Empreendedorismo feminino é por sobrevivência, diz autora

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Empresária Ana Fontes lança guia para mulheres conhecerem os desafios da área

Ana Paula Branco – Folha de São Paulo – 21/05/2022

Há 12 anos à frente da Rede Mulher Empreendedora, espaço que reúne mais de 750 mil mulheres, a publicitária Ana Fontes, 55, lança “Negócios: um Assunto de Mulheres”, o seu primeiro livro.

A publicação foca as mulheres que pretendem empreender ou já dão os seus primeiros passos no mercado e conta com depoimentos de empresárias sobre os desafios de estabelecer o próprio negócio no Brasil.

Logo de cara, Ana deixa claro que o perfil da empreendedora é bem diferente do empreendedor. Eles, diz, têm uma boa ideia de negócio e vão atrás. Já elas buscam sobrevivência.

“Aquelas que vêm do universo corporativo para o ambiente empreendedor, não vêm por vontade própria, vêm porque ele ainda é, mesmo em 2022, um ambiente extremamente hostil para as mulheres”, afirma.

Como nasceu o livro “Negócios: um Assunto de Mulheres”? Todo o mundo me falava “você tem tanto conhecimento, tanta informação, você precisava colocar isso para que mais pessoas tivessem acesso. E aí a pandemia não tem nada de positivo, mas algumas coisas a gente acabou conseguindo fazer em decorrência da pandemia, e eu resolvi realmente
dar atenção para isso e fazer esse livro.

Na minha ideia eu queria que ele fosse um guia para que as mulheres entendessem, se identificassem e vissem exatamente quais são as questões, os desafios e as coisas bacanas de empreender. Que ele servisse também para pessoas que estudam o empreendedorismo feminismo e que fosse um livro que representasse as mulheres, porque ele não é sobre a minha história. O livro é sobre a história de milhões de mulheres do Brasil que estão empreendendo e tentando fazer do negócio delas, um negócio que dê certo e tenha sucesso.

Queria também que a organização de textos fosse feita por uma mulher e tivesse uma mulher representativa, que fosse inspiracional, que é a Luiza [Trajano, presidente do conselho de administração do Magazine Luiza]. E a editora também. Ficou bacana, porque é tudo feito por elas.

Sobre o empreendedorismo feminino, ele é sempre ligado ao maternal? É para a mulher que “precisou se virar” para cuidar do filho ou de um familiar doente ou isso é uma visão antiga? Os gatilhos para as mulheres empreenderem são diferentes daqueles dos homens. Normalmente, as mulheres empreendem por questão de sobrevivência e para continuarem profissionalmente ativas. Aquelas que vêm do universo corporativo para o ambiente empreendedor, não vêm por vontade própria, vêm porque o universo corporativo ainda é, mesmo em 2022, um ambiente extremamente hostil para as mulheres.

Eu digo que elas são empurradas para o empreendedorismo exatamente porque elas não têm acolhimento dentro ambiente corporativo, especialmente para aquelas mulheres que são mães de filhos pequenos. Para boa parte delas, a maternidade é o principal gatilho. Tanto que brincamos muito na Rede: nasce uma criança, ao mesmo tempo nasce uma mãe e, ao mesmo tempo, nasce uma empreendedora.

A maior fatia começa a empreender entre 30 e 40 anos. O momento em que a gente pensa em ter filho é exatamente o momento em que a gente acha que o ambiente, especialmente o corporativo, não nos acolhe.

Cerca de 40% empreendem porque sustentam a família com o dinheiro que vem do negócio. Outra parte é para complementar a renda para botar comida dentro de casa.

Independentemente de vir do corporativo ou estar em uma situação vulnerabilidade, o empreendedorismo para as mulheres hoje não é uma escolha.

A grande maioria não vem empreender porque teve uma ideia bacana de negócio e vai testar essa ideia para ver se dá certo e vai buscar uma oportunidade de negócio, que é o imaginário do mundo dos empreendedores. É obvio que o número de mulheres nesta condição vem crescendo um pouquinho mais, mas não é a realidade da maioria das mulheres.

E essa característica é geral ou brasileira? Isso é geral. Se comparar com países com o mesmo perfil do Brasil, como a Índia e a África do Sul, a situação é parecida.

