Dependência e Subordinação

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A globalização foi um dos processos mais intensos de transformação da sociedade mundial das últimas décadas, cujos impactos foram crescentes em todas as regiões do mundo, gerando ganhos substanciais para todos os agentes sociais, com desafios enormes e perdas consideráveis. De um lado, alguns países conseguiram crescer na escala tecnológica e incluírem suas populações, de outro lado, percebemos uma degradação interna, aumento do desemprego e desindustrialização.

No período pós-segunda guerra, auge da exportação do modelo de produção fordista, a sociedade norte-americana se transformou no centro hegemônico da economia internacional, exportando suas empresas, sua cultura, seus filmes, seu consumo, sua moeda e sua forma de enxergar o mundo, centrado no American Way of life. Neste momento a sociedade norte-americana dominava o mundo, aumentando a dominação dos países e estimulava seu alinhamento como forma de garantir novos mercados consumidores e, ao mesmo tempo, uma forma de evitar que os países se alinhassem ao modelo soviético, um período marcado por incertezas, rivalidades e altos investimentos militares, que impulsionaram a ciência, as pesquisas e os conhecimentos científicos.

No período 1945/1973 o mundo viveu um momento de grande crescimento econômico, forte intervenção do Estado, incremento do emprego, melhorias crescentes da renda e dos salários, período denominado por “Era Dourada”, termo cunhado pelo historiador Eric Hobsbawn. A situação começou a se inverter no final dos anos 70, quando da crise da dívida externa levou a sociedade brasileira à bancarrota, dívida externa crescente e inflação acelerada, gerando incertezas e preocupações fiscais e financeiras, sucumbindo a adoção de um projeto autônomo e dependente, cujos reflexos estão claros nas dificuldades econômicas e políticas atuais.

No início dos anos 80, o parque industrial brasileiro era maior do que os somados da China e da Coréia, com isso, percebemos que nos últimos 40 anos a economia brasileira perdeu espaço na economia global. A indústria nacional perdeu fôlego e percebemos, na contemporaneidade, espaços crescentes de desindustrialização, nos tornando um exemplo claro de país que se caracteriza por uma desindustrialização precoce, perdendo espaço para países asiáticos, que se tornaram os grandes produtores da indústria mundial, ganhando espaços na economia internacional, melhorando os indicadores sociais, incrementando os salários e a ascensão de milhões de trabalhadores que passaram a se instalar nos meios urbanos.

Alguns países asiáticos, dentre eles destacamos a China e a Coréia, estão conseguindo superar a armadilha da classe média, levando suas populações a saltos tecnológicos, construindo empresas globais e abrindo espaço para participarem ativamente do cenário internacional. Empresas que anteriormente eram locais e pouco representativas na sociedade global, passaram a ganhar relevância e se transformaram em grandes conglomerados internacionais, como LG, Samsung, Hyundai, Kia, Tencent, Alibaba, Lenovo, Huawei, Xiaomi, Chery, dentre outras.

Estas empresas nasceram e se desenvolveram da integração entre Estado e Mercado, onde os dois agentes se integraram em torno de um projeto nacional em prol do desenvolvimento econômico, deixando de lado o antagonismo entre Estado X Mercado, que existe na sociedade brasileira, perpetuando as desigualdades internas e a dependência da economia internacional. Na pandemia, percebemos a dependência de produtos estrangeiros, ausência de insumos relevantes para a confecção das vacinas, mostrando limitações internas na construção de um projeto nacional, enfatizando uma sociedade dependente e subordinada dos grandes grupos globais.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre e Doutor em Sociologia e Professor Universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 03/02/2021.

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