Cotas podem ajudar a resgatar o mérito, enquanto excluem os medíocres, por M. França

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Ações afirmativas são apenas uma forma emergencial de tentar diminuir a perda de talentos

Michael França, Ciclista, doutor em teoria econômica pela Universidade de São Paulo; foi pesquisador visitante na Universidade Columbia e é pesquisador do Insper.

Folha de São Paulo, 09/08/2022

A história da humanidade é marcada pelo domínio de alguns grupos sobre os demais, e tal fato assumiu diferentes configurações ao longo do tempo. Em um passado não muito distante, a aristocracia representava um tipo de organização sociopolítica em que a origem familiar ditava o modo de vida das pessoas. Uma pequena parcela da população herdava automaticamente um conjunto de privilégios simplesmente pelo fato de ter nascido em determinada família.

Depois de algumas revoluções, em vários cantos do mundo, os nobres foram retirados de suas cadeiras cativas. Instalou-se gradativamente o ideal de que a ascensão social deveria se dar por meio de esforço e talento. Essa concepção permitiu ampliar as oportunidades de progresso para um conjunto maior da população, e diversos avanços socioeconômicos foram obtidos. Porém, ao mesmo tempo, milhares ficaram para trás.

Os bem-sucedidos de uma geração começaram a transmitir significativas vantagens para seus descendentes. A origem familiar passou, novamente, a ter um amplo papel na determinação dos resultados alcançados pelos indivíduos. Mas, diferentemente do passado, em que era comum pessoas despreparadas assumirem cargos relevantes devido apenas ao privilégio hereditário, atualmente as famílias com melhores condições financeiras investem pesadamente na formação de seus filhos.

Isso não quer dizer que todos se tornarão pessoas brilhantes ou, ao menos, competentes. O talento não surge espontaneamente, mas costuma ser reflexo de uma combinação bem orquestrada entre os esforços individuais e os investimentos corretos realizados pela família e sociedade.

Nesse âmbito, sabe-se que a falta de empenho não tem classe social. Entretanto, mesmo nos casos dos filhos da elite que não se esforçam, os altos investimento realizados por seus pais ajudarão no desenvolvimento de um currículo com credenciais para o mercado de trabalho. Além disso, em certas situações, a rede de contatos e o patrimônio herdado ou construído por seus pais tendem a permitir que aqueles filhos medianos mantenham o status familiar.

Esse cenário contribui para alimentar a profunda crise de legitimidade em relação ao mérito. As posições de maior prestígio social são marcadas pela alta dominância daqueles que nasceram em famílias ricas. Grande parte da disputa por esses espaços acaba se limitando aos filhos da elite, enquanto ao resto da população cabe participar de uma competição muito desigual com aqueles que herdaram consideráveis vantagens.

Nesse contexto, as ações afirmativas, sendo as cotas uma delas, podem ser pensadas como uma forma de procurar colocar para competir indivíduos com trajetórias de vida parecidas e, assim, contribuir para que os “vencedores” tenham maior legitimidade em suas conquistas. Dependendo de como esse tipo de intervenção é desenhada, também representa um meio de selecionar os melhores entre aqueles que tiveram investimentos semelhantes e, assim, diminuir a enorme perda de talentos em classes sociais desfavorecidas.

As ações afirmativas tendem a ampliar as chances de as minorias atingirem determinado objetivo. Isso pode se refletir em uma mudança nas aspirações sociais daqueles que foram historicamente excluídos e, consequentemente, fazer com que um conjunto maior dos desfavorecidos se empenhe ainda mais.

No caso dos favorecidos, aumenta-se a pressão por maior esforço, visto que agora os medíocres podem ficar de fora. As cotas nas universidades são um exemplo disso. Caso um filho da elite não tenha sido bem-sucedido no vestibular competindo com aqueles que tiveram um conjunto de investimento semelhante, talvez ele não tenha se esforçado o suficiente ou, simplesmente, não seja talentoso.

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