Financeirização

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A pandemia está gerando transformação no ambiente internacional, gerando questionamentos sobre a estrutura econômica das nações, o dinamismo de suas sociedades, a solidariedade entre os grupos sociais e as perspectivas para os próximos anos, marcados por inúmeros desafios, oportunidades e grandes mudanças no cenário global. Neste ambiente, a sociedade brasileira precisa repensar suas estratégias, buscando novos espaços de inserção na nova economia do conhecimento, construindo ativamente o desenvolvimento de tecnologias, planejando setores que contribuam para ultrapassar novas fronteiras tecnológicas e deixando de ser consumidora de produtos importados, cujos preços são elevados e contribuem para a perpetuação de uma dependência de outros países.

Até os anos 1980 a estrutura econômica e produtiva brasileira estava em grande ascensão, saímos de um país agroexportador, com baixa alfabetização e uma educação precária, baseada no meio rural, dependente de produtos primários de baixo valor agregado e nos tornamos uma economia em franco crescimento econômico, ganhando espaço no mercado internacional.

Desde então, a estrutura produtiva brasileira perdeu espaço no cenário global, países que viam o país como um exemplo de determinação e dinamismo econômicos superaram nosso país e ganharam espaços preciosos no altamente competitivo mercado global. Diante disso, a pergunta mais intrigante que precisamos responder é: o que aconteceu com a economia nacional nestes últimos trinta anos onde o país perdeu espaço e respeitabilidade no internacional?

Para responder esta indagação, precisamos perceber que a economia internacional, a partir dos anos 1980/1990, passou por grandes alterações, setores menos significativos perderam espaços na agenda econômica e se transformaram em setores dominantes, impondo seus interesses imediatos e altamente lucrativos, contribuindo para a desindustrialização de suas economias e garantindo altos ganhos na financeirização. Este cenário de crescimento das finanças da estrutura econômica garante altos lucros para poucos setores, mesmo nos momentos de crise econômica e de depressão, isso acontece porque estes setores vivem da intermediação de recursos e dependem das altas taxas de juros praticadas na economia, angariando bilhões de reais que garantem lucros elevados e usam sua estrutura política para garantir a isenção tributária, com isso, conseguimos compreender como os ricos ficam cada vez mais ricos, desde os períodos de bonança econômica até nos momentos de turbulência financeira, como vivemos no Brasil contemporâneo.

O assunto é árido e de difícil compreensão, diante disso, percebemos a dificuldade de analisar este fenômeno que não se restringe a países como o Brasil, mas perpassa a sociedade global, sendo que algumas nações já perceberam os impactos negativos da financeirização sobre a estrutura produtiva. Podemos definir a financeirização como um processo do capitalismo onde o dinheiro é usado como mercadoria, usando do dinheiro para fabricar dinheiro, levando ao processo de desindustrialização e da falta de desenvolvimento, onde a indústria se volta para as Bolsas de Valores e ao mercado financeiro, dominando a sociedade e impondo sua agenda, centrada no imediatismo, na instabilidade e nos lucros financeiros em detrimentos do emprego e do desenvolvimento da nação.

Existe uma alta correlação entre o crescimento da financeirização da economia e baixo crescimento econômico. Os países que cresceram no pós-1990 foram aqueles que conseguiram dominar os ganhos exagerados da intermediação financeira, em contrapartida, aqueles que se entregaram à sanha dos agentes financeiros, seu crescimento econômico reduziu expressamente, aumentando as desigualdades de renda e de oportunidades, gerando um retrocesso civilizacional de suas nações. O desenvolvimento econômico deve garantir uma melhora substancial na renda e na oportunidade de todos os cidadãos, garantindo melhoras para todos, não apenas para uma pequena casta de iluminados e dotados do “espírito empreendedor”.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 15/12/2021.

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