Inflação, Câmbio e concentração de renda na sociedade brasileira

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             Durante muitas décadas a inflação teve um papel devastador na sociedade brasileira, chegando a mais de 2000% ao ano, gerando impactos econômicos, sociais e políticos, concentrando renda e condenando milhões de brasileiros a uma condição de indignidade crescente, pobreza e exclusão social e contribuindo para o surgimento de um grupo considerável de novos ricos e milionários, cujos recursos eram multiplicados num curto período de tempo.

Podemos definir o processo inflacionário como o aumento generalizado de preços na economia, este desequilíbrio de preços acaba gerando graves desajustes nas economias quando percebemos seu crescimento, abalando a credibilidade da economia, concentrando renda e fazendo uma política de Robin Hood às avessas, tirando dos pobres e repassando para os ricos, neste processo, os pobres se degradam mais e os ricos se veem cada vez mais ricos e poderosos.

Os pobres são os mais afetados pelo processo inflacionário, isto acontece porque estes trabalhadores não tem acesso a contas indexadas, seus recursos não possuem seguros em aplicações financeiras, sua renda não consegue se defender do processo inflacionário, com isso, seus recursos são corroídos cotidianamente pelo descontrole de preços, mesmo aqueles que possuem contas em bancos e, teoricamente, teriam instrumentos de defesa contra a corrosão monetária, não possuem informações sobre estes instrumentos de defesa e acabam sucumbindo a perdas consideráveis de suas rendas, sem informação os instrumentos perdem a importância e a efetividade.

Se analisarmos as raízes do processo inflacionário brasileiro, vamos descobrir suas origens no descontrole fiscal e financeiro do Estado Nacional, este desequilíbrio se mostrou mais efetivo no período de industrialização, entre os anos 1930 e 1990, quando o governo tomou a frente deste processo industrializante e construiu as bases da indústria nacional, investindo somas consideráveis de recursos, mobilizando mão de obra, infraestrutura, matéria prima, criando instituições e conseguiu transformar a economia do país, neste período saímos de uma estrutura fortemente centrada na produção agrícola, para uma economia centrada na produção de produtos industrializados, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 1980 o Brasil tinha a indústria mais sofisticada dos países em desenvolvimento, mostrando que a estratégia adotada, apesar dos riscos, apresentou um resultado fortemente favorável, nestes trinta anos, o crescimento per capita do país ficou na casa dos 4,5%, um número extraordinário, que garantiu ao país um local no panteão das economias industrializadas. Em contrapartida, depois de 1980, o crescimento do produto interno bruto per capita caiu para algo em torno de 0,9% ao ano, levando a economia brasileira a um processo nítido e bastante evidente de estagnação.

Todos estes investimentos exigiram grandes somas do governo federal, que recorreu a instrumentos clássicos de financiamento, desde os recursos oriundos dos impostos, taxas e contribuições, até a atração de investimentos nacionais e estrangeiros, não sendo suficientes estes recursos, o governo se utilizou da emissão monetária, que ao depreciar a moeda garantia ao Estado Nacional somas consideráreis de recursos mas, desequilibrava o sistema de preço, gerava inflação e hipotecava o país no longo prazo.

Devemos entender a inflação como um conflito distributivo entre grupos que se digladiavam em prol de mais ganhos do orçamento, deste conflito alguns apresentam um poder político e instrumentos econômicos maiores e mais sólidos, garantindo benesses e lucros mais consistentes para seus grupos políticos, em contrapartida, os grupos perdedores desta contenda, perdem partes consideráveis destes recursos, tendo que se contentar com o seu quinhão.

Depois de décadas de crescimento econômico, que colocou o país em uma posição de destaque no cenário internacional, na década de 80, o país se viu em uma situação de graves desequilíbrios financeiros e monetários, inflação desequilibrada e dívida externa crescente, levando o país a uma década de baixo crescimento econômico, período conhecido como década perdida.