Quando você vai para países que são mais desenvolvidos, que têm mais programas de apoio entre as mulheres, elas têm uma condição melhor, têm políticas públicas de apoio, essa é a diferença. Não significa que a situação é 100% maravilhosa.

Aqui no Brasil nós temos pouquíssimas, praticamente nenhuma política pública para ajudar essas mulheres. Como acesso a capital, recursos financeiros, linhas de crédito específicas. Não existem dentro das políticas públicas governamentais que incentivem negócios ou alguma inovação lideradas por mulheres.

Qual o impacto da economia do cuidado no empreendedorismo feminino? Você vê essa forma de trabalho como um problema? Estudos mundiais mostram que 80% da economia do cuidado do planeta é feito por mulheres. Ou seja, cuidar de filhos, casa, companheiros, idosos, doentes, questões relacionadas ao cuidado ainda são majoritariamente feitas por mulheres.

O problema dessa economia do cuidado não é ela existir, é ela ser feita exclusivamente por mulheres, ou seja, não tem uma divisão de tarefas entre homens e mulheres. É ela não ser reconhecida socialmente, porque as pessoas não valorizam esse trabalho. E a terceira questão é que não tem valor financeiro.

Veja que na Argentina, no ano passado, criaram uma lei que, na aposentadoria, eles valorizam o trabalho das mães. O cuidar dos filhos dá um adicional na aposentadoria.

E como empreender sendo mãe? É fundamental uma rede de apoio, por isso é importante que as mulheres estejam juntas, façam parte de grupos, façam conexão entre elas.

Hoje, há rede de negócios criados por mulheres para ajudar mulheres, de cuidado familiar.

A dedicação no negócio é diferente. As mulheres se dedicam duas horas a menos no negócio. Além da questão de sobrevivência, as mulheres buscam flexibilidade. Essa palavrinha para os homens não aparece.

As mulheres pensam em negócios muito mais relacionados ao momento em que estão vivendo combinado com as habilidades delas.

Os homens buscam muito mais as oportunidades que têm e não necessariamente relacionadas com aquilo que eles gostam, que eles sabem fazer.

Em relação a classes sociais, há muita diferença dentro do empreendedorismo feminino? Não. No geral, quase 70% das mulheres empreendem no que a gente chama área de conforto da mulher: são moda, beleza, alimentação fora de casa, estética, serviços. São os territórios onde, normalmente, as mulheres dominam.

O que é diferente para as que estão em situação melhor das que estão em vulnerabilidade social é que elas estudam um pouco o mercado, tentam entender em que caminho podem seguir, que tipo ela pode abrir.

Aquela que está em vulnerabilidade social vai abrir com o que tem na mão. Como é diferente a condição dela na sociedade como um todo. Quanto mais marcadores sociais, mais difícil, mais desafiadora é a situação dela.

O livro traz todo um capítulo para questão de empreender com o marido como sócio e como equilibrar essa relação.

Quais as dificuldades? A mulher trata o negócio como se fosse um filho e inclusive como família o ambiente de negócios.

O que não tem nenhum problema, desde que tenha clareza de quando precisa desapegar, de quando precisa ser insistente e não persistente.

Nós temos um jeito de fazer a gestão do negócio que é mais colaborativo, mais humano, e isso é uma coisa boa.

A brincadeira que faço com elas é: não contrate alguém que você vai ter medo de demitir. Esse é o ponto.

O negócio não pode ser uma extensão da família.

Como identificar qual será o diferencial do negócio? Elas normalmente já chegam com uma ideia de negócio, o importante é elas entenderem se tem alguém para comprar.

Empreender é muito solitário, para mulher é mais solitário ainda. Estar junto e se identificar com outras mulheres é absolutamente fundamental.

Não existe um território específico de empreender. Não precisa se fechar no território só de coisas relacionadas ao universo feminino. Podemos, sim, criar soluções dentro de qualquer território, desde que a gente tenha uma ideia boa, que a gente execute melhor ainda e que tenham clientes para comprar.

No geral, tanto para mulher quanto para homem, de três a cinco anos é a média para que os negócios levam para dar certo.

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