Inflação

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As sequelas da pandemia sobre a sociedade brasileira crescem todos os momentos, deixando claro a grande dificuldade de construirmos consensos políticos para superarmos este momento, a economia não consegue criar espaços de crescimento consistente, o desemprego ainda permanece em números proibitivos, a miséria cresce e a exclusão social se mostra cada vez mais assustadora, gerando incertezas e instabilidades que postergam as melhorias econômicas.

A inflação deve ser definida como o aumento generalizado de preços na economia, seus impactos são variados, gerando ganhadores e perdedores, diante disso, os grandes perdedores são os setores mais fragilizados, setores que não conseguem se proteger dos impactos negativos do aumento dos preços e a perda do poder de compra, gerando empobrecimento crescente. Do outro lado, dois setores ganham com o aumento dos preços, o governo e o setor financeiro. Estes setores conseguem defender seu poder de compra, auferindo lucros maiores, piorando a concentração da renda e o aumento da desigualdade entre os grupos sociais.

A sociedade brasileira conviveu com inflação durante muitas décadas, namoramos momentos de hiperinflação, gerando instabilidades, incertezas, baixa confiança e reduzindo o crescimento econômico. Com a implantação do Plano Real, em 1994, a realidade melhorou, os índices inflacionários diminuíram a níveis mais civilizados e crescimento econômico mais consistente, estimulando investimentos produtivos, reduzindo o papel do Estado na economia e criando perspectivas saudáveis e momentos exuberantes, colocando o Brasil na berlinda da economia internacional.

Infelizmente esse sonho não se efetivou, cometemos erros na condução do plano de estabilização, deixamos o câmbio se apreciar, reduzimos os investimentos produtivos e estimulamos o crescimento da jogatina financeiro, colocando no centro da economia setores marcados por baixa produtividade, com reduzida geração de emprego e que contribuíram para o processo de desindustrialização, levando o país a aumentar a dependência dos setores agroexportadores e abrimos mão de um papel mais ativo nos setores industriais. Neste momento, tornamos um grande importador de produtos industrializados, como vimos nas dificuldades de conseguirmos os insumos industriais do setor da saúde.

A inflação, anteriormente esquecida, atualmente ganha força e está crescendo em todos os setores da economia brasileira, gerando incertezas e instabilidades, degradando os indicadores sociais, reduzindo os investimentos produtivos e reduzindo a geração de empregos. Neste momento, o governo se apoia na política monetária, aumentando os juros, restringindo a moeda que circula na economia e, com isso, posterga a recuperação dos investimentos e a retomada da economia.

A inflação em curso na sociedade brasileira está diretamente ligada aos choques de custos na sociedade internacional, gerada pela desagregação das cadeias produtivas globais e pelo incremento da pandemia, impactando sobre o preço do frete externo, reduzindo a produção em decorrência da falta de insumos, como percebemos no setor de semicondutores, os chamados chips, produtos fundamentais para a economia globalizada, centrada em tecnologias avançadas, sofisticação e alta complexidade.

A sociedade precisa compreender que a inflação é também, e principalmente, um fenômeno político. Numa sociedade como a brasileira, que naturaliza a pobreza e banaliza a desigualdade social, atrelando-a a ausência de empreendedorismo, os grandes ganhadores usam o poder econômico para incrementar seus ganhos financeiros e influenciar espaços da política, garantindo altos lucros, retornos elevados e rentabilidades vultosas. Em momentos de pandemia, de desestruturação econômica, de fome e de exclusão social percebemos quem são os grandes beneficiários das instabilidades em curso da sociedade brasileira, são aqueles que se escondem atrás de discursos falaciosos baseados em meritocracia, esquecendo que somos um dos países mais desiguais do mundo, sem oportunidade não existe meritocracia.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 17/11/2021.

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