada, conhecida como ortodoxa, mas que garantiu resultados animadores nos momentos de instabilidades e crise no mercado internacional.

A segunda conversão surgiu recentemente, o governo petista de Dilma Roussef reuniu, em Brasilia, a nata do empresariado nacional em um grande lançamento do projeto de concessões que objetivam atrair investimentos nacionais para áreas estratégicas e fundamentais para o progresso do país, desde setores como estradas, portos e aeroportos foram contemplado por um projeto do governo que transferirá, para a iniciativa privada, setores que carecem de investidores para impulsionar seu crescimento.

O mais interessante em tudo isso são as denominações dadas para os projetos diretamente, o governo os chama de parcerias público-privadas onde o Estado apenas cederia aos empresários a oportunidade de investir em setores estratégicos para a sociedade, estes investimentos, o Estado reconheceu, são difíceis de serem feitos mas, infelizmente, rechaçou de forma veemente adotar o termo privatização, segundo os petistas este termo esta associado ao neoliberalismo, mas para a oposição, tão demonizada pelos governos petistas, estas medidas são formas disfarçadas de privatização, ou melhor, um claro reconhecimento de que o Estado mesmo dotado de grandes poderes dentro da sociedade apresenta dificuldades e limitações para tocar inúmeros projetos concomitantemente, além das questões fiscais e de planejamento, que são sempre fatores de graves constrangimentos e apreensões.

No inicio do século XXI, o partido de esquerda comprometido com os ideários intervencionistas, rechaçava toda e qualquer idéia de parceria público-privada, o ideal era expandir o poder do Estado sobre a sociedade e garantir espaço para os sindicatos e trabalhadores, seus fiéis defensores e eleitores; isso tudo mudou veementemente, a realidade alterou abruptamente as concepções da esquerda, levando-a a adotar uma política mais severa do ponto de vista fiscal, um combate maior aos desajustes inflacionários e uma preocupação constante com o tamanho e a capacidade de gestão do Estado Nacional, ou seja, a esquerda faz uma reflexão solitária, não admite seus equívocos mas adota uma postura mais centrada em políticas moderadas e conservadoras, é o fim das ideologias e seus extremismos ou, na realidade uma política centrada no pragmatismo e na eficiência?

A conversão ao pragmatismo foi visível, mas destacamos algo risível que empobrece a discussão política, a tentativa da presidenta Dilma Roussef de se esquivar, no discurso de lançamento do projeto, da palavra privatização, como se esta fosse algo abominável e desagradável, privatizar é diferente de fazer parcerias com os mercados, na privatização o patrimônio passa para as mãos da iniciativa privada, agora, nas parcerias o Estado concede a particulares, durante um determinado período de tempo um bem público, depois deste período este retorna para as mãos do Estado, na verdade, são termos diferentes, concordamos, mas esta conversão para um partido que sempre rechaçou a integração entre Estado e Mercado é algo revolucionário e assustador, até onde estas conversões podem ser feitas, quais princípios e valores defendidos anteriormente podem ser alterados de acordo com as conveniências do partido político encravado no poder?

A conversão petista na verdade não pode ser assim considerada, isto porque o que percebemos é uma tentativa da própria presidente de se afastar de alguns grupos organizados do partido, uma tentativa valente e madura de Dilma, isto porque este grupo ganhou grandes poderes dentro do governo anterior, ocuparam cargos de destaque e comandaram uma grande soma de recursos financeiros, nem sempre investindo em negócios salutares para a sociedade, toda e qualquer tentativa de enfraquecê-los pode abrir espaço para uma guerra fratricida dentro do governo, algo que acontece neste momento quando percebemos uma queda de braços entre governo e setores grevistas, uma disputa de poder onde os sindicatos, liderados pela CUT usam seus poderes para enfraquecer e fragilizar o governo em greves que se eternizam e trazem inúmeros prejuízos para a população.

Vivemos momentos de apreensão em toda a sociedade internacional, as incertezas relacionadas a crise internacional são constantes, as tentativas de recuperar a União Européia e a Zona do Euro fracassaram veementemente, a economia norte-americanas se mostra claramente fragilizada, desde a crise do sub-prime o pais busca seu equilíbrio que parece cada dia mais distante, a desaceleração chinesa preocupa todos os agentes econômicos, um país que nos últimos anos ganhou espaço na economia mundial, forçando economias industriais maduras e experientes a iniciarem um processo de ajuste estrutural sob pena de ver seu setor industrial desaparecer e seus empregos sumirem por completo, hoje reduziram seu crescimento econômico e, com isso, geraram graves constrangimentos para seus parceiros comerciais, dentre eles o Brasil, um momento difícil que cujas perspectivas globais não são muito alentadoras, muito pelo contrário, preocupam e geram desespero para muitos países e regiões.

O reconhecimento das limitações de investimento do Estado Brasileiro é algo bastante positivo para a sociedade, os setores dados em concessão pelo governo podem gerar novos espaços de investimentos produtivos, mas estes investimentos prescindem de marcos regulatórios modernos e eficientes, onde as responsabilidades são compartilhadas e os agentes econômicos se sintam a vontade para investir e vislumbrem lucros financeiros interessantes e tentadores gerando, com isso, um grande ciclo de investimento e crescimento econômico para o país, com geração de empregos qualificados e incrementos na renda nacional.

O governo atual é diferente do anterior, enquanto o presidente Lula navegou em um período de bonança internacional que lhe garantiu índices grandes de popularidade, a presidenta Dilma recebeu como herança uma economia aquecida demais e demandas crescentes de setores organizados da sociedade, empenhos de gastos e investimentos introduzidos no orçamento poderiam comprometer o equilíbrio fiscal e financeiro do Estado Nacional, obrigando-o a adotar uma política mais severa de reequilíbrio fiscal, contrariando grupos fortes e com grande poder político, como a oposição pouco existe, esta desarticulada e fragilizada, os confrontos dentro do governo crescem e se expandem além das portas do Palácio do Planalto. Analisar o governo sem admitir as raízes da presidenta é fazer uma análise limitada da conjuntura nacional, Dilma não faz parte dos quadros históricos do Partido dos Trabalhadores, não comunga com o aparelhamento do Estado nos moldes petista, sua origem é o trabalhismo de Leonel Brizola, o choque entre visões diferentes era algo inevitável e previsto pelos especialistas políticos, agora, é nestes confrontos que percebemos a capacidade de organização e articulação política, é destes embates que conhecemos os grandes personagens da sociedade, torçamos para que nossa presidenta se mostre capacitada para esta batalha, pois se perder este confronto os prejudicados seremos todos nós que defendemos um país centrado no mérito e na justiça social.

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