Estado Empreendedor

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O mundo da pandemia está transformando muitos conceitos importantes e comportamentos cotidianos da sociedade internacional, teorias e reflexões que eram aceitas com naturalidade estão sendo transformadas e repensadas, levando a intelectualidade e os gestores públicos e privados a reverem as novas teorias e novas reflexões, adaptando as situações, reconstruindo novos desafios e oportunidades.

As novas visões que estão surgindo passam a nortear as políticas sociais e os gastos públicos, levando os especialistas a repensarem as prioridades e construírem novos consensos. Novas ideias demoram para nascer, os conceitos anteriores resistem, neste momento percebemos os combates em curso na sociedade, gerando conflitos, constrangimentos e expectativas. Neste momento de reflexões e de avanço da pandemia, perceberemos os rumos da sociedade nos próximos anos, fazendo escolhas entre os grupos mais abonados ou, os grupos sociais que, historicamente, tiveram trajetórias de espoliação, de exploração e da degradação, neste embate perceberemos os caminhos que vamos trilhar no futuro imediato.

Neste momento, devemos abandonar o Estado inchado e excessivamente intervencionista, marcado por grandes investimentos faraônicos e desnecessários, mas devemos rechaçar um Estado mínimo que deixa os movimentos restritos aos interesses do capital, que buscam apenas os ganhos imediatos e se esquecem dos movimentos estratégicos de longo prazo. Precisamos construir um novo modelo de Estado, que atue como indutor do desenvolvimento econômico, fortalecendo os estímulos do empreendedorismo das empresas e dos cidadãos, investindo em setores sociais, capacitando o capital humano, melhorando os setores da educação e da saúde, investindo em pesquisas científicas e tecnológicas, moldando as instituições reguladoras para coibir os excessos, protegendo setores nacionais e cobrando desempenhos, deixando de lado a proteção sem cobranças que construíram estruturas industriais fragilizadas, onde os empresários acumularam fortunas e suas empresas dependiam dos benesses estatais e incapazes de concorrer no ambiente global.

Este Estado moderno deve induzir o desenvolvimento econômico e a melhoria do bem-estar da coletividade, cobrando todos os setores que receberam subsídios tributários e financeiros. Reduzindo os privilegiados de setores que ganham variados benesses e contribuem muito pouco com a consolidação institucional do país, setores que sobrevivem através das benesses do Estado, sem contrapartidas e sem condições de participar ativamente deste momento de reconstrução nacional, inconscientes dos desafios e das oportunidades que abrem no mundo da pós-pandemia.

Os recursos econômicos e financeiros são escassos e limitados, o Estado empreendedor deveria se destacar pela transparência, pela cobrança dos setores produtivos, motivando a competição no ambiente internacional, construindo infraestrutura moderna, investindo na excelência educacional, mas ao mesmo tempo, investindo no aumento da capacidade produtiva, gerando novas oportunidades para os trabalhadores, impulsionando o setor industrial, o agronegócio e os setores de serviços, garantindo instrumentos para concorrer com os melhores atores da economia global. Precisamos analisar a economia não apenas pelo lado da oferta, mas nos setores da demanda, garantindo maiores empregos, salários e rendimentos dignos para sua sobrevivência e para seus descendentes.

O mundo contemporâneo não tem mais espaço para o conflito entre o Estado e o Mercado, vivemos num momento marcado pelo crescimento da informação e pelo conhecimento, os países que ganharam espaços na comunidade global se caracterizaram pela integração e pela estruturação dos grandes agentes sociais, unindo forças entre Estado e Mercado. A nova sociedade mundial precisa aprender a compartilhar conhecimentos, respeitar as diferenças e unir forças, sem esta união rumamos para uma sociedade sem perspectivas, sem rumos e sem esperanças.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre e Doutor em Sociologia, professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 24/02/2021.

1 Comentário

  1. Ary, alguéns (“sic”) já fizeram vasto uso do termo “pandemundo”… mas, penso que essa é uma forma leve, suave de se definir as realidades expostas pela pandemia. Na verdade, creio estarmos num “pandemônio” (no sentido de confusão, desordem, tumulto, “et cetera”) com relação à vida em sociedade, mundo afora.
    Por outro lado, realmente, urge reconstruirmos o Estado por conta da globalização e mais fatores muito bem colocados no seu texto; aliás, legal seria, até, se se mudasse a terminologia (mudar de nome mesmo; que tal?). Todavia, por enquanto, vê-se patente a interferência estatal (economicamente, falando) e grande a influência da administração pública no Mercado, senão dependência dela, propriamente dita. Embora, peço que não me leve muito a sério, uma vez que sou um pessimista confesso.

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