            Com a redemocratização, o país passa a buscar instrumentos de estabilização monetária, os altos índices inflacionários e o desequilíbrio no sistema de preços relativos levam a economia a uma década de estagnação, neste momento, o governo inicia o Plano Cruzado, uma política de estabilização centrada no congelamento dos preços, na emissão monetária para honrar a dívida interna, na troca de moedas e na redução da taxa de juros visando um choque de oferta e um aumento no nível de emprego. Estas medidas serviram para aguçar, na sociedade, a urgência de se combater a inflação, condição sine qua non para que o país voltasse a crescer e galgasse uma posição de destaque na comunidade internacional.

Com a incapacidade do plano em conter os desequilíbrios inflacionários, outros planos econômicos foram construídos e arquitetados pelo governo federal, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor, sendo que, todos eles fracassaram em seu intento maior, até que, em 1994, o governo cria o exitoso Plano Real, cujo sucesso catapultou o Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, para o cargo de Presidente da República, e abriu espaço para a abertura de uma agenda econômica que se concentrava na austeridade e em políticas pró-mercado, a esquerda brasileira as chamava de política neoliberal, enquanto a direita as via como muito esquerdista, criticando-as constantemente.

Embora exitoso no combate a inflação, o Plano Real trouxe efeitos colaterais bastante negativos e generalizados, o mais deletério para a economia brasileira no médio e no longo prazo foi a política cambial, neste momento o governo valoriza a moeda nacional visando um aumento da oferta interna de produtos e, com isso, aumentando a competição e garantindo uma redução nos preços e na inflação. Câmbio valorizado auxilia no combate a inflação, mas, ao mesmo tempo, reduz as exportações e compromete um dos setores mais dinâmicos e importantes para a economia do país, o setor exportador, que vê seus rendimentos se reduzirem de forma acelerada, levando-o a colocar seus produtos no mercado interno, gerando uma maior oferta interna e contribuindo para uma redução nos preços.

De outro lado, a política de estabilização gera impactos negativos no setor externo da economia e na balança comercial, obrigando o governo a adotar uma política agressiva de juros elevados que aumentaram a divída interna pública e comprometeram a capacidade de pagamento do setor público, obrigando-o a contenções constantes nos gastos públicos e levando a economia a constantes recessões e desequilíbrios estruturais.

Numa economia fortemente dependente do Estado, todas as vezes que este diminui seus investimentos e seus gastos, os impactos são imensos, preocupantes e generalizados, levando muitos setores a verem seus recursos serem contingenciados, principalmente em áreas sociais, como saúde, educação e segurança pública, cujos indicadores destas áreas se degradaram rapidamente, incrementando uma piora na desigualdade e na exclusão social.

O discurso do governo era de implementação de políticas de estímulo a concorrência e a competição, a adoção de um discurso de abertura econômica e de privatização levou os investidores internacionais a fazerem boas previsões para o Brasil, como o estrategista Jim O’Neil, da Goldman Sachs, que colocou o país no bloco dos grandes, promissores e futuros países desenvolvidos, junto com a Rússia, a China e a Índia, os chamados BRICs.

De outro lado, as condições sociais não eram tão favoráveis, o desemprego crescia de forma acelerada em decorrência da quebra e da reestruturação de empresas nacionais, que não aguentaram a concorrência com similares internacionais, umas acabaram sendo vendidas para grupos estrangeiros e outras iniciaram um forte processo de reestruturação, reduzindo mão de obra e investindo fortemente em máquinas e tecnologias, visando um incremento da produtividade e uma redução dos custos relativos.

Neste ambiente de incremento no desemprego e câmbio valorizado, a inflação se reduz rapidamente, o plano contribuiu para reduzir os preços e estabilizar a economia, mas gerou graves consequências para toda estrutura produtiva, a industrialização se acentuou e a pauta de exportações do país caminha a passos acelerados para uma hegemonia dos produtos agrícolas, piorando os termos de troca da economia brasileira e condenando o país a uma condição de subserviência na sociedade internacional, dominado pelos grandes conglomerados de tecnologia.

