‘Desenvolvimento’ predatório na Amazônia, por Márcia Castro.

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Historicamente, a região passou por ciclos econômicos de exploração de recursos

Marcia Castro Professora de demografia e chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard

Folha de São Paulo, 01/11/2021

A 26ª conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, COP26, acontece entre os dias 31 de outubro e 12 de novembro. O Brasil, que criou um Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima e Crescimento Verde dias antes do início da COP 26, participa do evento sem a presença do presidente Bolsonaro.

Apresentará a meta de reduzir emissões de gases poluentes em 37% até 2025, em 43% até 2030 e atingir neutralidade de carbono em 2050. A forma como essa meta será cumprida não foi detalhada. E defendê-la como crível na COP26 será impossível, tendo em vista o acelerado aumento nas taxas de desmatamento e emissão de gases poluentes.

Ou seja, a proposta a ser apresentada não condiz com ações e desempenhos recentes, nem tão pouco com o discurso de “passar a boiada”.

Esse cenário atual não é novo. É, de fato, uma continuidade de um modelo de desenvolvimento para a Amazônia, que se baseia na exploração de recursos naturais, sem levar em conta a população local, suas necessidades, sua cultura, seu conhecimento de como viver na floresta sem a destruir.

Historicamente, a Amazônia passou por ciclos econômicos de exploração de recursos. Dois ciclos da borracha foram importantes: entre 1879 e 1912, quando cerca de 120 mil nordestinos migraram para a Amazônia após a grande seca de 1877-79, e durante a Segunda Guerra Mundial, quando os “soldados da borracha” migraram para a Amazônia para trabalhar na extração da seringa.

Em ambos, as condições sanitárias não eram adequadas, e a assistência pós-ciclo praticamente inexistente.
Entretanto, um dos mais perversos ciclos econômicos ocorreu durante a ditadura militar. A linguagem da estratégia do governo deixava claro o objetivo de exploração de recursos naturais e o total descaso com a população local. Mensagens como “integrar para não entregar”, “terra sem homens para homens sem terra” e “chega de lendas, vamos faturar” surgem nessa época.

Esse modelo distorcido de desenvolvimento deixou um rastro de destruição ambiental, violação de direitos humanos, exploração ilegal em terras indígenas e áreas de reserva florestal, e aumento expressivo da transmissão de malária.

Além disso, a riqueza que saiu da Amazônia não beneficiou a população local, e a região concentra os piores índices nacionais de desigualdade de renda, de acesso a infraestrutura (água e esgoto), e de distribuição de serviços e recursos humanos de saúde, dentre outros.

A perpetuação de um modelo predatório de desenvolvimento cria profundas cicatrizes na estrutura social e ambiental da Amazônia. Acima de tudo, esse modelo ignora que a maior riqueza da Amazônia está na floresta preservada e nos conhecimentos locais.

A floresta preservada é fundamental para o equilíbrio climático, e a continuidade do desmatamento em larga escala pode reduzir as chuvas e resultar em condições de calor extremo no Brasil.

Já o conhecimento local é a chave de um desenvolvimento sustentável, e práticas locais de extração de recursos sem agressão a floresta que já existem precisam ser reconhecidas, apoiadas e expandidas, assim como novas práticas devem ser incentivadas.

A mudança desse modelo predatório requer comprometimento político com uma agenda ambiental construtiva e inclusiva; um comprometimento com a verdade, a ciência, a história, a cultura, e com o povo.

Se em 1992 o Brasil sediou a Rio 92 e assumiu um protagonismo internacional no debate ambiental, em 2021, lamentavelmente, o país chega desacreditado na COP 26.

Pátria (dif)amada Brasil.

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