Desindustrialização

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A pandemia está acelerando inúmeras transformações na sociedade global, exigindo novos comportamentos, novos hábitos e abrindo novas oportunidades, num mundo cada vez mais integrado, mais competitivo e centrado na instabilidade e no incremento das incertezas. Diante disso, os governos, as empresas e os trabalhadores passam por momentos de disrupturas, exigindo consensos políticos, projetos econômicos, visão social e ambiental, além de forte liderança.

Dentre os grandes desafios brasileiros, destacamos a reconstrução da estrutura industrial que, até pouco tempo era vista como uma das áreas mais dinâmicas e geradoras de emprego e qualificação profissional. Vivemos um momento de desindustrialização, onde a indústria nacional está perdendo espaço na estrutura produtiva. Nos anos 80, a indústria era responsável por mais de 30% do PIB, atualmente percebemos que o setor se concentra em menos de 10%, contribuindo para as dificuldades da economia brasileira, como a perda de produtividade, a baixa geração de empregos qualificados e o dinamismo do setor industrial, um verdadeiro espaço de construção de novas tecnologias e inovação, desafios centrais na sociedade contemporânea.

Segundo pesquisa recente divulgada pelo IBGE, nos últimos seis anos, o país perdeu mais de 30 mil indústrias. Segundo o instituto, os dois motivos da perda do dinamismo industrial estão ligados a recessão do período, com impactos agressivos sobre a estrutura industrial, aumentando o desemprego e reduzindo a renda agregada. A pesquisa identificou ainda, que muitas empresas transnacionais foram desativadas para reconfigurar os custos produtivos, ou seja, muitas empresas foram fechadas no país, priorizando mercados mais rentáveis e confiáveis.

A desindustrialização brasileira está ligada aos movimentos de estabilização dos anos 90, onde os sucessivos governos se utilizaram do câmbio como instrumento de combate a inflação. A valorização cambial estimulou a entrada de produtos estrangeiros e aumentou a oferta de produtos importados motivando a concorrência interna, gerando uma queda substancial de preço. Em contrapartida, muitos setores produtivos sentiram na pele a concorrência externa e foram forçados a adotarem de políticas de reestruturação, gerando redução de custos de produção como forma de sobreviver, adotando políticas de redução de funcionários, redução de custos e contribuíram para a diminuição de empregos nos setores industriais, levando a uma massa de desempregados e forçando muitos trabalhadores qualificados a saírem do país ou se transformaram em motoristas de aplicativos, sem proteção, sem segurança e sem perspectivas.

A indústria sempre foi vista como um setor intensivo em mão de obra, podendo gerar salários superiores aos de atividades como serviços e comércio, com o processo de desindustrialização em curso, muitos empregos foram absorvidos pelos setores de serviços, mas com salários menores, com isso, percebemos uma redução da massa salarial e uma efetiva queda da renda dos trabalhadores, empobrecimento da população, impactando na estratégia de muitas empresas transnacionais que passaram a se concentrar em mercados mais rentáveis e deixando mercados como o brasileiro, desta forma, observamos a saída de inúmeras empresas do mercado brasileiro, gerando mais desempregos e desesperanças.

Os países desenvolvidos estão se desindustrializando depois de alcançarem altos níveis de industrialização, no caso brasileiro vivemos um processo de desindustrialização antes de nos tornarmos grandes países industrializados. A desindustrialização é um verdadeiro retrocesso nacional, estamos perdendo espaço no setor produtivo global e nos concentrando nos setores primários que, embora importante, não possui força para impulsionar a economia nacional. A pós-pandemia abrirá novas oportunidades de industrialização, investindo em setores estratégicos e absorvendo empregos qualificados e repensando o planejamento, que a ausência contribuiu para o crescimento da financeirização e da estagnação dos setores produtivos.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 28/07/2021.

1 Comentário

  1. Professor, haveremos de “mandar” nossas indústrias para a Lua (ou, até pra mais longe; talvez, Marte, quem sabe)?
    Bem, orgulhosamente, na condição de “lavoura mundial”, “celeiro do mundo”, “et cetera”… nossas crianças estão a consumir pirolitos “Made In China”, cuja matéria prima passa por nossos trilhos até o porto de Santos, “rumo” mundo afora.

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