Desigualdades

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Um dos grandes legados da pandemia que assola a sociedade brasileira é o quadro de desigualdades generalizadas com impactos para todos os grupos sociais, políticos e econômicos, estamos num momento de inflexão, as escolhas existentes podem criar novas oportunidades para o país ou pode contribuir para perpetuar desequilíbrios crescentes e estruturais que, sem uma resolução plausível, podem levar o país ao colapso, com grandes dificuldades de governabilidade e uma convulsão social, que podem levar a sociedade a fragilização democrática.

Neste momento de grandes desigualdades, a sociedade brasileira está começando a conhecer as entranhas das dificuldades de grande parte da população, pessoas que vivem sem proteção do Estado, sem empregos dignos e altamente degradados, sem acesso a educação de qualidade, sem atendimentos médicos e hospitalares e de proteções sociais. A pandemia está desnudando a desigualdade nacional, as dificuldades de acesso as tecnologias, os instrumentos de interação social são precários, as deficiências do ensino remoto se mostram mais claras e as pessoas estão morrendo pela falta de oxigênio, vivemos uma verdadeira tempestade perfeita, mostrando incompetência e degradação moral.

A pandemia está nos mostrando o tamanho da economia informal nacional, estamos percebendo a degradação do mercado de trabalho, onde milhões de trabalhadores estão rastejando em empregos precários e degradantes, sem proteção social, sem benefícios trabalhistas, sem rendas e sem perspectivas. Numa sociedade que sonha com a modernidade e com o desenvolvimento econômico, é imprescindível garantir para seus cidadãos condições dignas de sobrevivência, ainda mais num momento de crescimento dos desequilíbrios sociais, das incertezas econômicas e das degradações políticas e culturais. O mercado de trabalho está degradado, sem um acordo entre todos os agentes econômicos e na construção de consensos políticos consistentes, a economia nacional tende a continuar rastejando em recessões e depressões continuadas.

Outro ponto interessante que deve ser destacado, é a grande incapacidade dos governos de construir novos espaços de solidariedade, de confiança e de credibilidade, precisamos desenvolver eixos de empatia entre as elites econômicas e políticas com a população, que sofre de formas diferenciadas e aumenta a insatisfação social que podem criar conflitos que poderiam criar constrangimentos para toda a coletividade. A sociedade contemporânea prescinde de confiança e de credibilidade, sem elas o mundo dos negócios perde legitimidade e reduzem os investimentos produtivos, sem estes a economia não se reproduz e os indicadores macroeconômicos se degradam. Sem confiança na sociedade, os atores econômicos e sociais tendem a fragmentação e ao descontentamento com a classe política, levando ao crescimento das instabilidades e das incertezas, possibilitando o surgimento de outsiders, cujas consequências são desconhecidas.

Vivemos inúmeros dilemas contemporâneos, as instabilidades crescem de forma acelerada e a degradação política aumenta e retroalimenta as instabilidades na estrutura econômica e produtiva. Necessitamos de líderes capacitados e conscientes das dificuldades contemporâneas, sem resolvermos os desequilíbrios políticos e acalmarmos os conflitos que cresce em todos os momentos, não conseguiremos reconstruir as bases da economia nacional e as dificuldades sociais tendem a prevalecer e os conflitos podem ser avolumar. A pandemia nos mostrou as pobrezas materiais e as limitações espirituais, os desafios são imensos e os espaços de reconstrução nacional são reduzidos, neste momento novas lideranças devem aparecer, mostrando os rumos, mostrando as dificuldades e orientando para a reconstrução de novos espaços. Como nos mostrou o primeiro-ministro Winston Churchill britânico, um dos maiores líderes do século XXI: “A diferença entre um estadista e um demagogo é que este decide pensando nas próximas eleições, enquanto aquele decide pensando nas próximas gerações”.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 17/03/2021.

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