Duzentos anos

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O Brasil está comemorando os 200 anos de independência, um momento de reflexões, momentos de repensarmos as políticas adotadas neste período, melhorando aquelas que contribuíram para as melhorias sociais, incrementando as condições de vida e que reascenderam as nossas esperanças, consolidando avanços fundamentais. Ao analisarmos as políticas adotadas, é fundamental, extinguirmos aquelas que não trouxeram os avanços esperados, reestruturando algumas e abolindo por completa aquelas que geraram resultados equivocados e beneficiaram apenas poucos grupos privilegiados.

Neste momento de tantas transformações na sociedade contemporânea, onde o desenvolvimento da tecnologia aproxima os indivíduos e, ao mesmo tempo, contribuem ativamente para distanciar as pessoas, aumentando os medos, incrementando as ansiedades e as incertezas que crescem aceleradamente. O mundo contemporâneo evoluiu no âmbito da tecnologia, garantiu mais riquezas e contribuiu para construir novos instrumentos de desenvolvimentos sociais, mas ao mesmo tempo, gerou mais incertezas, instabilidades, individualismo e imediatismo.

Depois de duzentos anos, muitas foram as transformações, algumas positivas e outras nem tanto, saímos de uma sociedade altamente dependente dos mercados internacionais, uma sociedade extremamente desigual, onde uma parte substancial da população vivia em péssimas condições de vida, alijados de seus direitos fundamentais, sem escolas, sem assistência médica, sem dignidade e sem esperanças. Em plena reconfiguração do capitalismo internacional, o Brasil era um país exportador de produtos primários de baixo valor agregado, onde uma grande parte da sociedade sobrevivia sem condições dignas e uma pequena parte concentrava privilégios elevados, ganhos estratosféricos baseado na exploração escrava e em salários escorchantes, criando uma sociedade dual, uma parte ambicionando a vida dos grandes endinheirados europeus e outra parte vivendo de exploração, sem empregos decentes e vistos com desconfiança crescente, gerando rancores e ressentimentos travestidos de convivência cordial.

Depois de duzentos anos de independência, encontramos uma reconfiguração das elites dominantes, antes os grandes donos do poder eram os cafeicultores, a elite rural, depois vieram os industriais e agora os grandes financistas, todos eles se caracterizam como predadores do Estado Nacional, usam seus poderes políticos e seus recursos financeiros para angariar mais controles sociais, perpetuando seus ganhos monetários, seus subsídios elevados, suas isenções fiscais e tributárias, inviabilizando os projetos nacionais autônomos e garantindo a condição de sócios menores dos grandes detentores das riquezas internacionais.

Depois de duzentos anos de independência a democracia ganhou mais relevância, se transformou em um projeto nacional visando a melhoria das condições de vida da comunidade, incrementando o crescimento econômico, garantindo mais espaços de direitos sociais e políticos, mas não conseguiram abarcar a grande parte da população, criando espaços de contestações crescentes, inviabilizando direitos de inúmeros grupos, negando cidadania para muitas classes sociais e criando tensões urgentes que inviabilizam a tão chamada democracia. Ao analisarmos estes duzentos anos de independência brasileira, onde fomos os últimos países a acabar com a escravidão e ao refletirmos sobre os indicadores sociais, econômicos e políticos degradantes para os negros, os indígenas e minorias, percebemos que não entendemos nada, infelizmente, da verdadeira história nacional.

A tecnologia cresce na sociedade contemporânea prescindindo de novos padrões de acumulação econômica e de convivência democrática, deixando de lado esta visão dominante, centrada no imediatismo, no individualismo, no consumismo, no hedonismo e nos ganhos materiais em detrimento dos valores mais consistentes, do respeito aos seres humanos, valorizando o compartilhar, o cooperar e a solidariedade.
Duzentos anos depois, os desafios são elevados e exigem uma coletividade que ultrapasse os interesses do capital, deixando o ser humano e a solidariedade no centro das discussões. Só assim, que venha mais duzentos anos…

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Criativa, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 07/09/2022.