Cracolândia precisa de direitos básicos e empatia, não de ‘dor e sofrimento’

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Uso de crack não é causa, mas sintoma de múltiplas vulnerabilidades

Pedro Abramovay, Diretor da Open Society Foundations para a América Latina e Caribe

Ana Clara Telles, Oficial de programa da Open Society Foundations para a América Latina e Caribe especializada em política de drogas, redução de danos e segurança pública

Folha de São Paulo, 28/05/2022

A megaoperação realizada no último dia 11 no centro de São Paulo para reprimir a chamada “cracolândia” é o último episódio de uma sucessão de equívocos de diferentes governos quando o assunto é política de drogas.

A estratégia de usar a repressão policial para incentivar a busca por tratamento atende ao afã dos gestores públicos que, seduzidos por falsas promessas e pressionados pelo tique-taque dos ciclos eleitorais, buscam soluções simplistas para questões complexas.

Longe de ser a substância psicoativa (lícita ou ilícita) mais consumida pela população brasileira, o crack é associado, pelo senso comum, a grupos sociais vulneráveis e empobrecidos.

Diante de crises econômicas severas, como a que fez triplicar o número de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza nos últimos anos, ele volta a ganhar protagonismo no debate público, sobretudo em ano de eleições.

Acontece que o uso de crack não é causa, mas sintoma de múltiplas vulnerabilidades, que incluem a negação do acesso a direitos básicos, como saúde, moradia e alimentação, e a exposição a inúmeras situações de violência ao longo da vida.

Sem que haja políticas consistentes, integradas e de longo prazo para lidar com elas, a história continuará se repetindo da pior maneira.

Os exemplos do que é capaz de fazer uma boa abordagem nessa área não são poucos. No campo das políticas públicas, programas como o Atitude, em Pernambuco, e o De Braços Abertos, em São Paulo, colheram bons resultados e ganharam reconhecimento internacional ao oferecer aos usuários do serviço alternativas concretas de acolhimento, moradia e emprego.

Por parte da sociedade civil, projetos como o Espaço Normal, gerido pela organização Redes da Maré, no Rio de Janeiro; o É de Lei, em São Paulo; e a Escola Livre de Redução de Danos, no Recife, mantêm centros de convivência para pessoas que usam drogas e as ajudam a acessar serviços públicos de saúde e assistência social de maneira integrada e efetiva e sem que precisem sair de seus territórios.

Em todos esses casos, o trabalho é de formiguinha, demanda paciência e, sobretudo, um olhar sem estigmas, empático.

O ponto de partida é enxergar as pessoas que usam crack e outras drogas como sujeitos autônomos capazes de decidir sobre suas vidas, não devendo ser submetidas a nenhum tipo de tratamento contra sua vontade.

A partir daí, criam-se estratégias para garantir que tenham acesso a direitos básicos, muitos dos quais lhes foram negados ao longo de suas vidas. Em vez de impostas, opções de tratamento em saúde são oferecidas de acordo com suas demandas e necessidades e se amplia o repertório de cuidado através do fortalecimento de vínculos com suas famílias e suas comunidades, no lugar da internação e do isolamento.

Capaz de promover mudanças efetivas, essa abordagem é inconciliável com a violência e a repressão, ao contrário do que argumentam os responsáveis pela atual política.

À diferença das estratégias violentas de “dor e sofrimento”, a paciência e a empatia funcionam a longo prazo. Mas o longo prazo não cabe no horizonte de quem tem olhos apenas nas eleições.

É preciso que os gestores públicos assumam o compromisso de enfrentar o problema pelo que ele é, em vez de continuarem reféns de soluções tão rápidas e cruéis quanto ineficazes.

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