Grupos em permanente busca por direitos estão mais vulneráveis ao adoecimento mental, por Cida Bento.

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Autocuidado nos estimula a recuperar memórias sobre nossas potências coletivas

Cida Bento Conselheira do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), é doutora em psicologia pela USP

Folha de São Paulo – 16/09/2021

Neste Setembro Amarelo, mês em que concentramos nossa atenção na prevenção ao suicídio — que atinge, no Brasil, 13 mil pessoas a cada ano—, mais do que nunca temos que atentar para as condições que tornam a vida de tantas pessoas insuportável de ser vivida.

De acordo com estimativas da OMS (Organização Mundial da Saúde) de 2021, o suicídio continua sendo uma das principais causas de morte no mundo. A campanha Setembro Amarelo envolve várias organizações, como a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e o CFM (Conselho Federal de Medicina). O CVV (Centro de Valorização da Vida) é um apoio permanente ao enfrentamento desse desafio no campo da saúde.
Muitos problemas no campo da saúde mental da população brasileira foram acirrados pela crise sanitária e econômica, que incide sobre o aumento dos índices de suicídio, como diversos estudos que ganharam manchete na grande mídia nos mostraram nestes tempos de pandemia.

No Brasil, milhões de pessoas se encontram desempregadas, e os problemas de segurança alimentar, de acesso à saúde, à moradia, ao trabalho digno geram sofrimento principalmente em períodos como o que estamos vivendo, em que o governo reduz orçamentos para políticas públicas.

Do lado oposto, o fortalecimento de políticas de proteção social funcionou como elemento de prevenção ao aumento de doenças mentais na Itália, no período de 2000 a 2010, segundo publicação do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz.

Nesse sentido, estabelecer diálogo social é imprescindível para encontrar saídas que envolvam governos, empregadores, trabalhadores e movimentos sociais, para enfrentar conjuntamente a crise.

Conflitos de classe, de raça, violência de gênero e outros estão relacionados com o sofrimento psíquico, individual e coletivo. Grupos que vivem uma permanente busca pelos seus direitos e para afirmação social da sua identidade estão mais vulneráveis ao adoecimento mental.

Na população indígena, o suicídio foi quase três vezes maior que a média nacional, segundo o Ministério da Saúde, em 2018. Acrescente-se a isso o fato de que 79% dos suicídios ocorrem em países de baixa e média renda, segundo a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), em 2016.

Audre Lorde, mulher negra, apontou caminhos essenciais para acolher e enfrentar esse desafio de crise, cunhando o termo “autocuidado”, debatido em grupos feministas e antirracistas e conectado com o contexto político e coletivo.

Audre fala em transformação pessoal e política ao mesmo tempo. Trata autocuidado como a construção de nosso bem-estar, de nossa sobrevivência.

Em um coletivo acolhedor, o autocuidado permite reconhecer-se com medo, impotente, frágil e buscar a autopreservação diante de um ambiente ameaçador. Ou seja, um coletivo com uma escuta ativa para os sentimentos de dor, de perdas, de humilhação e sujeição.

Ao cuidar dos outros e se deixar cuidar, alimentam-se a reciprocidade, a cumplicidade e a solidariedade, resgatando e fortalecendo a autoconfiança e a fé no coletivo.

O autocuidado vem sendo exercitado por coletivos de mulheres negras, indígenas e quilombolas. São grupos que nos provocam a pensar em uma humanidade que preserva tanto a vida humana como a de outros seres vivos no planeta. Ou seja, do próprio planeta.

Nessa atividade política coletiva, criam-se redes de solidariedade para garantir alimentação e produtos de higiene para periferias urbanas desempregadas, reduzindo os danos da política genocida, pois o autocuidado está no território do bem viver, do afeto e da amorosidade.

Nos estimula a recuperar as memórias sobre nossas heranças, nossas riquezas esquecidas, nossas potências coletivas que permitem criar outras realidades políticas e sociais e reforçar o nosso compromisso e bem-estar com a vida.

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