Guerra dos brancos aumenta ainda mais a fome dos pretos, por Vinícius T. Freire.

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ONU quer US$ 43 bi para evitar fome e mortes; Musk quer dar US$ 46 bi no Twitter

Vinícius Torres Freire, Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

Folha de São Paulo, 23/04/2022

A ONU diz que precisa de US$ 43 bilhões para dar de comer ou proteger de violências 194 milhões de pessoas, ora sob ameaça imediata de perder a vida. É “ajuda humanitária” de urgência. No total, 296 milhões estão sob risco terminal, diz a ONU. Quase 9% da humanidade passa fome braba.

Na semana passada, Elon Musk disse que teria juntado US$ 46 bilhões para comprar o Twitter.

A guerra na Ucrânia aumentou o risco de “agitação social” (“social unrest”), “especialmente preocupante” em “mercados emergentes” e “economias em desenvolvimento” com pouco dinheiro público para gastar e muito dependentes de importação de energia e alimentos, agora mais inflacionados. É o que diz um trecho pouco citado do relatório do FMI que acaba de sair, o “Perspectiva da Economia Mundial”.

“Se você acha que agora é o inferno na Terra, se prepare. Se a gente não ligar para o Norte da África, o Norte da África vai para a Europa. Se a gente não ligar para o Oriente Médio, o Oriente Médio vai para a Europa”. É o que disse David Beasley em entrevista ao site Político, em março —ele é o diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos da ONU.

Não são, claro, opiniões de esquerda, embora pessoas sob efeito de drogas ideológicas bolsonaristas achem que a ONU é “comunista”. Beasley é um político do Partido Republicano dos EUA, ex-governador da Carolina do Sul. O FMI dispensa apresentações, como diz o clichê.

A situação não deve melhorar tão cedo, prevê também o FMI. A inflação geral pode diminuir um pouco em 2023, mas não a da comida. Desde a explosão de preços que começou no trimestre final do ano passado até março deste 2022, a inflação dos alimentos foi de 66% (segundo índice da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura). A carestia dos cereais foi de mais de 71%.
Não se trata apenas de fome.

Na revisão de março do seu “Panorama Humanitário Global 2022”, a ONU registrou que 296 milhões de pessoas precisavam de “assistência humanitária e proteção”, 1 de cada 27 pessoas no mundo, em 69 países. A necessidade extrema afetava 1 pessoa de cada 95 em 2015. Em torno de 1 em 56 de 2016 a 2019.
Pouco?

Eles estão falando de ajuda para gente à beira da inanição ou morte violenta em países destruídos por guerra, miséria e surtos de ebola como a República Democrática do Congo, por guerras crônicas, como a Síria ou o Iêmen, por guerras recorrentes, como na Etiópia ou no Sudão do Sul, por ruína variada e histórica, como o Haiti ou o Afeganistão —a Venezuela também está no pacote.

Claro que há muito mais gente em situação terrível. Estamos tratando aqui dos casos de pessoas sob risco iminente e que chegam ao conhecimento da ONU, graças a pedidos desesperados de ajuda.

O efeito da inflação deve bater no mundo pobre também por meio da alta de juros no mundo rico e da baixa do crescimento mundial, o que piora a situação de países pobres já prejudicados por fugas de capitais na epidemia, do desastre social da Covid, de renda menor com comércio, turismo e remessas de emigrados etc.

Segundo o FMI, “cerca de 60%” dos governos de países de renda baixa correm o risco de uma crise da dívida (“debt distress”, calote) ou já estão inadimplentes. Trata-se dos 40 países mais pobres do mundo (24 deles africanos), entre os quais a dívida mediana praticamente dobrou desde 2013.

Peste, fome, dívida impagável e tem mais, para concluir, mas longe de acabar: “O número de pessoas vivendo em zonas de conflito [guerra] quase dobrou entre 2007 e 2020”, discursou David Malpass, presidente do Banco Mundial, na semana passada.

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