Economia travada

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Depois de um forte crescimento econômico em grande parte do século XX, a economia brasileira vem convivendo com taxas reduzidas de crescimento desde os anos oitenta, com altas taxas de inflação e forte endividamento externo, levando a economia a aumentar as vulnerabilidades sociais, incrementando as desigualdades de renda e salário, além do aumento da violência urbana, degradação das condições de trabalho, subemprego e desesperanças.

Neste período, a economia brasileira se acostumou com crescimento econômico decepcionante, com forte degradação de sua estrutura produtiva, fragilização industrial, incremento da intermediação financeira, redução dos investimentos produtivos e degradação das condições de trabalho, com isso, percebemos uma piora da qualidade dos empregos, cargas de trabalhos elevadas, salários reduzidos e a fuga de inúmeras empresas, levando a economia a perder o dinamismo, gerando uma forte desintegração social como a que estamos vivenciando na contemporaneidade.

Neste cenário, percebemos o crescimento acelerado das atividades financeiras, os grandes conglomerados bancários estão acumulando lucros estratosféricos, criando uma estrutura oligopolizada, onde poucos atores econômicos e financeiros controlam a estrutura produtiva, controlando a política monetária, dominando a Autoridade Monetária e pressionando o poder político. O poder econômico passou a controlar a sociedade, os governos e as políticas públicas, neste cenário, dominado pelo rentismo, ministros, grandes empresários e políticos influentes mantem seus recursos em paraísos fiscais, sem pagar impostos e exaltam a economia da picaretagem.

Neste momento, estamos vislumbrando uma economia travada, com perspectivas de manutenção de baixo crescimento econômico, sem investimentos produtivos, sem credibilidade, sem confiabilidade e as vésperas de um arrocho de crédito, cujos impactos sobre o sistema econômico são preocupantes. O desemprego está aumentando, em janeiro de 2023 passou 8,4%, os especialistas acreditam que os números de desempregos nacional são muito piores, se somarmos os informais, os desalentados e os desempregados encontraremos mais de 18,7%, dados preocupantes e necessitam de medidas urgentes de estímulo ao crescimento.

Dados alarmantes estão surgindo todos os dias, neste momento as empresas não-financeiras passam por dificuldades em seus balanços, mais de 70% de empresas de capital aberto apresentam grande alavancagem. Se essa situação preocupante predominar nas empresas maiores, imagine as dificuldades que estão passando as micro, pequenas e médias empresas que não possuem acesso ao sistema financeiro e para sobreviver aceitam pagar juros escorchantes, inviabilizando sua sobrevivência e levando-as a insolvência nos próximos anos.

Sem investimentos públicos a economia brasileira não vai começar sua recuperação econômica, depois de anos de contração, alguns acreditam, equivocadamente, que essa recuperação deveria ser capitaneada pela setor privado, investindo fortemente em infraestrutura, retomando projetos estratégicos esquecidos nos últimos anos e reconfigurando estímulos crescentes de reindustrialização, negociando estrategicamente com os dois grandes atores da economia internacional, EUA e China. Para tudo isso, é fundamental a atuação do Estado.

Neste cenário de fortes confrontos econômicos e políticos entre as potências, é imprescindível negociar recursos econômicos, transferência de tecnologias e investimentos estratégicos para alavancar a economia. Todas essas iniciativas só tendem a ganhar relevância para o crescimento econômico se investir fortemente em ciência e tecnologia, reduzir subsídios desnecessários e retomarmos as discussões estruturais para o desenvolvimento econômico produtivo.

A economia brasileira está travada. Neste cenário de baixo crescimento econômico e aumento das desigualdades, precisamos ser ousados, ambiciosos e estratégicos. Medidas econômicas liberais de contração fiscal e arrocho monetário, que nem mais fazem parte das agendas das nações desenvolvidas, tendem a aumentar as dificuldades econômicas, impulsionando a pobreza, contribuindo ativamente na degradação da renda da população. Na era da inteligência artificial, da robótica e do ChatGPT passou da hora de revermos os nossos conceitos.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicada no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 05/04/2023.

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