Desglobalização

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Vivemos num momento de grandes incertezas, as estruturas econômicas estão movimentando rapidamente, exigindo comportamentos diferenciados, a competição cresce de forma acelerada, a tecnologia se tornou o grande motor do desenvolvimento das nações, obrigando as nações a repensar as estratégias e retomar o planejamento econômico como forma de se adaptar as novidades e as incertezas da sociedade contemporânea.

O termo globalização ganhou relevância nas últimas décadas e levou as nações a repensarem suas estratégias de desenvolvimento econômico, investindo em capital humano e estimulando a pesquisa científica, renovando a integração entre os setores econômicos, construindo um verdadeiro ecossistema de inovação, fortalecendo as empresas nacionais e consolidando os atores produtivos para se adaptarem a concorrência externa, angariando novos mercados e garantindo espaços de lucratividade.

Os países que conseguiram desenvolver estratégias consistentes de inserção no ambiente globalizado foram os grandes ganhadores da globalização, construindo empresas internacionais, investindo fortemente na capacitação de seu capital humano e garantindo melhoria nas condições de vida da população e, muitos países conseguiram caminhar a passos largos para o desenvolvimento econômico.

Recentemente, percebemos muitas novidades no cenário internacional, a ascensão do modelo chinês, fortemente centrado no planejamento governamental, a crise imobiliária de 2008 que fragilizou os sonhos liberais que defendiam a pouca intervenção estatal e que gerou, ironicamente, um forte intervencionismo dos governos para evitar a bancarrota do capitalismo global, que contribuiu para a fragilização do pensamento neoliberal. Além disso, a pandemia desagregou as estruturas produtivas da economia internacional, gerando rupturas em cadeias de produção, falta de insumos fundamentais, aumento de preços e renascimento da inflação. Para piorar, vivemos uma verdadeira tempestade perfeita da sociedade global, a guerra em curso na Ucrânia está impactando fortemente sobre as nações, perdas de vida e destruições generalizadas, deixando claro a necessidade de repensarmos o paradigma econômico global.

Neste ambiente, percebemos o renascimento do protecionismo em todas as regiões, nações desenvolvidas que preconizavam a abertura econômica e o aumento da competição global passaram a adotar novos receituários econômicos, retomando medidas intervencionistas agressivas, com políticas fiscais expansionistas, incrementando a proteção de suas estruturas produtivas, aumentando os subsídios para seus setores produtivos e impondo barreiras para produtos importados como forma de defender setores nacionais. Vivemos um momento marcado pela construção de novos paradigmas econômicos e produtivos, onde destacamos o retorno do planejamento econômico e da adoção de uma nova forma de intervenção governamental.

As duas primeiras décadas do século XXI estão trazendo novos desafios para a sociedade global, o modelo globalizado nos levou a uma ampla terceirização produtiva que entrou em xeque em decorrência da covid-19, obrigando as nações a buscarem a superação de suas dependências externas, diminuindo a proximidade dos fornecedores externos, construindo novos atores internos competitivos, aumentando os investimentos internos em ciência e tecnologia, priorizando produtores locais que geram empregos qualificados no mercado interno e diminuindo o hiato tecnológico que caracteriza as economias em desenvolvimento.

Os desafios das próximas décadas são imensos e assustadores, mas precisamos compreender que um novo mundo está surgindo, com novas oportunidades, com novos modelos de negócios, com novas perspectivas monetárias, com novas hegemonias que exigem a construção de novos consensos e novos canais políticos, exigindo líderes visionários e competentes. A globalização trouxe grandes vantagens para muitos setores da economia internacional, melhorando a qualidade de vida da população, garantindo avanços substanciais na saúde, incrementando as tecnologias e garantindo alimentos para toda a comunidade internacional, mas infelizmente, não conseguiu garantir que os avanços sejam socializados para toda a sociedade mundial, quem sabe na desglobalização tenhamos mais sucesso.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Criativa, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 20/04/2022.

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