O câmbio valorizado, embora tenha contribuído diretamente para a redução do desequilíbrio inflacionário, trouxe graves constrangimentos para a economia brasileira, incrementou as importações e desestimulou as exportações, o país passou a acumular graves desequilíbrios no balanço comercial e, posteriormente, estes desequilíbrios se disseminaram para todo o balanço de pagamentos, levando o país a pedir recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI) para evitar uma situação de possível insolvência do país. A entrada de recursos oriundos do organismo internacional impediu uma possível bancarrota do país, mas acarretou graves constrangimentos para o governo, gerando dificuldades políticas no curto prazo, levando a perda de legitimidade e dificuldades perante a opinião pública.

Delfim Neto definiu o Plano Real como uma pequena jóia, extremamente exitoso no combate a inflação, um plano econômico tecnicamente brilhante que ficou incompleto, faltando um ajuste fiscal mais sólido e consistente, que leve a economia a encontrar seu equilíbrio fiscal e financeiro, sem este equilíbrio macroeconômico muitos problemas voltaram num curto período de tempo.

O Brasil precisa vencer suas ineficiências fiscais, de tempo em tempo o país se volta com problemas de desajustes em suas contas, na atualidade nos encontramos em situação perigosa, onde a Reforma da Previdência é vista como a panaceia do desequilíbrio financeiro do Estado Brasileiro, se resolver as questões fiscais, dificilmente conseguiremos galgar posições saudáveis no longo prazo.

A inflação sempre foi um grande problema para a economia brasileira, no período de alta inflacionária os bancos ganharam grandes somas de recursos com o desequilíbrio dos preços, levando muitos deles a deixar de lado seu papel como intermediador de recursos monetários, seu papel central na economia, e se especializando no ganho com a inflação, levando-os a acumular grandes somas sem fazer os esforços necessários e com riscos reduzidos. Com a queda imediata da inflação, muitas das instituições financeiras que se especializaram no floating inflacionário, deixaram de ganhar com os recursos gerados via inflação e foram obrigadas a competir no mercado, como perderam esta expertise foram facilmente superadas pelas instituições mais eficientes, perderam mercados e foram vendidas para instituições estrangeiras ou fundidas com instituições nacionais maiores, neste momento o setor bancário inicia um processo forte de concentração bancária, onde as mais eficientes adquirem as instituições mais atrasadas e ineficientes.

A inflação é um dos grandes preços da economia, junto com a taxa de câmbio e a taxa de juros, se estes indicadores estiverem em equilíbrio e em consonância com a teoria econômica, o país tem grandes chances de acelerar seu crescimento econômico, nos últimos quarenta anos, o Brasil apresentou graves desajustes nestes preço e, com isso, perdemos grandes oportunidades de desenvolvimento econômico e nos distanciamos dos grupos mais desenvolvidos, encontrar este equilíbrio é uma condição sine qua non para atingirmos o tão esperado desenvolvimento econômico, com melhoria na produtividade e um crescimento no bem-esta social para todos os grupos e camadas da população.

Vencer a inflação foi um grande desafio para a sociedade brasileira, nesta trajetória o país conviveu com ciclos inflacionários crônicos de mais de 2000% ao ano, um desatino macroeconômico que impactou sobre todo o planejamento do país e até sobre o conceito de longo e de curto prazo, levando a população a se concentrar em políticas imediatistas. Nestas condições de desequilíbrios estruturais, a inflação contribuiu, de forma decisiva, para uma intensa desagregação social e uma concentração de renda que colocou o Brasil nas últimas colocações em indicadores sociais, consolidando uma elite predatória, uma classe média medíocre e despolitizada e uma classe pobre subalterna e submissa.

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