Ideológicos e corruptos, por Sílvio Almeida

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Negacionistas, corruptos e fundamentalistas de mercado jogam no mesmo time

Silvio Almeida Professor da Fundação Getulio Vargas e do Mackenzie e presidente do Instituto Luiz Gama.

Folha de São Paulo, 23/-7/2021

Documentos obtidos pela CPI da Covid demonstram que o Ministério da Economia teve participação fundamental no atraso na compra de vacinas e, consequentemente, na tragédia criminosa que resultou, até o momento, em mais de 540 mil mortes. Segundo apuração de William Castanho, Mateus Vargas e Bernardo Caram, na Folha, a compra de vacinas da Pfizer teria sido atrasada por “negacionismo” e “preocupação com o risco fiscal” por parte do ministério.

Outra matéria, da Folha, de 12 julho deste ano, noticiou que a Secretaria de Política Econômica – órgão ligado ao Ministério da Economia -, em vez de recomendar a vacinação, apostava na chamada “imunidade de rebanho”, ou seja, na contaminação massiva da população com vistas a uma espécie de “imunidade natural” contra o coronavírus.

Essa solução vislumbrada pelo Ministério da Economia, por óbvio, ignora a ciência, a quantidade de mortes, as possíveis sequelas aos sobreviventes e a pressão sobre o sistema de saúde.

Essas duas revelações feitas pela CPI da Covid não apenas servem para expor a condução genocida da pandemia por parte do governo federal, mas também nos apresenta como se dá a relação entre política, economia e ideologia em nosso tempo. Sobre essa relação é possível retirar duas lições importantes.

A primeira é a de que não existe oposição entre uma “ala racional” e uma “ala ideológica” no governo Bolsonaro.

Todos estão em profunda sintonia. Os supostos “técnicos” e “estudiosos” do governo são movidos por ideologia e repudiam todas as ideias que contrariem sua fé cega no mercado, na meritocracia e no Estado mínimo. Aliás, o Estado —com exceção do que reprime trabalhadores e minorias— se torna a projeção do mal que deve ser contido a qualquer preço, ainda que isso implique na morte de centenas de milhares de pessoas.

Por sua vez, os “ideológicos” não se distanciam das premissas racionais que movem os “técnicos”. Mais do que deixar as hostes bolsonaristas em constante prontidão, a sustentação de uma pauta de costumes e a suposta defesa da família feitas pela ala ideológica concorrem para naturalizar a deterioração da esfera pública e para colocar nas costas dos indivíduos a culpa pela pobreza e, agora, pela doença. Em comum, tem-se o fato de que ninguém aqui respeita verdadeiramente a ciência.

A segunda lição é de que corrupção e ideologia não se excluem e, na maioria das vezes, são faces da mesma moeda. A imposição de dificuldades na compra das vacinas em nome do equilíbrio fiscal e a consideração da imunidade de rebanho como alternativa denotam que há aqueles que acreditam que a vida é uma grande concorrência, em que somente os mais fortes sobrevivem.

É mais ou menos assim: se você está desempregado e passando dificuldades, é porque não é empreendedor o suficiente; se faliu, é porque não soube administrar seu negócio; se ficou doente, a culpa é sua já que não fez o “tratamento precoce”.

Na história do pensamento, ideias deste tipo ficaram conhecidas como “darwinismo social”, embora muito pouco ou nada tenham a ver com as teorias de Darwin sobre a evolução das espécies. Na verdade, tais teorias são de Herbert Spencer, sociólogo inglês que se opunha firmemente à intervenção estatal e às teorias reformistas de liberais como Jeremy Bentham.

A defesa da imunidade de rebanho, em vez da vacinação em massa, é perfeitamente adequada ao pensamento de Spencer, segundo o qual “uma criatura que não é suficientemente enérgica para se bastar deve perecer”.

A visão da sociedade como um espaço de permanente concorrência e de luta pela vida, em que cada um se vira como pode, abre espaço para a corrupção uma vez que a fragilização da administração pública e o afastamento de mecanismos de controle social fazem com que interesses particulares se sobreponham às necessidades da população. No fim, corruptos e ideológicos jogam no mesmo time: o da destruição do Brasil.

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