Homeschooling: Que Deus tenha misericórdia de nós!, por Juliano Spyer

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Promovido pela elite evangélica e abraçado por políticos e empresários, o ensino domiciliar estimulará evangélicos pobres a ter medo das escolas

Juliano Spyer, Antropólogo, pesquisador do Cecons/UFRJ, autor de Povo de Deus (Geração 2020) e criador do Observatório Evangélico.

Folha de São Paulo, 26/05/2022

A defesa do homeschooling revela como o campo evangélico é plural e disputado. Este é um de projeto elitista, associado a interesses econômicos e políticos, que promove, irresponsavelmente, a ideia de que evangélicos pobres e com baixa escolaridade devem ter medo das escolas. Justo eles que, como outros pais e mães trabalhadores, precisam de mais tempo de escola para seus filhos, e não menos.

Para escrever este texto, consultei evangélicos de origem popular e de diversas denominações e posicionamentos no campo político.

Para o pastor, historiador e teólogo André Neto, a bandeira do ensino domiciliar explicita a influência das ações missionárias estadunidenses no Brasil. Evangélicos brasileiros tentam imitar o que ocorre entre conservadores dos EUA, sem analisar contextos sociais e tradições de ensino. Para este grupo, diz André, “se lá existe a prática de educar os filhos em casa, aqui também é possível.”

André avalia que o homeschooling imporá a quem aderir a ele “uma formação sem bases científicas, preconceituosa, assaltada pelos interesses de pastores e pastoras que, muito provavelmente, vão prover material didático próprio para estas famílias e assim abrir um novo filão no mercado gospel”.

O escritor e membro da Assembleia de Deus Gutierres Siqueira também considera o interesse pelo ensino domiciliar como resultado da combinação entre elitismo cristão e oportunismo empresarial. Ele conta que organizações educacionais conservadoras como o Instituto Presbiteriano Mackenzie estariam prontos para capitalizar com o ensino domiciliar usando soluções de ensino a distância.

Para Gutierres, a pauta atende a demandas de evangélicos ricos. “Eu, que passei 12 anos em uma Assembleia de Deus de periferia, no Grajaú, zona sul de São Paulo, nunca vi essa discussão dentro da igreja, em nenhum ambiente, nem mesmo em conversa de roda”, conclui conta.

O pastor Wilian Gomes resume o sentimento associado à promoção do ensino domiciliar com um desabafo dizendo: “Que Deus tenha misericórdia de nós!” Para esse pastor de uma igreja da Assembleia de Deus na periferia de Brasília, evangélicos pobres percebem que políticos estão distorcendo o debate sobre moralidade para promover o homeschooling.

“Tudo está muito politizado, cada um defendendo seus interesses. Tirar criança da escola é um absurdo… O que a maioria dos evangélicos quer é que a criança fique o dia todo na escola, para que a gente possa trabalhar sabendo que os filhos estão protegidos e sendo preparados para melhorar de vida,” ele argumenta.

A teóloga pentecostal Regina Fernandes lembra que já existem escolas confessionais, administradas por igrejas evangélicas, e que algumas delas adotam o método de “educação por princípios”, importado dos Estados Unidos, para ensinar disciplinas junto com conteúdo bíblico.

Por que, então, a necessidade dessa alternativa fora da escola? Para a teóloga, o homeschooling é promovido a partir de uma atmosfera de medo. “Dentro de casa entende-se que o filho estará em um ambiente são, ‘protegido’, onde, além de não se envolver em pautas sociais, não aparecem temas como homoafetividade e discussões sobre gênero e sexo.”

O ambiente de campanha eleitoral também influencia a promoção do ensino domiciliar. Líderes evangélicos aliados ao governo, como a ex-ministra Damares Alves, usam politicamente o sentimento de perseguição, difundido especialmente entre pentecostais, para alimentar a polarização entre esquerda e direita. A ideia, que ecoa argumentos do filósofo bolsonarista Olavo de Carvalho, descreve a escola como um “antro de perversões esquerdistas”.

Para André Neto é decepcionante como apenas esse argumento sobre escolas justifique a implantação de uma solução educativa sem consultar educadores. A desqualificação das instituições de ensino acontece mesmo que a consequência disso seja alienar jovens do convívio social escolar e —fora o caso das famílias ricas— reduzir a qualidade de desempenho acadêmico de estudantes pobres.

O pastor batista Josenildo Miranda observa de perto os efeitos dessa proposta entre evangélicos que vivem no interior da Bahia, onde ele atua. “Meus Deus, quando uma pessoa aqui do interior do Nordeste, independentemente da formação que ela tenha, poderá atuar também como professor quando economicamente ela não terá tempo para fazer isso?”

Josenildo classifica a proposta como sendo “irresponsável”. “A única coisa que nos dá um certo alento”, ele acrescenta, “é perceber que muitas pessoas no nosso meio têm um anseio grande de conhecimento. Além desses fanáticos, muitos evangélicos amam o conhecimento e consideram a escola um privilégio, e fazem esforços para que seus filhos não apenas estudem, mas continuem estudando depois do fim do ensino médio.”

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