Desesperança com a política partidária

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Uma das características mais importantes da sociedade contemporânea é a fragilização das eleições, do voto popular e da sacralidade da escolha dos governantes, instrumentos inscritos na lógica social como uma forma de eleger representantes e definir os rumos do país, dos estados ou dos municípios, esta desesperança com as atividades político-partidárias é um mau presságio para a democracia e pode gerar graves problemas para todos os cidadãos.
Lembro-me de uma época onde os políticos tinham um verniz ideológico, de um lado encontrávamos aqueles que priorizavam a ordem à justiça social e eram definidos como de direita, de outro encontrávamos aqueles que priorizavam a justiça social à ordem e eram definidos como de esquerda e, ainda encontrávamos um terceiro grupo político que se definiam como intermediário deste embate ideológico e eram chamados de políticos de centro. Nesta época era muito fácil definir quem era quem na política e perceber como eram feitas as alianças e como se davam as aproximações eleitorais, que saudade desta época onde adversários eram adversários, conviviam educadamente, mas apresentavam posições políticas diferentes, como esta sociedade se transformou e como se degradaram as nossas instituições políticas, contribuindo para um incremento da desesperança dos cidadãos.
Os ventos da política se alteraram imensamente, partidos de esquerda e de direita se entrelaçam em alianças que contrariam todas as leis do bom senso, da lógica e da moral, candidatos tiram fotos juntos e juram fidelidade, se abraçam confundindo os cidadãos e gerando controvérsias na comunidade, contribuindo para que a política seja cada vez mais vista como uma seara onde dignidade e respeito desapareceram por completo.
As eleições na atualidade se tornaram uma grande encenação, um verdadeiro teatro, os políticos gastam milhões e milhões de reais para serem eleitos, são recursos oriundos de fontes desconhecidas, financiadas por pessoas que não mostram sua cara e seus verdadeiros interesses, gerando graves constrangimentos para a sociedade, pois quando seus candidatos são eleitos passam a trabalhar para seus interesses, muitos deles escusos e ligados a bandidagem, vide o caso mais recente ocorrido no Brasil, onde um Senador da República, Demóstenes Torres, paladino da moralidade e dos bons costumes foi cassado por envolvimento claro com a contravenção, mesmo sabendo desta cassação acreditamos e temos muitos argumentos para acreditar, que grande parte destes chamados homens públicos não agüentaria uma investigação simples relacionada a seus patrimônios e suas relações de amizades, num universo restrito apenas ao Congresso Nacional, com seus 584 parlamentares, uma parcela considerável seria reprovada e processada por crimes variados, trafico de influência e até crimes comuns. Agora, se esta investigação abranger as Câmaras Municipais, com o universo de investigados aumentando, os resultados seriam chocantes e não teríamos espaço para prender tantos marginais, criminosos e bandidos, que se utilizam do mandato para ter imunidade transformando este benefício em verdadeiro espaço de impunidade.
A prestação de contas da classe política é algo absurda e irracional, os bilhões de reais gastos nas eleições são escondidos pelos políticos como um grande mantra, abrir as contas e mostrar as verdadeiras fontes dos recursos e os doadores da campanha pode gerar graves constrangimentos, isto porque muitos escondem tais doações em contas fantasmas, o conhecido caixa 2, mas depois das eleições fazem com que tais “investimentos” retornem em contratos milionários com órgãos públicos, enriquecendo e criando vínculos constantes entre a classe política e o grande capital, fonte incessante de corrupção e clientelismo político, dois dos maiores males deste país que remontam o período colonial.
Ao analisarmos a política no Brasil não podemos deixar de lado o que acontece nas cidades do interior, regiões mais longínquas onde as informações pouco chegam e a mídia não tem atuação direta, o executivo é ocupado pelos mesmos grupo políticos, que se revezam todas as eleições e os chamados representantes do povo, os vereadores, são indivíduos totalmente despreparados para esta missão tão nobre e importante para a consolidação da democracia, pessoas sem conteúdo político, ético e moral, e pior, ao serem eleitas se vendem para os grupos econômicos de plantão e usam do cargo para barganhar benesses para seus grupos políticos, negociando com prefeitos votos em prol de vantagens generalizadas.
Os supostos representantes do povo muitas vezes se esquecem, ou querem se esquecer, que muitos deles só conseguiram ser eleitos graças aos votos da legenda, sem estes não conseguiriam ser eleitos, mesmo assim, de forma descarada vendem sua vereança em prol de benesses particulares, barganham algo que não lhes pertence e perpetuam uma distorção brutal na política brasileira.
Ao analisarmos a produtividade da classe política brasileira percebemos que seus níveis são baixíssimos, grande parte dos projetos apresentados nas Câmaras de Vereadores são para nomear ruas e avenidas e ainda para conceder títulos aos cidadãos, honrarias desnecessárias e muitas vezes marcaram por conchavos e interesses mesquinhos. No Congresso Nacional, Deputados e Senadores, não se diferem tanto dos vereadores, muitos deles se comportam como verdadeiros vereadores nacionais, vendem seus cargos em troca de benesses para seus currais eleitorais, se beneficiando do cargo para conseguir recursos financeiros e a perpetuação desta estrutura distorcida e inviesada, que lhes garantem muitas vantagens materiais e, principalmente, política.
A classe política brasileira está em crise terminal, credibilidade baixíssima, a sociedade desconfia constantemente de sua atuação, seus discursos não mais empolgam os cidadãos, muito pelo contrário, os políticos no Brasil são considerados, segundo pesquisas, uma das classes mais mal vista pela população, estão sempre relacionados a picaretagem e corrupção, o que enfraquece as bases da democracia representativa e com isso fragiliza a sociedade e cria um clima de insegurança política e institucional.
A política está passando por graves crises não apenas no Brasil, mas em toda a sociedade internacional, muitos bradam aos quatro cantos que não gostam de política e esquecem que somos seres políticos, vivemos em sociedade e nos relacionamos todos os instantes com pessoas que tem interesses, idéias e pensamentos variados, respeitar tais idéias são premissas importantes para a boa convivência, abrir mão da política é nos deixarmos levar pelo poder dos mais fortes, neste caso veríamos um retrocesso social e graves constrangimentos para todos os indivíduos, culminando em uma sociedade onde viveríamos as turras em constantes confrontos, com mortes e destruição como regra, onde os mais fracos seriam sempre os mais afetados, humilhados e explorados. Se existe uma forma de reverter esta desigualdade é por meio da luta política, saudável, propositiva e construtiva, votar pode ser um instrumento salutar nesta batalha, mas é preciso observar atentamente a história dos candidatos e sua atuação, propostas e conduta moral, não mais podemos deixar de lado um instrumento que pode nos abrir novos horizontes e possibilidades, coloquemo-nos no centro das decisões e assumamos nosso papel nesta sociedade, somente desta forma poderemos mostrar a maturidade necessária para servirmos de exemplo para as próximas gerações, precisamos urgentemente reverter a imagem de que nós, brasileiros, vivemos deitado eternamente em berço esplêndido, para uma política onde nos engajamos mais e de forma coletiva e organizada, e nos responsabilizarmos mais por nossas atitudes, pois estas definem rumos e oportunidades.

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