Inflação e seus fantasmas

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A chegada do ano novo nos traz grandes incertezas e instabilidades na estrutura econômica e financeira do país. Dentre os riscos e desafios podemos destacar a frágil recuperação econômica, o alto desemprego, o empobrecimento da população e o medo crescente gerado pela inflação, cujos fantasmas assolaram a sociedade brasileira durante muitas décadas, levando a adoção de inúmeras políticas de estabilização, trocas de moeda, congelamento de preços, arrochos salariais e variadas políticas cambiais, cujos impactos para a comunidade é o incremento da concentração da renda e o aumento da desigualdade social, colocando o país como uma das nações mais desiguais do mundo.

A inflação em curso na economia brasileira é um fenômeno global, impactando todos os setores da sociedade, gerando perdas elevadas para os grupos mais fragilizados, reduzindo os investimentos produtivos, criando instabilidades crescentes e dificultando a contratação de trabalhadores e, em muitos casos, precarizando as condições de trabalho, reduzindo os benefícios sociais para a classe trabalhadora e gerando uma recuperação frágil, incertezas crescentes e piorando as condições sociais, exigindo políticas públicas mais ativas e efetivas, com impactos fiscais para a comunidade.

A inflação de 2021 foi de 10,06%, extrapolando 6,31% pontos percentuais acima do centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional, de 3,75% com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Com estes dados, a inflação brasileira de 2021 foi a quarta maior entre as 44 economias destacadas pela OCDE, num momento de pandemia, desemprego crescentes e investimentos em queda, as condições tendem a piorar no decorrer do ano de 2022, com severas degradações dos indicadores sociais.

O crescimento inflacionário gera constrangimentos constantes, reduzindo o poder de compra da sociedade, gerando instabilidades e diminuição dos investimentos produtivos, temendo o retorno da inflação alta que vivenciamos até meados dos anos 90. Embora as taxas de inflação sejam preocupantes, ainda mais numa economia que apresenta grandes dificuldades de recuperar seu dinamismo econômico e produtivo, acreditamos que a inflação tende a arrefecer no decorrer dos próximos meses, com a melhora do ambiente externo, da recuperação dos setores que foram mais afetados pela pandemia, a melhora do ambiente político e do reequilíbrio das cadeias de produção.

Os grandes vilões da inflação brasileira do ano passado foram os fortes aumentos das commodities, a aceleração dos preços dos combustíveis, crise energética e a forte desvalorização cambial, além da desagregação das cadeias globais de produção impulsionada pela pandemia. Todos estes fenômenos impactaram a estrutura econômica, financeira e produtiva, mas é importante destacar os grandes equívocos da condução da política fiscal, marcada por incertezas generalizadas, inabilidades políticas, primarismos preocupantes e a incapacidade de construir confianças interna e externa.

Neste ambiente, o Banco Central passou a aumentar as taxas de juros para reduzir a inflação, com isso, os impactos foram imediatos, dificultando a recuperação econômica, postergando a geração de emprego e contribuindo para o cenário de degradação social da população, ainda mais num momento de grandes incertezas geradas pela pandemia, pela instabilidade sanitária e pela dificuldade de construir consensos políticos na sociedade e de implementar políticas públicas efetivas para melhorar os indicadores econômicos e sociais.

Historicamente, o Brasil se beneficiou com períodos de alta de preços de commodities por ser um país exportador de insumos, que contribuíram para a valorização da moeda, aumentando a entrada de recursos externos e reduzindo os preços internos. Atualmente os movimentos ocorrem inversamente, os preços sobem ao mesmo tempo que o real se desvaloriza, em decorrência das incertezas fiscais. Com certeza, o Brasil não é para amadores…

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Administrador, Especialista em Economia Criativa, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 19/01/2022.

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